Notas iniciais
Obrigada pelos comentários e favoritos. Boa leitura!

— Senhora Mills? — indagou Emma, num misto de espanto e incredulidade.

— Boa noite, senhorita Swan. Gostaria de trocar algumas palavras com você…sei que já é tarde da noite, mas não pretendo tomar muito o seu tempo.

— Ah…boa noite. Entre por favor — disse ela, dando passagem para que Cora entrasse. — Sente-se — acrescentou, indicando o sofá à sua frente. — Deseja beber alguma coisa?

— Não, obrigada. Como eu disse, não vou tomar muito o seu tempo e por isso, vou direto ao ponto — Cora falou, e após um longo suspiro, ela retomou sua fala. — Minha filha está sofrendo por sua causa e se você ainda a ama, por favor, dê um basta a esse sofrimento.

Emma olhou para Cora por um longo momento, o coração parecia ter se deslocado para sua garganta roubando-lhe a fala. Os olhos entristecidos e o tom suplicante na voz da mulher à sua frente em nada pareciam com tudo o que ela presenciara na primeira vez que se encontraram no apartamento de Zelena. Pelo que pôde perceber, as duas não tinham um relacionamento saudável, todavia, algo parecia ter mudado e muito. Impaciente com aquele silêncio, e como se adivinhasse os pensamentos de Emma, Cora voltou a se pronunciar.

— Vamos começar de novo — disse ela. — Sei que nosso primeiro encontro não foi muito amigável e gostaria de me desculpar pelo meu comportamento.

— Senhora Mills…

— Deixe-me terminar, senhorita Swan… — ela a interrompeu. — Eu sei tudo o que aconteceu entre você e minha filha…desde o dia em que se conheceram, até àquela manhã na escola. Quero que saiba que Regina não era assim…dura, impulsiva, rude. Tudo mudou quando aquela maldita Kathryn apareceu na vida dela. Desde o início eu fui contra aquela relação porque sabia perfeitamente que espécie de mulher ela era, mas Regina não me deu ouvidos e não tive escolha que não fosse aceitar. Foram quase dez anos casadas e enquanto Regina cuidava dos negócios, ela se divertia em viagens, gastava fortunas com roupas, joias e claro, com os amantes. Mas minha filha estava cega e não enxergava a vagabunda que ela escolheu como companheira. Nem mesmo quando adotaram Henry, as coisas mudaram, pelo contrário, além de cuidar das empresas, ainda cuidava do menino porque sua querida Kathryn não gostava de acordar cedo, tampouco tinha paciência para cuidar dele. Até que um dia…ao voltar mais cedo do trabalho, ela encontrou a esposa na cama com o motorista. Desse dia em diante, Regina mudou. Se afastou da família, perdeu a confiança nas pessoas e se enfiou naquela fazenda com o intuito de se isolar ainda mais de todo mundo…foi então que você surgiu, lhe tirou do fundo do oceano e agora está empurrando-a de volta para lá.

— Não senhora — disse Emma. — Eu não posso permanecer ao lado de alguém que não confia em mim, que duvida dos meus sentimentos e da minha fidelidade!

— Ela errou, eu sei! E pelo que me consta, você também errou! Quem não erra nessa vida? Ela está arrependida do que fez, está sofrendo mais do que nunca e você tem o poder de acabar com esse sofrimento, mas não quer usá-lo.

— Regina precisa amadurecer e entender que nem todo mundo é igual! O fato da ex esposa tê-la traído não significa que farei o mesmo!

— Sim, você tem toda razão! Eu, mais do que ninguém adoraria vê-la amadurecer e tornar a ser a mesma de dez anos atrás…mas eu queria que isso acontecesse aqui, com a família por perto.

— Do que está falando? — Emma perguntou, claramente confusa.

— Amanhã ela vai embora para Londres sem uma data de retorno…justo agora que nos entendemos e nos perdoamos.

— Eu sinto muito…

— Será que sente mesmo? — indagou Cora, e antes que Emma pudesse responder, ela se levantou e caminhou lentamente em direção à porta. — Se você ainda ama a minha filha, não deixe para dizer isso quando for tarde demais — acrescentou, e em seguida, abriu a porta e se retirou.

Após a saída de Cora, Emma tentou se concentrar na aula que daria no dia seguinte, no entanto, sua mente viajava na direção de Regina. Os pensamentos foram sendo consumidos e a ideia de Regina ir embora, apesar de talvez ajudá-la a refletir e amadurecer, lhe apertava o coração. A indecisão pairava em sua cabeça, assim como o medo de perder para sempre a mulher que amava. Com o coração disparado, ela observou as horas em seu relógio de pulso. Passava das vinte e três horas, Regina já deveria dormir e atordoada, ela largou os papéis sobre o sofá e caminhou até a cama. Ela sabia que essa noite seria passada em claro, mas serviria para tomar uma grande decisão.

[…]

Sentada sobre a poltrona do seu quarto, Regina observava as malas devidamente prontas ao lado da cama. Seu relógio de pulso marcava exatamente cinco horas em ponto, enquanto seu coração acelerado no peito, recusava-se a aceitar a ideia de que havia perdido Emma para sempre, e perdê-la, significava perder a si mesma. Regina fez uma careta de dor e segurou as lágrimas que ardiam em seus olhos enquanto as palavras de Emma martelavam em sua mente: “deixe-me seguir com a minha vida”.

— Você nunca mais vai ter que sentir o meu toque, Emma…você nunca mais terá que ouvir a minha voz — Regina falou, decidida a manter sua promessa, ainda que aquilo exigisse todo o seu autocontrole.

Levantando-se do estofado, ela pegou uma das malas e levou até seu carro. A governanta da casa que já estava de pé, lhe ajudou com o restante da bagagem, e após orientá-la, Regina entrou no veículo e partiu.

Apesar da crescente inquietação diante da quase certeza de nunca mais estar ao lado de Emma, a ideia de ir até ela pela última vez e novamente ser rejeitada, fez com que ela se desse conta de que a decisão que havia tomado era a melhor. Independente do que os outros pensariam, especialmente sua família, ela preferia ir embora a ter que encarar Emma e ouvir novamente suas palavras duras. E com esse pensamento, ela se foi. O sol nem havia nascido.

…

O relógio de parede acima da cabeceira da cama marcava sete horas em ponto. Sua primeira aula naquela manhã fria em Augusta se iniciaria às nove e trinta, sendo assim, ela teria tempo suficiente para procurar Regina, conversar civilizadamente e quem sabe, se ela ainda estivesse disposta, tentariam uma reconciliação. Embora continuasse magoada com a atitude impulsiva de Regina, ela parecia disposta a tentar uma última vez. Após descer do táxi, ela caminhou rumo ao que esperava ser um novo começo com o amor da sua vida.

— Eu gostaria de falar com a sua patroa, por favor — disse Emma, tão logo a empregada apareceu no portão. — Sei que é cedo, mas…

— Dona Regina viajou essa manhã.

— Mas…que horas?

— Bem cedo…passava das cinco — informou a empregada, e naquele momento, Emma sentiu que seria impossível atenuar as emoções que invadiam seu corpo. Sua vista turvou e a mente girava sem controle. Atordoada com aquela informação, Emma se virou e percebeu que o taxista continuava parado, e sem pensar duas vezes, ela entrou no veículo e o instruiu a correr o mais rápido possível até o aeroporto de Augusta.

De repente, ela vasculhou sua bolsa em busca do telefone celular que comprara há pouco tempo e sem hesitar, ligou para Zelena.

— Emma? Aconteceu alguma coisa?

— Não, está tudo bem…eu só preciso do número de Regina — disse ela, na outra linha, arrependendo-se de nunca ter guardado o número dela quando teve a oportunidade.

— E para que?

— Depois eu te explico, mas por favor, é urgente…

— Claro…você tem como anotar aí?

— Sim, pode falar.

Embora suas mãos estivessem trêmulas, ela conseguiu escrever os números numa folha qualquer e em seguida, manteve os olhos fixos na pequena tela enquanto digitava a numeração.

“Você ligou para Regina Mills. Deixe sua mensagem.”

Emma sentiu o coração se apertando no peito ao ouvir aquela gravação. A voz grave e ao mesmo tempo doce da mulher que amava a assombraria para sempre se ela não impedisse aquela viagem, ou se por obra do destino, Regina não mais a aceitasse de volta.

— Chegamos… — disse o taxista, parando nas proximidades da porta que levava direto ao saguão antes da sala de embarque.

Sem dizer uma palavra, Emma desceu do veículo e sequer fechou a porta. Seus passos apressados e seus olhos embaçados pelas lágrimas procuravam pelas telas espalhadas, algum número de voo com destino a Londres. Para sua angústia, haviam vários voos de diferentes companhias aérea, alguns já tinham partido, outros estavam prestes a deixar o solo, e por esse motivo, ela buscou o rosto de Regina em meio a multidão espalhada pelo saguão, todavia, nada encontrou.

Arrasada, ela caminhou até o taxista que na dúvida, achou melhor esperá-la. Ao abrir a porta do veículo para que Emma entrasse, ele engoliu em seco ao perceber as lágrimas nos olhos dela e comovido, lhe entregou uma caixa de lenços de papel e deu partida.

…

Com o ânimo abatido, Emma se jogou em sua cama após ligar para universidade informando que aquela manhã não compareceria, alegando que um resfriado lhe havia atingido em cheio. Após alguns minutos encarando o teto enquanto as lágrimas desciam pelos cantos dos olhos, ela abriu a porta do banheiro e encarou seu próprio reflexo no espelho. Os olhos verdes, antes tão cheios de esperança, não continham mais o menor sinal de vida. Suas mãos se espalmaram sobre o mármore frio da pia, e abaixando a cabeça, ela chorou, lutando contra a dor que tentava se apoderar de sua alma. Era o arrependimento em sua forma mais brutal que lhe apertava o coração sem piedade.

Segundos, minutos e horas se passaram. As palavras de Regina lhe pedindo perdão, o rosto cansado e magoado, e seus olhos castanhos confusos e tristes continuavam invadindo sua consciência. Tirada de seus pensamentos pelo som do telefone celular, ela correu em direção ao aparelho na esperança de que se tratasse de Regina, mas para sua desilusão, tratava-se de Zelena.

Um breve diálogo aconteceu entre elas, e minutos depois, Zelena apareceu para confortá-la.

— Eu a deixei escapar… — Emma murmurou, enquanto enxugava as próprias lágrimas.

— Regina vai voltar…não fique assim — disse Zelena.

— E se ela não quiser mais voltar? E se ela me esquecer e deixar de me amar?

— Emma…acalme-se, por favor. Ela vai voltar porque o filho dela está aqui. E quanto a te esquecer, acho que isso será difícil. Regina te ama mais do que tudo nesse mundo.

— Mas eu a desprezei, não aceitei as desculpas dela…eu me odeio por isso!

— Regina precisava amadurecer e talvez essa viagem ajude. Agora por favor, pare de se martirizar. Esse tempo ausente fará bem a vocês duas, acredite.

[…]

Regina estacionou o Jipe nas proximidades das escadarias que levavam direto para a porta de entrada da casa grande. Tão logo seus pés pisaram naquelas terras onde sua paixão desmedida por Emma começou, David se aproximou em passos largos e firmes.

— Patroa, boa tarde! Seja bem-vinda! — ele a cumprimentou.

— Boa tarde, David. Por favor, leve as minhas malas para o meu quarto.

— Sim senhora.

Depois de correr o olhar em torno da propriedade, Regina caminhou sem pressa para dentro da casa grande. Assim que a porta foi aberta, ela deu de cara com Margaret descendo as escadas.

— Patroa! Seja bem-vinda! — ela disse. O tom de sua voz exprimia surpresa diante daquela presença, uma vez que em sua última visita, Regina havia deixado claro que tão cedo não voltaria.

— Obrigada — limitou-se a dizer.

— Acabei de limpar o seu quarto, caso a senhora queira descansar.

— Vou apenas tomar um banho. Ah, avise ao seu marido que não saia dos arredores da casa grande porque precisarei falar com ele.

— Sim senhora.

Dessa vez, Regina optou por uma chuveirada no lugar da banheira. Quanto menos parasse para pensar, melhor seria a estadia na sua fazenda. Informar para sua família que seu destino se resumiria a Londres havia sido a maneira mais fácil de impedir que algum deles viessem ao seu encontro, principalmente Cora. Apesar da reconciliação com sua mãe, ela preferia e precisava desse tempo sozinha.

Terminado o banho, ela se vestiu e em pouco tempo se encontrava descendo as escadarias. David já estava à sua espera, e juntos, deixaram a casa grande enquanto ele fazia um rápido resumo sobre a produção da fazenda e algumas mudanças que aconteceram naquele curto período em que ela se manteve ausente. E entre essas mudanças, estava a contratação de um novo veterinário, ou melhor, veterinária.

— Senhorita Aurora, essa é a senhora Mills, dona da fazenda — David falou, e quando os olhos castanhos de Regina se fixaram nos olhos azuis de Aurora, essa esboçou um simpático sorriso.

— Boa tarde, dona Regina. Estou às ordens — ela disse, estendendo-lhe a mão.

— Boa tarde — ela respondeu, aceitando o cumprimento.

— Bom…podemos ir a empacotadora agora, patroa — David se pronunciou, e consequentemente, o contato entre elas foi quebrado.

— Sim, vamos…com licença — dito isso, Regina se retirou.

…

— Não acha que ela é jovem demais para esse cargo? — indagou Regina.

— Aparentemente sim…mas é muito competente, patroa.

— De onde ela é?

— Da cidade vizinha. Os pais dela compraram a fazenda dos Nolan e se mudaram para cá. Ela ficou sabendo que procurávamos um veterinário e se apresentou…

Enquanto David destilava elogios a respeito da nova veterinária, Regina repassava em sua mente todos os momentos vividos ao lado de Emma naquele mesmo lugar, dando-se conta de que para onde fosse, as lembranças daquela mulher lhe acompanhariam todo o tempo.

Uma semana se passou e só então Regina entrou em contato com Cora. A conversa ao telefone durou poucos minutos e encerrada a ligação, ela saiu para cavalgar no final de tarde como gostava de fazer. Era sábado, os empregados encerravam as tarefas mais cedo e por esse motivo, não havia qualquer movimentação ou ruído que não fosse aquele provocado pelos galopes do cavalo.

— Dona Regina…não pensei que a senhora soubesse montar — Aurora comentou, aproximando-se em seu cavalo.

— Sou dona da maior fazenda da região. Seria um absurdo não saber montar — ela respondeu, um tanto ríspida.

— Nossa…quando seu capataz nos apresentou, acreditei que havia sido um exagero tudo que ouvi a seu respeito. Mas vejo que eu estava enganada…

— O que disseram a meu respeito pouco me importa. Mas já adianto que não tolero fofocas nas minhas terras!

— Nesse momento eu estou nas minhas terras, portanto, posso fofocar e fazer o que eu bem entender — Aurora rebateu.

— Como é que é?

— Não está vendo o muro que separa a sua fazenda das terras dos meus pais?

— Você chama esse monte de tijolos despedaçados pelo chão de muro? — indagou Regina, sorrindo ironicamente.

— Sim, eu chamo. A propósito, seus animais e seus peões andam ultrapassando esses limites.

— E eu com isso? Se está incomodada, construa um muro de verdade.

— Tenha certeza de que eu o farei! Agora poderia, por gentileza, sair das minhas terras?

— Você esqueceu que trabalha para mim e que posso demiti-la agora mesmo?

— Não, eu não esqueci. Mas nesse momento, não estou trabalhando e portanto, a senhora não pode me dar ordens, tampouco me demitir.

— Não brinque com fogo, mocinha. Você pode se queimar… — Regina falou, em seguida, fez sinal para que o cavalo se movimentasse.

— Talvez valha a pena me queimar…nem que seja um pouquinho… — Aurora falou, em pensamento, enquanto um discreto sorriso se formava em seus lábios.