Notas iniciais
Obrigada por todos os comentários e favoritos! Boa leitura!

Com os olhos embaçados pelas lágrimas, Emma abriu a porta do apartamento com dificuldade, já que suas mãos permaneciam trêmulas.

— Emma? Aconteceu alguma coisa? — indagou Lily, claramente preocupada. — Você está chorando…o que houve?

— Eu estou bem… — disse ela, caminhando sem vontade até o quarto.

Destruída, Emma deitou lentamente sobre o colchão macio da cama enquanto sua mente tentava encontrar uma única razão para que Regina tivesse se voltado contra ela daquela maneira tão dura e humilhante. Todavia, por mais que pensasse e sua mente vagasse, nenhuma resposta encontrava, e a medida em que segundos se transformavam em minutos e os minutos em horas, sua única certeza era que precisava encontrar os pedaços que foram arrancados do seu coração. E conforme o tempo foi passando, ela logo se deu conta de que nenhuma justificativa tornaria as coisas simples, e a única certeza no momento, era a consciência de saber que sua vida estava prestes a mudar.

[…]

— Mas o que diabos deu em você? Você perdeu o juízo ou é simplesmente uma filha da puta bipolar? — indagou Zelena, num tom exaltado.

— A partir de agora, nem Emma e nem ninguém me fará de idiota! — exclamou Regina.

— O que foi que aconteceu dessa vez? Quem foi que envenenou sua cabecinha novamente?

— Ninguém! — disse ela, andando de um lado para o outro. — Eu voltei da fazenda ansiosa para encontrá-la, louca para vê-la e…ela estava com outra!

— O que? Emma estava com outra? Isso não é possível…

— Ah, não! Claro! Esqueci que você e ela são amiguinhas inseparáveis agora!

— Nós nos tornamos amigas sim e eu não acredito no que você está dizendo! Quem foi que falou isso?

— Ninguém me falou! Eu vi com meus próprios olhos!

— O que exatamente você viu, Regina? Porque sinceramente…já tem um bom tempo que você anda vendo coisas sem sentido, especialmente quando essas coisas estão relacionadas à Emma!

— Emma estava no banho e quem abriu a porta foi a maldita mulher que estava com ela…deveriam ter acabado de transar porque a infeliz estava vestindo apenas uma camisa dela, de Emma!

— Pelo amor de Deus…eu não acredito que você está fazendo esse escândalo por isso!

— Você acha pouco?

— O que eu acho é que você está mal da cabeça e precisa se tratar! O que foi que Emma disse? Quem era a mulher que estava com ela?

— Eu não perguntei! Eu saí de lá às pressas ou seria capaz de matar a duas!

— Você só pode estar de brincadeira… — comentou Zelena, sorrindo ironicamente. — Você deduz as coisas sem ter certeza de nada e fim de papo! Isso não existe, Regina!

— Porque sempre fica do lado dela e contra mim?

— Eu fico do lado da razão e essa palavra não existe mais no seu vocabulário porque você está louca. O par de chifres, ou melhor, os pares de chifres que aquela vagabunda colocou em você estão afetando drasticamente o seu cérebro! Agora se me der licença, eu preciso trabalhar…afinal, tenho que providenciar uma nova professora de literatura graças a você! — Zelena falou, e em silêncio, Regina se retirou da sala batendo a porta com força.

Caminhando em direção ao seu carro estacionado em frente a escola, Regina sentia uma pontada de arrependimento se apossar de sua alma. Ela mesma tinha consciência de que agira por impulso e num momento de raiva, todavia, só o fato de imaginar Emma tão próxima de outra pessoa lhe tirava todo o autocontrole. Seus pensamentos desapareceram quando a voz do seu filho se fez presente.

— Por que disse aquelas coisas? — Henry perguntou.

— Henry, o que está fazendo aqui? Não deveria estar na casa da sua tia?

— Eu vim pra escola com ela porque não queria ficar lá sozinho. Porque falou daquela forma sobre a senhorita Emma?

— Voltar com Emma foi um erro — disse ela.

— E por isso você a humilhou e a fez perder o trabalho? — ele perguntou. Apesar de calmo, o tom acusatório e ao mesmo tempo melancólico de sua voz pareceu atingi-la, e sem saber o que responder, Regina permaneceu calada. — Não precisava disso…bastaria se separar dela e seguir com sua vida — acrescentou, acomodando-se no banco traseiro do veículo.

Em meio ao silêncio, ela dirigiu de volta para casa ouvindo apenas o som do seu próprio coração batendo. Através do retrovisor, ela capturou o olhar perdido do seu filho e embora não dissesse, ela sofreria muito mais do que ele. Bastou desligar o carro e Henry saltou do banco traseiro correndo em direção ao seu quarto. A casa estava impecável como sempre, o que parecia tornar a sensação de vazio ainda maior.

— Precisa de alguma coisa, senhora? — uma das empregadas perguntou.

— Se eu precisar, eu chamo. Estarei em meu escritório e não quero ser interrompida.

— Sim senhora.

Sentada sobre a poltrona de couro, Regina se serviu de uma dose de uísque enquanto refletia sobre a conversa que tivera com Zelena. No final de tudo, sua mente continuava bagunçada impedindo-a de raciocinar e consequentemente chegar a alguma conclusão sobre a cena que presenciara, ou sobre o seu comportamento impulsivo.

[…]

— Emma, tem uma pessoa aí fora te procurando — disse Lily, após bater à porta do quarto. — Disse que se chama Zelena…posso deixar entrar? — ela perguntou, e segundos depois, a porta foi aberta.

— Eu vou atendê-la, Lily…obrigada — disse Emma.

— Você está bem?

— Sim, está tudo bem.

— Estarei no quarto. Se precisar de alguma coisa, pode chamar — dito isso, ela se retirou.

…

— Oi, Emma…podemos conversar? — Zelena perguntou.

— Claro — ela falou, indicando o sofá à sua frente.

— Quero me desculpar pelo que aconteceu…

— Por favor, Zelena…você não tem culpa de nada.

— Na verdade…essa moça que me atendeu foi o motivo daquela reação de Regina.

— O que?

— Ela me disse que veio te ver ontem a noite e quem abriu a porta foi…

— A irmã do Dr. Victor!

— Essa mulher é irmã de Victor?

— Sim…vocês não a conhecem?

— Não, eu não a conhecia, e pelo visto Regina também não. Victor sempre foi um homem muito reservado e sinceramente, eu nem o conheço direito — Zelena explicou. — Não imaginava que a irmã dele fosse tão jovem…agora entendo porque Regina ficou possessa de ciúmes, principalmente por ela estar coberta apenas com uma camisa sua…

— Você está aqui para justificar o que Regina fez?

— Não, Emma…quer dizer…acho que ela ficou traumatizada depois que flagrou a esposa na cama com o motorista da família.

— Quer dizer que o fato de a ex esposa ter sido infiel significa que todo mundo também será? Poupe-me, Zelena.

— Não foi isso que eu quis dizer…eu só…ela agiu por impulso.

— Eu esperava algo do tipo vindo de qualquer pessoa, menos dela…passamos um final de semana incrível juntas e de repente, ela muda por completo. Aquilo foi duro, humilhante…

— Eu entendo, Emma…e estou aqui pra dizer que você não tem que pedir demissão.

— Zelena…eu agradeço a confiança e tudo o que você fez por mim. Mas eu já decidi…não quero nenhum tipo de contato com Regina e sei que se eu permanecer ali, a encontrarei sempre. Além disso, não quero que se prejudique por minha causa.

— Então deixe-me pelo menos te dar uma carta de recomendação.

— Isso eu aceito — ela falou, esboçando um meio sorriso.

— Aqui…esse cheque é pelos dias trabalhados…

— Mas isso é mais que o salário e não tem nem um mês que…

— Por favor, aceite. Você vai precisar enquanto não encontrar um outro trabalho.

— Obrigada…eu pagarei tudo assim que for possível.

— Não se preocupe com isso. Bom, eu já vou então. Se precisar de alguma coisa, não hesite em me ligar.

— Eu vou precisar… — disse ela, enquanto escrevia seu novo endereço num pedaço de papel. — Hoje mesmo estarei me mudando daqui e gostaria que você e Henry viessem me visitar.

— Nós iremos sim…então até breve.

— Te acompanho até a porta.

No final da tarde, com a ajuda de Lily, Emma arrumou suas malas e em poucas horas já se encontrava acomodada no seu novo lar. Apesar de pequeno, parecia tão aconchegante quanto o apartamento de Victor. Naquela mesma tarde, ela se dirigiu até um dos campus universitários privados de Augusta onde se mostrou a disposição para atuar como educadora, deixando o número de Zelena Mills como sua única referência.

…

Na manhã seguinte, Regina foi informada sobre o retorno de Victor, e após deixar Henry na escola, ela seguiu direto para o escritório do seu advogado. Alguns assuntos continuavam pendentes e ela procurava ocupar sua mente com seus negócios na tentativa de afastar as lembranças de Emma da sua cabeça. No entanto, ao adentrar a sala de Victor, seus olhos caíram sobre a figura da mesma mulher que um dia atrás, apareceu em sua frente praticamente nua, coberta apenas com a camisa de Emma.

— Regina, como vai? — Victor falou, estendendo-lhe a mão.

— Bom dia, Victor — disse ela. Seus olhos continuavam fixos na figura ainda desconhecida para ela.

— Ah, deixe-me apresentá-la…essa é Lily, minha irmã. A caçula da família — disse ele, e talvez não tenha notado, mas a surpresa nas feições de Regina foi impactante.

— Acho que já nos conhecemos…quer dizer, quase nos conhecemos — Lily falou. — Eu até gostaria de me desculpar pela forma como abri a porta…digo, eu estava prestes a entrar no banheiro quando a campainha tocou, e então vesti a primeira coisa que vi na minha frente, ou seja, a camisa da sua namorada — acrescentou, atenta às reações de Regina.

Victor não escondeu seu embaraço, enquanto Regina, tão desconcertada quanto ele, se dava conta da besteira que havia provocado por sua estúpida incapacidade de controlar seus impulsos.

— Fiquei sabendo que vocês se desentenderam por causa disso e sinto muito. Se eu soubesse que vestir a camisa dela provocaria uma discussão entre vocês, eu jamais a teria vestido — Lily explicou. — Bom, eu já vou. Até mais tarde, maninho. Foi um prazer, Regina…e me desculpe pela confusão — dito isso, ela se retirou.

— O que houve, Regina? Aconteceu alguma coisa entre você e a senhorita Emma? — Victor perguntou.

— Aconteceu que eu sou a mulher mais idiota desse mundo e estraguei tudo!

Após uma longa conversa com Victor, Regina se dirigiu ao apartamento onde imaginava que encontraria Emma. Todavia, seu coração se apertou em seu peito ao tomar conhecimento de que ela já havia se mudado. Embora soubesse o endereço, Lily optou por não mencioná-lo, uma vez que Emma poderia se aborrecer caso ela falasse, e como tinham se tornado boas amigas, ela preferiu não comentar, e sem alternativa, Regina recorreu a Zelena.

— Quer dizer que o pivô da sua crise de ciúmes não era ninguém mais ninguém menos que a irmã do seu advogado? — Zelena indagou, embora já soubesse a respeito dessa informação. — Mas e então? Elas tinham realmente acabado de transar? — acrescentou. O tom de sua voz estava carregado de ironia.

— Nem sei porque eu vim falar com você! Com licença — disse Regina, e ao fazer menção de se retirar, Zelena lhe segurou o braço.

— Calma, aí! Você só vai sair daqui quando me escutar! — disse ela. — Emma está muito magoada contigo e com razão.

— Eu sei…e é por isso que eu preciso saber para onde ela se mudou. Quero pedir perdão pelo que fiz.

— Espera aí…você acha que pode se comportar como uma filha da puta e depois resolver as coisas com um pedido de perdão? Em que mundo você vive, mulher?

— E o que você quer que eu faça? Porque se tiver uma ideia melhor eu aceito sem pestanejar!

— Eu tenho uma ideia melhor sim…antes de ir atrás dela, porque não pensa um pouco nas idiotices que você vem aprontando? Porque não procura algum tratamento que te ajude a controlar esse impulso e esse ciúme doentio?

— O que está insinuando? Está dizendo que estou louca?

— Tudo indica que você realmente está…meu Deus, era a irmã do seu advogado!

— E como eu ia saber que era a irmã do Victor, porra? Eu nunca vi aquela idiota em toda a minha vida!

— Como você saberia? Perguntando, não?! Mas claro…a rainha Regina Mills não pergunta nada porque tudo sempre tem que ser do jeito que ela pensa que é e ponto final! — Zelena exclamou, suspirando em seguida. — Olha, Regina…eu sou sua irmã e sinceramente fiquei muito feliz quando você e Emma se acertaram, mas acho que você deveria dar um tempo.

— Como? — indagou Regina.

— Você passou quase dez anos casada com Kathryn e se não a tivesse flagrado na cama com o motorista da casa, talvez estivesse casada até hoje.

— E o que isso tem a ver?

— Tem tudo a ver! Você trabalhava o dia inteiro e nas horas livres, ficava com Henry enquanto ela se divertia em viagens, em shoppings, gastando o seu dinheiro, e você nunca a confrontou ou desconfiou dela…mas agora que conheceu uma pessoa que te ama de verdade, você age dessa maneira. Resumindo…acho que você precisa se cuidar, ir a um psiquiatra. Ou talvez, admita de uma vez por todas que ainda ama aquela vagabunda.

— Quanta besteira você falou! A única coisa que sinto por Kathryn é nojo!

— Não é besteira! Sei que aquela traição quebrou um pouco da confiança que você tinha nas pessoas…mas se não confia em ninguém, porque não fica solteira, caramba? Assim você não sofre e nem faz ninguém sofrer!

— Zelena…eu estou consciente de que errei, de que me comportei como uma verdadeira filha da mãe e pretendo consertar isso. Agora você poderia me dar o endereço dela, por favor?

— Tudo bem…aqui está o endereço dela. Procure-a e dê o seu melhor!

— Obrigada — disse ela, e após se despedir com um rápido abraço, Regina se retirou.

Passava das onze horas da manhã quando Regina estacionou em frente ao pequeno edifício onde se encontrava o kit net alugado por Emma. Após algumas batidas à porta, seus olhos castanhos encontraram os verdes que apesar de brilhantes, estavam também entristecidos.

— Podemos conversar? — Regina perguntou.

— Acho que você preferiu pular essa parte, mas tudo bem…pode dizer o que quer — Emma falou.

— Eu posso entrar? — ela indagou, e em silêncio, Emma deu passagem para que ela entrasse. — Emma…o que eu fiz foi imperdoável, eu sei — Regina começou a falar ainda de pé. — Comportei-me como uma cretina e estou muito arrependida. Eu perdi a cabeça quando vi a irmã de Victor praticamente nua vestindo sua camisa…enlouqueci de ciúmes, me senti ferida e quis te ferir também. O que eu quero dizer é…na verdade, eu quero pedir…

— Regina — Emma a interrompeu. — O que você realmente quer aqui?

— Quero seu perdão… Perdoe-me, por favor…eu fiquei cega de ciúmes, eu…

— A verdade é que você não confia em mim — Emma novamente a interrompeu. — E sei que tenho a minha parcela de culpa. Mas desse jeito não podemos continuar.

— Emma…

— Dizem que se você ama alguém, mas só lhe causa dor, deve deixar a pessoa ser livre — disse ela. — E é isso que eu tenho causado em você, em nós…apenas dor.

— Não, Emma…não! Eu quem venho estragando tudo…essa minha insegurança é o que está acabando com nós…olha… — Regina falou, e antes que pudesse prosseguir, o telefone tocou interrompendo a conversa. Sem hesitar, Emma o retirou do suporte e ao atendê-lo, um sorriso esperançoso brotou em seus lábios e após a curta conversa, ela encerrou a chamada.

— Eu preciso sair, Regina. Portanto, você deve ir embora — disse Emma, devolvendo o telefone ao suporte.

— Para onde você vai?

— Tenho uma entrevista de emprego dentro de algumas horas e preciso me organizar.

— Você realmente pediu demissão? Emma, não faça isso. Eu não queria…

— Regina, por favor, vá embora.

— Mas…e nós? — ela perguntou, claramente desconsertada.

— Infelizmente…não existe mais “nós”. Essa palavra morreu àquela manhã na escola.

— Emma, por favor…

— Adeus, Regina — ela disse, abrindo a porta em seguida.

— Eu te amo…por favor, me desculpe — disse ela, e em silêncio, Emma fechou a porta.