Notas iniciais
Obrigada por todos os comentários e favoritos. Boa leitura!

— As coisas não são como parecem. Eu sou inocente — disse Emma, nervosa e magoada. — E se eu continuo aqui é porque Regina não me entregou ao detetive, e isso significa que…

— Emma…deixa eu terminar de falar — interrompeu Marian. — A patroa disse que não conhecia você e que você não trabalhava aqui, mas depois, quando o detetive foi embora, eu a ouvi falar com Ruby e…bom…parece que Ruby conseguiu convencê-la a te entregar para a polícia.

— Ruby?

— Sim, ela estava presente quando o detetive chegou. Emma, se eu fosse você, fugiria enquanto há tempo.

— Eu não posso fazer isso…não posso deixar Henry e Regina assim… — ela falou, com muita vontade de chorar.

— Você os deixará do mesmo jeito se for presa. O detetive está na cidade e se a patroa não te entregar, Ruby o fará.

— Regina vai acreditar em mim, eu sei…

— Tem certeza? Se você tivesse ouvido a forma como ela falou…e ainda guardou o cartão do detetive.

— Meu Deus…o que eu faço?

— Emma…você realmente matou um homem? — questionou Marian.

— Foi em legítima defesa. Eu não queria...

— Olha, a decisão de fugir ou não é sua. Eu só queria preveni-la porque gosto de você.

— Obrigada, Marian.

— De nada. Fique com isso. São as minhas economias caso decida partir…não é muito, mas vai servir.

— Eu não posso aceitar e eu nem sei se…

— Por favor. Você me devolve se resolver ficar. Com licença — dito isso, Marian se retirou.

Enxugando as lágrimas do rosto, Emma permaneceu alguns minutos quieta e em silêncio. Ainda que Regina acreditasse em sua inocência, não poderia torná-la cúmplice. Além disso, ela deixara claro que detestava mentiras, e talvez jamais a perdoasse por ter escondido um fato tão grave de seu passado. De repente, o olhar severo e a forma ríspida com que Regina havia lhe falado mais cedo atravessaram sua mente, e a simples possibilidade de se tornar uma vítima do julgamento dela dilacerou seu coração.

— Emma? Você estava chorando? — Henry perguntou, tão logo ela apareceu em seu quarto.

— Não…é que eu estava ajudando Margaret a descascar umas cebolas — ela disse. — Você já quer jantar? Sua mãe parece que vai demorar pra voltar.

— Por quê?

— Problemas com alguns animais, eu acho.

— Eu estou sem fome. Lanchei agorinha.

— Você precisa de mais alguma coisa?

— Não…por quê?

— Porque eu vou me deitar. Estou com dor de cabeça.

— Quer que eu vá buscar um remédio pra você?

— Não, meu amor. Não precisa. Vou para o meu quarto, está bem?

— Aqui não tem cebolas e você continua chorando.

— Nós mulheres somos assim…bobas, choramos por tudo — ela disse, envolvendo-lhe o corpo com seus braços.

— Minha mãe brigou com você?

— Não, querido…está tudo bem. Boa noite e durma tranquilo.

— Você também, Emma…e desejo melhoras.

— Obrigada — ela disse, beijando-lhe a testa demoradamente e em seguida, se retirou aos prantos.

Passava das vinte e duas horas quando Regina finalmente retornou para a casa grande. Algumas cabeças de gado de sua propriedade morreram a tiros, e por essa razão, ela permaneceu tantas horas ausente, já que a presença da polícia fora necessária.

— Onde está Emma? — ela perguntou.

— A última vez que eu a vi, ela estava no quarto do seu filho, patroa — disse Marian, e em passadas largas e firmes, Regina se dirigiu até lá. Ao abrir a porta, ela constatou que Henry estava dormindo. Após beijar-lhe a testa e melhor acomodá-lo nos travesseiros, ela caminhou em direção ao quarto de Emma. Como não obteve resposta depois de algumas batidas, ela girou a maçaneta e entrou.

Devagar ela se aproximou dando-se conta de que Emma também dormia. Os segundos se passavam e Regina permanecia ali, de pé, fitando a mulher que amava dormir tranquilamente, enquanto seu coração travava uma batalha com a razão. Emma havia cometido um delito e escondera a verdade, cedo ou tarde a polícia descobriria seu paradeiro e o que seria dela? O que seria do amor que sentiam? E Henry? Como ele reagiria ao saber que aquela mulher a quem ele tanto respeitava e amava, estava sendo acusada de assassinato? Eram tantos questionamentos passando pela sua cabeça, mas por ora, Regina decidiu que buscaria as respostas na manhã seguinte e só então tomaria uma decisão. E com esse pensamento, ela deixou aquele quarto e se dirigiu ao seu.

...

Com a respiração se acelerando devido a presença de Regina, Emma sentiu suas próprias unhas cravarem nas palmas cerradas, mas ela não se mexeu. Ficou quietinha até ouvir a porta se fechar e Regina deixar o quarto. Seus olhos se abriram despertando do seu falso sono, e os pensamentos fizeram brotar lágrimas quentes e impotentes enquanto ela escorregava da cama e caminhava de má vontade até o guarda-roupa para juntar suas coisas. Ela já havia decidido: deixaria aquela casa, deixaria Regina e Henry para trás. Seu coração rejeitava a própria decisão, mas sua mente estava ciente de que era o melhor a se fazer. Se afastar de Henry e Regina era o máximo da dor autoinfligida, mas ela estava disposta a aguentar por um único motivo: Amor aos dois.

Antes de partir, embora suas mãos estivessem trêmulas, Emma escreveu uma carta na tentativa de justificar sua atitude, rezando para que a mulher que ocupava os seus pensamentos a compreendesse. E na calada da noite, ela se foi.

[…]

— Emma já acordou? — Regina perguntou, ao cruzar com Marian no corredor.

— Eu não a vi, patroa — disse ela, e em silêncio, Regina se dirigiu ao quarto de Henry e como ele ainda dormia, ela resolveu seguir ao encontro de Emma, afinal, elas tinham muito o que conversar.

Após algumas batidas à porta sem resposta, ela girou a maçaneta e adentrou o cômodo. No mais definitivo silêncio, Regina analisou o quarto perfeitamente arrumado, mas seus olhos se fixaram num papel que repousava sobre a cama impecável. De súbito, seu coração disparou e as mãos hesitantes e trêmulas agarraram-se ao papel enquanto seu olhar percorria cuidadosamente cada palavra escrita.

Antes de mais nada, perdão. Perdão por partir, por omitir. Sei que acabo de perder sua confiança e o seu amor, mas acredite: eu te amo e continuarei amando até o último dia da minha vida. Sobre as acusações: eu sou inocente. Agi em legítima defesa, mas infelizmente, não acreditaram em mim.

Por favor, não diga a Henry que fugi como uma covarde. Eu só queria preservar a ele e a você. Eu os amo, de verdade. Ao lado de vocês, vivi os melhores dias, dei e recebi os melhores sorrisos. Cuidem bem um do outro. Adeus…

Emma.

Depois de amassar o papel entre seus dedos, Regina precisou de todo o seu autocontrole para não destruir o que encontrava pela frente. Emma havia partido e o adeus veio numa carta. Ainda em choque, ela sentiu o gosto amargo das lágrimas e a sensação de impotência se apoderar do seu corpo.

— Maldito seja o dia em que você apareceu na minha vida — ela murmurou, deitando-se na cama que fora ocupada por Emma, enquanto seus braços se agarravam ao travesseiro e o perfume daquela peça lhe entorpecia os sentidos.

…

— A patroa está trancada no quarto da senhorita Emma já tem um tempão — comentou Marian.

— Então aquela vadia não foi embora? — indagou Ruby.

— Eu não sei, mas…

— Ruby, vá chamar Robin — disse Regina, interrompendo a conversa. — E você, vá procurar o que fazer! — acrescentou, voltando-se para Marian.

Não demorou muito para que Robin aparecesse, tão nervoso quanto Ruby só de imaginar a possibilidade de Regina ter descoberto sobre o incidente com o gado na noite passada. Em passos lentos e incertos, ele se aproximou de cabeça baixa.

— Pois não, patroa.

— Junte alguns peões e procure a senhorita Emma pelos arredores do povoado.

— Ela desapareceu?

— Faça o que eu estou mandando sem questionamentos, seu imbecil! E tenha cuidado…não quero fofocas na minha propriedade e se alguém perguntar sobre a senhorita Emma, diga que nunca ouviu falar esse nome. Caso contrário, você e quem mais abrir o bico terão de arcar com sérias consequências!

— Sim senhora.

— O que está esperando?! Dê o fora daqui!

— Com licença — ele disse, se retirando em seguida.

— Avise as empregadas que a senhorita Emma foi embora porque algum parente adoeceu. Em hipótese alguma o meu filho deve saber outra verdade que não seja essa!

— Ela fugiu, não foi? — questionou Ruby.

— Sim.

— Não se preocupe, patroa. O menino não saberá de nada.

— Vou falar com ele — disse ela, com o coração à mil.

Henry terminava de se arrumar quando Regina entrou em seu quarto. Ao ser recebida com um largo sorriso, ela sentiu um nó se formar em sua garganta e seus olhos queimarem enquanto lutavam para impedir que as lágrimas escapassem.

— Henry, precisamos conversar.

— Claro, mãe. Aconteceu alguma coisa?

— Sim, mas não é nada grave. Apenas…

— Onde está a senhorita Emma?

— Filho, por favor…me escute está bem?

— Tá, mãe. Desculpa.

— Emma precisou se ausentar da cidade por algum tempo.

— Ela foi embora?

— Sim, meu amor. Mas como eu disse, é só por um tempo.

— Mas por quê?

— A mãe dela ficou doente e ela precisou se ausentar para cuidar dela.

— Nós poderíamos ter ido juntos.

— Filho, é um assunto de família.

— Mas nós já somos uma família — ele falou, e suas palavras atingiram Regina em cheio. Seu coração parecia ter sido esmagado como uma flor imprensada entre as páginas de um livro qualquer. Caminhando em direção a janela, ela tentou conter e esconder as lágrimas. Precisava fazê-lo para que ele se convencesse daquela história.

— Ela preferiu ir sozinha — murmurou a morena.

— Nem se despediu de mim — disse ele.

— Fique tranquilo…em breve ela estará conosco novamente. Agora vem, vamos tomar o café da manhã.

No final da tarde, Robin retornou sem qualquer notícia que pudesse aliviar o desespero de Regina. Alguns dias se passaram e apesar de saber que Emma havia cometido um crime, não era dessa maneira que Regina pretendia estender as cartas na mesa. Ela queria ouvir a versão da mulher por quem estava apaixonada, e quem sabe juntas não pudessem encontrar uma solução para o problema. Mas Emma preferiu escolher um caminho para percorrer sozinha, deixando-a desolada para trás.

— Mãe? Estava chorando? — Henry perguntou, ao encontrá-la sentada num banco do jardim dos fundos onde tantas vezes ela contemplou a atenção com que Emma ensinava as crianças a ler e escrever.

— Não… — limitou-se a dizer.

— Está com saudade da senhorita Emma, não é? — ele perguntou, e em resposta, Regina abaixou o olhar confirmando com um gesto de cabeça. Instintivamente, Henry a envolveu em seus pequenos braços enquanto as mãos delicadas lhe afagavam os cabelos curtos. — Eu também estou com saudade, mas logo ela volta, mãe.

— Sim, meu amor. Logo ela estará de volta…

— Patroa…perdão por interromper mas…posso falar com a senhora? — indagou Robin.

— Vá para casa, Henry…precisa fazer os deveres da escola.

— Está bem, mãe — ele falou, e após um beijo no rosto, ele correu em direção à casa grande.

— O que você quer?

— Bom, acontece que o veterinário estava de licença por apenas três dias, mas até hoje não retornou.

— Você já foi ao endereço dele na cidade checar se alguma coisa aconteceu?

— Sim, ele está hospedado na pensão do senhor Gold. Mas não quiseram me informar nada.

— Certo…se amanhã de manhã ele não aparecer, eu mesma irei até lá saber o que está acontecendo.

…

A noite se passou de forma lenta. Passava das três horas da manhã e Regina permanecia acordada, perambulando dentro do quarto com mil perguntas na cabeça e apenas uma resposta: o destino era o responsável por aquela separação. O destino fizera isso com elas. Regina já não sabia a que ou a quem culpar, mas tinha consciência de que a situação a estava devastando por dentro.

Na manhã seguinte, Regina se prontificou em levar Henry à escola, e como o veterinário não havia dado notícias, ela aproveitaria para checar o que teria acontecido.

— Boa aula, querido — ela disse, retornando para o carro enquanto as lembranças de Emma sentada ao seu lado lhe torturava a mente.

Imaginava que talvez, se tivesse deixado tudo de lado e conversado com ela a respeito daquele fato, Emma não tivesse fugido. Ela é uma criminosa e eu preciso esquecê-la, pensava Regina, dando-se conta de que isso não era o suficiente para tirar aquela mulher da sua cabeça, principalmente do seu coração.

Assim que estacionou em frente a pensão onde Killian Jones estava hospedado desde que começara a trabalhar na fazenda, Regina foi abordada por um dos funcionários, afinal, era a primeira vez que a dona de praticamente toda a cidade, colocava os pés naquele lugar.

— O senhor Killian Jones trabalha para mim e já tem alguns dias que não aparece na fazenda. Quero saber o que aconteceu com ele — ela explicou.

— O senhor Jones deixou a pensão tem alguns dias, senhora — informou o desconhecido.

— Deixou a pensão? E não disse para onde ia?

— Não senhora. Ele só disse que estava deixando a cidade.

— Que estranho…ele estava sozinho?

— Sim senhora…mas antes disso, ele recebeu a visita de uma mulher e algumas horas depois, disse que não precisaria mais do quarto porque iria embora da cidade.

— Uma mulher? E como ela era? Você a viu? Responda! — ela exclamou, puxando-o pelo colarinho da camisa.

— Eu…eu não sei…ela estava com um lenço na cabeça e parecia tentar esconder o rosto. Mas eu percebi que ela tinha os olhos claros — ele disse, e imediatamente, o coração de Regina disparou.