Notas iniciais
Esse é um conto completo

1

“A quanto tempo estou fugindo? ” Pensava James que não se lembrava de quando ou como tudo aquilo havia começado, só lembrava de estar correndo, correndo de um monstro que para ele parecia a própria personificação da morte que viera para lhe buscar. Uma criatura horrenda que por algum motivo o perseguia dentro de sua própria casa.

Agora estava à frente da porta de seu quarto, ele a abriu, olhou dentro, mas apenas enxergou trevas e então por um instante o medo que sentia pelo monstro foi substituído pelo medo que sentia da escuridão, medo de seus segredos, percebeu que o monstro se aproximava, e um medo maior tomou conta de sua mente, o medo de morrer, de não ver mais sua amada Marie e sua pequena filha Laura que estavam em viajem. Adentrou então e foi abraçado pelas trevas que tanto sentia medo.

Seu quarto o trazia uma dor que não conseguia explicar, algo profundo, mas que parecia estar enterrado em um lugar profundo de sua mente. Se escondeu embaixo de sua cama mesmo sabendo que aquele lugar não era um bom esconderijo, mas estava com medo e não conseguia pensar direito, apenas tinha seguido seu instinto e não tinha como voltar atrás, a única coisa que podia fazer agora era esperar e rezar. O monstro agora estava adentrando o quarto, e James mesmo no escuro conseguiu observar a criatura, ela possuía três braços, mas era sua feição que o prendia, ela parecia estar triste, sofrendo, como se tivesse uma ferida que nunca se curaria. Ele estava tão focado na feição da criatura que não percebeu que começara a escorrer lagrimas de seus olhos.

— Marie— sussurrou ele, não entendendo porque o nome de sua mulher que naquele momento estava viajando com sua filha Laura veio a sua mente.

Lembrou-se do dia em que as duas viajaram, ele queria ir também, mas não podia, tinha seu trabalho então brincou com sua filha, deu um beijo de despedida em sua esposa e quando sua filha entrou no carro ela falou “eu te amo papai” aquela simples frase o havia deixado muito feliz, naquele momento percebeu que tinha uma vida perfeita, uma grande esposa, uma filha adorável e um bom emprego, ele tinha conquistado o que os americanos chamam de “sonho americano”. Ele não tinha tudo que queria, mas tinha tudo que precisava.

2

Voltou então ao presente e percebeu que a criatura havia saído, decidiu esperar mais um pouco antes de sair de seu esconderijo, e como a criatura não tinha voltado ele saiu. “Preciso ligar para a polícia, agora! ” Mas seu celular estava na cozinha que ficava no andar de baixo.

— Merda— sussurrou James — agora tenho que ir lá para baixo, com essa coisa andando pela casa, com toda certeza eu sou a pessoa mais sortuda do mundo.

Como não tinha outra opção abriu a porta, observou a escuridão no corredor, respirou fundo e saiu.

3

Agora estava no corredor que parecia aquele clássico cenário de filme de terror “só falta a luz piscando no fim do corredor” pensava ele, tentando esquecer de todos os segredos que as trevas guardam, todos os seus perigos, lembrou-se de Marie e Laura e um medo maior tomou conta de sua mente ”Se eu morrer nunca mais verei elas, nunca mais verei o sorriso das duas ” conseguiu então controlar seu medo, por enquanto.

Chegou até a escada e desceu os degraus rapidamente, lá embaixo correu até a cozinha e viu seu celular sob a mesa, ”graças a Deus” pensou, pegando seu celular rapidamente, discou 190 e alguém atendeu.

— Alo, preciso de ajuda, tem alguém em minha casa — Ele não podia falar que tinha um monstro que possuía três braços em sua casa, iriam chama-lo de louco. “Talvez eu sou” pensou.

— É tudo culpa sua, é tudo culpa sua...— repetia a voz, que parecia ser de uma mulher desesperada.

— Quem fala? — Perguntou James, sentindo o clima ficar cada vez mais frio.

Percebeu então que não estava mais em sua casa e sim numa floresta ”como eu vim parar aqui”, era o principal pensamento que passava por sua cabeça, de repente viu uma mulher de joelhos.

— Ei, você sabe que lugar é esse?

— É tudo culpa sua, é tudo culpa sua... — Repetia a mulher, era Marie, que devia estar viajando com Laura.

— Mary, como você chegou aqui? Como assim culpa minha? E cadê a Laura? — Perguntou James, esperando não receber aquela mesma resposta.

Percebeu que sua mulher segurava o corpo de sua filha em suas mãos, ela parecia ter recebido o frio beijo da morte, notou também que ela não tinha um dos braços.

— O que aconteceu? — Perguntou James, sentindo que a qualquer momento suas lagrimas iam começar a descer, e deslizar por seu rosto. — Por favor me conte.

Mas ela não contou, só continuou repetindo aquela frase que para ele não fazia sentido, de repente ele se viu de volta em sua casa, que agora tinha um clima frio, ele sentia como se fosse congelar, “Um inferno congelante” pensou ele tentando não desabar em lagrimas.

4

Quando estava pensando no que havia acabado de vivenciar começou a ter uma serie de flashes, quase todos eles eram na floresta mas teve um onde ele viu um corpo em seu porão, “Talvez lá eu tenha algumas respostas” desejou, mas no fundo não queria descobrir o que tudo aquilo significava.

Depois de pensar um pouco decidiu ir até o porão, na verdade não tinha outra opção, não havia escapatória, tinha que ir até lá, estava acorrentado a essa escolha. Então começou a ir em direção à porta do porão, não ligava mais para as trevas era como se agora eles fossem amigos, não, amantes, sentiu também um déjà-vu, era como se já tivesse visto tudo aquilo, mas ele não se importou.

Chegando até a porta do porão, pensou um pouco antes de entrar, ele não queria descobrir a verdade. “Não quero, mas preciso” com esse pensamento abriu a porta e entrou “que Deus me proteja”.

5

Desceu as escadas de seu porão, ele não ligava mais para criatura, tudo que ele agora procurava era a verdade que no fundo ele sabia, mas não queria admitir. No porão as trevas o abraçavam, ele não conseguia ver nada na sua frente, começou então a ter alguns lapsos de memória. Lembrou-se da viajem, e do acidente que na verdade ele estava junto.

Ele estava dirigindo, Marie estava no banco de carona e Laura no banco de traz. Marie falava das novas músicas do David Bowie, a qual ela era muito fã, e ele apenas a escutava feliz, mas de repente surgiu um carro na contramão, tentou trocar de pista, mas seu carro derrapou assim capotando e saindo da rua, caindo em uma floresta. Depois ele se lembrou do enterro de Laura e também do suicídio de Marie.

James agora estava de joelhos, chorando, não conseguindo acreditar, Marie e Laura estavam mortas.

— Isso não pode ser verdade! — Gritava ele — Elas não podem ter morrido! Porque elas! Não isso não pode ser verdade! Por favor Deus não! Não! Por favor Deus!

Agora conseguiu ver o corpo de Marie e começou a gritar e a chorar, sentindo ódio e tristeza. Escutou então a criatura vindo, mas ele não ia se mexer, não ia tentar fugir, agora ele ia apenas espera “aquilo” vim para o libertar, o levar para junto de sua família.

“Aquilo” veio e agarrou James que não tentou lutar, agora a única coisa que ele procurava era ir para junto de sua esposa e filha. Mas ele não encontrou isso.

“A quanto tempo estou fugindo? ” Pensava James que não se lembrava de quando ou como tudo aquilo havia começado.

Fim

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