Inferno Psíquico
18 Provocando um incêndio.
Notas iniciais
Quinn manteve-se estática, mas saiu do transe assim que viu a arma prateada na mão de Frannie. Seu corpo todo gelou. Rachel estava ali. Santana e Brittany estavam ali. Tudo desandou e ela faria de tudo para proteger as três.
Deu um passo na direção de Frannie, mas parou quando sentiu uma mão pequena segurar seu braço.
— Quinn...— A loira virou-se para olhar nas orbes chocolate, que ao contrário do que pensava, não demonstravam pânico, e sim confusão.
— Fiquem quietas e caladas. — Quinn sussurrou para as três garotas atrás de si, enquanto se desvencilhava da mão da judia.
Tomou uma respiração profunda e contou os cinco passos até estar diante de Frannie.
— Frannie...— A voz de Quinn saiu como uma súplica, e a mão alva tocou a mão da maior.
Quinn observou o rosto sem expressão de Frannie transformar-se em uma expressão triste direcionado à ela.
— Por que não me chama de mãe, Quinnie? — A mão de livre Frannie tocou o rosto de Quinn levemente.
— MÃE? — A voz de Santana ecoou por todo o porão, alta demais.
A latina contorceu-se e uma careta se formou em seu rosto ao receber um beliscão de Brittany, e um ''fique quieta!'' baixinho da namorada.
Quinn virou-se lentamente em direção à elas.
— Frannie é minha mãe. Russel e Judy esconderam porque tinham vergonha de uma adolescente grávida e me registraram como filha deles. — Quinn tentou soar firme, e agradeceu aos deuses quando conseguiu. Virou novamente para encarar o azul intenso dos olhos de Frannie. — Eu te chamo de mãe, mas não as machuque. Por mim. — Agarrou a mão da mais velha.
O fato é: Quinn não era ingênua. Nunca foi. Sabia bem o poder que exercia sobre Frannie. Sabia também que o carinho e as expressões da mais velha direcionados à Quinn eram sinceros. Mas doía saber também que era uma assassina e que nunca poderia sentir-se bem com ela como se sentia há anos.
Frannie respirou fundo e deu um passo a frente.
— Dêem-me os celulares. Agora! — Ordenou com a voz fria.
Rachel foi a primeira a entregar o aparelho, seguida de Brittany, e Santana muito a contragosto entregou civilizadamente, querendo internamente jogar aquele celular na face de Frannie.
— Pra lá! — Apontou para onde Sue estava sentada.
As três caminharam lentamente, e assim que chegaram no lugar apontado, Frannie pegou de um armário algumas correntes, jogando no pé das garotas.
— Coloquem! — Ordenou mais uma vez, e foi acatada por elas.
Assim que certificou que todas estavam presas e as correntes fixas no suporte da parede, caminhou novamente em direção a Quinn, que tinha o rosto agoniado.
— Vamos Quinnie. — Frannie estendeu a mão, parada no primeiro degrau da escada.
A loira mais baixa olhou na direção das meninas e moveu os lábios sinalizando com eles um ''tudo vai ficar bem'' e encarou os olhos castanhos de Rachel com amor e proteção. Agarrou a mão de Frannie, subindo com ela até sair do porão.
— OH MEU DEUS! — Rachel caiu sentada e pôs as mãos na cabeça. — Vamos morrer, vamos morrer, vamos morrer... — A judia repetia incessantemente.
— Berry. Não surte. Não agora. Não vamos morrer. Só precisamos manter a calma. — Santana falou lentamente, sentando ao lado de Brittany.
— NÓS VAMOS MORRER! — Brittany gritou enquanto lágrimas começaram a rolar no rosto alvo.
— CALEM A BOCA! — Sue gritou e as três olharam em sua direção. — Já perceberam que essa maluca faz tudo o que a Quinn pede? Ela não vai deixar que vocês morram. — Sue suspirou esfregando as têmporas. — Tenho todas as provas no meu e-mail. — Completou murmurando.
— O que você descobriu? — Santana perguntou curiosa.
Sue contou tudo o que viu. As fotos no apartamento de Cassandra. As conversas por e-mail. Tudo planejado para os assassinatos. O planejamento da própria morte. Brittany apenas fungava. Santana e Rachel permaneciam estáticas ouvindo tudo.
— Precisamos mesmo sair daqui. — Foi a única coisa que Santana disse.
...
Quinn não dormiu. Depois que Frannie a fez tomar banho e deu-lhe sanduíche e um copo de leite e saiu de seu quarto, Quinn passou a caminhar freneticamente pelo cômodo, e quando ouviu passos se aproximando, jogou-se na cama e fingiu dormir.
Seu coração acelerou quando ouviu a porta do quarto abrir-se e a cama afundar ao seu lado. Mas seu corpo gelou por inteiro e um arrepio passou desde os dedos de seu pé até seus cabelos quando Frannie afagou seu rosto e sussurrou um ''elas precisam morrer, Quinnie, sinto muito.'' E saiu, trancando a porta.
Não...Não dessa vez! Quinn conseguiu evitar que a família Berry morresse nas mãos de Frannie. Iria conseguir evitar outra tragédia novamente.
Tirou a regata e o short que Frannie lhe deu para dormir e pôs a calça jeans e a blusa gola V branca. Calçou o único par de tênis e amarrou o cabelo como conseguiu.
Ouviu o motor do carro ligar e deduziu que Frannie havia saído, e quando voltasse, provavelmente mataria aquelas pessoas.
A porta encontrava-se trancada, mas ela não recuaria. Eram suas melhores amigas e a garota pela qual ela estava apaixonada que precisavam dela, além de uma inocente que não merecia estar ali.
Arrastou a escrivaninha com toda sua força até pegar uma distância considerável e correu arrastando-a em frente a si, até que ela se chocasse contra a porta e a mesma se partisse devido a madeira desgastada.
Logo de primeira a velha porta partiu-se facilmente e Quinn sentia a adrenalina percorrer seu corpo gradativamente.
A porta do porão continuava com a maçaneta quebrada, e ela logo correu escada abaixo, vendo Sue e as três garotas com os olhos arregalados, consequência do estrondo da porta do quarto quebrando-se.
— O que porra foi aquilo? — Santana se manifestou recuperando-se do susto.
— Aquilo foi a porta sendo partida em duas. — Quinn deu de ombros e foi em direção a Rachel.
Mal teve tempo de chegar perto da judia, e a mesma pulou em seus braços do jeito que pôde devido a corrente.
— Eu senti tanto a sua falta. — A voz da judia saiu abafada, enquanto mantinha o rosto na curva do pescoço da loira.
— Eu também senti a sua. Mas não deveriam ter vindo pra cá. — Respondeu enquanto tinha os braços na cintura da morena.
— Não precisa agradecer por nos arriscarmos por você, Fabray. — A irônia saltava da boca da latina.
— Não é isso. É só...— Quinn afastou-se de Rachel para olhar as garotas. — Frannie é louca. Ela me ama, mas depois de tantos abusos sofridos, ela tornou-se uma esfera de ódio e sofrimento. Ela não irá deixar que vocês saiam pela porta da frente como visitas casuais. — Completou suspirando. — Deus! Hiram e Leroy devem estar loucos agora. Sem falar na tia Maribel e tia Whitney. — Pôs as mãos nos cabelos.
— Pare de pensar em detalhes e dê um jeito de quebrar essas correntes. — Santana falou impaciente.
— Certo. — Quinn murmurou pensativa.
A loira caminhou até onde o machado havia sido jogado e o pegou. Andou até onde todas estavam e o segurou no alto da cabeça.
— Primeiro continue onde você bateu ontem antes dessas garotas chegarem. Será mais fácil se eu sair daqui. Correrei para a delegacia. — Quinn apenas assentiu e chocou o machado contra a corrente grossa, porém não surtiu efeito.
— Continue tentando, Q. — Brittany se manifestou, fazendo Quinn assentir novamente.
...
Dez, quinze, vinte minutos e a corrente continuava intacta.
— Essa droga não vai quebrar! — Quinn esbravejou sentindo seus braços doerem, jogando o machado no chão.
— Procure outra coisa, Q. — Santana aconselhou suspirando.
Quinn foi em direção aos armários e prateleiras, buscando algo que pudesse quebrar aquelas malditas correntes.
— Olhem isso! — Quinn fisgou um celular antigo coberto por poeira de uma das caixas. Provavalmente não eram fabricados desde os anos dois mil. A loira pôs o aparelho na orelha e sorriu.
— E funciona! — Exclamou aumentando o sorriso.
— Traga-o aqui.
Quinn entregou-o a Sue e a mesma discou alguns números, enquanto aguardava que atendessem.
— Becky! Não...Não estou bem...Mande todas as viaturas para o endereço dos Fabray. Achamos a assassina...Estive presa aqui...Certo. — Desligou em seguida. — Eles estão vindo. — Comunicou e como se fosse combinado, todas suspiraram ao mesmo tempo.
Quinn ia sorrir, mas o sorriso ficou preso em sua garganta quando ouviu o motor de um carro. Seu coração errou uma batida.
— Não, não, não. — Murmurou sem parar e subiu correndo, ignorando os chamados de Rachel e das amigas. Sabia o que aconteceria se Frannie chegasse ao porão.
Correu para a cozinha e olhou tudo naquele lugar. Seus olhos caíram sobre o fogão. Sua mente deu um estalo. A adrenalina voltando ao seu corpo. Correu para o botijão e desacoplou a mangueira que ligava o mesmo ao fogão.
Ligou todas as bocas e o cheiro de gás fez-se presente no ambiente.
— Quinnie? — Ouviu a voz rouca de Frannie e saiu da cozinha, dando de cara com a mais velha. — Como saiu de seu quarto? — Perguntou firme.
— Eu precisava ver as meninas. — Respondeu com a expressão falsamente triste.
— Meu amor. Elas não podem continuar vivas. Por favor, entenda. — Afagou o rosto de Quinn levemente.
— Eu entendo. — Assentiu devagar. Ouviu movimentações vindo da sala, mas ignorou.
— Que cheiro é esse? — Frannie franziu o cenho e caminhou até a cozinha, com Quinn atrás de si. A toalha que cobria a janela ao lado do fogão pegava fogo, e as chamas aproximavam-se cada vez mais do botijão. Quinn aproveitou o momento de distração e pânico da mais velha para pegar o molho de chaves do cinto de Frannie.
— DEUS! — A mais velha gritou alarmada. — Vá para o carro! Agora! Preciso pegar algumas coisas. Isso vai explodir. — Frannie correu para o quarto ao lado do de Quinn, e a mais baixa se direcionou ao porão, correndo escada abaixo.
— Que cheiro é esse? — Santana perguntou assim que avistou Quinn.
A loira ignorou a pergunta e passou a testar todas as chaves nos cadeados grossos das correntes. Já estava desistindo e totalmente desesperada, quando a última encaixou-se e libertou o primeiro cadeado. Repetiu o mesmo processo com os outros três.
— Saiam daqui! — Quinn exclamou.
— Você vem conosco. — Rachel ordenou.
— Se Frannie descer aqui, matará todas vocês. Agora vão! — Ordenou subindo as escadas.
— Você promete que vai sair daqui? — A judia perguntou agoniada, já ouvindo as sirenes da polícia ao longe.
Quinn virou-se e encarou os olhos castanhos da morena com todo o amor que sentia.
— Eu prometo. E amo você. — Quinn sorriu fraco e subiu até sair do porão, sem esperar uma resposta.
Rachel sentiu um incômodo no peito e tentou seguir Quinn, mas mãos fortes seguraram sua cintura.
— Ela vai sair. Ela prometeu. Agora vem! — Brittany puxou a pequena até a pequena janela superior.
...
Os pais das três garotas estavam parados ao lado de uma viatura da polícia.
Quando Rachel sumiu, os homens Berry se desesperaram, e quando receberam uma ligação de Maribel Lopez comunicando que Santana havia avisado que ia até a casa deles com Brittany e estavam demorando muito, o desespero aumentou.
Passaram a noite toda procurando as meninas pela cidade. Ligaram para a polícia, mas nada poderia ser feito em menos de quarenta e oito horas de sumiço.
Quando estavam a beira da loucura, avistaram viaturas indo em direção à casa dos Fabray, e seguiram até o local alarmados e com sensações ruins no peito.
Avistaram Rachel, Santana e Brittany saírem pela lateral da casa, acompanhadas de Sue Sylvester, e quando as meninas os avistaram, saíram correndo em direção aos pais.
— Estrelinha. Eu e seu pai quase enlouquecemos. Por que você fez isso? — Hiram perguntou ainda abraçando a filha fortemente.
— Eu tinha que procurar a Quinn, papai. Frannie Fabray está viva. E ela matou Judy, Russel, e ...— A fala de Rachel foi cortada por uma explosão estrondosa.
A sirene do carro dos bombeiros se fez presente, mas logo se dissipou junto com qualquer pensamento da judia, quando deu-se conta que Quinn não havia saído. Seu estômago embrulhou com seus pensamentos e podia contar as batidas de seu coração que parecia querer parar de bater.
— QUINN! — Rachel tentou correr, mas foi segurada pelos braços de Leroy. — ME SOLTA! A QUINN...ELA...— O rosto de Rachel já estava repleto de lágrimas, e as pernas fraquejaram, sendo prontamente amparada pelo pai.
Os bombeiros logo acalmaram o fogo, e os olhos de todos foram em direção aos paramédicos, que entraram correndo dentro da casa com duas macas.
Minutos passaram-se e as macas que entraram vazias, saíram com dois corpos ocupando-as. O lençol azul claro cobriam os corpos até a cabeça, e Rachel sentiu todo o mundo cair sobre si. Choro já não era suficiente.
Sua mente viajou para a noite em que tornou-se mulher ao lado de Quinn.
Nos toques de Quinn.
Na boca de Quinn.
No cheiro de Quinn.
Mais braços a rodearam, e ela viu Santana chorando copiosamente como uma criança junto com Brittany. As três se abraçaram. Elas entendiam a dor que sentiam. Uma amizade de anos. Um amor arrebatador.
Santana não estava sendo forte. Ela não podia ser forte. Ela não queria ser forte.
Brittany já sentia o estômago doer de tanto soluçar e sentir as lágrimas caírem.
Rachel viu sua visão ficar turva e depois a escuridão.
Quinn não havia cumprido sua promessa.
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