Inferno
1 Inferno
Por que estou aqui? Não lembro o que aconteceu, nem como cheguei. Abro meus olhos e vejo uma escuridão profunda. Aqui, atirado em um chão de terra batida com dores nas costas, olho para o céu, e percebo que não há mais um céu. Não há absolutamente nada envolta, nem árvores, casas, carros, nada. Apenas o nada. Me levanto e percebo que estou completamente nu e com um grande ferimento no meu peito. Um ferimento circular, pequeno e profundo, mas não estou sentindo dor e nem está sangrando. Pra falar a verdade, estou sentindo nada, apenas um frio imenso.
Aqui, de pé, olho para a minha frente, e vejo nada. Olho para os meus lados e também vejo nada. Estou completamente só e com medo, um enorme medo. De repente, minhas pernas começam a se mexer sem o meu comando, como se algo estivesse movendo-as. Estou seguindo em frente sem um rumo aparente. A dor no meu ferimento finalmente aparece, e afinal de contas está doendo muito.
"Caralho", eu penso. O ferimento subitamente começa a sangrar e doer cada vez mais, enquanto caminho automaticamente e sem rumo. A cada passo, parece que o ferimento dói mais e mais, e a dor chegou no ponto de ser insuportável. Enquanto estou caminhando ouço uma voz ao longe, dizendo "Você teve o que mereceu", e me dou conta de que essa voz com certeza foi em minha cabeça.
— Eu não sou um fruto da sua imaginação. — A voz sussurra no meu ouvido, e eu paro automaticamente, todo ouriçado e em pânico. Olho para o meu lado rapidamente e vejo nada. Então olho para a minha frente e vejo um vulto vermelho que logo desaparece. Ele estava a apenas alguns metros de mim, talvez dois ou três.
Meu ferimento dói como nunca. Uma dor aguda e profunda, e sinto que algo está se mexendo. Olho para o meu peito e vejo uma pequena bola, saindo devagar e caindo no chão de terra batida. Fico de joelhos para pegar esta mini esfera, e percebo que é uma pequena bolinha de chumbo. Uma bala.
Não lembro de ser baleado, e nem de como cheguei aqui.
O ferimento sangra descomunalmente, mas não dói mais. Não tem como entender isso.
— Você merecia muito mais que apenas um tiro. — A voz sussurra no meu ouvido esquerdo. — Você merecia uma morte bem mais lenta. Muito lenta.
Minhas pernas continuam a caminhar sem rumo, apenas estou caminhando. Não consigo me lembrar nem da onde comecei a caminhar, lá atrás. Minha memória está muito fraca, e a única coisa que tenho é aquela voz sussurrando no meu ouvido. Será que cheguei a um ponto de já estar ouvindo vozes? De ver um lugar que realmente não existe, que eu posso estar apenas imaginando? Este ferimento em meu peito é real?
— É claro que é. Você morreu. Aceite isso. — A voz fala, agora em meu ouvido direito. Minhas pernas começam a caminhar cada vez mais rápido, e já estou quase correndo. A temperatura vai se amenizando, ficando agradável, e não mais aquele frio terrível.
Agora estou correndo. Para onde? Eu não sei. Apenas corro, e não sinto nenhum cansaço. Sinto um desconforto no peito e vejo que o ferimento está se fechando, e o sangramento vai parando. De repente, minhas pernas travam no ar enquanto estou correndo, e caio miseravelmente. Agora estou com os cotovelos, joelhos e antebraços esfolados, e está ardendo demais. Enquanto estou deitado no chão agonizando, vejo ao meu lado um cartão branco brilhando. Estico minha mão para pegá-lo e percebo que estou sangrando mais do que imagino. Quando pego o cartão, minha mão arde e o cartão que antes era branco agora está vermelho e todo ensanguentado.
Vejo que é uma identidade. A foto está borrada, a marca do dedo e todas as outras coisas foram apagadas, menos o nome. Apenas o nome: "Edmund Doss". Quem seria ele? Será que sou eu? Não consigo nem me lembrar do meu próprio nome.
— Sim, este é você. Que nome horrível, sua mãe tinha péssimo gosto para nomes. Espere, você tinha mãe? — A voz sussurra em meu ouvido direito, soltando uma gargalhada enorme que ecoa na minha cabeça, fazendo-a doer muito.
A risada da suposta voz ficou ecoando em minha cabeça enquanto estou aqui, atirado no chão novamente. Me levanto em um pulo automático e começo a correr, sem os meus comandos. Agora, quanto mais corro, mais parece que o ambiente esquenta, ficando cada vez mais quente, me fazendo suar.
O calor me dá uma sensação de cansaço, mas continuo correndo. Não sei como consigo correr tanto sem um gole d'água. Por que precisaria de água?
— Você nunca mais verá uma gota de água em toda a eternidade. Quando eu digo eternidade, será. — A voz volta a sussurrar em meus ouvidos. Isso é muito chato. "Pare de falar", eu penso, achando que adiantaria.
— Aqui quem dá as ordens sou eu, seu verme. — A voz grita. De repente, o clima esquenta muito mais, parecendo que o sol está na minha frente. — Você não tem o direito de falar desta forma comigo nem com ninguém, nem com sua mulher. Se arrepende do que fez, ou faria de novo?
Chega disso. Eu tento parar, mas é como se fosse o contrário. Acelero cada vez mais, e o clima vai esquentado conforme eu corro. Olho para a minha frente, e vejo que lá no fundo há uma luz alaranjada, bem distante de mim. É como se fosse uma estrela no horizonte, uma estrela laranja. O que seria ela? Uma luz no fim do túnel?
— Com certeza, não é uma luz muito boa para você.
"Como assim?", eu penso.
— Logo saberá, seu filho da puta. — A voz fala, mudando seu tom. Era um tom muito grave, como se fosse distorcida por um aplicativo.
"Por que você está fazendo isso comigo, pelo amor de Deus?", eu choraminguei mentalmente. Uma lágrima sai do meu olho quando penso esta frase, pois realmente não sei o motivo de tudo isso.
— Você realmente não consegue se lembrar, não é mesmo? Não se lembra daquele taco de beisebol? Ele era muito bonito, ainda mais ensanguentado e brilhando sob a luz daquele abajur ensanguentado em cima de seu bidê.
Esta frase faz uma imagem piscar em minha mente. Um taco de beisebol largado no chão, em cima de uma poça de sangue. De quem?
— Dela. — A voz fala, e na minha frente surge uma mulher. Paro de correr imediatamente, como sempre sem o meu comendo. Encaro-a, e vejo que está sem os olhos. Ela usava uma regata preta e uma calça jeans azul-marinho rasgada e surrada. Seu braço direito tinha uma fratura exposta no cotovelo, e sua mandíbula estava caída. Seus dedos haviam sido arrancados brutalmente, e quando vejo sua mão sinto um gosto estranho na boca.
— Você com certeza deve conhecer ela. — A voz sussurra em meu ouvido. E como um raio, a mulher aparece em minha frente me encarando fortemente. Isso realmente é desconfortável, pois ela está à alguns centímetros de mim. Ela me encara mesmo sem seus olhos, apenas com aqueles buracos negros e profundos no rosto. Agora de perto percebo que seu nariz também estava quebrado e sangrando. Ela abre sua boca, soltando um grito muito agudo e alto, fazendo minha cabeça doer novamente.
Enquanto ela grita, minhas pernas enfraquecem, e eu caio. Olho para cima, e ela está gritando ainda, olhando profundamente em meus olhos. Quando encaro-a, meus olhos se lacram, e não consigo mais abri-los. Tapo meus ouvidos para tentar amenizar o som, mas foi em vão. De repente, ouço mais gritos ao meu redor, de homens, mulheres e crianças, agonizando de dor e desespero. O calor agora está como se colocassem fogo em minhas costas. Os gritos fazem minha cabeça doer cada vez mais.
— Está gostando? — A voz me pergunta em meio da gritaria, e ela solta de novo sua gargalhada, dessa vez muito mais alta e doentia. O que está acontecendo comigo? Estou ficando louco?
— Não, não está. Você simplesmente está no Inferno, seu filho da puta. — A voz grita em meus ouvidos, e sinto o calor aumentar e minha pele sair do meu corpo. Abro meus olhos e vejo as pessoas que estavam gritando em minha volta, todas elas sofrendo de formas diferentes. Vejo minhas mãos que agora estão virando uma gosma vermelha.
Algo faz minha cabeça se virar para cima, e vejo ele, a voz em minha cabeça. Era algo não humano, uma criatura horrível e amedrontadora. Era vermelha e musculosa, e usava uma túnica longa e preta. Seu rosto era desfigurado e vermelho, com olhos totalmente negros. Sua boca ia de uma bochecha até outra, e tinha dentes pequenos e afiados o suficiente para cortar carne crua. Em sua testa, dois pequenos chifres cresciam, brancos como neve.
— Agora você é meu, Edmund. Você deveria pensar melhor antes de pegar aquele taco e fazer tudo aquilo. Agora você está aqui, em meu lar, agonizando de dor, enquanto seus novos colegas de quarto gritam de agonia. Aproveite a estadia, desgraçado. — Ele fala, e sinto um calor dentro de mim crescendo, me fazendo gritar de agonia como as outras almas penadas. Agora sou uma delas. Agora eu estou morto.
Toda as lembranças da minha vida voltam, e lembro do porquê que eu estou aqui. Lembro do taco, da poça de sangue, da minha mulher, daquele homem deitado em minha cama ao lado de minha mulher. Lembro das pancadas que dei nela, lembro da minha raiva e do meu demônio interior me fazendo cometer aqueles atos terríveis. Lembro do homem ao lado de minha mulher, completamente nu, se levantando e correndo até o sofá da sala, pegando um revólver. Lembro da bala entrando em meu peito, enquanto eu dava a última tacada no rosto dela. Consigo me lembrar quando caí no chão, olhando para a poça de sangue crescendo ao meu lado, e da poça de sangue crescendo ao lado da cama. E agora lembro da minha passagem para este lugar imundo e solitário, que logo se mostrou um lugar cheio de agonia e gritos de almas que tiveram o que mereceram, como eu. Agora sei o porquê que eu estou aqui.
Agora sei o porquê que eu estou no Inferno.
Fale com o autor