Inexorável
1 Capítulo 1
Notas iniciais
— Você deve tá maluco, bebeu muito pinga do alambique ou se drogou bastante no caminho pra cá. — Koema brincou ao ouvir o pedido absurdo do réu. — Como eu não sou da polícia, vou deixar essa passar e fingir que não ouvi o que você falou.
— Eu já me decidi. — diferente do tom jocoso do juiz, o homem respondeu com a voz firme e sem qualquer traço cômico.
— Escuta bem aqui, seu armário de dez portas. Teve sujeito que passou por aqui que fez coisas muito piores que você e recebeu punição bem mais "brandas".
— Eu esqueci da parte onde isso é problema meu.
— Não tente bancar o machão comigo, não. O castigo que você está pedindo é reservado apenas para os criminosos da mais alta periculosidade. E quando eu digo alta periculosidade, me refiro a gente que coloca o feijão por cima do arroz… em resumo: tem que fazer uma merda bem grande, daquelas que são um tronco de árvore que não descem na privada nem com reza braba.
— Eu já me decidi. Nada do que você disser vai me fazer mudar de idéia.
— Pelo amor de Deus, cara. Estamos falando de dez mil ciclos de dez mil anos de tortura sem clemência. Cem milhões de anos! Você fez merda, mas não merece isso tudo, meu jovem. Assim que você entrar lá, não tem mais volta. A punição é tão severa que sua alma vai puff! Deixar de existir e você não terá qualquer chance de reencarnar num futuro distante.
A promessa de um futuro não muito promissor onde existia apenas a dor e a desgraça, não pareceu afetar Toguro, que continuou a encarar o homem de estatura baixa que fazia seu julgamento.
Com muita paciência, Koenma esperou pelos instantes seguintes a desistência da punição pedida pelo homem. Independente de quem estivesse sendo julgado, ele deveria ser justo e aplicar a punição de acordo com os delitos praticados. O castigo que Toguro pedia, no entanto, não condizia em nada com crimes cometidos. Nenhum juiz teria coragem de chamar aquilo de justiça.
— Acredito que você não tem o dia todo para perder comigo.
Sem opções, Koenma deixou os ombros caírem em sinal de derrota. Toguro não demonstrava qualquer sinal de que iria mudar de idéia.
— Eu fiz a minha parte. Se esse é o seu desejo, eu não posso fazer nada.
O carimbou desceu como um martelo e marcou o papel branco com sua tinta escarlate, selando para sempre o destino do condenado.
— O Zé ruela, acompanhe ele. — deu a ordem ao seu assistente.
— Não é necessário. Eu sei o caminho. — Toguro deu as costas e voltou pelo mesmo caminho que entrou.
Koenma observou a figura do homem até a porta se fechar completamente. Ele manteve até o último momento a esperança de vê-lo desistir da sentença máxima que se impôs. Infelizmente, ele não o fez.
Pobre homem de coração ferido e sonhos despedaçados.
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Com as mãos seguras no bolso de sua calça, o ex-humano fez o caminho a passos firmes, com a serenidade de alguém que parecia ir em direção ao paraíso. A cabeça erguida, a boca fechada em uma linha reta e firme e queixo duro como uma rocha apontando para a frente, mostravam a convicção de um homem que não tinha qualquer dúvida que havia tomado a decisão correta.
A caminhada pela ponte de pedra era propositalmente longa, para quem quer que a atravessasse, tivesse tempo o suficiente para pensar em todos os atos que o levaram até ali.
Ele, no entanto, não tinha arrependimento algum. Os olhos castanhos escondidos pelas lentes escuras do óculos mantinham o foco à frente, no portão do que seria a sua morada pelo resto de seus dias.
À medida que seguia em frente, o céu de tons violetas, nuvens azuis e clima ameno, dava lugar a um carmesim agressivo e intimidador e de ar pesado. Mesmo para uma criatura das trevas, aquela não era uma visão animadora.
A poucos metros de seu objetivo, parou. Em seu caminho estava, talvez, o último pedaço da humanidade que ele um dia ele teve. Olhar para ela com aquela aparência jovem e cheia de vigor, era como olhar para um passado distante onde, apesar das diferenças, tudo era mais simples e eles eram felizes. Aquelas eram memórias tão distantes e tão afetivas que quase fazia seu coração de pedra se aquecer. Quase.
— Eu estou um pouco surpreso por você ter acertado para onde eu iria. — Disse conseguir mostrar surpresa alguma.
— Por que escolheu esse caminho, Toguro? — Genkai foi direto ao ponto e encarou o homem que era pelo menos duas vezes maior que ela. — Você não merece isso.
— Já tivemos essa conversa antes. Acredito que lhe dei a resposta daquela vez.
— Naquela época eu o conhecia melhor do que qualquer um. Parte de mim sabia que você faria isso, mas eu a ignorei. Eu preferi acreditar que quando a hora chegasse você faria a decisão mais correta.
— Se você já sabia a resposta, por qual motivo veio aqui?
— Porque eu ainda não consigo aceitar o que aconteceu. Kairen era forte demais pra qualquer um de nós naquela época. Não havia nada que pudéssemos fazer. Não foi sua culpa.
A artista marcial fechou os punhos com força e momentaneamente desviou o olhar. Aquele ainda era um tópico sensível para ela. Não só pelas mortes daquelas pessoas, mas também por marcar o início de quando tudo começou a dar errado em sua vida.
— Mesmo depois de mais de cinquenta anos você continua se torturando, remoendo pela morte de seus discípulos. Isso já é o bastante, Toguro. Deixe essa feira sarar. Por que você continua fazendo isso consigo mesmo? — Ela fez uma longa pausa e então sussurrou — Por que continua fazendo isso comigo?
— Você está enganada. Não foi o bastante. Você me conhece e sabe muito bem que eu sempre quis ser o mais forte. Derrotar o Kairen e renascer como um youkai foi só o começo. Depois daquilo, eu continuei a me o meu caminho para me tornar mais forte. Parando pra pensar, foi só depois que o Kairen matou meus discípulos que descobri o que é ser forte de verdade. Acho que talvez eu devesse agradecê-lo por isso.
— Seu mentiroso!
Genkai gritou de raiva. Nunca, por nenhum motivo, que ela iria agradecer ao demônio que desgraçou a vida dela e do amigo. Por um breve momento ela pensou em esmurrar a cara do antigo companheiro para tentar colocar um pouco de bom senso dentro daquela cabeça.
— Acho melhor daqui em diante você parar de se preocupar comigo e esquecer de tudo. Não há motivos para ficarmos alongando essa conversa. O inferno é o lugar mais apropriado para aqueles que jogaram tudo para o alto em troca de desejos egoístas e que não se arrependem disso.
Toguro continuou seu caminho e passou pela antiga companheira sem nem mesmo lhe dirigir um olhar, o que deixou a mulher chocada.
— Quando você revelou o desejo de se tornar um demônio — Ela começou sem se virar para ele — Eu fiquei com muita raiva. Eu sentia tanto ódio que às vezes eu achava que ia acabar matando alguém.
— Guardar rancor assim dos outros não faz bem para a saúde.
— Eu não estava com rancor de você. O ódio que eu sentia era de mim mesma. Depois daquele incidente você sumiu por três meses e quando voltou já não era mais o mesmo. Até hoje eu me arrependo por ter lhe deixado sozinho, por não ter ido atrás de você. Nós éramos companheiros, não éramos? Mais que amigos.... Talvez eu pudesse ter te ajudado… Talvez eu pudesse ter te… salvado.
— Você é muito tola se ainda está presa ao passado desse jeito. Não me decepcione desse jeito, Genkai.
— Olha quem fala.- Rebateu.
— De qualquer forma, você tem uma nova oportunidade agora. Ele vai ficar mais forte, porém, um deslize e ele pode acabar do mesmo jeito que eu.
— Mesmo depois de ter sido derrotado, ainda mostra preocupação pelo adversário. Parece que seu senso de honra nunca mudou.
— Faça o que tiver que ser feito.
— Sabe, às vezes eu pego pensando em certas coisas. Assim como você se vê no Yusuke, eu olho para ele e vejo o filho que eu poderia ter tido. Mas você tem razão. Eu sou uma tola mesmo. Ou talvez seja apenas a idade afetando a minha mente. É só que... se tivesse a oportunidade de voltar no tempo e fazer as coisas diferentes, eu faria. Eu devo estar ficando caduca pra dizer essas coisas clichês.
Antes que o ex-humano pudesse alcançar os portões, antes que ele desaparecesse para sempre, Genkai o chamou uma última vez.
— E quanto você, se conseguisse voltar aquela época, você faria algo diferente? Você deixaria eu te ajudar?
Toguro parou alguns segundos, como se estivesse pensando no que responder ou criando coragem para fazer algo. Calmamente ele retirou os óculos e se virou. Olhou diretamente nos olhos da amiga, algo que não fazia há cinquenta anos. Naquele breve instante, antes de voltar a esconder os olhos castanhos atrás das lentes escuras, Toguro se permitiu ser humano novamente uma última vez. Genkai, sua amiga mais próxima e companheira de longa data merecia isso, um presente de despedida.
— Parece que eu estou sempre lhe dando trabalho, não é? — Perguntou com um discreto sorriso complacente.
Aquela foi a última vez que se viu e ouviu Toguro, o homem de que desistiu de tudo por uma ambição e que no final não conseguiu nada.
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