Inexistência
3 Ventos da Incerteza
Notas iniciais
A incerteza vem do primeiro passo bambo. Cambaleia sobre os ombros, desequilibra o corpo, mas ainda mantém a mente forte e no topo. Nessa jogada de tentar manter-se de pé, o jogador acaba por cair. A mente estava no topo, justamente onde a queda é mais feia.
“Ainda pior do que a desilusão de um não, ou a incerteza de um talvez, é a desilusão de um quase”.
(Luiz Fernando Veríssimo)
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Ronan
Sexta-feira. E disposição nenhuma para acordar. O despertador tocava e hoje seu som era mais irritante do que os de outros dias. Apesar de ser o mesmo som, era mais irritante. Sexta-feira. Nunca imaginei que fosse um dia ruim.
Levantei-me sem vontade e vi que na cabeceira tinha um pequeno recado. “Quando acordar, vá lá embaixo falar comigo. –Edel”. Não era o melhor dia para surpresas... Nem o melhor dia para um bom humor... Mas é só uma sexta-feira, passa depois de alguns pares de horas.
Fui ao banheiro e, no espelho, vi meu rosto amargo como meu semblante atual. Não sei por que dormi tão mal, mas minha mãe estava certa: “Nunca leve problemas para o travesseiro.”. Ainda tinha isso... Contar o meu problema, contar que eu fui reprovado.
Enxaguei meu rosto e senti a agonia da água quente no calor. O clima também decidiu ficar horrível nessa pêndula sexta-feira. Não fazia calor assim há tempos. Pelo menos o meu banho estava gelado, tão prazeroso, que foi difícil abandoná-lo.
Desci as escadas tentando soltar o sorriso mais convincente, mas eu nunca convenceria a graciosa Edel, que, se não fosse cantora, com certeza seria uma psicóloga. Nada escapava dos olhos dela quando o assunto era emoções. E era justamente isso que me preocupava ultimamente.
– Nem me venha com esse sorrisinho torto. – Ela disse, colocando o café da manhã na mesa – Sente-se, por favor.
Ela tinha preparado muita coisa. Pães variados, torradas com três tipos de geléia, além de ovos mexidos com bacon e uma jarra de suco. Usou até o pano quadriculado vermelho e branco decorativo da minha mãe.
– Você sabe que somos apenas dois, não é? – Indaguei – Para que isso tudo de refeição? Não precisa me paparicar tanto.
– Seu bobo. – Ela riu – Hoje acordamos mais cedo para te fazermos um café da manhã surpresa. Já sabíamos que seu temperamento hoje não estaria muito bom, então faremos de tudo para inibir isso. Lass está no banheiro e o Sieg está estacionando a bicicleta dele.
– Aquele cara ganhou um carro zero do pai e ainda insiste em ir para a escola de bicicleta. – Disse – Nunca vou entender isso.
– A resposta é óbvia. – Ele chegou de repente – Fumaça e buzina não me dá inspiração. Meu corpo é como aquelas máquinas de roldana, precisa estar em constante atividade para criar. Não existe esforço para se andar num carro, sem contar que me tornaria um sedentário.
– Quanta coisa. – Disse Lass, que tinha retornado do banheiro – Edel, você disse que era só um simples café.
– E só porque é simples, não pode ser bonito? – Ela perguntou, rindo levemente e pedindo para os outros se sentarem.
Eu teria apreciado essa surpresa, se os fatos recentes ainda não me incomodassem. Tinha o teste... Eu carregava a certeza de que Lázaro me reprovara. E só iria para a escola justamente para confirmar essa certeza e me afundar mais ainda nessa breve depressão. Além disso, tinha que me controlar e não pensar na dama do espelho, a grande causadora das minhas incertezas.
Eu não sabia descrever. Uma visão de dois segundos foi o suficiente para mexer com todos os meus sentidos. Se eu tenho um sexto sentido, ele também foi afetado e não pode se manifestar para me socorrer. E era exatamente isso que eu não sabia descrever, o como isso era possível, o como aquilo me deixava com uma sensação errada da minha conduta.
– Ronan. – Edel me chamou, num tom que parecia que não foi a primeira convocação – Você nem tocou na sua torrada. Eu comprei geleia de amora só para você. Foi difícil de achar, sabia?
Eu ia respondê-la, mas fui interrompido por ela.
– Nem me venha com “estou sem apetite”. – Ela disse, tentando imitar minha voz – Se for assim, coma apenas uma. Não vou deixar você ficar naquela escola se destruindo internamente.
– É fácil falar. – Eu disse, silenciando o local – Vocês todos passaram. Mas eu preciso de consolo, não é? Preciso de um café da manhã mágico para não sair chorando como um bebê, não é isso?
– Ronan! – Ela exclamou, estava com raiva – Não fale isso! Eu estava planejando isso antes mesmo dos testes. Era para ser um café da manhã de última aula do período! Não nos trate como se estivéssemos zombando de você.
– Exatamente... – Lass murmurou, concordando – A vida não segue linhas retas. A sua apenas está passando por um desvio. Não maltrate Edel assim, pois ela seria a última pessoa do mundo a querer destruir os seus objetivos.
Apenas me levantei, sem dizer nada. Coloquei as mãos no bolso e retirei minhas chaves.
– Tranquem quando saírem. – Disse, saindo de casa. – Depois é só colocar a chave lá pela brecha do meu armário da escola.
Ao fundo, pude ouvir Sieg dizendo: “O que houve com ele?”. “É apenas mau humor, Ronan”, minha mente repetia para mim. Até ela queria me confortar como se eu fosse o incapacitado que precisasse de todos os cuidados para não se ferir. No entanto, os problemas são meus e eu preciso encará-los, sem consolos ou proteções.
Andar cabisbaixo não era do meu feitio, mas, já que comecei o dia fazendo coisas que não costumo, não me custaria nada continuar nesse caminho. É só um desvio, como o Lass disse. Aproveitarei um pouco da minha rebeldia para se esclarecer comigo mesmo.
Estava prestes a chegar à Academia quando eu fui surpreendido por um barulho alto de buzina e de um freio brusco. Olhei para o sinal e ele estava vermelho para os pedestres. Quase que eu fui atropelado.
– Olha a rua! – O motorista gritou, fazendo um sinal com a mão, indicando para eu atravessar logo.
Assim que entrei no colégio, logo no corredor principal, o professor Lázaro caminhava no sentido oposto ao meu. Ele me avistou, sorriu e, sem parar de caminhar, disse:
– O boletim está no mural de anúncios, como já deve saber. Tenha um bom dia e um bom recesso, já que não te darei aula hoje.
– Não tenho medo da reprovação. – Respondi, seguindo em frente.
O ser humano é capaz de mentir para tentar mostrar superioridade. De início, fiquei pensando se era melhor eu ver o resultado no fim ou no início do dia. A indecisão durou menos que três segundos, pois eu já estava de olho nos resultados.
A lista do curso de teatro estava dividida em duas colunas praticamente idênticas e repletas de nomes. Uma para os aprovados; outra, os reprovados. Não pude deixar de notar que todos os aprovados de Lázaro passaram com nota mínima e o mais importante: Eu não estava entre eles.
Lass tinha passado. Olhei a tabela do curso de vocalistas e Edel também tinha passado (com uma nota perto da máxima). Nem precisei ver Sieg, pois com certeza ele estava com nota máxima. E eu... Reprovado. Meus próximos seis meses se resumiriam em tentar de novo e rever as mesmas aulas.
Era o suficiente para mim. Como um reprovado, eu não precisava da última aula e, aproveitando, finalmente, o meu lado novato e rebelde, saí da Academia. Matar aula uma vez, uma desnecessária, aliás, não faria diferença para mim.
No caminho de volta, acabei me encontrando com os três. Eu não quis semear uma única palavra. Apenas, com um gesto, pedi as chaves para Edel, e ela as me entregou com receio, com uma sensação de que tivesse falhado na sua operação de conforto.
Eu não gostava de afetá-los com esse meu clima sombrio, mas eu estava sendo alvo dessa maldita sexta-feira. Lass me olhava com desdém, eu sei que ele estava achando que eu era um idiota por trata-los assim, ainda mais que envolvia a Edel, a mulher que jurei fidelidade, atenção e confiança. Sieg preferiu não me olhar diretamente; pelo o que eu conhecia dele, sei que ele preferia evitar, pois ele não gosta de tristeza por motivos do passado.
– Até mais... – Murmurei, de forma que, talvez, eles nem pudessem escutar.
Cheguei a casa e me joguei no sofá, abafando meu rosto sobre o travesseiro. Eu estava completamente mal. Mais um problema na minha vida, agora eu estava com fama de idiota. Eu não sabia tratar bem nem os meus próprios amigos. Minha consciência não era tão forte para isso.
Meu dia se resumiu em fitar o nada e em pensar na vida. Estranhamente, isso me acalmou; eu só precisava de um tempo para organizar os fatos na minha mente. Eu teria mais alguns segundos de paz se minha mãe não tivesse chegado. Eu teria que explicar tudo, principalmente o motivo de eu não ter comparecido a aula. Entretanto, sei, ou melhor, esperava que ela compreendesse.
Nunca vi tantas reações faciais da minha como naquela noite. Pelo menos ela me entendeu, apesar de ter ficado triste. Mãe nenhuma gosta de ver seus filhos reprovados e, assim como eles, elas acabam se esquecendo do real sentido do recomeço. Tudo terminou num abraço e numa saborosa refeição.
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Acordei no dia de sábado e o dia estava lindo, bem diferente de hoje. Minha mãe trabalhava de segunda a sábado, porém, hoje, ela estava de folga, então achei importante passar o dia com ela. Vimos televisão e ela insistiu em querer conversar sobre certos assuntos delicados, que eram desnecessários no momento. Durante nosso almoço, decidi arriscar uma coisa:
– Mãe. – Chamei-a – Quando uma pessoa se olha no espelho e enxerga outra que nunca viu na vida, isso é sinal de doença?
– Claro. – Ela respondeu – No mínimo seria uma crise de identidade. Por que a pergunta? Anda vendo o que não deve no espelho?
– Não é isso. – Respondi rapidamente, desviando-a de começar outros assuntos – É que o Sieghart escreveu um texto sobre isso e pediu minha opinião, mas eu não pude ajudar muito. Aí isso ficou na minha cabeça. – Mentir para ela era muito desagradável.
Ela suspirou.
– Meu filho, pare de se preocupar tanto assim com as coisas. – Ela disse, servindo-se com outro copo de suco – Em vez de ficar atolando sua cabeça com esses pensamentos desnecessários, você devia usar o seu recesso para manter a mente livre. – Ela deu uma pausa para consumir a bebida – E um bom jeito de começar isso é com as pessoas ao seu redor. Você já passou o dia comigo hoje, agora falta você consertar as coisas com os seus amigos.
– Mas como você descobriu?
– Ora, a Edel estava planejando aquele café há dias. – Ela explicou, fazendo-me sentir mal com aquilo – Ela deixou tudo nos trinques e, quando eu volto para casa, encontro meu filho jogado no sofá e faminto. Não tinha como não saber, ainda mais do jeito que eu te conheço.
– Farei o possível. – Disse.
Reconciliar... Então tudo o que eu tinha que fazer era concluir as incertezas da minha mente.
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Elesis
Fiquei olhando para o céu como se não existisse mais nada além dele.
–Elesis? – Olhei para a porta – Filha?
Minha mãe estava me chamando. Não respondi. Ela adentrou o quarto e sorria.
–Pensei que quando chegasse você já estivesse dormindo.
–Não... – Soltei um breve riso – Eu acordei ainda pouco. – Dei uma pausa – Pensei que fosse demorar mais.
–Foi um acidente que parou o trânsito, mas depois que o ônibus passou pelo local, veio rápido.
Minha mãe colocou a sua bolsa na minha cama e se sentou. Mesmo aparentando estar cansada – o que eu não duvidava muito –, ela continuava com o sorriso no rosto.
–Como foi o teste?
–Eu... – Suspirei e andei até a cama, mas permaneci de pé a sua frente – Eu só saberei o resultado amanhã.
–Mas você passou, né? – Ela levantou o rosto para mim.
–Não sei, mãe. – Meu tom saiu um tanto rude, como se eu estivesse impaciente. De fato, eu estava.
Ela se levantou pegando a bolsa e me deu um beijo na testa, saindo do quarto logo em seguida e deixando a porta aberta.
–Eu comprei pizza para lancharmos. – Avisou minha mãe, indo para o seu quarto.
Incrivelmente minha barriga fez um barulho assim que minha mãe falou em pizza. Era a fome se manifestando.
Desci e fui para a cozinha. Por um momento, esqueci-me de tudo e só pensava em comer aquela divindade com quatro tipos de queijo derretidos em uma massa fina.
Preparei a mesa e esperei um pouco, provavelmente minha mãe estava tomando banho. Ela apareceu uns cinco minutos depois. Cortei duas fatias e as coloquei em meu prato, depois cortei mais uma e coloquei no prato de minha mãe.
–Tem suco na geladeira. – Comunicou-me ela.
Como eu ainda não havia sentado, fui até a geladeira e a abri. Os copos já estavam postos à mesa. Enchi os dois e deixei a jarra de suco ali mesmo. Sentei-me.
–O teste foi difícil? – Pensei que minha mãe não fosse mais tocar neste assunto – Vi que você se empenhou bastante, pois hoje de manhã o seu teclado estava na cama.
–A pizza está muito boa, comprou naquele mesmo lugar de sempre? – Mudei de assunto, levando o garfo até a boca.
–Os professores foram bem rígidos? – Ela permaneceu no mesmo.
Larguei o garfo e ele acabou batendo no prato. Olhei para a minha mãe, que não mantinha contato visual comigo, olhava para a pizza.
–Vou comer no meu quarto. – Levantei-me e peguei o prato da mesa e o copo de suco.
Ela abriu a boca, mas se calou com as palavras não ditas.
Subi e fiquei no quarto, inundada de sentimentos angustiantes dentro de mim. O efeito da pizza, em me fazer esquecer tudo, estava passando. Peguei o celular e coloquei uma música qualquer para tocar. Sentei na cama e coloquei o copo no chão.
Terminei de lanchar sozinha. Levei a louça para a cozinha e a deixei na pia. Tudo já estava apagado. Voltei para o meu quarto e a porta do da minha mãe estava fechada. Fechei a minha também.
Eu não tinha sono. Tampouco tinha vontade de ficar deitada na cama. Até umas quatro da manhã fiquei acordada fazendo coisas aleatórias, só para que o tempo passasse e o sono caísse sobre mim. Por fim, cedi ao cansaço e ao tédio. Novamente não tive resquícios de sonhos.
O despertador tocou e eu acordei. Ou melhor, lutei para acordar. Meus olhos ardiam e eu não tinha muitas forças para sair da cama. Dormir tarde e acordar cedo dão nisso.
Hoje é o dia do resultado. Estou insegura. Tomei um banho gelado para despertar. Molhei o cabelo e senti um calafrio, mas foi passageiro. Arrumei-me e fui para a cozinha para tomar café. A louça estava lavada e tinha café na garrafa térmica. Minha mãe, com certeza, preparou antes de sair para o trabalho.
Assim que terminei o café da manhã, peguei minhas coisas e saí de casa. O tempo parecia estar mudando. Talvez não. Nuvens se faziam presentes no céu e formavam sombras ao ficar a frente do sol, que não demorava muito para dissipar as singelas nuvens e voltar a brilhar instintivamente.
Cheguei à escola e avistei Edel chegando junto comigo. Corri para alcançá-la.
–Ei! – Chamei – Edel!
Ela olhou para trás e cruzou os braços. Parei na sua frente.
–Pode me dizer por que não me ligou ou mandou alguma mensagem ontem? – Antes que eu respondesse, Edel ainda questionou – E o que te deu para sair daquele jeito?
–Eu não estava me sentindo bem.
Edel parecia esperar por mais explicações da minha parte.
–E... – Olhei para qualquer ponto da rua – Estava nervosa com o resultado. Queria ficar sozinha.
Ela balançou a cabeça e desfez os braços.
–Tudo bem. Só... – Edel deu uma pausa – Não sai mais assim, sem falar nada comigo. Eu fiquei preocupada.
Olhei para ela.
–Desculpa.
Ficamos um tempo trocando olhares, o que gerou um desconforto. Pigarreei.
–Vamos entrar? – Perguntei.
Edel segurou a minha mão e me puxou para dentro da escola. O mural de avisos, que fica logo na entrada, estava tumultuado.
Vi algumas expressões de felicidade, outras de decepção. Algumas nem dava para distinguir o que a pessoa sentia. Lass era uma dessas pessoas inexpressivas. Ele terminou de ver a lista dos aprovados/reprovados e passou por nós.
–Conseguiu, Lass? – Perguntou Edel.
Ele desviou o olhar para o entrelaçamento da minha mão com a de Edel e depois me olhou. Senti minhas mãos suarem. Era o calor, eu acho.
–O primeiro período é muito simples. Não tinha muito com o que me preocupar. – Disse Lass.
Edel novamente me puxou e passamos por algumas pessoas que estavam no caminho. Olhei para trás e Lass continuava inerte.
Paramos em frente ao mural. Meu coração palpitava forte e chegava a machucar. Aquela agonia avassaladora estava me dando nos nervos. Minha garganta ficou seca. Deixei que Edel visse seu resultado primeiro. Uns segundos depois de ela percorrer os olhos no papel, Edel me abraçou, soltando minha mão.
–Eu passei! – Sua felicidade foi contagiosa e eu sorri.
–Então você ganhou um mês de lanche aqui na escola, né? – Perguntei, afastando-me dela.
–É isso aí. Vou aproveitar o dinheiro que iria gastar e pagar o que estou te devendo.
–Não precisa.
–Ai, que bom. – Ela riu.
Edel sorria orgulhosa de ter passado. O meu sorriso já havia desaparecido. Ainda precisava ver o meu resultado. Olhei para o papel no mural. Minha mente estava absorta.
–Elesis. – Não me desconcentrei, mesmo que alguém tenha me chamado – Elesis. – Insistiu.
Senti uma mão em meu ombro e uma força razoável me puxar e me virar.
–O que você quer? Preciso ver se passei ou não.
–Escute-me primeiro. – Disse Lass. Olhei rapidamente para Edel e ela parecia surpresa com a ação dele. Voltei para o Lass.
–Anda. Diz logo.
–Se você quiser a minha ajuda para melhorar seu seguimento, eu não hesitarei em aceitar.
–Por que está dizendo isso? Por acaso você viu o meu resultado? – Tentei não elevar o tom de voz, afinal, ainda tinha muita gente ao meu redor.
–Não. – Lass foi direto – Eu só não quero que pense que, independente de ter passado ou não, eu deixarei de te ajudar. Gosto do jeito que toca e sei que você pode progredir muito.
–Conhecemo-nos não faz nem uma semana direito. – Disse já impaciente – Não acha que está se precipitando?
Ele ficou em silêncio.
–Tem algum interesse pessoal com a Elesis, Lass? – Edel perguntou de um jeito malicioso. Fiquei quieta por um tempo. Nem mesmo olhei para Lass depois do que Edel questionou.
Lass fechou mais ainda o seu semblante.
–Caso queira continuar, estarei na sala depois do término da minha aula. – Depois do aviso, ele se retirou sem mais palavras.
Edel ficou me olhando.
–Não acredito que você estava dando confiança para esse garoto, pensei que estavam praticando piano. – Disse Edel, com sarcasmo.
Revirei os olhos e resolvi não responder. Nessa pequena discussão, eu acabei deixando que alguns alunos ficassem na minha frente, dificultando minha visão. Dei uns empurrões em alguns e tomei a frente.
Vi meu nome e “REPROVADA” ao lado. Saí daquela multidão e fui para os corredores das salas.
–Elesis? – Edel ficou ao meu lado e eu parei.
–Por um deslize mínimo eu não consegui, sabe como eu me sinto?
–Não desanima, não. – A voz dela era tão doce e confortante, que não consegui ter raiva – Relaxa um pouco. Aproveita que teremos um recesso e não pensa nisso. Depois terão outros testes.
Respirei fundo. Edel tinha razão. Não tinha cabimento eu me estressar ou ficar me remoendo, não mudaria em nada no resultado.
–Já começou a minha aula, no intervalo conversamos mais, ok?
Eu assenti positivamente. Edel ameaçou me abraçar mais uma vez, mas recuou e foi para a sua sala. Fiz o mesmo.
Como de costume, entrei na sala e a Mônica já estava lá.
–Viu seu resultado, Elesis? – Perguntou ela.
Sentei-me na banqueta e vi a partitura. Era uma composição de Igor Stravinsky. Só havia tocado uma única música dele, Pulcinella. Não o conhecia muito bem. Foi um pouco desastroso, mas eu me virei. Afinal, foi uma peça com acompanhamento de Violino. Não foi uma apresentação formal.
Encerrei meus pensamentos.
–Não passei. – Respondi, encarando a marca do piano.
–Sieghart conversou comigo sobre a sua falha. – Ela se sentou na ponta da banqueta do outro piano, havia uma pasta ali – Ele também disse que esperava que você conseguisse passar de período, assim ficaria mais perto de chegar à turma dele.
–Mas isso não aconteceu. – Queria terminar logo com aquele assunto tortuoso.
–Felizmente. – Ela se levantou e eu a olhei ceticamente – Digo isso porque sei que você ainda não estava preparada. – Mônica deu uma pausa suficiente para que eu me reestabelecesse – Nós duas falhamos, porém isso não irá se repetir. Depois do recesso, irei aprofundar suas técnicas e seu conhecimento para os testes futuros. Hoje iremos apenas ver como você reage a uma peça nova.
Mônica pegou uma pasta que estava atrás dela. Retirou mais algumas partituras.
–Iremos trabalhar duro, mocinha.
–Terei de aprender isso tudo?! – Perguntei um tanto surpresa com a quantidade.
–Pelo menos umas cinco peças. Deixarei a sua escolha. Quero ver em quais você tem mais facilidade. Por ora, escolhi sua primeira obra.
Olhei novamente para a minha partitura.
–Eu não preciso estudar durante o recesso, preciso? – Nunca torci tanto para levar um “não” como agora.
–Fica ao seu critério.
Para não me aborrecer com a resposta de Mônica, comecei a tocar. Era um tanto complicado começar uma peça nova, mas, sabendo bem as notas, já dava para ter um bom começo. Ou quase isso.
–É uma música de Stravinsky, Les Cinq Doigts. – Parei. Tentei não rir do nome, a pronúncia era engraçada, mas se eu risse da Mônica, ela me daria uma bronca e mandaria que eu aprendesse todas as peças que estavam em sua pasta. Ela continuou e eu a observei – É uma composição especialmente para piano, de 1921. Uma obra de “8 mélodies très faciles sur 5 notes.”
Achei desnecessária a frase ser dita em francês. Mônica me encarou como se fosse um pecado da minha parte não saber o que aquilo significava. O pior de tudo foi que ela disse rápido, como se estivesse conversando com uma francesa nata.
–Oito melodias muito fáceis em cinco notas, Elesis, entendeu?
–Sabe me dizer o porquê disso, então?
Sabe quando a sua respiração para? Isso aconteceu comigo.
–Eu preciso mesmo justificar?
–Você disse que havia entendido, mostre-me.
–Mas...
–Anda, Elesis, não temos o tempo todo e você só tocou o início da peça.
Minha manhã não fora a melhor da minha vida e eu ainda tinha que ouvir chiliques de uma professora mal humorada.
–Ah... Deve ser porque... A obra é fácil e... – Respirei fundo – Esse Igor Stran... Stra... O Igor, com toda certeza, não precisou encarar a decepção em não passar no primeiro período. Então compôs uma peça de oito melodias em cinco notas.
–Talvez ele tenha conseguido passar por ter se esforçado mais do que certas pessoas.
Silenciei-me. Era só uma brincadeira, afinal, não creio que Igor tenha passado pelo que passei, mas a professora levou para o lado sério. Então mudei meu semblante e mantive a seriedade com a qual adentrei a sala.
–Toque.
Enquanto eu começava, com um tom suave, como se fosse uma canção de ninar, Mônica continuou a explicação correta.
–Essa obra de Igor Stravinsky – Mônica pronunciava aquele sobrenome russo com tanta facilidade, que chegada a dar inveja – é uma composição de oito peças curtas, em que você – Virei a página da partitura para a segunda peça, enquanto a professora continuava falando – usa a mão direita para alcançar cinco notas.
A melodia da segunda peça era mais alegre. Mas continuava no mundo infantil, como parecia ser as oito melodias. As notas eram realmente fáceis.
–Perceba que mal precisa mudar as posições no teclado – Disse Mônica e eu mudei a minha visão para a outra página. Terceira peça.
–Alegratto, certo? — Perguntei, gostava daquela melodia mais agitada, porém moderada. Com mais liberdade num tom entusiasmado.
Mônica balançou a cabeça e deu um sorriso satisfatório, porém breve.
Terminei as oito peças. Era incrível a manha que Igor tinha em compor diferentes tons. Do Moderato ao Lento... Era fascinante cada harmonia.
–Adorei a facilidade dessa obra.
–Qualquer criança gosta.
Entreabri os lábios. Essa doeu. Como se já não bastasse o terremoto que o teste me causou, a professora abalou mais ainda meu estado psicológico. Senti-me humilhada, mas não demonstrei. Pelo menos tentei ao máximo.
Mônica tinha essa mania de se sentir melhor quando vê seu aluno ceder às suas críticas. Ela acha que isso melhora o desempenho do mesmo. Eu ainda não estou vendo isso. Mas muitos dizem, até mesmo Sieghart, que os resultados futuros são excelentes.
Ou eu não tive muita sorte ou minha hora ainda não chegou. Um silêncio se instalou entre nós por um tempo.
Mônica pegou as partituras e me deu.
–Escolha cinco. – Exigiu ela.
Passei o olho rápido pelas folhas e só via os nomes.
–Villa Lobos, — Comecei – Joseph-Maurice Ravel, – Passei mais algumas folhas – Beethoven, hum... Mozart e, por fim, – Nem terminei de ver o restante das folhas — Johann Sebastian Bach.
–Bach?! – Mônica disse num tom bem surpreso – Você está preparada para Bach?
–Se o colocou na lista da minha escolha, é porque sabe que posso tocar.
–Mas não esperei que fosse escolher, afinal, não é de primeiro período.
–Então por que estava na lista?
–Queria ver até onde sua ambição em melhorar iria. Confesso que estou surpresa.
–Gosto de desafios, professora.
Devolvi o restante das partituras e fiquei apenas com as minhas escolhas.
–Quero que toque Stravinsky quando voltar do intervalo. – Disse Mônica. Assenti em resposta.
Levantei-me e saí da sala. Passei pela do Lass e, pela pequena janela de vidro que tinha no meio da porta, em vertical, deu para vê-lo tocando de sua forma enigmática.
–Ei!
Olhei para trás num impulso. Era Sieghart. Corri os olhos para outras pessoas que estavam no corredor e elas esperavam que o professor revelasse quem ele havia chamado.
Com um sorriso humorado no rosto, ele se dirigiu à minha direção.
–Quer falar comigo? – Perguntei o mais óbvio.
–É mais um convite, Elesis.
–E o que seria? – Olhei para o lado e Lass continuava a sua aula, depois voltei para Sieg.
–Você não teve um teste muito promissor. – Começou ele. Deveria ter uma placa perto de mim dizendo que eu não queria mais tocar naquele assunto – Por mais que o primeiro período seja ridiculamente fácil – Ele estava piorando a minha autoestima –, ainda há aqueles que não se sentem confortáveis e acabam tendo um erro mínimo, como o seu caso. Mas erros, por menores que sejam, não passam despercebidos.
Suspirei. Afastei-me um pouco da sala e fui para o meu do corredor. Sieghart me acompanhou.
–O que o senhor sugere? Que eu passe o dia todo praticando nessas férias?
Ele pensou um pouco e me encarou.
–Não é uma má ideia.
Reprovei o que ele disse, balançando a cabeça. Sieg riu.
–Haverá uma caravana daqui da escola que ficará três dias num resort. Irão muitos alunos e professores. – Sieghart não pôde deixar de esbanjar sua satisfação – O que acha?
–Acho que isso seria muito bom e será muito caro. Estou vendo que a ideia de ficar em casa praticando não será tão ruim.
–Veja bem, Elesis, se empenhar numa coisa é muito bom, mas tem limite. Não seja excessiva. Isso acaba atrapalhando. Relaxe um pouco. Você precisa esvaziar sua mente, não falo isso para que você se torne tipo um Buda, mas tocar com turbilhões de pensamentos na mente não ajuda muito.
–Sim, mas... A viagem continua sendo cara.
–Haverá um desconto para alunos. – Sieghart me olhou como se essa informação já havia sido passada para todos.
Pensei um pouco. Não seria muito conveniente pedir para a minha mãe depois de tê-la deixado sozinha na noite passada.
–Verei o que dá para fazer.
–Seria bom que fosse. – Sieghart sorriu com os lábios fechados e passou por mim.
Seria bom mesmo... Um lugar cheio de piscina e a praia a poucos quilômetros de distância. Ar puro. Um pouco de paz.
Virei-me novamente com o professor de Lass abrindo a porta. Não fiquei ali para o caso de Lass vir falar comigo e segui para a lanchonete. Quando cheguei, vi Edel acenando, já estava sentada à mesa.
Aproximei-me dela com passos apressados, como se tivesse alguém me perseguindo.
–Está se sentindo melhor agora? – Edel questionou assim que cheguei à mesa.
Puxei a cadeira e me sentei. Olhei para ela.
–Você vai para o passeio de três dias? – Mudei o assunto. Nada melhor do que não lembrar algo que nos perturba.
Edel se remexeu na cadeira.
–Já tinha comentado com a minha mãe sobre isso. – Ela respondeu.
–Já? – Depois da minha pergunta, fiquei em silêncio.
Edel riu de mim. Eu havia esquecido totalmente do aviso que estava no mural. Era a foto do local, com todas as piscinas, persuadindo os alunos e professores nesse calor. Tinha o dia e a hora e o pedido da autorização. Minha mente ficou tão ligada em outras coisas, que eu não havia me tocado no passeio do recesso.
–Você vai, né?
–Edel... Eu nem perguntei à minha mãe. Provavelmente...
–Você vai.
–Como assim eu vou? Onde você acha que irei arrumar dinheiro e...
–Você vai, Elesis. Damos um jeito.
–Tudo bem, senhorita-interrompe-minhas-frases.
Edel deu uma gargalhada rápida. O menino da lanchonete apareceu com uma bandeja. Havia dois lanches.
–Tomei a liberdade de comprar o seu. – Disse Edel, pegando o prato da bandeja e colocando o meu a minha frente – Achei que fosse uma forma de pagar o que estava te devendo.
–Já disse que não precisa.
–Eu sei. Só pagarei esse mesmo. Já está ótimo.
Dei um risinho abafado e virei o rosto. Edel terminou de pegar as coisas.
–Ele grudou na gente. – Comentou, com a boca cheia.
Voltei a olhá-la. Realmente Lass estava vindo em nossa direção. Mas preferi não fazer comentários, ele já estava bem perto.
–Vocês irão para o passeio?
–Respira primeiro, depois sai disparando perguntas. – Disse, sem encará-lo.
Lass suspirou e puxou a cadeira para se sentar.
–Iremos, sim. – Respondeu Edel, voltando a comer o hambúrguer. Eu nem tinha tocado no meu ainda.
Balancei a cabeça. Como eu iria? Com ou sem desconto, não daria para resolver tudo em um dia. Eu fui idiota em ter me esquecido do recesso e da proposta da escola.
–Não dará para mim.
–Elesis, na matrícula, já estava incluído esse passeio, por isso você havia perguntado sobre o valor ser um pouco maior do que o original. Sua mãe, com certeza, veio aqui na escola e se informou de tudo. – Edel levou o indicador até minha testa e empurrou minha cabeça para trás. Foi tão rápido, que nem desviei – Burrinha. – E ainda fui insultada – Eu só não comentei nada, porque, naquele dia, eu também nem me lembrava disso.
Ela voltou a comer. Decidi comer também. Lass permanecia quieto. Até o momento em que meu pensamento se silenciou também.
–Vai querer a aula extra? – Perguntou ele.
–Viu, Elesis? – Edel deu uma pausa – Ele respirou primeiro e depois disparou a pergunta.
Olhei para o Lass.
–Pode ser para depois do recesso?
Ele balançou a cabeça, num sinal positivo. Eu não iria aceitar. Mas o que custa? Estou aprimorando o meu desempenho. E, também, Sieghart quem o me indicou. Ele sabe o que faz.
O silêncio se fez presente. Lass não comeu nada durante o intervalo. Durante a conversa aleatória que tivemos, Edel e eu terminamos de lanchar sem perceber, tanto que o menino que trouxe o lanche, buscara o mesmo.
Deu a hora de voltarmos para a aula. Despedi-me de Edel e segui em silêncio com o Lass. Antes de ele parar em frente à porta da sua sala, perguntei:
–Você vai?
–Sim. – Ele abriu a porta – Sieghart sabe como convencer alguém. – E entrou sem ao menos se despedir.
Fui para a minha sala e a Mônica não estava lá. Verifiquei bem o local. Nada. Estranhei.
–Mas é claro que ele vai, duvido que perca essa oportunidade, Sieg. – A professora abriu a porta e sorria de uma forma que eu nunca havia visto.
Como eu peguei o assunto no final, fiquei apenas observando. Mônica acenou para fora. Com certeza foi para o professor Sieghart, pois ouvi a risada dele.
Mônica entrou e fechou a porta, fechando o semblante também. Sentei-me na banqueta e toquei novamente a peça antes do intervalo.
A professora me dispensou logo que eu toquei pela segunda vez. Fiquei surpresa, porém não perguntei o motivo de sair cedo. Só de sair antes do horário já me deixara um pouco mais animada.
Eu não fui a única. Muita gente já estava no corredor, preparando as mochilas nas costas e seguindo em direção à saída.
Andei até a saída seguindo o pessoal. Encontrei Edel conversando com a turma dela. Preferi não incomodar e segui para a minha casa. Como tinha uma multidão no portão da saída, Edel nem me viu.
No caminho, vi a mochila preta que parecia ter só vento dentro a minha frente. Lass. Ele parou e se agachou. Pensei em parar também, só assim eu não passaria por ele e teria que agir de forma sutil e dar um sorriso ou falar um simples “oi”. Mas isso também seria ridículo. Por que eu o evitava?
Continuei meu trajeto. Passei por ele, mas Lass manteve a cabeça abaixada. Estava amarrando o tênis.
Virei à esquina.
–Até domingo. – Olhei para trás e Lass estava atravessando a rua. Sorri como resposta. Foi espontâneo.
Cheguei a casa e minha mãe já havia chegado também. Não trocamos muitas palavras. Subi e tomei um banho. Por um momento deixei de pensar. Minha mente estava vazia. Era apenas o som da água. Naquele instante parecia que nada importava. Nem mesmo o fato de eu ter ficado reprovada no primeiro período. Absolutamente nada.
Minha mãe me chamou para jantar. Não recusei. Arrumei-me com a roupa de dormir e desci. Jantamos em silêncio. Meias palavras foram trocadas. Quando eu terminei de comer que minha mãe retomou o assunto de ontem.
–Não precisa esconder de mim o resultado, filha.
Coloquei o prato na pia.
–Você já sabe? – Indaguei.
–Você ainda não me contou.
Virei-me para ela e minha mãe tinha um sorriso fraco no rosto. Olhei para o chão.
–Tudo bem se não quiser me contar, eu entendo. Deixamos o assunto para quando você voltar do passeio.
Voltei a olhá-la. Como eu poderia ter esquecido isso?
–Pode deixar que eu limpo a louça.
Fui para o meu quarto. É incrível como as mães têm esse dom de nos entender apenas com o olhar. Minha mãe é do tipo que gosta de saber de tudo o que acontece comigo, mas ela também sabe como eu fico quando prefiro não comentar sobe certos assuntos. Também acho que ela já assimilou que eu não consegui passar e só está adiando a confirmação porque sabe o quanto isso deve me machucar.
Deitei na cama e o sono não tardou a chegar.
Acordei com um sábado nublado. Passei o dia todo vendo filme. Nem toquei nas partituras que eu havia escolhido. Minha mãe passou o dia em casa, era o sábado de folga dela. Ela reclamou umas duas vezes para que eu arrumasse minhas coisas para levar ao Resort. Eu também reclamei que ela deveria parar de me apressar. E ficamos assim, nessas reclamações sem fim.
Nem vi o tempo passar. Só fui perceber que já era noite, quando minha mãe falou que já era a milésima vez que ela me pedia para ajeitar a mochila para amanhã. Resolvi não contradizê-la e subi para meu quarto. Ela ficou vendo a novela que passava. Tenho quase certeza que esse foi um dos motivos para minha mãe me tirar da frente da TV e me mandar preparar minhas coisas.
Minha mochila já estava em cima da cama. Abri o armário de me deparei com o teclado.
–Três dias sem tocar... – Murmurei. Deixei o silêncio dominar o quarto enquanto minha mente estava barulhenta demais para eu pensar em algo racional.
Movi-me de forma automática. Peguei algumas peças de roupas confortáveis. Demorei um pouco para decidir se levava maiô ou biquíni. Optei pelos dois. Quando me dei conta, a mochila já estava cheio e eu ainda nem tinha posto a toalha, nem o protetor solar.
Fechei a mochila quando coloquei tudo o que faltava e a deixei em um canto perto da cama. Dei uma rápida olhada pela janela e a noite estava com o céu negro sem estrelas.
–Isso não pode interferir no passeio. Ainda mais porque eu vou. – Disse só para eu mesma rir da ironia do tempo. Fez sol a semana toda em que estive tensa e muda do nada quando estou prestes a relaxar.
Fui tomar um banho e depois me deitei na cama. Mesmo sem eu ter feito nada hoje, me senti cansada o bastante para acabar dormindo cedo.
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"Teria maior confiança no desempenho de um homem que espera ter uma grande recompensa do que no daquele que já a recebeu."
(Voltaire)
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