Inexistência

1 Inóspita Fronteira


Difícil mesmo é compreender o que se guarda em conceitos alternativos. Nunca se está sozinho e nunca se estará. Creditar o amor é complicado; é ilusório, é buscar-se além da própria consciência. No mesmo cômodo ou no outro do lado do mundo, palmos ou quilômetros não destroem essa ligação. Sentir-se alinhado e completo com outro ser. A graça é que dá a impressão de que ele nem existe.

“A ausência só mata o amor quando ele já está doente do dia da partida.”

(Condessa Diane)


Ronan

Ela era incrível. Sua voz firme acertava cada nota com uma perfeição jamais encontrada. Apreciar sua voz era algo que eu não cansava de fazer. Cristalina como seus olhos, sua voz encantava o local e, enchendo-nos de sentimentos, realizou o grande final.

Todo o auditório (que apesar de não estar lotado, continha um número considerável de pessoas) aplaudiu, inclusive eu. Realmente foi uma apresentação incrível. A dona da vívida voz desceu do palco e eu fui acompanha-la.

- Foi incrível, Edel. – Elogiei – Você sempre se supera a cada apresentação.

- Assim que sempre deve ser. – Ela respondeu – Afinal, meu esforço não deve ser em vão. Com essa apresentação, tenho certeza que passo para o próximo período. Ninguém resiste ao Suicido, de Ponchielli. E como foi seu teste? Atuou bem, não é?

- Você foi uma verdadeira Maria Callas. – Disse, enquanto segurava sua mão. – O tutor teve um contratempo. O teste foi remarcado para daqui a uma hora.

- Independente do horário, eu sei que você conseguirá fácil. – Ela acariciou o meu rosto – Afinal, você é o melhor ator dessa academia. Um gênio.

- Nada disso. Apenas sou esforçado como você. – Assim eu a beijei.

Seus lábios finos e melódicos possuíam um ritmo único com os meus.

- O que você pretende encenar? – Ela perguntou, apoiando-se em meu ombro.

Eu fiz uma pose engraçada e, modificando minha voz, disse:

- Ser ou não ser... – Aquilo realmente foi cômico – Eis a questão!

- Você é muito bobo. – Ela me deu um tapa leve. – O teste do Sieghart não é agora?

- Aceita ir comigo? – Fui o mais nobre possível.

- Tudo bem, cavalheiro, eu vou com você. – Ela disse – Só preciso aguardar o resultado. Deve sair em alguns segundos.

- Senhorita Frost. – A turora dela, Karla, a chamou e Edel me olhou com confiança.

Karla era uma linda professora. Era experiente, porém bem nova, pois ainda não tinha chegado na casa dos trinta. Tinha a voz mais magistral dessa academia e eu entendia o porquê de ela ter chegado tão rápido ao cargo de professora. Ela tinha cabelos longos e castanhos claros, juntamente com os olhos mel que a encantavam ainda mais.

Eu não estava com medo dos testes, até porque tinha ensaiado muito para isso, mas eu não gosto de quando as coisas se adiam. O auditório, atualmente, estava com um lugar para choros e sorrisos; aprovações e reprovações. Uma aluna se apresentava no momento e eu acho que ela tinha grandes chances de falhar.

- Vamos! – Ela exclamou, puxando-me pela mão. Ela tinha passado e estava feliz. – Quero ver o que o Sieghart inventará dessa vez.

Caminhamos até a sala de pintura e vimos uma multidão por lá. Com certeza era mais uma das loucuras artísticas de Sieghart. Ele tinha uma mania estranha de pintar com os olhos fechados e de uma maneira rebelde; o pior de tudo é que isso dava resultados incríveis. Mas o engraçado é que ele recitava frases ao vento enquanto pintava.

- Que tuas velas me iluminem e desfaçam meu turvo ser... – Sieg recitava, enquanto pincelava violentamente sobre a tela.

Aquilo sempre atraía a atenção do público. Os professores ficavam pasmos com o talento que aquele garoto tinha. No meio da multidão, Edel e eu encontramos Lass, que olhava tudo com aquilo sem expressar muitas reações.

- Esse teste atraiu mais gente do que o do período passado. – Ele comentou ao perceber nossa presença – E ele não abre os olhos de forma alguma...

- Deixe que tuas lágrimas evaporem e sequem junto com a minha alma... – Ele suspirou, dando uma rápida pausa.

Mais alguns minutos assim foram necessários para que ele parasse e abrisse os olhos. A expressão cínica dele de como se ele não soubesse o que havia acontecido. O resultado: Um rio. Um rio que fazia chuva de cabeça para baixo, com grandes montanhas ao fundo. Como ele conseguia aquilo?

- Parabéns, Sieghart. – O tutor dele, Lucas, disse – Outra obra incrível. Você está apto para o próximo período.

Lucas já tinha seus quarenta e um anos. Ele tinha cabelos grisalhos e algumas feições de idade no rosto, além de usar um par de óculos. Tinha olhos negros e a pele morena. Ele já foi um dos mais consagrados pintores da Academia, mas decidiu parar de fazer tanto sucesso e seguir como professor, para, assim, criar novos sucessos.

- Não está lá tão perfeita... – Ele começou a criticar a própria obra – Olha esse desfoque nas montanhas. E esse azul sem tonalidade? Eu tenho que prestar mais atenção nisso e... Ah, eu passei! – Ele começou a comemorar do nada.

A multidão foi se esvaziando aos poucos com seus comentários, uns invejosos e outros de extremo respeito. Lass ficou parado com os braços cruzados. O talento dele era algo que nunca se viu antes. Apesar de existirem relatos de pinturas cegas, o resultado das dele eram surreais; inacreditáveis.

- Aqueles versos eu não conhecia. – Comentei, aproximando-se dele. – Você costuma recitar autores famosos enquanto pinta.

- Ronan! – Ele exclamou alegremente; como o Lass disse, ele se importa muito com a presença dos amigos – Quando eu comecei você não estava aqui, então achei que não viria. Sobre as frases, estou começando a fazer uns esboços como escritor. Apesar de eu ser do curso de pintura, eu vou começar na Literatura também, não é ótimo?

- Você vai dar conta disso tudo? – Eu mal conseguia tempo para estudar para Atuação – Vai ficar muito pesado para a sua carga horária.

- É só eu fechar os olhos e deixar minha mente levar... – Ele olhou para Edel – Sua apresentação de Suicido foi ótima.

- Como você ouviu? – Ela ficou envergonhada.

- Você sabe que aqui não é longe do auditório e você canta bem alto. – Sieghart pegou sua pintura. – Meu armário já está bem cheio... Lass, pode colocar essa pintura no seu só enquanto eu arranjo um espaço?

- Tudo bem. – Lass confirmou.

- Daqui a pouco, no auditório do curso de teatro, serão vocês dois. – Sieg deu uma risada amigável – Eu já consigo enxergar o drama, sentir a incerteza, prever o nervosismo e esclarecer os talentos.

- Ele consegue ser poético até falando... – Edel sussurrou para mim.

Para esperar os exames do curso de atuação, decidimos ir para o refeitório, onde Edel e Sieg aproveitaram para se alimentar. Lass e eu não gostávamos de comer antes de apresentações, então só acompanhamos.

- E esse fim de semana que não chega nunca... – Sieg reclamava. Era estranho ele possuir todo aquele talento e agir como um adolescente rebelde sem cultura. – E as férias? Quando foi a última vez que eu dormir até tarde? Nem lembro mais.

- É muito fofo ver que os dois estão sérios, mas, no fundo, estão se roendo de medo. – Edel comentou, dando uma risada leve. – Deixem-se levar; não é necessária toda essa preocupação. Vocês possuem talento, portanto, irão conseguir.

- Talvez porque seja o primeiro teste, afinal, ainda estamos no primeiro período. – Comentei e Lass nem se manifestou a respeito disso. – E ainda tem o fato do professor Ricardo ser bem exigente.

Não era nervosismo; era só inexperiência, nada que não se pode superar. O tempo passou muito rápido, olhei para o meu relógio e faltavam apenas quinze minutos para a apresentação.

- Preciso ir ao banheiro. – Disse, levantando-me da cadeira.

Fui rápido para evitar qualquer tipo de comentários. Talvez eu estivesse nervoso mesmo.

Entrei no local e estava vazio, até entendo, pois, nessa hora, quase todos já cumpriram seus testes e estavam confortáveis em suas respectivas casas. Fui até a pia e molhei um pouco o meu rosto e a temperatura da água entrou em choque com a minha, gerando, assim, uma calma pelo menos temporária.

O vidro estava embaçado, então eu passei a mão de leve para que ele voltasse ao normal.

Um rosto diferente apareceu por um período de dois segundos. Não era eu, mas uma menina de cabelos vermelhos. Eu pisquei e olhei atentamente de novo, mas minha imagem já tinha retornado. Eu devia estar ficando louco.

- Ronan, o professor chegou mais cedo. – Lass apareceu e notou minha preocupação. – Aconteceu alguma coisa?

-Não... – Menti.

Eu devia estar ficando louco mesmo.

Mas eu vi aquela dama.

~~~

Elesis

Como se não houvesse fronteira, a música ultrapassava o concreto e invadia a minha sala. Num tom melódico e suave, sem agredir qualquer nota, eu ouvi... O mais encantador som que me levava a imaginar...”.

-Elesis! – Já era a terceira ou quarta vez que a professora me chamava. Eu simplesmente havia me perdido naquela música – Preste mais atenção na aula. – Ela deu uma pausa. A professora já era uma senhora com seus quarenta e poucos anos. Não aparentava ser mais velha que sua idade condizia e vestia-se de forma sofisticada – Toque a Balada número 1, em Sol menor, Opus 23, de Chopin.

Ela andou até o piano que estava ao lado do meu e tirou a partitura de lá, trocando com o que eu estava usando. Havia dois pianos na sala. Eu estava sentada no que ficava próximo à porta. Assim dava para ouvir quase nitidamente aquele lindo som.

Ouvi um barulho grave e olhei para o teclado do piano. Minha professora havia batido com a palma da mão nas notas mais graves e altas.

-Toque. – Disse ela, num tom exigente.

Comecei a deslizar as mãos do som grave para o suave. Dando uma ligeira pausa entre essa passagem. Voltando a tocar com um tom crescente.

-Pare.

Continuei a tocar. Estava entrando na obra de Chopin, entrando em sua primeira Balada como se eu lesse um poema. Com rimas perfeitamente claras e ricas. Sem deixar que o som se tornasse enjoativo.

-Você precisa ser mais delicada e ir lentamente na primeira passagem. – Parei e ouvi o que a professora tinha para falar. Ela caminhou até o segundo piano e sentou-se. Começou a tocar como havia me explicado. Era de tamanha perfeição que causava inveja. – Depois a música toma um rumo diferente e começa a se elevar num ritmo mais acelerado. – E assim ela seguiu tocando, movendo as mãos com maestria. Seus dedos pipocavam nas teclas.

-Eu preciso estudar mais a primeira passagem da partitura, certo?

A professora parou.

-Não, – olhou seriamente para mim – precisa estuda-la por completo. Os seus testes são daqui a dois dias e você está cometendo os mesmos erros. – Ela se levantou – Começando pela sua postura, que já cansei de falar.

Ajeitei-me na banqueta. Eu sabia que tinha que aperfeiçoar mais meu desempenho, afinal, eu estava próxima demais dos testes para o próximo período. Mas a exigência da professora me incomodava. Não era de o meu feitio receber ordens, por mais necessárias que fossem. Isso me desconcentrava.

Aproximei minhas mãos até o piano novamente.

-Espere. Vamos dar um intervalo de trinta minutos, tudo bem? Assim você relaxa mais. Teremos o dia todo pela frente para você melhorar sua performance.

Não disse nada, apenas me levantei.

-“Ela poderia ter dito isso antes de reclamar da minha postura.” – Pensei um tanto intrigada.

Saí da sala. O corredor estava razoável, eu mal conhecia as pessoas que estavam ali. Parei minha caminhada ao ver que a porta a minha frente fora aberta.

-Lass, você me surpreendeu hoje. Tocar Schumann daquela forma foi inesperado, você está mesmo preparado para os testes. – Disse um dos professores da escola, que saía com um aluno. Seria ele quem estava tocando Papillons? Pois é um piano solo de Schumann, pensei.

Esperei que eles passassem por mim, mas ficaram inertes. O que resultou no meu constrangimento em parar perto deles.

Olhei para o tal aluno. Era difícil imaginá-lo tocando algo tão romântico e melancólico como Robert Schumann.

-Oh, perdão. – O professor se desculpou, talvez por perceber que parara bem onde eu queria passar. Ele deu espaço e eu nem ao menos me movi.

-Ela é a sua aluna? – Perguntou Lass.

-Não. – Respondi. Não sabendo o porquê de ainda estar ali – Estou num intervalo. Sou aluna da professora Mônica.

-Ah, sim. Você é a aluna que não tem postura e não entende os limites de uma pausa ou de uma aceleração. – Riu o professor.

Eu não sabia como reagir depois dessa. Como eu poderia imaginar que a minha professora anda me difamando para seus colegas de profissão?

Respirei fundo e soltei um breve riso falso. Tentei nem manter contato visual com o tal Lass.

-Com licença. – Dito essas palavras, desviei-me deles e segui adiante. Meu rosto estava em chamas e eu não pensava em muita coisa, só no constrangimento que passei, ainda mais estando diante daquele garoto.

Caminhei até ter que virar o corredor, havia uma lanchonete, um point onde a maioria dos alunos e professores paravam para conversar e lanchar.

-Elesis! – Vi Edel, uma amiga que fiz aqui na escola e, desde então, quando nos encontramos livres das aulas, lanchamos juntas. Ela acenou para mim e eu fui a sua direção.

-Já comeu? – Perguntei.

-Ainda não, meu professor acabou de nos liberar. Confesso que estou com os dedos doendo de tanto tocar acordes. – Edel olhou para as mãos, como se lamentasse por cada dedo.

-Você não usou a palheta? – Ela tocava violão e conseguia envolver qualquer um com sua suavidade. Eu mesma adorava ouvi-la tocar.

-Usei, mas eu tenho uma mania de pressionar aquilo entre os dedos, com medo de que possa cair das minhas mãos em alguma apresentação. Uma precaução, sabe? Ainda mais agora próximo dos testes.

Balancei a cabeça, apenas concordando com o que ela disse. Sentei-me a mesa que ela estava. Havia três cadeiras.

-E você, como está indo com o piano?

Lembrei-me da cena que aconteceu ainda agora e coloquei as mãos no rosto.

-O que houve? – Voltei a olhá-la e, quando eu ia responder, Edel ergueu os braços e os movimentou em pleno ar.

Olhei para frente e vi o mesmo menino que estava saindo com o professor.

-Só pode ser perseguição. – Murmurei.

-Sente-se conosco, Lass. – Chamou Edel. Eu nem sabia que eles se conheciam, mas também não perguntaria naquele momento.

A cada passo que aquele garoto dava, eu me lembrava do constrangimento que passei. Como eu queria estar na sala de aula ouvindo as reclamações da minha postura sem que ninguém soubesse...

O Lass puxou a cadeira e se sentou. A mesa era redonda, então ficamos em um triângulo torto, pois Edel estava mais próxima de mim.

-Então, – Começou Edel, como se fosse nos apresentar. Bingo! – essa é a minha amiga Elesis, que eu te falei. – Ela riu.

-Prazer. – Disse ele, olhando para mim.

Virei o rosto e torci para que um dos meninos que faz o pedido viesse em nossa mesa.

-Elesis, – Edel me chamou, apenas para me inteirar na conversa – eu conheci o Lass pelo professor Sieghart, acredita?

-Hum...

-Ele também foi professor da Elesis. – Comentou Edel com o Lass. Acho que, se não fosse por ela, a mesa estaria silenciosa.

-Ele é um professor excelente. Admiro muito sua capacidade de tocar vários instrumentos e não desafinar em nenhum. – Pensei que o Lass fosse do tipo mais caladão. Mas, mesmo assim, sua voz soava como se ele estivesse falando por obrigação.

Resolvi entrar também na conversa, como a Edel estava tentando fazer.

-Então você já teve aula com ele? – Quis saber, ainda tentando não encarar muito o Lass.

-Infelizmente ainda não tive essa oportunidade. Ele me ouviu tocar e me indicou para essa escola. Eu cheguei à cidade há oito meses e fui transferido para cá recentemente.

-Por isso eu ainda não tinha ouvido alguém tocar Schumann tão docemente. – Arrisquei e senti meu rosto esquentar.

-Pelo que vi aqui, poucos tocam. Ainda mais um solo de piano. – Então era ele mesmo quem tocava. Incrível...

Edel pigarreou, ela estava se sentindo deslocada. O que era irônico.

-Parece que o Sieghart sabe escolher bem àqueles que tocam minuciosamente para estarem aqui. Já que é uma escola concorrida. – Disse Edel, movendo sua cadeira para mais perto de mim.

-Bem, ele é um prodígio da música. É um bom ouvinte. – Lass mantinha seu tom de que era obrigado a falar – Pelo o que ele me contou, tocava desde pequeno e, aos oito anos, fez sua primeira apresentação numa escolinha. Aos dez, começou a praticar mais a fundo outros dois instrumentos. Quando completou quinze anos, tocava tão esplendidamente, que superava alguns de seus professores.

-E aos dezessete anos ele já estava ensinando, mesmo sem ter feito alguma faculdade específica. – Completei – Depois que se formou, começou a ser disputado nas escolas. Tive sorte de estar na mesma escola e ter aprendido com ele.

-Olha! – Edel tinha um sorriso nos lábios e olhava para frente – Falando no mestre.

Sieghart vinha em nossa direção.

-Ora, vejo que já está se enturmando. Eu iria falar mesmo com você que procurasse pela Elesis. Que... – Ele se virou para mim – Eu soube que está tendo alguns probleminhas, começando pela...

-Eu sei, Sieg, eu sei. – Suspirei – Acho que isso não é mais novidade para ninguém. – Ele riu – Mas estou me esforçando bastante com Chopin. Acho que farei uma boa apresentação.

-O Lass poderia te dar uma força. Chopin é um dos pianistas que ele tira de letra. – Olhei para o Lass e ele mantinha o semblante inexpressivo – Foi um dos motivos que me encantei pela música desse jovem. Além de Chopin e Schumann, agora é a vez de Mozart ser dominado. – Sieghart tinha um sorriso orgulhoso no rosto – Então? Você aceita ajudar a Elesis?

Novamente não tentei olhar para Lass. Olhei para Edel, mas ela não parecia estar muito animada com a proposta.

-Claro. Podemos aproveitar os intervalos que os professores dão e, até mesmo, ficar uma hora depois que somos liberados.

Voltei a olhar para Sieghart.

-Não quero incomodar. Estou quase pegando toda a partitura. Só acertar alguns erros persistentes e estarei tocando perfeitamente.

-Eu quero te ver no segundo período, Elesis. – Disse Sieghart, com um olhar persuasivo e bem familiar – Sei que você consegue.

-Acho que terei de ir lá no balcão fazer nosso pedido. – Disse Edel, se levantando – O seu – Ela olhou para mim – é o de sempre. E o seu Lass? Já escolheu?

-Esse. – Ele apontou para um que estava no panfleto.

-E você, professor, vai querer qual?

Sieghart ficou pensativo. Pensei que fosse recusar lanchar conosco, mas fui surpreendida. Sieg puxou uma cadeira de uma mesa vaga e se juntou à nossa.

-O mesmo que do Lass. – Disse o professor.

Edel seguiu para o balcão e eu também levantei.

-Já volto. – Avisei. Preferi não ficar ali na mesa. Ainda mais depois de saber que terei ajuda de um garoto que estava na minha mesa, que me viu constrangida e que eu só sabia o nome.

Fui ao banheiro, que ficava no mesmo corredor que a lanchonete. Avistei o feminino e esperei que duas meninas saíssem. Adentrei e fui para frente do gigantesco espelho na parede. Estava sozinha.

Uma sensação estranha dominou meu peito. Inclinei o corpo para frente, apoiando-me na pia. Passei a mão no rosto e voltei a me olhar. Fiquei novamente de pé.

Não era eu ali. Levei minha mão até o espelho e, com o indicador, toquei o rosto que estava a minha frente e não era o meu. Era um... rapaz?!

Meu coração acelerou e eu subitamente olhei para trás, para saber se tinha alguém ali. Ao voltar a olhar o espelho, vi meu rosto espantado e confuso. Olhei para trás de novo. Aquilo foi surreal.

“Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção.”

(Antoine de Saint-Exupéry)

Notas finais
Esperamos que tenham gostado.