Inexatidão Terminológica | HyunChanSe
2 De fanfic a fofoca
Como deve imaginar, eu não fiz nada do que falei a ela no final de semana. Apenas fiquei em meu quarto, cantarolando durante dois dias seguidos a minha música favorita do momento enquanto fazia as minhas tarefas comuns do cotidiano.
Na segunda-feira à noite, eu já estava esperando ter que contar sobre o meu incrível encontro romântico com nosso professor.
— Eu estava te esperando, sua vagabunda! — Minah gritou ao me ver no corredor e segurou meu braço direito logo que cheguei à ela. — Vem.
— Minah. “Vagabunda” não é um termo muito afetivo para usar com uma amiga. — disse enquanto ela me arrastava para o banheiro feminino.
— Que se dane, sua cachorra, você me deve explicações. — disse ela enquanto eu lutava para não tropeçar nos próprios pés.
— “Cachorra” também não é um apelido carinhoso. — resmunguei ao parar de frente a ela, cruzando meus braços.
— Tá, tá. — ela abanou a mão, não dando a mínima para minhas reclamações. — Me fala, como foi o encontro com o professor? — abriu um sorriso, empolgada.
— Não foi nada demais, Minah. A gente só saiu e conversou. — a respondi de forma simples.
— O final de semana inteiro? — ela ergueu uma sobrancelha.
— É. — dei de ombros.
— Não, pera aí… — um risinho escapou de seus lábios. — … vocês não…?
Franzi a testa para aquela pergunta, demorando uns bons segundos para compreender o que ela queria dizer.
— Não, nada disso. — neguei rapidamente.
— Que mentirosa! Vocês transaram! — falou empolgada.
— Não transamos não.
— Sim, transaram sim! — insistiu. — E eu quero saber todos os detalhes.
— Minah, eu não sou o tipo de mulher que transa no primeiro encontro. — tentei soar de forma calma.
— É mesmo?! Ou será que não quer contar pra sua melhor amiga como foi transar com o professor mais gostoso da faculdade?!
— Quê? Minah, isso n-
— Me conta logo! — sua fala foi seguida de um tapa em minha cabeça, o que me deixou sinceramente irritada.
— Tá! — resmunguei impaciente. — Nós transamos.
— Sabia! — Minah gritou empolgada e pulou sobre meu corpo para me abraçar, gesto que não retribuí. — Vamos, me conta como foi sua noite.
Demorei algum tempo a encarando enquanto pensava no que poderia falar. Aos poucos as mentiras foram saindo da minha boca, uma atrás da outra, criando uma fanfic quase tão erótica quanto um livro de cinquenta tons de cinza — e obviamente tão ruim quanto.
— … os leds vermelhos deixaram o momento bem mais sensual… e até romântico, eu diria. Na verdade, no motel onde nós- — eu estanquei logo ao finalizar a palavra.
De uma das cabines, logo atrás de Minah, vi sair uma jovem de cabelos loiros, nos encarando com uma expressão não muito amigável. Minha amiga imediatamente virou na direção que eu observava, acompanhando a mulher com o olhar enquanto ela higienizava as mãos, então proferiu:
— Tá olhando o quê, desocupada?!
— Nada. Só duas putas assumidas. — a loira riu com um sorriso cínico nos lábios e saiu do banheiro em seguida.
Felícia era o tipo de mulher conservadora que, apesar dos princípios religiosos, parecia ignorar completamente o “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. E com a benção da querida, minha pequena mentira sobre sair com um professor acabou se espalhando por toda a faculdade.
Naquela noite eu não percebi nada além de alguns olhares pelos corredores. Porém, na manhã seguinte, foi no mínimo assustador acordar com tantas mensagens de desconhecidos em minhas redes sociais. O perfil de Instagram nada ético feito por alunos veteranos para espalhar fofocas da universidade havia criado um post exclusivo para falar sobre a mais nova puta que trocava sexo por notas. A minha vida sexual — inexistente — havia virado o mais novo assunto do campus.
Na noite seguinte, fui cumprimentada pelos corredores como uma celebridade, da mesma forma que fui motivo de burburinhos e assediada pelos olhares alheios. Me causava uma sensação incômoda, mas preferi negar a minha mente que aquilo estava acontecendo e apenas segui como numa noite comum de aulas.
Sobrevivi ao primeiro horário.
Durante o intervalo, tive de ir à biblioteca devolver alguns livros que havia pego há algumas semanas, e foi durante o trajeto que encontrei a sujeita causadora de todo aquele caos.
— Boa noite… Felícia. — murmurei ao me aproximar dela, logo a mulher virou em minha direção e desmanchou o sorriso que havia em seu rosto.
— O que quer? — seus olhos analisaram meu corpo de cima a baixo, me encarando com desdém.
— Eu… — fiz uma breve pausa enquanto organizava as frases em minha mente. — … Aquilo que você ouviu no outro dia não era verdade, eu estava apenas cont-
Felícia riu.
— Está preocupada agora que sabem que é uma puta rodada? — o sorriso cínico mostrava o quão grande era seu prazer em falar aquilo.
— O quê? Mas e-
— Você fez sua cama — disse ao me interromper pela segunda vez. —, e espero, para o seu bem, que tenha lavado os lençóis.
A encarei desacreditada assim que me deu as costas. Como alguém pode ser tão babaca?!
— Me escute um pouco, por favor. — tentei, mas, dessa vez, foi o cara baixo e musculoso ao seu lado que virou o rosto em minha direção.
— Não vai nos deixar em paz?! — ele resmungou, visivelmente irritado.
— Amor, não fique perto dessa vadia. — a loira o puxou pelo braço. — Ela pode ter doenças.
Arqueei as sobrancelhas para a ousadia de suas falas, então desci o olhar e percebi as mãos entrelaçadas e o anel dourado em suas mãos, eles eram um casal. Puta merda, vocês se merecem, pensei comigo.
Naquele momento, aceitei que não haveria qualquer palavra minha que a fizesse mudar de ideia.
— Se pensa que sou uma vadia, deveria tomar cuidado para eu não roubar seu namorado. — retruquei de braços cruzados e aquele seu sorriso irritante voltou a aparecer.
— Meu noivo é fiel aos mandamentos de Deus sobre um casal. — ela apontou para o céu enquanto falava. — E ele jamais se envolveria com uma prostituta barata.
— Ah, claro. — ironizei ao engolir a raiva e forcei um sorriso.
— Espero que esteja feliz sabendo que irá para o inferno. — complementou.
— Ah, contanto que você não esteja lá.
— Eu garanto que não vou estar.
— Que ótimo. — sorri com amargura. — Me perdoe por incomodar o casalzinho ternura. Passar bem. — disse e virei-me para ir embora antes que eu perdesse a cabeça ali.
Por longos minutos pensei que deveria ter socado aquela filha da puta no nariz quando tive a chance — diria até que me arrependo de não ter o feito —, mas preferi evitar um processo futuro. Respirei profundamente para retomar minha calma, fiz a devolução dos livros como pretendia e retornei aos corredores do campus, seguindo em direção a minha sala.
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