Inexatidão Terminológica | HyunChanSe
8 Protesto contra a pecadora
Enquanto seguia meu trajeto, pude ouvir, não muito longe, algumas vozes gritando alto frases que eu não compreendia bem o que expressavam. Ao erguer o rosto e buscar pelo barulho, encontrei um pequeno amontoado de pessoas segurando cartazes e gritando próximo a sala de coordenação do meu curso. Fiquei alguns segundos os encarando, até que alguns deles perceberam minha presença ali e mudaram seu alvo, vindo diretamente em minha direção.
Confusa com aquilo, dei passos para trás enquanto encarava as pessoas ali e os cartazes que seguravam, tentando entender o que realmente estava havendo. Dentre as pessoas, a primeira que identifiquei foi Felícia e, não muito atrás desta, Minah.
Palavras de xingamento e frases bíblicas estavam dispostas pelas mãos dos protestantes — como era de se esperar, vindo de Felícia. Em meio seus gritos, diziam que eu estava envergonhando a instituição e que deveria ser imediatamente expulsa. “Pecadora, pecadora”, era o que mais repetiam.
Há três dias atrás, eu provavelmente teria gritado de volta e arrancando seus cartazes para rasgá-los — e, convenhamos, eles podiam ter se esforçado melhor pra fazer porque estavam horríveis —, mas naquele momento eu não tinha forças para revidar nenhum dos ataques.
— O que está havendo aqui? — uma voz masculina surgiu e, ao olhar para o lado, avistei o professor Bang aproximando-se.
— Estamos apenas pedindo por uma melhor universidade. Uma sem vadias. — respondeu Felícia, com a mesma cara de arrogante que nunca deixou de ter.
— Importunar não é a forma correta de se fazer isso, senhorita. Não permitirei que dirija-se à outra aluna da instituição dessa forma, ainda mais por estar considerando as acusações sem fundamentos que estão fazendo. Jovens estudados como vocês deveriam protestar por causas realmente relevantes, e não por fofocas de universitários.
Disse o Bang, Felícia tentou retruca-lo, mas logo foi cortada:
— Desfaçam esses cartazes e ajam como os adultos que são, não quero ter que acionar a coordenação de seus cursos junto de um processo jurídico. — finalizou.
Isso foi o suficiente para a Lee bufar de raiva e afastar-se dali com sua gangue de desocupados.
— Está tudo bem? — perguntou, ainda assustada pela situação recente eu não o respondi, apenas encarando as pessoas se afastarem. — Hyunjin?
— Uhm? — o olhei, levemente perdida. — Ah, sim… Está… Eu acho. — murmurei, erguendo o rosto e o notando crispar os lábios.
— Venha sentar-se um pouco. — ele pediu e neguei quase imediatamente.
— Prefiro ir para casa. Não… Não quero ter que ficar aqui e… — falei baixinho, não conseguindo pensar numa conclusão para a fala.
Eu apenas queria fugir daquele lugar.
— Te levo até sua casa. Posso? — ele me perguntou de forma gentil e assenti com a cabeça, aceitando sem exitar. — Então vamos. — sua mão delicadamente pousou em minhas costas e passei a caminhar ao seu lado.
Fomos até a última sala em que estive, apenas para buscar meu material, e seguimos até o estacionamento, sempre em passadas calmas, e tendo o olhar protetor do Bang sobre mim.
— Está se sentindo melhor? — o ouvi perguntar e assenti de leve com a cabeça.
— Acho que sim… Um pouco. — respondi em mesmo tom.
Não trocamos palavras durante o resto do caminho.
Quando nos aproximamos de um veículo de tons escuros, o professor Bang adiantou seus passos, cuidadosamente abrindo a porta da frente — do lado do passageiro, óbvio — e dando espaço para que eu pudesse entrar. Sentei sobre o banco com minha pequena mochila no colo e a abracei, observando Chan fechar a porta e entrar no carro enquanto eu recordava de que tinha algo para lhe contar.
Já com meu endereço em mãos, meu professor passou a dirigir em direção a residência de meus pais, onde eu ainda morava. Eu me mantive em silêncio por boa parte da estrada, distraída com o mesmo pensamento, até que o ouvi perguntar:
— Quer conversar sobre o que aconteceu?
Exitei um pouco antes de responder.
— Quero… Eu preciso… te explicar como tudo aconteceu.
Desde o dia em que Minah me convidou para ir a casa dos seus pais, até o dia em que o mascote da faculdade me consolou no meio da arquibancada. O contei com certo detalhe cada uma das cenas que integrou aquela história completamente absurda de como eu não havia saído com um professor e, obviamente, não havia saído com as dezenas de homens que haviam comentado sobre aquela situação.
De uma forma boa, o professor Bang não esboçou nenhuma reação, ele apenas absorveu cada uma das informações, enquanto tirava pequenas dúvidas. Isso, de alguma forma, me encorajou a lhe contar as informações mais “sigilosas” que ainda escondia.
— Fico aliviado em saber que estava certo.
— Sim, e estou muito agradecida pelo que fez, mas… talvez não devesse me defender tanto dessa forma. — murmurei.
— Por que diz isso? — perguntou, e observei o carro ser estacionado logo a frente da calçada de minha casa.
— Porque… o professor que meti em toda essa mentira… foi você. — o respondi. — Quando Minah me pressionou, foi o único nome que veio em minha cabeça. Apesar de… de não ter ouvido seu nome no meio das mentiras que correram pelo campus eu… devo me desculpar pelo que fiz.
Bang passou alguns segundos em silêncio, então senti sua mão repousar sobre a minha, que estava sobre minha perna.
— Não se desculpe por isso, está tudo bem. — ergui o olhar encontrei seu sorriso gentil, que me confortou profundamente.
— Eu preciso, não quero perder a única boa relação que tenho com um professor daquela universidade. — o olhei, e delicadamente segurei sua mão, como forma de acalmá-lo e me acalmar para o que viria a seguir. — Há… outra coisa que precisa saber…
— Diga…
Sentia meu coração pulsar mais rápido por não conseguir prever a reação que o Bang teria. Precisei me esforçar para contar da forma mais delicada que podia.
— Lembra… lembra do que aconteceu hoje? Dos manifestantes, sobre a clamídia que um dos alunos havia adquirido… — perguntei e aguardei sua confirmação antes de continuar: — Posso ter descoberto o porquê de ele ter dito que o passei a IST. — disse, e o Bang ficou ainda mais atento à conversa. — Hoje, pouco antes da confusão, eu ouvi Changbin conversar ao telefone com alguém. Disse que a amava, que não se afastaria dela mesmo tendo lhe passado aquilo e… quando pronunciou o nome da mulher… era Seungmin…
Suas sobrancelhas arquearam-se levemente, e um riso doloroso lhe escapou entre os lábios enquanto relaxava a expressão de surpresa.
— Seungmin… Eu já imaginava, para ser sincero, mas… não queria acreditar.
— Desculpe por contar isso… não penso que é a melhor maneira de descobrir uma traição, mas… eu sentia que precisava dizer.
Ele negou com a cabeça.
— Não se preocupe. — senti ele acariciar minhas mãos, que ainda seguravam a sua. — Meu casamento com Seungmin já está por um fio há bastante tempo. Estendi nossa relação por anos, adiando nosso divórcio por medo de algo que nem eu mesmo sei explicar. — confessou. — Mas agora sei que preciso fazer isso… nenhum de nós quer continuar nessa relação.
Crispei os lábios para o que disse, me sentindo mal por toda aquela situação, a forma como falava e sua expressão no rosto eram de clara decepção.
— Sinto muito… — murmurei.
— Está tudo bem. Obrigado por me contar tudo. — respondeu em mesmo tom. — E cuide-se, seja forte, sei que tudo vai passar. Se precisar, estarei próximo a você.
— Obrigada…
Um pequeno sorriso escapou de meus lábios. O agradeci com um abraço caloroso e nos despedimos formalmente.
Naquela noite, logo que cheguei ao meu quarto, retornei às minhas redes sociais e enchi o privado de Hanse de mensagens, pedindo que ele viesse a minha casa para pensarmos em como dar um fim a toda aquela novela.
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