Inexatidão Terminológica | HyunChanSe
3 Noite ruim?
Mas minha paz não durou muito tempo, visto que Minah ligava insistentemente para meu celular. Por alguma razão, ela havia faltado à aula naquele dia.
— Al-
— Hyunjin, sua puta! Por que demorou tanto a me atender?! — ela gritou logo que atendi, me fazendo afastar o celular da orelha.
— Boa noite pra você também, Minah. — murmurei colocando o celular próximo a orelha de novo.
— Você viu o que andam falando por aí de você?
— Uhm? Sobre eu ser uma vadia que troca sexo por notas? Ah, claro. — murmurei em resposta.
— E está tranquila com isso?! — resmungou. — Estão espalhando um print do Jeongin falando que te contratou pra transar com ele, Hyunjin!
— O Jeongin? — franzi a testa, há quanto tempo eu não ouvia esse nome? — Minah, eu não falo com ele há meses. E você sabe muito bem que o rejeitei quando deu em cima de mim porque ele agia como um escroto.
— Foi isso mesmo? Ou você escondeu isso de mim como quase escondeu que pegou o nosso professor?! — resmungou.
— O quê?! Minah, nada disso é verdade! Jeongin deve ter falado isso por uma vingancinha infantil e sobre o professor Bang… também foi mentira. Nós não tivemos nada.
— Vai jogar uma dessas pra cima de mim agora, Hyunjin?! — era impossível não notar como ela estava irritada com aquilo.
— Estou falando a verdade!
— Não, não está! Só porque você tem uma vagina não quer dizer que deva sair dando ela pra todo homem que encontra!
— Eu não estou dando a minha vagina pra todo homem que encontro, Minah. — suspirei, eu realmente estava tendo minha paciência testada aquela noite.
— Eu tive que ouvir isso da Heochan! Sabe como isso é constrangedor?! Descobrir que você transou com um cara por dinheiro pela Heochan! Eu deveria saber disso primeiro, sou sua amiga!
— Minah, eu não entendo onde quer chegar. A conversa é sobre eu ser uma puta ou sobre a nossa amizade?
— Olha, você tá começando a ficar conhecida. — disse, ignorando completamente minha pergunta.
— E você está começando a me irritar um pouco mais que de costume.
— Me desculpa se eu acredito que seja obrigação de uma melhor amiga avisar que todo o campus tá te chamando de prostituta!
Respirei profundamente com sua fala e controlei minha voz.
— E você acha que eu sou?
— Bom, eu não queria, mas estou achando que é verdade sim. É isso que todos estão falando.
— Que amiga maravilhosa você é.
Murmurei antes de desligar o telefone, fechando meus olhos por breves segundos enquanto sentia meu sangue ferver e um leve tremor correr por todo meu corpo.
Nunca havia ficado tão irritada como naquele momento.
E que se dane a aula, eu apenas queria me trancar em algum lugar até aquele sentimento ruim sair de meu corpo. Saí apressada pelos blocos do campus, buscando um lugar sem o mínimo sinal de pessoas por perto, até encontrar uma sala de aula aparentemente vazia em um corredor que já estava de luzes apagadas.
Adentrei o cômodo apressada e o tranquei com certa brutalidade, jogando minhas costas contra a porta e deixando meu corpo deslizar até eu estar sentada sobre o chão. Em meio o escuro dali, eu enxergava apenas alguns resquícios de luz que desenhavam o chão, vindo dos lustres de fora do bloco e atravessando as janelas de vidro da sala.
Não me passou pela cabeça que mais alguém poderia estar ali.
— Noite ruim? — uma voz masculina ecoou no lugar.
Senti minha pele arrepiar-se e ergui o rosto de vez, procurando pela pessoa, mas não encontrando ninguém em meio a escuridão.
— Relaxa, não vou te fazer nada. — a voz voltou a surgir.
Não que eu confiasse em uma voz suspeita vindo do escuro, numa situação normal eu provavelmente sairia correndo, mas naquele momento eu não estava me importando com muitas coisas.
— Quem é você? — murmurei.
— Um universitário. Prefiro não dizer meu nome, posso acabar encrencado. — murmurou, daquela vez tentei seguir a voz com o olhar, e apenas vi uma fumaça transparecer através dos resquícios de luz que entravam na sala. — E você?
— Uma puta… aparentemente. Mas você deve saber meu nome. — murmurei e abracei meus joelhos próximo ao corpo, me sentindo relaxar com a tranquilidade que aquela voz passava.
— Uhm… não. Eu deveria saber de algo que estão falando por aí? — perguntou, não havia deboche em sua voz, ele realmente não sabia de nada.
— Está estampado no instagram de fofocas da faculdade… — o respondi, mantendo o olhar baixo.
— Claro… — ele fez uma pausa de alguns segundos. — ... Parei de acompanhar aquela merda depois que postaram foto de um imbecil transando em cima de minha moto e disseram ser eu.
Voltei a erguer o rosto, genuinamente surpresa com o que diz.
— Mesmo? E… como lidou com isso?
— Digamos que eles me conheceram melhor.
Fiquei sem reação para aquela resposta. Apenas me perguntei mentalmente: O que ele quis dizer com isso?
— Relaxa, não fiz nada mais que o justo. — ele disse ao notar meu silêncio. — Minha fama não durou muito, se quer saber, logo eles arrumaram outro boato para se distraírem.
— Entendi… — respondi em mesmo tom e respirei profundo, tomando coragem para falar. — … Eu contei… uma mentira sobre ter transado com um professor, uma pessoa que estava próxima ouviu e… digamos que as coisas saíram do controle…
— Que merda. — ouvi um movimento vindo das cadeiras do fundo, como se ele ajustasse o corpo para ficar em uma posição mais confortável. — Mas em que tipo de contexto você contaria uma mentira assim?
— Num contexto onde sua amiga insuportável só ouve o que lhe convém.
— Já conheci pessoas assim. — disse. — Se lhe cai o conselho, não as mantenha em sua vida.
— É, acho que vou seguir seu conselho. — soltei um riso triste. — Obrigada por… ouvir sem me julgar.
— Tranquilo. Você não parecia estar bem.
Ouvi novamente o movimento das cadeiras. Aos poucos vi, pela baixíssima luz, a sombra de seu corpo caminhando em direção a mim. Um perfume adocicado, misturado ao odor do cigarro, aproximou-se, um cheiro estranhamente agradável a mim.
Acompanhei sua movimentação com o olhar, e logo ele recostou-se sobre a parede, sentando-se ao meu lado no chão.
— Se sente melhor? — ele perguntou.
Notei pela proximidade que encarava meus olhos, mesmo que ainda não enxergasse com clareza seu rosto. Ele tinha olhos felinos e um rosto anguloso, além de pequenas argolas presas ao lábio e ao nariz.
— Sim… estou mais calma. — desviei o olhar de volta ao chão.
— Mesmo? — senti ele segurar minha mão com delicadeza, observando-a. — Ainda está tremendo.
— É… mas estou melhor. — puxei minha mão com cuidado e voltei a abraçar minhas pernas.
— Uhm… — ele se ajeitou do meu lado e pareceu procurar algo pelos bolsos. — … Aqui. Não é exatamente o que eu ofereceria a uma mulher bonita, mas é o que tenho no momento…
O notei estender a mão, esperava ver algum de seus cigarros ali, mas era um chocolate pequeno envolto numa embalagem aparentemente vermelha.
— Isso tá batizado? — acabei perguntando por impulso e ele riu.
— Não, eu só sou um amante de doces. — ergui o olhar e observei seu sorriso, o achando encantador.
— Ah… desculpa se te ofendi. — aceitei o doce, deixando um pequeno sorriso escapar.
— E isso foi quase um sorriso. — ele imitou minha pose, abraçando as pernas e apoiando a cabeça sobre os joelhos enquanto me olhava. — Prefere ficar sozinha? Posso sair da sala.
— Uhm? Não… estou gostando da companhia. Obrigada. — murmurei a ele, comendo o pequeno doce e suspirando pelo sabor.
— Não por isso…
Não trocamos muitas palavras depois disso. As horas passaram rápido e eu acabei saindo antes dele.
Os olhares se repetiram enquanto saía da universidade. E como o celular de um político, o meu estava, novamente, sendo bombardeado de mensagens — principalmente de Minah — repletas de xingamentos e palavras odiosas.
— Eles me acham uma vadia? Então serei a pior delas.
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