Notas iniciais
Desculpem-me pelos erros. Boa leitura :D

Domingo a tarde. Gerard estava deitado em sua cama enquanto jogava um jogo qualquer em seu Xbox. Com a porta de seu quarto aberta, o som do video-game ecoava pelas paredes da casa causando um ruído um tanto incomodo para o mesmo. Era incrível como aquela casa estava o enlouquecendo aos poucos e ninguém parecia se importar com isso. Como se o lugar estivesse se fechando cada vez mais e ele simplesmente não conseguisse mais sair.

Jogou o joystick em algum canto da cama e foi em direção ao primeiro andar. Desceu as escadas de forma um tanto desesperada, procurando por algum sinal de vida naquele local. Caminhou da sala à cozinha e finalmente encontrou alguém, além dele, naquela casa. Gerard passava praticamente todos seus dias sozinho ali, sem poder receber sequer a visita de seus amigos, tinha que se contentar apenas com a presença da empregada, Rebekah. Antes, ali também trabalhava Martha — que na opinião de Gerard sempre fora a melhor babá e a melhor cozinheira do mundo -, porém ela já estava de idade e teve que se aposentar. Trabalhara ali desde que os pais do rapaz se mudaram para a região, antes mesmo dele nascer.

Era um bairro nobre da cidade de Newark, em Nova Jérsei. Ao seu redor, só existiam residências uma mais bela do que a outra, porém não se orgulhava nem um pouco de morar naquele lugar. As casas eram bonitas, mas vazias por dentro. Tinha nojo de cada uma daquelas pessoas que ali viviam, incluindo seus pais.

Gerard sabia muito bem o que seu pai, Donald, fazia com Rebekah enquanto sua mãe não estava em casa, e o mais bizarro é que ela também sabia, mas tentava ignorar o fato de que estava sendo traída em sua própria casa. Já estava farto de ver cenas desrespeitosas de seu pai com a empregada, mas apenas ficava quieto, não queria problemas com os pais, não enquanto ainda precisava deles para sobreviver.

Seu pai era simplesmente um dos mais bem renomados advogados do estado e um exemplo para todos os que exerciam esta profissão. Passava maior parte da semana trabalhando e quando tinha um tempo vago o desperdiçava bebendo com seus amigos idiotas ou traindo sua esposa. Gostava de exibir uma imagem perfeita perante a sociedade, que ele era um homem religioso, respeitador e familiar, mas todos que moravam naquela casa sabiam muito bem que aquilo tudo não passava de puro disfarce. Donald se preocupava demais com a opinião alheia, se preocupava mais com esta do que com seus próprios filhos. Gerard já estava acostumado com tudo aquilo e não se importava mais, havia se tornado rotina.

Sua mãe, por sua vez, não fazia questão de saber o que rolava por debaixo de seu nariz — ou sabia mas preferia fingir não saber -, passava o dia e as vezes madrugava trabalhando. Era uma cirurgiã bastante conhecida, não só no estado como no país todo, havia aparecido duas vezes no noticiário nacional por salvar vidas que já eram consideradas "casos perdidos". Se preocupava mais com o trabalho do que com a própria vida, afinal, não tinha tempo para vivê-la. Gerard havia crescido sem a mãe de sangue e sim com Martha, que mesmo depois de se aposentar ainda cuidava do rapaz, como se ele realmente fosse seu filho. Donna sequer se deu o trabalho de amamentar o pequeno com o tão necessário leite materno, preferia trabalhar ou sair com as amigas do que passar a noite tentando fazer uma criança arrotar. O mesmo fora com Mikey, o filho que Donald fez questão de dizer que era adotado, apesar de não ser; uma forma que ele arranjou para "despistar" os vizinhos e suas perguntas insolentes.

Mikey. Simplesmente o melhor amigo que Gerard teve. Que fora arrancado de sua vida de uma forma bruta cercada de preconceito. Ele se lembra daquela noite como se fosse ontem.

" — [...] mas eu soube que o filho da Suzanna, aquela engenheira que mora na curva principal, foi pego aos beijos com um rapaz loiro desconhecido. — Disse Donna enquanto levava a taça de vinho à boca e o bebericava. Trazendo para si a atenção de todos que estavam à mesa.

— Pff. — Donald se pronunciou, um pouco alterado, era um completo acéfalo homofóbico. — O que deveríamos esperar de um rapaz que fora criado por mãe solteira? — Ele balançou a cabeça de forma negativa e tomou um gole de seu vinho. — Ele deveria levar uma bela de uma surra.

— E quem são vocês para julgar ele? — Mikey se levantou rápido e instantaneamente bateu as mãos sobre a mesa, assustando todos ali presentes, inclusive Martha que servia mais um pouco de vinho para Donald.

— E quem você pensa que é pra falar assim comigo?! — Donald retrucou, ofendido e agora no mesmo tom de voz do mais novo que o fuzilava com os olhos lentamente. — O que foi? Virou amiguinho do viadinho, é? — Ele disse sério mas soltou uma risada forçada ao final. — Patético.

— E se eu for amigo dele? E se eu for como ele? Você nunca se importou com minhas amizades ou comigo mesmo.— Disse debochado dando de ombros, fazendo com que Donna tampasse a boca e Gerard arregalasse os olhos. Deixando o mais velho ainda mais nervoso. — Você só se importa consigo mesmo e com essa imagem de merda que você tem. — Soltou uma risada sarcástica seguida de um gesto de negação. — Você não passa de um hipócrita. — Donald por sua vez não se manteve parado, um segundo depois do filho terminar a fala ele já estava quase em cima do mesmo, só se ouvira o estalar que sua mão fez ao se chocar contra a pele macia do rosto de Mikey.

— DONALD! — Gritou Donna, completamente em vão, pois o que acontecera em seguir nem ela, nem ninguém poderia impedir. [...] "

Dois longos anos haviam se passado e ninguém tinha mais notícias de Mikey, ninguém sabia o que realmente havia acontecido com ele e ninguém, além de Gerard, parecia se preocupar com isso. Todos naquela casa estavam muito felizes com a vida que levavam, não tinham tempo nem para o próprio Gerard, imagina se teriam tempo para se preocupar com um filho que, para Donald, deixara de existir? A saudade do irmão, o fato de que ele nem ao menos sabia se o mais novo ainda estava vivo; aquilo tudo parecia consumir ele pouco a pouco.

Gerard só se sentia realmente vivo quando estava com Bert ou algum de seus amigos em um dos bares sujos da cidade. Adorava o perigoso, adorava o proibido, mas ao mesmo tempo os temia. Temia mais do que tudo que seu pai descobrisse sobre Bert e, seguindo o exemplo do mesmo, criou um relacionamento de fachada com Lindsey Ballato, uma daquelas líderes de torcida superficiais da faculdade. Que aliás começaria um novo período no dia seguinte. Cursava Direito, mas não porque queria e sim pois fora obrigado pelo pai. Na realidade Gerard sonhava em ser um desenhista famoso, de uma revista em quadrinhos e tinha talento de sobra para isso, só faltava o apoio dos pais.

Estava ansioso pela volta às aulas. Não porque gostava de estudar, obviamente. Mas sim porque fazia meses que não via Bert e estava com saudades daquele dormitório que era infinitamente mais aconchegante que sua própria casa.

Pegou uma maçã que estava em cima da mesa, ignorando o "Boa tarde" seguido de um sorriso simpático -Lê-se falso- vindo da empregada, voltou para seu quarto e para seus jogos de tiro.

Aquela seria uma longa semana.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.