Inesquecível
1 Prólogo
Harry corria, suor escorrendo por seu rosto.
Galhos baixos chicoteavam em seu caminho, mas ele não diminuía. Um raio vermelho passou zunindo e arrancou lascas de uma árvore à sua esquerda. Ele não diminuía. O ar entrava rasgando em sua garganta. Atrás dele, passos quebravam a mata, em disparada. Não era dos feitiços que ele fugia. Era do que tinha acabado de ouvir.
Se aquele plano desse certo, alguém ia morrer. Alguém que ele não podia deixar morrer.
Quarenta minutos antes, o mundo dele ainda estava normal.
Ele e Gina desciam pelos campos de Hogwarts, como fizeram quase todas as tardes depois daquela final de quadribol. O sol baixo dourava o lago e alongava a sombra dos dois na grama alta. Gina imitava, pela terceira vez no dia, o discurso de vitória que Rony tinha ensaiado no vestiário — e nunca teve coragem de fazer — e Harry ria de um jeito que doía nas costelas. Ele a puxou pela mão e a beijou. Um beijo qualquer, de fim de tarde.
O estrondo veio abafado, de longe, e atravessou o beijo. Grave demais para ser um trovão. Os dois se separaram. Na cabana de Hagrid, Canino começou a latir sem parar.
— O que foi isso? — Gina olhava para o castelo, depois para a floresta, sem decidir de onde tinha vindo.
Foi Harry quem viu o vulto: um homem encapuzado atravessando a orla do gramado em passos largos, rente à cerca de pedra, até sumir entre as primeiras árvores da Floresta Proibida.
— O que… — O coração dele já tinha mudado de ritmo. — Você viu? Aquele capuz, parecia…
— Harry, não. — Ela segurou o braço dele antes que ele desse o segundo passo. — A gente não sabe quem é. Você não ouviu aquele barulho?
— Por isso mesmo. Se tiver um comensal entrando na floresta, a essa hora, alguém precisa saber o que ele veio fazer. — Ele apertou a mão dela. — Vai chamar alguém. A McGonagall, o Dumbledore, quem você achar primeiro.
— Tá. — A testa da Gina enrugou, deu para ver que não gostou. — Mas promete que vai tomar cuidado?
— Prometo.
Um beijo rápido, e os dois correram em direções opostas.
A floresta engoliu a luz do fim de tarde quase de uma vez. Harry seguiu o rastro de galhos vergados e terra revirada, pisando onde o musgo abafava os passos, até que as vozes o fizeram parar. Vinham de uma clareira estreita, logo adiante. Ele se encolheu atrás de um tronco grosso, o cheiro de resina e folha podre subindo pelo nariz. Se arrependeu, pela centésima vez na vida, de não andar sempre com sua Capa da Invisibilidade.
Eram dois. Os dois de capuz.
— ...quase acordou o castelo inteiro. — A voz mais jovem falava baixo, tensa, depressa demais para quem queria parecer no controle. — Eu avisei que ainda não estava pronto. A passagem quase te deixou pela metade.
— Pois trate de aprontar. — A outra voz era grossa, gasta, arrastada como a de quem passou tempo demais falando entre grades. — Acha que eu atravessei aquele armário dos infernos pra ouvir desculpas?
— Eu preciso de mais umas semanas. O mecanismo...
— Você não tem semanas. Tem até o fim das aulas. — O mais alto dos dois se aproximou do outro, e Harry teve de prender a respiração para continuar ouvindo. — O velho vai morrer dentro da própria escola. É assim que o Lorde quer, e é assim que vai ser. Ele quer que o mundo inteiro entenda que não existe mais lugar seguro. Nem esta maldita escola. Nem atrás daquela barba.
— Eu sei o que ele quer.
— Então prove. — Uma pausa. Quando a voz grossa voltou, tinha descido a um quase sussurro, pior do que grito. — Ele não tolera falhas, garoto. Seu pai está apodrecendo em Azkaban por muito menos.
O sangue do Harry tinha virado água gelada. O velho. Dentro da própria escola. Só uma pessoa, um velho, valia um plano daqueles, e Harry precisava chegar até ele de qualquer forma. Precisava contar. Para Dumbledore, para McGonagall, para o primeiro adulto que encontrasse.
Os dois vultos se moveram, encerrando a conversa. Harry recuou um passo, dois, e no terceiro encontrou um galho seco.
O estalo soou como um tiro.
Foi aí que ele começou a correr.
Mesmo quando os feitiços começaram a voar, ele não olhou para trás. Um dos comensais tinha sumido no escuro, o outro vinha atrás dele, e vinha lançando maldições. Harry desviava por instinto, pulando entre os troncos, o plano inteiro se repetindo na cabeça em círculos — o velho, fim do ano, dentro da escola — quando o raio o atingiu nas costas.
A dor não teve começo: já nasceu inteira, intensa, em cada músculo ao mesmo tempo. Harry caiu de boca na terra, o corpo se contorcendo sozinho, e em algum lugar acima dele a Maldição Cruciatus se desligou e deixou só o eco.
Passos se aproximaram, esmagando folhas.
— Curioso como sempre, não é, Potter?
Era uma voz que Harry conhecia muito bem — mas saiu esganiçada, sem fôlego, com mais pânico do que triunfo.
— Petrificus Totalus!
Essa voz ele conheceu no primeiro som, e adorou ouvir. Gina tinha o encontrado.
— Protego!
O feitiço dela bateu no escudo e se perdeu floresta adentro. Mais atrás, entre as árvores, uma luz de varinha varria o mato e a voz retumbante de Slughorn chamava por eles. O encapuzado girou a varinha:
— Estupefaça!
Gina caiu sem um som na folhagem.
Harry tentou se erguer sobre os braços, que não obedeceram. A ponta da varinha do comensal desceu até ele, e oscilou. A luz de Slughorn se aproximava, o capuz voltou-se para lá, olhou para Harry, e a mão tremeu mais.
Então veio a última palavra que Harry iria esquecer:
— Obliviate!
O clarão o atingiu no peito. A última coisa que coube na cabeça de Harry foi o rosto de Gina.
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