Inesquecível

2 Capítulo 01 – Vazio


A cabeça de Harry parecia prestes a rachar ao meio. Sentia um colchão macio embaixo dele, cobertas quentes demais, um mal-estar rondando o estômago… Mas o pior era dentro do crânio: um vazio que doía estupidamente. Não um esquecimento comum, como um nome na ponta da língua. Era um buraco com paredes geladas. Ele desistiu de abrir os olhos e ficou quieto, fingindo que dormia, tentando pescar as vozes que conversavam por perto.

— ...é difícil dizer… Antes que ele acorde. — A voz era grave e serena. — A memória não é um pergaminho que se rasga, Severus. O feitiço não apaga, ele tranca. Sela as lembranças atrás de uma porta e joga fora a chave. A depender da especialidade do conjurador, terá selado apenas uma parte, e não o todo. Rezo para que seja só uma parte.

— E, se selou, é porque Potter descobriu algo que não devia. — Esta era oleosa, ríspida. — Só não entendo por que não matar o garoto de uma vez.

— O professor Slughorn estava a poucos passos, pelo que entendi. E duvido que o Lorde das Trevas ficasse feliz com o servo que tirasse Potter de suas mãos. Ele o quer para si, disso temos certeza.

— Mas… Dá pra recuperar? — A terceira voz era um trovão contido, falava baixo, mas de um jeito de quem não sabe falar baixo. — A memória dele. Dá pra trazer de volta?

— Devagar, e com dor, mas é possível. Quanto mais recente a lembrança, mais fundo o selo. — Uma pausa. — E há outra coisa, Hagrid, que pode ou não jogar a nosso favor: o que tem peso no coração é o que mais resiste a ser trancado. É o primeiro a vazar por debaixo da porta. — A voz serena endureceu um tom. — Prestem atenção: quando ele acordar, ninguém deve tentar devolver nada à força. Uma lembrança empurrada goela abaixo não destranca porta nenhuma, só ensina a cabeça a inventar uma memória falsa para se defender. Os fatos, podemos contar, se ele pedir. O resto, ele encontra o caminho sozinho.

— Os aurores não acharam nada na floresta — disse a voz oleosa, com desdém. — Galhos quebrados e pegadas. O Ministério dobrou a guarda nos portões, o que deve durar até o tédio vencer.

— Naturalmente. Não acredito que cheguem a encontrar algo, mas é uma boa precaução. E nem uma palavra disso no café da manhã, por favor. Metade dos pais tiraria os filhos da escola até sexta-feira.

Potter. Esse era ele, disso ele lembrava. As vozes não eram estranhas, mas custou a dar nome a elas. Devagar, Harry abriu os olhos contra a claridade e viu tudo embaçado. Tateou a mesinha de cabeceira, achou os óculos, e o mundo entrou em foco. Um teto alto e conhecido. Camas enfileiradas. A ala hospitalar. Ele já tinha acordado ali mais vezes do que gostaria. Ala hospitalar de onde? De Hogwarts. Sim, isso também estava lá.

As três figuras tinham parado de conversar e o observavam. O gigante de barba e juba negra, Harry reconheceu antes de qualquer outro, e alguma coisa nele se aqueceu. O mais velho, alto e magro, de túnica roxa e oclinhos meia-lua, veio logo depois: Dumbledore. O terceiro, de preto, cabelos oleosos emoldurando uma cara azeda. O estômago de Harry afundou por conta própria antes que o nome chegasse. Snape.

— Está se sentindo bem? — Dumbledore se aproximou, a voz lenta e suave.

— Estou. Só... Confuso. E vazio. — Harry procurou um jeito de explicar e não achou nada melhor — Como se eu não soubesse o que eu sou.

— Harry, você é um bruxo — Hagrid espelhou a mesma fala de quase seis anos antes, e se postou ao lado da maca, a mão pesada apoiando na perna do garoto.

— Eu sei disso.

Os dois mais próximos soltaram o ar quase juntos. O estrago, fosse qual fosse, não tinha sido completo. E, como se a frase de Hagrid tivesse destampado alguma coisa, lembranças começaram a passar em desordem pela cabeça de Harry: a pedra, Rony e Mione, o basilisco, Sirius, o Torneio, Cedrico caído, Voldemort... Eram muitas ao mesmo tempo, e todas doíam um pouco ao passar. A porta da ala se abriu com estrondo e o tirou do transe.

— HARRY! — Hermione atravessou a enfermaria e pendurou-se no pescoço dele, quase derrubando a cama. — Quando eles contaram… Como você está? Quer dizer... — afastou-se um pouco do abraço, os olhos forçando o cenho enquanto fitava o amigo — Você lembra da gente?

— Lembro, lembro. — Ele deu um sorriso torto entre os braços dela. — Estava mais confuso quando eu acordei, mas já veio. Ainda tem uns buracos, e a minha cabeça tá querendo explodir, mas veio.

— Antes que você pergunte: a Gina está bem. — Rony chegou à beira da cama. — Ela bateu a cabeça quando estuporaram ela e ainda tá dormindo, mas está bem.

Um olhar passou entre ele e Hermione, rápido demais para Harry ler, rápido demais até para ele ter certeza de que existiu.

— Gina? — Harry franziu a testa. — Ela… Ela estava comigo? O que aconteceu, afinal?

— A Srta. Weasley trombou com o professor Slughorn nos jardins e o arrastou até que eles te encontrassem na Floresta Proibida — Dumbledore fez uma pausa — Acreditamos que um Comensal da Morte os atacou. Derrubou a senhorita Weasley com um feitiço estuporante. Contra você, um feitiço de memória. O professor tentou detê-lo, sem sucesso.

— Professor... Slughorn? — Harry revirou o nome e não achou nada. — Feitiço de memória. É por isso que tá tudo assim? E o que a Gina tava fazendo comigo na floresta?

— Isso — respondeu Dumbledore, com uma calma que não convidava a mais perguntas — é uma das coisas que devem voltar sozinhas.

— Ele tem razão, Harry. — Hagrid afagou os cabelos dele com uma mão do tamanho de uma tampa de caldeirão. — Agora você tem é que descansar.

— Descansar? Eu acabei de acordar. — Harry se ergueu nos cotovelos. — Vocês têm que me explicar isso direito. Quanto tempo eu dormi? E você — virou-se para Dumbledore —, a Umbridge e o Ministro não estavam querendo te tirar do castelo? Aquele monte de decreto… — o rosto dele se contorceu ao lembrar daquela cara de sapo adornada em rosa — Aliás, eu não vou ter que lidar com ela no meio disso tudo também, não?

Ninguém respondeu. Rony ficou de boca entreaberta, Hermione levou a mão devagar até a boca. Até Snape ergueu uma sobrancelha.

— Que foi? — disse Harry. — Que caras são essas?

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Nada do que explicaram fazia sentido. Por um bom tempo, Harry esperou que alguém começasse a rir, que aquilo se revelasse a brincadeira mais elaborada da história dos gêmeos Weasley. Mas ninguém riu.

Diziam que ele estava no sexto ano. Que o ano letivo estava, aliás, quase no fim. Só que a última lembrança nítida que Harry tinha era de sair de uma reunião da AD, no meio do quinto ano. O resto era o tal buraco com paredes geladas. Um ano inteiro tinha passado sem deixar nenhum rastro.

— É o feitiço, Harry — a naturalidade de Dumbledore era ao mesmo tempo um consolo e um insulto. — Você teve sorte dentro do azar: quem o atacou selou apenas uma janela da sua memória. Do meio do seu quinto ano até a tarde de ontem, pelo que estamos vendo. Poderia ter sido tudo.

— E dá pra... Destrancar?

— Dá. Vai doer, vai demorar, e vai exigir mais de você do que de mim. Vamos começar em breve. — O diretor olhou então para Rony e Hermione, com um recado no olhar. — Enquanto isso, contem a ele os fatos que ele pedir. Datas, matérias, o placar do quadribol. Só tomem cuidado com sentimentos. Deixem que encontre sozinho o caminho de volta daquilo que nasce no coração. Se vocês empurrarem, a cabeça dele inventa, e uma lembrança inventada é uma porta bem mais difícil de consertar.

Os dois assentiram, sérios demais, e Harry teve a impressão passageira de que aquele recado tinha mais significado para eles, do que ele próprio pôde entender.

Quando todos saíram, Harry ficou olhando o teto. Sexto ano. Um ano e pouco da vida dele, trancado atrás de uma porta sem chave. Madame Pomfrey passou, disse alguma coisa que ele aprovou sem ouvir, e foi verificar uma cama duas posições adiante, onde dormia uma garota ruiva.

Gina. O que ela estaria fazendo com ele na floresta? Algum serviço da AD, talvez. Não, a AD nem devia existir mais, sem a Umbridge. Harry ainda estava tentando montar esse quebra cabeça quando o sono o venceu.

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Na manhã seguinte, saiu da ala hospitalar o mais cedo que Madame Pomfrey permitiu. Gina ainda dormia, ele decidiu voltar mais tarde para ver a amiga. Mal virou o primeiro corredor e teve o reencontro que menos queria. Esse ódio, pelo menos, o feitiço não tinha levado.

— Ora, ora. O Potter doentinho. — Draco Malfoy estava escorado na parede, Crabbe e Goyle rindo a tiracolo. — Já teve alta? Ou será que você não... Se lembra?

Os olhos cinzentos percorreram o rosto de Harry devagar, de um lado ao outro, como se conferindo um trabalho malfeito.

— Cala a boca, Malfoy.

— Uh, agressivo. — Draco descolou da parede. — Pois vá se lembrando de uma coisa, Potter: eu ainda não me vinguei nem da metade pelo que você me fez. E o troco vai vir com juros.

Os três seguiram na direção da ala hospitalar, e Harry tomou o caminho do Salão Principal com uma pergunta a mais na fila: o que diabos ele tinha feito ao Malfoy?

O salão o recebeu com cheiro de café de bruxo, e por um instante tudo ficou simples. Parecia fazer anos que ele não entrava ali. Foi recebido na mesa da Grifinória como um herói voltando de guerra, tapinhas nas costas, bom-dia de gente que ele não sabia se conhecia. A escola inteira já sabia, claro. Todos olhavam para ele como se ele estivesse com uma melancia brilhante na cabeça.

— Cadê o Fred e o Jorge? — perguntou a Rony, correndo os olhos pela mesa.

— Err... Eles se formaram ano passado, Harry.

— Ah. Claro. — Harry mexeu no próprio suco, que parecia muito interessante naquele momento. — Falha minha.

— Relaxa. — Rony empurrou na direção dele uma travessa de bolo de cenoura, e falou de boca cheia — Hoje à noite eu começo a te contar tudo, tim-tim por tim-tim, aí você fica menos perdido. Não vai comer?

— Já comi o que eu queria. Te vejo na aula... Que é qual, mesmo?

— Duas de Transfiguração agora — Rony quase engasgou —, duas de Defesa Contra as Artes das Trevas à tarde.

Harry saiu do salão sem reparar nas cabeças que giravam na passagem dele. Subiu as escadas depressa, fazendo a lista das gafes que ainda ia cometer até se acostumar com aquele "futuro". Na curva do patamar, trombou de frente com alguém, e os dois foram ao chão num nó de livros e vestes.

Levou um segundo para reconhecer, Cho Chang. E mais um para perceber que o rosto dela estava a um palmo do dele.

O beijo veio à cabeça rápido, sem pedir licença. O visgo, a sala vazia, o Natal, as lágrimas. Poucas semanas atrás. Fazia mais de um ano, mas essa parte a cabeça dele não sabia.

— Desculpa. — Harry se levantou atrapalhado e estendeu a mão para ajudá-la. — Eu tava no mundo da lua. Você tá bem?

— Tô, tô. Não foi nada. — Ela ajeitou os livros e as vestes, as bochechas coradas. — E... E você? Ouvi dizer que você foi parar na ala hospitalar.

— Tô inteiro. Só meio... Confuso. Nada de mais.

— Ah. Certo. — Ela sorriu, sem saber onde pôr o sorriso. — Melhoras, então. Até mais.

— Até.

Os dois seguiram em direções opostas, e Harry gastou a escada inteira decidindo se aquilo tinha sido tão esquisito quanto pareceu.

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A aula de Transfiguração passou sem que ele percebesse. Harry não se lembrava das aulas anteriores, o que já seria motivo suficiente, e havia a trombada com Cho, rodando na cabeça. O encontro tinha sido estranho de um jeito específico, encabulado demais, e ele estava com medo de perguntar a Rony o que tinha acontecido entre eles naquele um ano apagado. Nunca mais tinham se falado? Tinham namorado? Forçar a memória era como empurrar uma parede, doía o ombro e a parede nem tremia.

No almoço, ele varreu a mesa da Corvinal duas vezes. Cho não estava. Quando terminou de comer, empurrou o prato e anunciou, já se levantando:

— Vou no corujal mandar uma carta pro Sirius, contando o que aconteceu. Encontro vocês na sala.

Rony e Hermione se olharam, e dessa vez não foi rápido. Hermione largou o garfo devagar, como se ele pesasse.

— Err... H-Harry — começou ela. — Tem uma coisa que... Você esqueceu isso também, claro que esqueceu, você esqueceu tudo desde... Ai. Eu não sei como...

— O quê?

— Ah, Harry... — Os olhos dela já brilhavam.

— Mione, você tá me assustando. O que houve? Ele foi pego? O Ministério pegou ele? Ele voltou pra Azkaban?

Hermione o abraçou de repente, chorando de verdade agora, sem conseguir montar uma frase. Por cima do ombro dela, Harry procurou Rony, mas a cara de Rony foi pior do que o choro.

— Harry. — Rony falou baixo e reto, do jeito de quem tirou a frase de um lugar que doía. — O Sirius morreu. No fim do ano passado. Aquele sonho que você vivia tendo... Aconteceu. Ele morreu lá.

— Não. — A palavra saiu sozinha. — Não é possível. Vocês só podem estar brincando. Isso tudo é uma brincadeira, desde ontem, e é de muito mau gosto...

— Harry — Hermione o soltou, o rosto molhado —, você acha que a gente ia brincar com uma coisa des...

— ELE NÃO TÁ MORTO!

Metade do salão virou. Harry não ligou.

— Vocês vão ver. Eu vou subir agora, mandar a carta, e amanhã ele já vai ter respondido. Vocês vão ver.

Saiu do salão a passos largos, limpando o rosto com a manga, torcendo com tudo o que tinha para que fosse isso mesmo: uma brincadeira enorme, cruel, de péssimo gosto, e que amanhã Edwiges voltasse trazendo a prova.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.