Notas iniciais
E aqui está o finalzinho da história! Espero que gostem! Boa leitura.

Mais tarde, estávamos tentando estourar os balões cor de rosa – e alguns pretos com caveirinhas com lacinhos rosa – quando Jen começou:

— Eu não gostei de ser chamada de velha.

Esse era um terreno perigoso.

— Dra. Portman pediu precaução, Jen. Só isso.

Ela me olhou desconfiada,

— Como se fosse fácil me manter zen enquanto eu estou à frente de uma Agência Federal.

— Você sempre pode adiantar a sua licença. – Tentei.

— E dar a Leon Vance o gostinho de ficar mais tempo no meu lugar? Não mesmo. Aquele lá está esperando só um pequeno deslize para poder puxar o meu tapete. Ele acha que eu não sei disso, mas eu sei. E sei uma ou duas ou três coisinhas sobre ele também, caso ele venha de gracinha para cima de mim. – Ela falou com uma feição que sempre significava uma coisa “Eu sou a rainha daquele lugar, quem tentar me tirar de lá é melhor estar preparado para o contra-ataque.”

— Bem, mas alguma hora você vai ter que se afastar, Olivia vai demandar isso.

Jen olhou para a barriga e fez um carinho:

— Será que você seria uma boa menina e deixaria a mamãe trabalhar sem ficar chorando no meu ouvido? – Ela arrulhou para a barriga.

Eu não gostei disso, custava muito Jen cumprir todos os meses de licença-maternidade? Porém, resolvi que o mais seguro era deixar o assunto de lado por enquanto. Já bastava o tanto de vezes que ela já havia estourado sem motivo aparente.

— Eu não vou te morder... – ela começou me encarando com a cabeça tombada. – Pode falar o que tem em mente.

Encarei-a com atenção.

— Isso é um assunto que iremos discutir depois que Olivia nascer. – Eu disse e estendi a mão para ajudá-la a se levantar do chão, que era onde ela tinha conseguido se acomodar sem que nada doesse.

— É sobre a licença-maternidade, não é? – Ela não desistiria fácil e era por isso que eu amava tanto essa mulher.

— Sim, é.

— E você não concorda que eu volte mais cedo para o trabalho.

— Não.

— Porque você tem medo de alguma complicação.

— É.

— Eu também tenho. – Ela disse me surpreendendo. – Estou pensando a longo prazo para não ter que pensar nos últimos meses, ou até mesmo na hora do parto. Por alguma estranha razão, só de pensar em entrar na sala de parto me dá calafrios. – Jen tinha a expressão carregada de preocupação enquanto acariciava a barriga.

— Vai dar tudo certo com vocês. – Garanti a ela e a abracei. Jen enterrou o rosto no meu peito e me abraçou apertado.

— Eu quero acreditar em você, Jethro. E eu me pego pensando nessas suas palavras desde a nossa conversa na noite em que desconfiamos da gravidez. Porém, tem uma vozinha no fundo da minha mente que fica repetindo a mesma coisa: que dessa vez algo será diferente. E eu tenho medo. Eu sei que Olivia é um bebê inesperado e não planejado, porém eu já amo essa coisinha pequena que está dentro de mim e não posso nem pensar que algo possa acontecer com ela por minha causa, só porque eu não sou mais tão forte ou tão nova. Eu não posso ser a ameaça para a nossa filha, Jethro. Eu não posso! – Ela disse sem me olhar.

— Você não é, Jen. E nunca será. – A levei para o quarto, onde, ainda chorando ela se sentou na cama.

— Onde está Alex que eu não vi desde que chegamos em casa? – Ela trocou de assunto deliberadamente.

— Treino de futebol? – Tentei a sorte, a verdade era que o garoto tinha desaparecido desde que Abby contou que ele seria irmão mais velho de uma garotinha.

— Não me diga que ele está dando um ataque porque é uma menina! Pelo amor de Deus! – Ela começou a ficar agitada de novo.

— Jen, eu vou encontrar o Alex. – Eu faria qualquer coisa para que ela não ficasse ainda mais irritada.

Não foi preciso que eu procurasse pelo meu caçula. Ele chegou em casa dez minutos depois e conhecendo a cara dele, ele sabia que tinha que se explicar.

— Boa noite. – Alex parou na porta do quarto e olhou para nós.

— Boa noite, filho. – Cumprimentei. Pelo que pude notar, ele realmente tinha tido treino de futebol, mas pelo visto tinha acabado há algum tempo.

— Estava aonde? – Jen nem quis saber de ser cortês.

E foi aí que ele foi pego. Alex, assim como Jasper, detestava ser confrontado diretamente por Jenny, e detestava muito mais quando o humor dela não estava muito bom. E essa característica em particular era uma herança minha e a que Jen mais odiava.

Jenny apenas olhou para mim e eu vi que ela queria um tempo a sós com o filho mais novo.

Fiz o que ela me pediu e vi que Alex me pedia para ficar e ajudá-lo a controlar a mãe.

Não dessa vez, filho.

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— Se importa de me dizer onde estava, Alex? – Tornei a perguntar assim que Jethro fechou a porta do quarto.

Alex fez hora e parou na janela, olhando para fora.

— Eu não vou perguntar de novo. E você sabe muito bem que tem mais a perder do que eu.

Suspirando, ele se virou na minha direção.

— Pensando.

— Posso saber em que?

— Na senhora, na bebê que vai nascer. Na diferença de idade que tenho para ela. Na idade da senhora.

Olhei para ele. Todos esses pensamentos tinham que se ligar em um ponto comum.

— Jazz também anda preocupado.

Essa era uma informação nova. Jasper era o mais reservado dos dois, só perdendo para o pai, mas Jethro era fácil de ser lido, pelo menos por mim, é claro.

— Posso saber com que?

— Com a hora do parto. Ducky disse qualquer coisa há algumas semanas sobre a sua idade, os perigos da reta final da gravidez...

Então meus dois filhos estavam em sincronia comigo... quem diria.

— Sabe mãe. Pode parecer estranho. Mas eu já gosto dessa bebê. De verdade. Mas eu amo a senhora, e tenho medo de acontecer algo com vocês. Não sei.

Fiz menção para que ele se sentasse do meu lado.

— Eu não sei o que seria de nós três se algo acontecesse com a senhora, mãe. E eu não sei o que vai ser de nós se algo acontecer com a Olivia. E depois disso, a minha outra preocupação... – ele parou de falar e olhou para o lado da cama que é ocupado por Jethro.

— Com seu pai. Você não sabe como ele reagiria se algo acontecesse.

— Não, eu não sei. Papai nunca esqueceu a Shannon e muito menos a Kelly. Ele seguiu em frente, mas nunca as esqueceu. Porém eu não acho que ele possa seguir em frente de novo se algo acontecer com alguma de vocês ou com vocês duas.

Meu caçula estava me surpreendendo. Até na semana passada tudo o que ele sabia fazer era piada, dizendo que ainda tinha espaço para ele deitar a cabeça no meu colo. Que ele ainda era o preferido da casa. E hoje eu estou vendo que, por trás de todas as brincadeiras e piadas, Alex está escondendo a preocupação.

E por conta disso ele está tão apegado a mim. E a Jethro, justo ele que sempre foi o mais independente, aquele que sempre torceu para completar dezoito anos e ter a própria liberdade.

— Não vou dizer para você que não estou preocupada, porque estou, Lex. Os próximos três meses e meio serão os mais longos da minha vida, mas nem eu, ou você ou o Jazz temos que ficar pensando no pior. Seu pai me diz que tudo vai dar certo, e eu acredito nas palavras dele. Ou pelo menos me apego a elas como um mantra.

E o meu Jethro de olhos verdes se ajeitou na cama, deitando a sua cabeça no meu colo. Ficou calado por um tempo e depois soltou:

— Um dia nós dois vamos estar rindo dessa conversa, não vamos?

— Rindo eu não acredito, mas talvez estejamos olhando um para o outro e pensando que fomos dois tolos em pensar o pior.

— Vai ser diferente com ela por aqui. – Alex falou encostando o ouvido na minha barriga.

— Não comece com isso de novo.

— Não, mãe, eu só estou falando que será diferente, porque todos nós vamos agir diferente. Serão meses com ela chorando de noite, depois ela vai aprender a falar e vamos ficar que nem bobos ensinando palavras e apostando qual será a primeira que ela vai dizer. Lembra, foi o mesmo com a Tali e os gêmeos, e eles nem são os meus irmãos, eu fico tentando ver um bebê por aqui. Mas ainda é difícil.

— Você está falante hoje... e isso não é o normal de nenhum dos garotos Gibbs.

Ele abriu um sorriso.

— É que eu parei para pensar que eu não vou ver isso. Olivia vai nascer quase no final do ano, e antes que ela faça um ano eu vou estar na faculdade. Faço dezessete esse ano e toda essa diferença de idade vai me impedir de vê-la crescer. E Jazz está em uma situação ainda pior, daqui a três anos ele sai da faculdade já com uma pós e se junta aos Fuzileiros... a Olivia não vai nos ver muito.

— Pode ter a certeza de que ela vai te reconhecer, Alex. E espero que ela encha a sua paciência na mesma intensidade que você enche a minha e de seu pai.

— Eu espero que ela tome o meu lugar, isso sim. Assim vocês dois não vão ficar sozinhos. Terão Olivia pelos próximos dezoito anos para terem com quem se preocuparem. E, se bobear, nesse meio tempo terão até netos! – Ele terminou com um sorriso diabólico e ali eu vi que ele já tinha colocado para fora a verdadeira preocupação dele.

— Ok, já chega. Pode ir parando com isso. Eu já disse, sou nova para ser avó. E a sua irmã ainda mais nova para ser chamada de tia.

— O que?! A tia não vai poder brincar com os sobrinhos? Dividir a caixa de areia e as bonecas? Ou o colo da mãe/vó? – Ele continuou a me provocar.

— Alex, volte para o seu exame de consciência, por mais estranho que tenha sido, ainda prefiro aquilo ao novo rumo de seus pensamentos. – Dei um tapa na testa dele para provar o meu ponto.

— Tudo bem, e mudando de assunto, já temos um apelido para ela?

— O nome já é curto o suficiente para se evitar isso! – Avisei.

— A senhora sabe que o papai vai inventar um, não sabe?

— Ele que não se atreva. Foi ele quem escolheu o nome.

— Então ele já deve ter um apelido na ponta da língua.

E o pior de tudo, deveria ser verdade, foi Jethro quem deu todos os apelidos que temos, fora o de Ziva e Abby. E eu me perguntava como ele conseguiria encurtar ainda mais Olivia...

Alex ficou por ali me sondando e fazendo companhia até que a barriga dele começou a roncar.

— Quer que faça algo para você comer? – Perguntei.

— Nada. Vou dar um jeito de pedir algo para comer. Fique aí e descanse. A menos que a senhora queira algo...

— Pode pedir para mim também, seja lá o que você for comer.

— Essa é uma parte boa dessa gravidez, a senhora tá comendo porcaria pra caramba. – Ele falou saindo do quarto.

— E não esqueça o sorvete. De morango.

— Ela vai ser ruiva? – Alex colocou a cabeça para dentro do quarto e me soltou essa pérola.

— Como eu vou saber, Alex! Ela está dentro da minha barriga!

— Mas tudo o que a senhora come tem que ter algo vermelho. Seja a fruta ou a pimenta demais. Acho que essas oscilações de humor que a senhora tem e essa fixação por tudo o que é vermelho para comer indicam que Olivia será ruiva e terá uma personalidade do caramba. Ainda bem que eu vou estar bem longe daqui.

— Quer levar uma sapatada, moleque? – Grunhi.

Ele não voltou no quarto nem tão cedo, e tão logo o escutei fazendo barulho no andar de baixo, Jethro reapareceu.

— Algo me diz que você escutou a conversa...

— Seus filhos puxaram a sua péssima mania de pensar demais sobre tudo. Às vezes, o importante é não pensar muito. É deixar acontecer. – Ele falou enquanto ocupava o lugar que o filho tinha ocupado minutos atrás.

— Alguém tem que pensar por aqui, não é?

— Podia ser só você, Jen. Seria mais fácil de controlar a situação.

— Só você pode dizer uma coisa dessas e sair vivo, Jethro.

Ele riu e nós dois ficamos ali, apreciando a calma antes que a tempestade começasse.

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Sete meses. Mais dois e eu sei que Olivia já terá chegado.

O verão veio e já estava se despedindo. Jazz tinha vindo e expressado as mesmas preocupações que Alex tinha expressado um mês antes. E, pouco antes de voltar para NY, tinha deixado bem claro, queria todas as notícias nessa reta final.

As meninas estavam planejando um Chá de Bebê, e se dependesse da animação de Abby, elas convidariam até o presidente.

Mesmo com a barriga já pesando uma tonelada eu ainda ia trabalhar normalmente, o que significava que meus saltos ainda estavam nos meus pés da hora que eu acordava até a hora em que eu chegava em casa.

Estava sendo uma semana relativamente tranquila, nada de extraordinário tinha aparecido, eu já não era atraente o suficiente estando gravida e do tamanho do mundo para escutar qualquer piada de políticos ou lobistas e todos os casos que apareciam eram os mais tranquilos possíveis.

E por que raios eu tinha a sensação de que algo estava prestes a mudar?

Minha cabeça toda hora voltava na minha conversa com Jethro e com meus filhos. E a voz da minha médica me dizendo para tomar todos os cuidados também não saía da minha cabeça.

— E agora mais essa? – Falei frustrada, tirando meus óculos de leitura e os colocando na mesa. Toda a minha concentração tinha acabado enquanto o meu cérebro cismava em me perturbar.

Nessas horas eu gostaria de poder tomar um copo de café para poder focar no que eu tinha que fazer. Mas café estava duplamente proibido, assim só em restava um chá sem qualquer traço de cafeína.

Me levantei para poder fazer uma xícara para mim, Ducky tinha sido bondoso o suficiente para me emprestar um de seus kits para preparar chá. Enquanto a água fervia, eu decidi que comer algo também não cairia mal. Já tinha um tempo que eu não colocava nada na boca. Me ajoelhei na frente do armário para procurar por algo para comer, achei um pacotinho de torradas. Seriam perfeitas com o chá.

Em um segundo tudo estava bem, no outro...

Assim que me levantei, devagar para não me desequilibrar, eu senti uma pontada. Ainda era cedo demais para ser uma contração. E lá veio outra logo em seguida, bem mais forte. E eu sabia, algo estava muito errado com a minha menina.

Estava muito longe da minha mesa para poder usar o telefone, meu celular, para a minha infelicidade, também estava na minha mesa e com muita dor, só me restou me sentar no chão, gritar e torcer para que Cynthia me ouvisse.

No meu terceiro grito, que foi tanto um pedido de socorro quanto de dor, Cynthia me escutou e entrou correndo no meu escritório. Assim que me viu deitada, abraçando a minha barriga, ela perdeu a cor.

— Senhora! Diretora! – Ela me chamava aflita. Eu vi que ela queria fazer algo, porém não sabia o que.

— Chame Ducky e Jethro. Eu preciso ir a um hospital – Gemi.

E Cynthia, fazendo jus à sua lealdade ímpar, não me deixou sozinha, ligou primeiro para Jethro, explicou a situação. Ele, que estava no andar de baixo, subiu as escadas antes mesmo que ela encerrasse a chamada. Depois Cynthia chamou Ducky. Contudo eu não os vi chegar, minha vista ficou preta.

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Estava estranhamente calmo entre as mesas, ninguém conversava, todos os cinco devidamente concentrados em seus relatórios. Isso vinha acontecendo com mais frequência, já que as mudanças de humor de Jen estavam apavorando a agência inteira, e não tinha um funcionário que já não estava contando os dias para que minha filha nascesse.

Era até divertido escutar alguns comentários, tinha gente até marcando nos calendários a possível data do parto, tudo para que a paz voltasse a reinar dentro do NCIS.

Tudo estava tão tranquilo que considerei buscar um café para mim e um chocolate quente para Jen.

Não tinha me levantado da mesa quando o meu telefone tocou. Que Jenny podia me ler isso não era novidade, agora ler os meus pensamentos, esse poder era único.

Ia fazer qualquer piada quanto a isso, porém, do outro lado da linha não era a minha esposa, era Cynthia e ela estava apavorada.

— Agente Gibbs – ela começou. – Por favor suba aqui no escritório da Diretora urgente.

Ela não tinha terminado de falar, e eu já tinha soltado o telefone e estava correndo escada acima, eu tinha escutado o gemido de Jen ao fundo.

Em menos de trinta segundos eu estava passando pelas portas duplas que dão acesso ao escritório da diretora. E a cena que vi...

Jen estava deitada perto do sofá, abraçava sua barriga, a cor tinha sumido de suas feições, Cynthia, ainda no telefone, desta vez com Ducky, estava tão branca quando a chefe.

Enquanto eu dei os poucos passos que me separavam da minha esposa, uma conversa de alguns meses atrás voltou a minha mente.

Tem uma vozinha no fundo da minha mente que fica repetindo a mesma coisa: que dessa vez algo será diferente. E eu tenho medo.

Não... isso não podia estar acontecendo.

Me ajoelhei ao lado de Jen, ela estava desacordada. Procurei por algum pulso, isso tinha, mas eu não tinha como analisar mais nada.

Escutei passos atrás de mim, e Ziva e Tony estavam parados ao lado da mesa de reuniões, Ziva já com o telefone no ouvido, chamando por uma unidade de emergência.

— Cynthia. – Chamei a mulher que estava estática atrás da mesa de Jenny. – Por favor, ligue para a médica de Jen.

Ela apenas confirmou com a cabeça. Com pouco Ducky seguido de Palmer chegaram. Eles poderiam me dar um diagnóstico melhor.

Ducky não tinha uma cara boa, Ziva e Tony perceberam isso e se afastaram ainda mais.

— Era isso o que eu temia. – Foi o que o médico disse.

Palmer virou Jen para que suas costas ficassem retas e suas vias aéreas desobstruídas e começou um exame preliminar, com a ajuda de Ducky.

Eu não encontrava mais a minha voz.

Agora quem estava com medo era eu.

— Ducky, por favor, fala que as duas estão bem... – Ziva praticamente implorou.

— Olivia está se mexendo. Posso escutá-la – Palmer deu a resposta que eu esperava.

— E Jen? – Consegui perguntar.

— De início parece bem, Jethro, mas não posso confirmar mais nada. – Ele me olhou seriamente ao dizer isso. – Sinto muito.

Sinto muito são as palavras que eu detesto ouvir. Ainda mais levando-se em consideração...

Tentei trazer meus pensamentos para o presente. Não. Isso não iria se repetir.

Com pouco, Tony deu uma ordem e nos avisou que os paramédicos haviam chegado.

Quando a médica entrou, me perguntou o que havia acontecido, olhei para Cynthia.

Nenhum de nós sabia.

— Quanto tempo de gestação?

— Sete meses.

— Tem algum hospital de referência?

— Bethesda. A ginecologista/obstetra já está indo para lá. – Cynthia respondeu.

— Certo. Alguém vem junto.

Era a pergunta que não precisavam fazer.

Por todo o caminho Jen não recobrou a consciência e a cada quilometro percorrido eu ficava ainda mais nervoso.

— Não é o ideal, senhor. Mas acontece. Os sinais vitais estão bem. E o bebê também parece bem. Tenha fé. – A médica, que eu notei era bem nova, me deu um tapinha no ombro e sorriu com simpatia. – Às vezes os bebês só querem dar um susto antes da hora.

Me apeguei a estas palavras enquanto via Jen ser levada para a sala de emergências. Dra. Portman apareceu logo em seguida e com passos rápidos seguiu para onde haviam levado minha esposa e filha.

Meu celular tocou, eu nem me lembrava de que isso estava comigo. Olhei o visor e era Abbs.

— GIBBS! – Ela gritou assim que viu que a ligação foi atendida. – Eu já avisei ao Alex e ao Jazz. Alex já largou o treino e está indo para o hospital ficar junto com você. Nós vamos assim que o expediente acabar. Cynthia está cancelando a agenda da Jenny pelo resto da semana e Tony está tomando conta da equipe.

— Obrigado, Abbs. Agradeça a eles por mim.

— E Gibbs? – Ela falou mais baixo.

— Diga Abbs.

— Vai dar tudo certo. Eu sei que vai.

E somente Abby conseguiria me fazer sorrir nesse momento.

Vinte minutos depois da ligação, Alex apareceu igual a um furacão. Passou direto por mim, quase caiu no chão molhado e soltou um palavrão que assustou metade do andar.

— Aqui filho. – Chamei quando ele, já perdendo a paciência porque a enfermeira tinha resolvido ignorá-lo por conta do palavrão, começou a andar de um lado para o outro.

— PAI! – A voz estava carregada de preocupação. – E a mamãe? E a Olivia?

— Sem notícias.

— Mas o que aconteceu? A mãe estava bem hoje de manhã...

— Eu não sei, filho, quando cheguei no escritório dela, ela estava desmaiada.

Ele respirou fundo.

— Foi algo sobre isso que o Ducky tentava nos avisar, não era? Que isso podia acontecer? – Ele se sentou do meu lado, jogando a mochila debaixo da cadeira e apoiando a cabeça nas mãos.

— Até onde eu sei, tudo parecia normal...

— Mas...

— Não tinham examinado com cuidado. – Completei.

Alex começou a bater o pé, um sinal de que ele tinha muito na cabeça e não sabia se deveria falar.

— Fale filho.

Ele me encarou, os olhos de Jen me fitaram e ali estavam estampados todas as preocupações e medos.

— E se a mamãe... e se algo... eu... nós.... o senhor...

Ele não precisava terminar. Eu sabia onde os pensamentos dele os tinha levado.

— Vamos esperar os resultados, tudo bem. – O abracei de lado.

— Eu não quero perder a mãe... não quero. – Ele sussurrou.

Horas se passaram e não recebemos nenhuma atualização, nem a Dra. Portman havia passado.

Abby e Ducky chegaram para nos fazer companhia, e com a presença deles, Alex ficou ainda mais agitado e nada estava ajudando que Jazz ligava a cada vinte minutos.

Mais trinta minutos e finalmente a Dra. Portman deu sinal de vida.

— Elas estão bem. Demorei porque queria ter plena certeza. Jenny está acordada há um tempo e falando que alguém já deveria ter vindo conversar com vocês.... mas eu queria ter cem por cento de certeza de que nada estava de errado com Olivia.

E eu pude respirar aliviado pela primeira vez em horas.

Alex ficou tão aliviado que saiu soltando palavrões pelo corredor afora.

— Eu só vou pedir que me ajudem a controlar a Sra. Gibbs. Ela precisa de todas as formas ficar de repouso absoluto. Não pode descer escadas, não pode usar salto alto e não pode mais ter picos de stress. Ou o parto será adiantado e isso não será bom nem para ela e muito menos para a pequena Olivia.

— Pode deixar que a gente conversa com ela! – Alex voltou e parou do meu lado. – Tenho que ligar para o Jazz, ou aquele lá é bem capaz de tentar matar alguém da companhia aérea para chegar aqui ainda hoje... – Pegou o celular e começou a teclar o número do irmão.

— Senhor Gibbs... um minutinho por favor. – A médica me chamou em um canto.

— Algo mais que eu deva saber?

— Sim. Um dos motivos do desmaio da Sra. Gibbs foi estafa. Ela ainda não diminuiu o ritmo de trabalho e isso, aliado ao fato de que ela vem perdendo nutrientes para o bebê e, muito provavelmente já começa a dormir mal por conta da falta de uma posição confortável, faz com que o corpo se desligue sozinho para que a pessoa possa se recuperar. Conversei muito com ela nas últimas duas horas, ela vinha se preocupando com o parto há meses, não só ela como ou outros dois filhos também. Pois bem, esse descolamento da placenta pode adiantar o parto. Os exames me mostraram que não foi muito grande, Olivia ainda vai receber os nutrientes que precisa, porém, de forma alguma eu quero Jenny se movimentando, fazendo força ou até mesmo se estressando. Ela teve um pequeno sangramento, algo que é comum nesse caso, contudo, outro desses, acompanhado com a pressão alta que ela apresentou hoje, pode ser que tenhamos que adiantar o parto, e aí os riscos são maiores. Eu não estava brincando quando falei que a idade dela era um risco. Não digo que ela está velha para ter um bebê, só que o corpo não é o mesmo de quando ela teve o primeiro filho há vinte anos... por isso é imprescindível o repouso e o descanso, ela gostando ou não.

Assenti. Concordar com a médica era uma coisa, fazer Jen me ouvir, era outra.

— Eu vou tentar mantê-la o mais quieta possível.

— Creio que você não terá trabalho. Ela está bem assustada com tudo isso, vai ser ruim para ela que é uma mulher ativa, vai. Mas é o melhor para a saúde dela e de Olivia. Agora eu vou te levar até ela, antes que ela fale ainda mais na cabeça das enfermeiras. E já te aviso, ela está ligada a algumas máquinas, todavia é temporário. Quero mantê-la internada essa noite, só para acompanhar a evolução do quadro, se mais nada acontecer, amanhã ela terá alta, e terá que cumprir todas as condições que eu já te falei. – Dra. Portman foi andando na minha frente e falando ao mesmo tempo.

Abby nos viu e com um grito quis me acompanhar. Foi a médica que muito educadamente pediu que somente um de cada vez fosse ver Jen.

Vi a cientista ficar chateada, mas entender. Só soltando uma pergunta:

— Mas a Jenny e a Olivia vão ficar bem, não vão?

— Sim, Abbs, elas vão.

— Tudo bem, Gibbs. Fale com a Jenny que estou mandando todas as energias positivas para ela.

Antes mesmo de chegar ao quarto pude ouvir a voz de Jenny, ela perguntava para uma das enfermeiras quando poderia ver a família.

— Tente ser o mais compreensível possível. Não é culpa dela. E ela já está se culpando demais. – Portman me mostrou a porta. – Eu volto em uma hora para ver como ela está, até lá, se for possível, evite que muita gente venha conversar com ela, sei que todos devem estar preocupados, mas tudo o que ela não precisa são pessoas falando ao mesmo tempo o quão preocupadas estão.

Concordei. E antes de entrar, mandei uma mensagem para Alex, avisando que a mãe dele não poderia receber visitas hoje e que se tudo corresse bem, amanhã ela teria alta. Sei que ele entenderia que era para avisar para todos que tudo estava bem e que poderiam vez Jen no dia seguinte.

Dei os dois passos que me separavam da porta e fique ali, parado, vendo Jen conversando com a nossa filha.

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Já tinha quase meia hora que a minha médica tinha saído, uma das enfermeiras estava me monitorando de perto, vendo minha pressão, que estava um pouquinho elevada, os meus batimentos cardíacos e acompanhando Olivia também, tinha um aparelho, muito parecido com um eletro colado por toda a minha barriga, monitorando o batimento cardíaco da minha filha, e até onde pude entender, tudo parecia muito bem.

Para passar o tempo estava tentando lembrar como vim parar no hospital. Tudo o que eu me lembro foi da dor que senti, de gritar por ajuda e mais nada. Acordei na sala de ultrassom, com a Dra. Portman fazendo um exame minucioso.

Ainda estava grogue e totalmente desorientada, porém algumas palavras ficaram gravadas em meu cérebro.

Descolamento de placenta. Sangramento. Falta de nutriente. Pressão alta. Idade.

E tudo o que eu consegui pensar era: Eu era a maior ameaça para a vida da minha filha.

Passei por uma bateria de exames, de todos os tipos.

Os resultados chegaram uma hora depois.

Tudo estava bem com Olivia, mas se eu quisesse minha filha do meu lado, teria que seguir as recomendações à risca. Outro susto desses e só havia um resultado. Um parto prematuro com risco para nós duas.

Eu me assustei de verdade. Agora os meus medos eram realidade. Faltando dois meses para a data final, Olivia poderia nascer a qualquer momento. E isso não era ideal.

— Eu quero repouso absoluto. Nada de liderar o NCIS. Nada de ficar andando de salto alto. Você não vai sequer sair da cama, só para ir ao banheiro e dar pequenas voltas dentro do quarto para ajudar na circulação.

Entregar o NCIS mais cedo para Vance não me pareceu má ideia agora.

E depois de me passar um sermão, saiu para avisar a Jethro, a quem eu sabia deveria estar subindo pelas paredes por conta da falta de notícias.

E isso foi há quase quarenta minutos...

Eu não tinha nada para fazer. A Enfermeira Olsen tinha me deixado cinco minutos atrás, depois que perguntei – pela milésima vez – se poderia ver a minha família.

Não me restava outra pessoa para conversar a não ser Olivia.

— Espero que tudo esteja bem aí dentro. – Comecei a acariciar a minha barriga enquanto falava. – Aqui fora as coisas vão ficar feias para o lado da mamãe. Ainda mais se eu não seguir as ordens da Doutora...

— A única coisa que vai acontecer com a mamãe é que a coleção de sapatos de salto dela será doada para uma instituição de caridade se ela for muito teimosa e não ficar descansando. – Jethro falou da porta, eu nem tinha notado a presença dele.

Olhei para ele, procurando em seus olhos a acusação velada de que isso era minha culpa, que eu pusera a vida da nossa filha em risco. Porém, não havia nada ali a não ser preocupação genuína.

— Oi... – Falei sem jeito.

Foi aí que ele entrou no quarto.

— Como vocês estão?

— Eu estou bem. Um pouco tonta ainda, mas isso é por conta da minha pressão que está um pouco alta. Olivia está bem também. Aquela máquina está assim desde que começaram o monitoramento. – Apontei para a máquina.

— Jen...

— Eu sei. Só preciso ligar para Cynthia e avisar ao SecNav. Estou saindo de licença Jethro. Um susto já está de bom tamanho para mim. – Falei sem olhar para ele.

— Jen... – Ele tornou a me chamar.

E não tive escolha a não ser olhá-lo.

— Por favor, não faça isso de novo comigo. Eu não sei o que eu vou fazer se perder vocês.

Confirmei com a cabeça, já que não estava confiando na minha voz para dizer algo. Meus olhos já estavam cheios d’água.

Ele segurou forte a minha mão direita e a outra ele pousou em minha barriga. Era até engraçado, após me fazer ficar longe de Jethro por seis longos meses, Olivia parecia saber quando o pai tocava a minha barriga, pois ela sempre chutava no lugar onde a mão dele estava.

Ele abriu um sorriso imenso.

— Ela já sabe que estou aqui.

Para cortar um pouco a estranha certeza dele, eu tive que dizer:

— Eu acho que isso é um pedido de desculpas por ter te afastado por mais de meio ano.

Jethro olhou para mim, ainda tinha o sorriso nos lábios.

— Vamos ver quando ela nascer.

— Isso é uma aposta? – Sorri de volta.

— Pode-se dizer que sim.

— Olivia, filhota. As garotas da casa têm que unir. Não me decepcione e seja toda molenga pelo seu pai, hein? – Falei baixinho em direção à minha barriga.

— Isso aí já é um complô? – Jethro perguntou assustado.

— Só vamos saber quando ela nascer, Jethro. Mas a aposta já está feita. – Estendi minha mão para ele.

— Então, fechado. – Ele apertou a minha mão sorrindo.

A tempestade que eu estava esperando não veio, muito pelo contrário, Jethro ficou calmo do meu lado, creio que ele se assustou tanto ou até mais do que eu com tudo isso.

Alguns muitos minutos depois, Alex apareceu. Tinha um copo de café para o pai e um suco para mim.

— A sua médica disse que tudo bem tomar isso. Apesar de que em menos de meia hora a senhora vai precisar ir ao banheiro... – Ele me estendeu um copo de limonada que aceitei de bom grado.

— Todos já foram? – Jethro perguntou para ele.

— Sim. Foi preciso que Tony e Ziva viessem para tirar Abby daqui. Ela queria acampar por aqui, mas os dois a convenceram que era melhor ir. Ducky só se foi depois que conversou por muito tempo com a Dra. Portman. – Ele informou se sentando no pé da cama.

— Ducky deve ter pedido um relatório completo. – Falei entre as goladas da minha limonada.

— Não duvido. Ele me disse que quer conversar com você, mas vai esperar você estar confortável em casa e bem mais calma...

Fiz uma careta... Ducky não teria pena de mim quando o sermão viesse.

As horas passaram, Alex se ajeitou entre uma cadeira e a cama onde estava, Jethro mal deixou o meu lado. Tive que conversar com um por um da equipe, confirmar que estávamos bem, mas que não voltaríamos à Agência nem tão cedo.

Abby foi a mais difícil de se convencer. Ela cismou que tinha uma receita em algum lugar, de alguma das muitas tias dela, que era boa para isso. Jurou que passaria a noite procurando e que levaria na minha casa.

Eu fiz de tudo para que ela pudesse ter uma noite de sono, contudo ela disse que não conseguiria desligar, tinha muito na cabeça. Nem Jethro conseguiu acalmá-la.

Dra. Portman passou mais três vezes no meu quarto, na última ela viu Alex já dormindo. Jethro tinha saído para pegar um café.

— Segurança. – Apontou para o meu filho.

— Mais fácil eu mesma acabar com a ameaça do que ele acordar. – Fiz um carinho na cabeça do meu filhote do meio.

— A enfermeira chefe está querendo a cabeça dele... acho que ele estava nervoso demais quando chegou e andou falando o que não devia.

— Vou fingir que não sei nada sobre isso.

— Sua família estava desesperada lá fora. E nem quero saber como vai ser quando for a hora dessa menina chegar ao mundo.

Abri um sorriso.

— Pode apostar que vai aparecer muito mais gente.

A médica deu outra conferida nos aparelhos.

— Tudo está em ordem e estável nas últimas seis horas. Isso é muito bom, se continuar assim, posso classificar como um susto, mas as recomendações continuam.

— Eu já estou de licença, minha secretária já arrumou tudo.

— Gostei de ouvir isso, e tenho certeza de que Olivia gostou ainda mais.

— Assim espero.

— Bem, já que tudo parece controlado por aqui, estou dando o dia como finalizado. Meu telefone celular é esse, qualquer coisa de anormal me ligue, a enfermeira chefe já tem todas as recomendações. Porém, tenho a impressão de que só te verei de manhã. Tente descansar, mas não nessa posição... – Ela apontou para Alex que dormia todo torto na cadeira.

— Vou tentar. – Garanti. – Só não posso prometer nada.

— Os últimos meses são desconfortáveis mesmo. E aí, quando acaba você vai sentir falta.

— Creio que não, três está de bom tamanho. E eu passei por tudo ao extremo nessa aqui.

— É para você não esquecer jamais. Boa noite, Jenny. Boa noite Olivia. – Portman disse e saiu do quarto.

Só me restava esperar por Jethro...

Mas não foi ele quem apareceu na porta. Foi sua cópia mais nova. Jazz tinha saído de NY às pressas se a mochila e a cara de cansado eram os indicativos.

— Jasper? Como te deixaram entrar?

— A senhora está bem? A Olivia? Demorei porque foi difícil achar um voo de última hora. – Meu filho mais velho me cortou e se sentou na mesma cadeira onde o pai estava mais cedo.

— Calma filho. Estamos bem. Dra. Portman já disse que foi um susto enorme, e que estou de repouso absoluto até a data do parto, mas tudo está estável desde a metade da tarde. Vamos ficar bem.

Ele não parecia nada convencido.

— Onde está o pai?

— Aqui. – Jethro respondeu da porta.

— É verdade que tudo está bem agora?

Jethro confirmou com a cabeça.

— Não precisava ter vindo, filho. De verdade.

— Mãe. Um susto desses e a senhora acha que eu conseguiria ficar em NY como se nada tivesse acontecido? Abby estava desesperada no telefone e como eu sei que ela tende a exagerar, liguei para Ziva, e até a Ziva que é controlada, estava assustada.

— Foi um susto. Que serviu para me mostrar que eu devo ficar mais quieta, se quiser que tudo fique bem com a sua irmã, garanti.

Jazz se levantou, dando espaço para o pai se sentar.

— Quão ruim pode ser se acontecer de novo?

— Não vai acontecer de novo, Jazz. – Jethro falou. E pela expressão dele ele não queria tocar no assunto.

Jasper notou isso também e somente concordou com a cabeça. Ele entendeu o recado.

— Mãe. Por favor, siga as recomendações dos médicos.

— Eu vou seguir filho.

— Acho bom, ou eu tranco o semestre só para ficar de olho na senhora.

Era tudo o que eu não precisava. Três babás.

— Você tem que voltar para NY e para a Faculdade.

— Dois dias não vão me matar. Vai por mim, mãe. Ainda é início de semestre. Eu recupero fácil isso. – Me respondeu se ajeitando em outra cadeira que tinha no quarto. — Estamos aqui por você, Olivia, qualquer coisa é chutar forte! – Ele brincou.

E como se ela tivesse entendido, Olivia me deu um daqueles chutes dolorosos na costela.

— Sua irmã está mandando um oi. – Falei sem empolgação.

Jazz deu uma risada.

— É isso aí, irmãzinha. Depois te ensino a perturbar o belo adormecido que não quer dividir o colo da mãe com você.

— Vai dormir, Jazz. Deixe a sua mãe descansar. – Jethro avisou.

Cinco minutos depois os únicos sons da sala eram os monitores e os roncos dos outros três ocupantes. Até parecia que estava em casa.

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Por incrível que se possa parecer, Jen seguiu à risca as recomendações da médica. Ela estava de repouso absoluto, só se levantava da cama para ir ao banheiro e dar uma pequena volta pelo corredor para ativar a circulação e voltava para a cama.

Lógico, ela não estava gostando de nada disso, ainda mais ser deixada de fora de todos os casos e problemas da agência.

Duas semanas depois do susto, Cynthia passou para fazer uma visita, algo que era para ter durado quinze minutos, virou uma atualização de tudo o que estava acontecendo. E Jen não gostou nem um pouco as mudanças que Leon estava implementando.

No outro dia cedo, Vance, que pediu uma atualização do último caso, recebeu uma ligação enquanto em ainda estava no escritório.

Era Jen. E eu podia ouvir tudo o que ela estava falando.

A ligação não foi longa e Vance não teve a oportunidade de falar nada. A última frase:

— Eu sou a Diretora dessa Agência, Leon, não pense que pode fazer o que quer, porque não pode. Desfaça cada uma das decisões arbitrárias que tomou ou eu vou ligar para SecNav e dizer que você é inapto para o comando provisório desse lugar. – E ela desligou.

— Você lida todo dia com isso? – Ele tinha os olhos arregalados.

Dei de ombros.

— Ela só não gosta que tomem decisões pelas costas dela. – Informei.

— E ela ficou sabendo disso como? Nem você sabe o que foi discutido ontem!

— Jen tem olhos e ouvidos por toda essa Agência, Vice-Diretor. Ela sempre vai saber de tudo. – E com essa saí da sala.

Passei por Cynthia que tinha um discreto sorriso no rosto.

— Depois dessa você merece até um aumento. – Comentei.

Ela só me deu um: “Bom dia para você também, Agente Gibbs”, e entrou no escritório para entregar o serviço do dia para Vance.

Quando cheguei mais tarde em casa, Alex e Jen estavam no quarto assistindo a uma série qualquer. Jen tinha uma feição calma e um sorriso no rosto.

— Parabéns, você conseguiu assustar ainda mais o seu Vice-Diretor. – Informei depois de beijar a barriga dela. – Como vocês estão?

— Com fome. – Ela me disse.

— De que?

— Esse é o problema, pai. Já perguntei sobre tudo o que me lembrei que ela possa querer comer e nada. Nada liga no cérebro dela. – Alex me informou.

— A única certeza que tenho é que não tem aqui em casa. – Jen continuou.

— E como você sabe? Desceu as escadas? – Se ela tivesse saído do repouso...

— Não. Alex foi lá embaixo e em uma chamada de vídeo me mostrou o que tem na cozinha. Não é nada do que tem lá.

Alex balançava os dois telefones, como que me dizendo que só eu vivia na idade da pedra dentro dessa casa.

— Continue pensando e depois me avise. – Ele foi saindo do quarto.

— Vai aonde? Não te deixei sair! E a sua filha tá me chutando com mais força desde que você começou a falar, pode ficar aqui e contar uma história para ela! – Jen me chamou e apontou o lado da cama. – O livro está aqui.

Sim, desde que Olivia começou a chutar ainda mais forte, um sinal de que nada de ruim aconteceu com ela, toda vez que ela começava e não parava, o que geralmente acontece quando eu começo a falar e deixo Jen falando sozinha, ou quando Alex e Jazz estão por perto, sobra para um de nós três acalmar a pestinha. E ela ainda está dentro da barriga da mãe.

Assim, não me restou outra coisa a não ser começar a ler O Pequeno Príncipe para a pequena princesa que estava quase chegando.

— Me avise quando ela acalmar aí dentro. – Pedi para Jen.

— Pode deixar. – Ela se ajeitou melhor entre os travesseiros e tentou se concentrar em não morder o lábio com muita força cada vez que Olivia chutava.

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Trinta e duas longas semanas de gestação. Eu estava de cama, imensa, parecendo que tinha engolido o mundo. Em nenhuma das minhas gravidezes anteriores eu tinha ficado tão grande.

Nessa reta final meu humor tinha voltado ao normal. Eu não sentia mais nenhum enjoo ou vontade assassina de matar ninguém. Tudo estava indo bem, exceto pelo fato de que a cada quinze minutos eu precisava usar o banheiro. Pelo menos assim eu podia levantar da cama e com passadas de pinguim em podia caminhar os poucos metros entre a minha cama e o banheiro.

— Eu não vejo a hora de você nascer... ficar só de cama está acabando comigo... – Comecei a conversar com a minha filha. – Seu pai já acabou o seu quarto, acabei comprando um tanto do seu enxoval pela internet, tudo chegou e ninguém me deixou ver. Acho que querem fazer uma surpresa para quando nós voltarmos da maternidade. E eu já te aviso, a mamãe detesta surpresas. – Continuei.

Me sentei devagar na cama, sentindo falta dos dias em que podia me levantar e ir correr, ou até mesmo só poder fazer o serviço de casa. Eu estava parecendo aquelas grávidas do século XIV, que por qualquer coisinha eram colocadas em isolamento, em um quarto escuro e com um enorme crucifixo na cabeceira da cama para que nenhum mal acontecesse.

Todo dia eu via Jethro se levantar, se arrumar e ir para o trabalho, Alex pelo mesmo jeito, ia para o colégio. Jazz me mandava três mensagens por dia, querendo se certificar que tudo estava indo bem.

Era outubro, meu aniversário estava chegando, e a minha festa seria a festa do pijama: eu, meu pijama e minha cama.

Que maravilha!

Pelo menos uma vez por semana, cada um da equipe passava aqui para fazer uma visita, era bom saber como as coisas iam lá no estaleiro, pois Jethro não abria a boca nem por decreto...

Tony e Ziva trouxeram Tali em uma tarde de domingo, a garota se aconchegou em mim e ficamos assistindo desenhos a tarde inteira.

— Treinamento, Jenny? – Ziva me perguntou enquanto pegava a filha que dormia um sono solto.

— Essa é uma das partes que gosto. Sou fã de desenhos.

— Bom saber. Cada vez que Tali der um ataque que quer ver o mesmo desenho pela décima vez, eu vou trazê-la para cá.

Eu ri.

— Não reclame, Ziva. Daqui a alguns anos ela estará vendo as séries que ela quiser, no computar dela e nem você ou Tony serão autorizados a saber o que é.

— Isso foi uma indireta? – Alex gritou do quarto da frente.

— Se a carapuça serviu, eu não posso fazer nada. – Foi a minha resposta.

Na semana seguinte, foi McGee, Delilah e os gêmeos, que fizeram do quarto de Alex sua parada obrigatória para jogar qualquer coisa no videogame. Morgan logo se cansou e vendo que tinha uma cama pronta para dormir, se deitou do meu lado e me pediu uma história.

Era tudo o que eu podia fazer mesmo...

Victória foi mais fofa, trouxe um joguinho para que nós duas pudéssemos jogar juntas. E eu perdi vergonhosamente para uma garotinha de cinco anos!

E com isso, as semanas iam passando.

Ellie, Abby e Nicky também vieram, Bishop trouxe qualquer coisa de comer que nunca chegou na minha mão. Ter três homens em casa pode ter sido a causa de isso ter acontecido.

Abby vinha duas vezes por semana e cada vez era um espanto maior.

— Mas você já está enormeeeeee!! – Ela falou na semana que completei 36 semanas de gestação.

— Não sou eu que estou enorme, Abbs. É a Olivia! – Informei e tentei reprimir uma careta, a garotinha em questão estava se esticando dentro da minha barriga.

— E agora, quando vai ser? – A cientista perguntou animada.

— A qualquer momento. Eu acho que não chegou às 40 semanas.

— Dentro de duas semanas é o aniversário de Gibbs. E dentro de dois dias o seu. Será que ela vai ser um presente especial para um de vocês? – Ela sonhava.

— Vai saber o que se passa na cabeça dela, não é, Abby?

— Aposto que eu sei. Olivia já sabe que é amada por todos nós, e é ainda mais amada pela mãe e pelo pai. – Ela me respondeu abrindo um enorme sorriso. – Bem, eu já vou. Qualquer novidade, me ligue! – Me deu um abraço e saiu correndo escada abaixo.

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O aniversário de Jen veio e se foi e não fizemos nenhuma comemoração. Como ela não podia se alterar muito, a equipe fez uma vídeo-chamada para cantar os parabéns.

Depois disso ela começou a me perturbar para ver o quarto de Liv. Eu não a levei lá.

— Jethro, você sabe que eu posso andar até o final do corredor e voltar, não posso?

— Sei, você pode e deve fazer isso, e é por isso que o quarto está trancado e a chave está comigo. – Avisei.

Claro que ela não gostou, mas se conformou.

— Não falta muito mesmo...

— Quanto? – Ela havia acertado das últimas vezes, não erraria nessa.

— Duas semanas, no máximo. Não mais. – Ela falou.

Fiz as contas.

— Isso vai dar perto do meu aniversário.

— Eu sei, Jethro, já fiz essas contas também.

Liv seria o meu presente.

— Ou talvez ela nasça antes... nunca se sabe. Ainda mais com ela. – Jen acariciou a barriga.

Mas não. Se ela tinha essa ideia, seria nessa data. Melhor avisar os meninos.

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E não deu outra. Duas semanas depois do meu aniversário, eu entrei em trabalho de parto. Justo no dia do aniversário de Jethro.

Por conta do problema que eu tive no sétimo mês, um parto normal seria muito arriscado, assim, optaram por uma cesariana, para maior segurança tanto minha quanto de Olivia.

Eu estava um tanto cheia de anestesia quando escutei o primeiro choro da minha filha.

Depois de tantos meses de enjoos absurdos, de dois meses de repouso absoluto, de trocas de humor que pôs para correr vários políticos, minha filha estava nesse mundo.

Jethro foi o primeiro a pegá-la. Ele olhou encantado para a pequena em seus braços.

— Ela é perfeita, Jen! – Ele falou ao me entregá-la e me dar um beijo.

Olhei para a minha filhota. Ela ainda precisava de um banho, ser checada, mas ela estava finalmente ali. Forte, saudável e chorando alto. E eu passaria por tudo de novo se fosse preciso.

Uma enfermeira veio pegá-la. Ela precisava passar por exames. Nós já sabíamos disso.

Porém, antes de entregá-la, olhei para Jethro e disse:

— Feliz Aniversário, papai. Agora você vai ter que dividir as atenções desse dia com a sua filha!

— Não há presente melhor, Jen.

Nós passamos a nossa menina para a enfermeira, que me garantiu que nos veríamos de novo quando eu já estivesse no quarto. Com o fim do parto, Jethro foi dar a boa notícia para o restante da família e eu fui para a sala de recuperação.

Não sei quanto tempo se passou, mas acordei de verdade no quarto, Olivia já estava lá, sendo paparicada pelos irmãos, que não tinham jeito nenhum para segurá-la.

Pelo visto, toda a equipe já tinha passado por ali, tinham deixado balões com a inscrição “É uma menina!” “Bem-vinda princesa” e “A garotinha do papai chegou!” aos montões no quarto.

Ao me verem acordada, os três vieram conversar comigo, e a enxurrada de perguntas se eu estava bem, se eu precisava de algo começou.

— Onde está Olivia?

— Liv está dormindo.

— Liv? Ela tem horas de vida e já ganhou um apelido?

— Ela tem um apelido desde o dia em que escolhemos um nome, Jen. – Jethro se defendeu.

— Eu não disse, mãe? Não falei que o papai já tinha um apelido para ela? – Alex começou – Ela é até bonitinha! – Ele terminou olhando para a irmã.

— Ok, veredito, para que lado pendeu o desempate dos olhos? – Perguntei. Essa era a minha maior curiosidade.

— O pouco cabelo que ela tem é ruivo. – Jazz a tirou do berço e me entregou.

E eu segurei a minha filha de uma maneira mais demorada pela primeira vez.

— Olhos? – Com ela dormindo, eu ainda não saberia.

— Tony falou que erramos no nome. Ela deveria ter se chamado Elizabeth.

— Por que Tony teria essa ideia doida?

— Ele falou que tem algo a ver com uma atriz. – Alex deu de ombros. — Eu procurei o nome dela na internet e bem... errado ele não está.

— Vocês não estão falando de Elizabeth Taylor, não né? – Olhei para a bebê no meu colo.

Jazz me entregou o celular e a foto de Elizabeth Taylor e seus famosos olhos violeta atraiu a minha atenção.

— Veja a senhora mesma. – Ele falou e deslizou o dedo pela tela e a foto da irmã apareceu. E Olivia tinha enormes olhos violeta. Exatamente iguais aos da atriz.

— Mas como isso é possível? – Perguntei espantada.

— A pediatra disse que ainda é muito cedo para garantir que ficarão assim, mas se ficarem, essa cor está mais relacionada com falta de melanina na coloração dos olhos do que uma herança genética. – Jethro me explicou.

— Bem, se ficarem dessa cor ou mudarem, ela é linda de qualquer jeito, não é filha? – Fiz um carinho com a ponta do meu nariz na bochecha dela e dei um beijo na sua testa.

Jethro e os meninos estavam do meu lado e quando percebemos, só vimos o flash de uma câmera.

— Isso! – Era Abby que chegou sem avisar. – Consegui a foto da família perfeita! – Ela disse dando uns pulinhos. — Já viu os olhos da sua filha, Jenny?

— Ainda não, mas já em contaram.

— Elizabeth Taylor ficaria com ciúmes! – Ela falou.

— Não vai entrar, Abbs?

— Não Gibbs, só passei para deixar esse bichinho de pelúcia. Tenho que voltar, temos um caso e Tony já tá invocado no Todo Poderoso Chefão. Tchauzinho para vocês!

No dia seguinte eu fui liberada para ir para casa e como tinha feito praticamente uma cirurgia, foi-me recomendado outro repouso.

— Estou começando a achar que não vou sair dessa casa nunca mais. – Falei assim que cheguei em casa.

— Pronta para a surpresa? – Jethro nem deu ouvidos às minhas reclamações.

Eu tinha Olivia em meus braços, e subi as escadas devagar, parando quando sentia alguma dor. Porém estava tão curiosa para ver o quarto da minha filha que ficar parada esperando a dor passar era praticamente impossível.

De degrau em degrau cheguei no segundo andar. Os meninos bem atrás de mim, e eu achei estranho o restante da equipe não ter passado para ver a cena também.

Jethro destrancou a porta e me deixou abri-la.

Eu nem sabia o que esperar. Sim, nós tínhamos feito um projeto de como iriamos querer o quartinho, acontece que com o meu repouso, eu fui posta de lado e não confiava 100% em Jethro para escolher as coisinhas de menina.

Contudo, ali estava. O berço, a poltrona da mamãe. O trocador. As roupinhas todas limpas e devidamente guardadas, as prateleiras com bonecas e ursinhos, tudo em tons bem clarinhos. A grande maioria era branco, mas os detalhes em rosa, lilás e até mesmo vermelho se destacavam.

— Lilás foi uma excelente opção, não foi Olivia? – Falei olhando para a minha filha e seus olhos violeta.

— Ninguém tinha ideia de que isso poderia acontecer. – Jethro deu de ombros.

— Ficou lindo. Eu adorei. E tenho certeza de que ela vai achar o mesmo quando puder entender o que tudo isso significa. – Dei mais uma olhada no quarto e notei que cada um dos bichinhos e das bonecas tinha um nome.

— Sim, são os presentes. Tali e Victória fizeram questão de ter o nome delas aí também.

— Eu nunca duvidei disso. – Dei um sorriso. – Elas são as mais empolgadas para poder brincar com a “prima”.

Eu estava em êxtase. Depois de um susto imenso, finalmente tudo tinha se encaixado.

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Jen tinha concordado em cumprir toda a licença maternidade dela. O que era excelente. Olivia não era um bebê que desse trabalho, mas ainda sim era um bebê. E depois de dezessete anos, qualquer um perde a prática.

E nós dois descobrimos que em um piscar de olhos, podemos nos lembrar como tudo funciona. Os horários, os banhos, as mamadeiras, as cólicas

Olivia está com quatro meses e as benditas cólicas não param, e este é o único motivo que ela vem ficando acordada a noite inteira.

— Tudo bem, dessa parte eu não sentia falta. – Jen falou assim que se levantou para tentar acalmar nossa filha.

-Tem certeza de que não quer que eu vá? – Perguntei.

— Jethro, você trabalhou por três dias nesse caso, descanse. Amanhã será sua vez. – Jen me deu um beijo e foi para o quarto de nossa filha.

Escutei ela abrir a porta e dizer:

— Essas cólicas não te deixam dormir, não é Liv?

Tive que sorrir, para quem não queria um apelido, Jen havia se acostumado rápido com esse.

Ouvia um murmurar ao longe, mas não conseguia distinguir o que Jenny conversava com nossa filha, só sei que assim que Liv parou de chorar, acabei caindo no sono.

Quando acordei, o lugar ao meu lado estava vazio, pensei se Liv tinha dado outra crise de cólica e eu não tinha acordado para render Jen. Porém, os lençóis estavam gelados.

Atravessei o corredor e ao abrir a porta, vi Jen dormindo, sentada na poltrona, Olivia bem quentinha nos braços da mãe, dormia calmamente.

Fiquei com pena de acordar a mamãe-ursa. Não era a primeira vez que ela fazia isso, com Jazz e Lex foi a mesma coisa. Mas dessa vez, ela ficaria com o corpo todo doendo.

Foi o que eu fiz, chamei devagar e quando ela abriu os olhos, ainda com muito sono, só falei.

— Vamos para o quarto, eu levo a Liv.

Jen me entregou nossa filha, ajeitei-a em um braço e com o outro apoiei as costas de minha esposa. Assim que as duas estavam acomodadas e aquecidas, pude descer para fazer o café.

Era só mais um dia que começava.

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Finalmente, depois de oito meses eu voltava ao comando do NCIS. Pareceu estranho e reconfortante retornar. Porém, era necessário, eu já tinha passado muito tempo dentro daquela casa, e pensar que dentro de pouco seria Alex quem iria deixá-la de vez, me dava um aperto no coração.

Na minha primeira semana após o retorno eu comecei devagar, Liv ainda precisava muito de mim, assim, tive que moldar meus horários às suas necessidades e não raro eu chegava antes de todo mundo e saía antes também, mas tem dias que nem tudo o que se quer, se consegue.

Tinha chegado antes das cinco da manhã na agência, um alerta antiterrorismo havia soado e fomos postos em guarda.

Graças a Deus nada aconteceu. Mas eu fiquei presa até quase depois da meia-noite nas infindáveis reuniões.

Quando finalmente fui liberada, tudo estava vazio, só restava eu e meu detalhamento de segurança, que, tenho certeza, por ordens de Jethro, patrulhava o andar.

Cheguei em casa esperando encontrar todos dormindo. Estava com uma saudade imensa de todos, era a primeira vez em nove meses que eu não via nenhum deles nem por uma vez. Não tinha visto Liv, não tinha Lex e nem Jethro. E não me decepcionei.

Coloquei os pés dentro de casa, já sem meus sapatos, dessa vez o inchaço neles era causado por todas aquelas horas de pé. Alex estava cochilando no sofá da sala, o filme, que eu sei que ele demorou horas para escolher na Netflix, passando sem que ele visse. Parei o filme, deliguei a tv e tentei acordá-lo. Ele nem se mexeu. Assim, só me restou ajeitá-lo de uma maneira mais confortável no sofá, pus um travesseiro sob sua cabeça e o cobri com um cobertor.

— Boa noite, filho. – Dei um beijo em sua testa. E uma sensação de nostalgia me atingiu. Eu não sabia quantas vezes mais eu poderia fazer isso com ele. Logo, logo ele iria nos deixar.

Subi devagar as escadas, não ouvia nenhum barulho no andar de cima, achei estranho, tinha visto o carro de Jazz na porta, achei que ele e o pai estariam conversando na sala de tv do andar de cima.

Não estavam. Jazz estava lá, com Kate. Os dois também dormindo, mas dessa vez a tv estava desligada. Joguei uma coberta em cima dos dois, e fiz o mesmo que tinha feito com Lex. Um beijo na testa de cada um deles e um desejo de boa noite. Jazz foi o único que me respondeu, antes de abraçar a namorada e cair e sono profundo.

Dei um sorriso para esses dois, amor à primeira vista realmente existe, pensei. Depois, fui procurar os dois habitantes que faltavam.

Tinha certeza de que Liv estava em seu quarto, dormindo um sono solto em seu berço, muito provavelmente agarrada ao bulldog de pelúcia que ela tinha ganhado de Jazz. Uma pequena gracinha que ele tinha feito, por conta da data de nascimento da irmã, ele havia dado o animal que representava os Fuzileiros para a garotinha ruiva que havia nascido no dia da fundação da Corporação.

Abri a porta devagar, e Liv não estava no berço, ao invés, estava deitada de bruços no peitoral de Jethro, que a abraçava com cuidado, e para completar a cena, tinha uma coberta cor de rosa, cheia de brilho, jogada até os ombros da menina e tampando os braços do pai.

Tive que ficar contemplando aquela cena por mais tempo do que seria permitido, mas era uma imagem linda demais para ver de relance.

Devagar, cheguei perto dos dois.

— Jethro... – Chamei, dando um beijo na testa dele. – Está na hora de colocar Liv no berço. – Falei o mais mansamente que consegui.

Ele concordou com a cabeça e me entregou a pequena.

Dei um beijo na testa dela, e a ajeitei no berço. Torci para que ela dormisse a noite inteira.

— Vem. – Estendi a minha mão para o exausto marine que ainda não tinha se levantado da poltrona. – Está na hora de ir para a cama também.

Jethro pegou a minha mão e me deixou guiá-lo até nosso quarto. E foi a conta de se jogar na cama e ele dormiu. E para completar a ronda, também o cobri e dei um selinho em seus lábios.

— Eu te amo. – Sussurrei em seu ouvido.

E depois de um dos dias mais exaustivos que eu tive, ter o prazer de colocar cada um da minha família na cama era o melhor presente. Me fazia feliz, saber que não importava a idade, não importava o que eles fossem fazer, sempre seríamos uma família. Na verdade, sempre seriam a minha família. E eu lutaria por eles até o fim.

Notas finais
E é o fim. Dessa pelo menos!! Muito obrigada a quem leu! Fiquem seguros, lavem suas mãos, usem álcool em gel e se puderem, fiquem em casa. Se não, sigam as recomendações da OMS!!! Até a próxima!! xoxo
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!