Inesperado
5 Capítulo V
INESPERADO
Chiisana Hana
Dirijo rápido, o vento no meu cabelo
Vou até o limite, porque simplesmente não me importo
Você me pergunta onde eu estive, mas eu estive em todo lugar
Eu não quero estar em nenhum lugar além de aqui
Eu tenho um desejo ardente por você, baby. (1)
Capítulo V
– Eu ia abrir um vinho italiano, mas vai que é do vinhedo do seu ex-marido... – brincou Shiryu. Shunrei riu.
– Na verdade, eu não bebo – ela disse. – Então prefiro um suco ou refrigerante.
– Sério?
– Bebi um pouco de champanhe no falso casamento e acho que só...
Ainda surpreso, Shiryu serviu-lhe um refrigerante e resolveu beber a mesma coisa.
– Está uma delícia! – Shunrei disse, referindo-se ao prato que Shiryu preparara.Tinha observado bem como ele fez e pretendia repetir em casa. – Simples e cheio de sabor, como as comidas da minha terra.
– Por que ficou aqui? – ele perguntou. – Quando o casamento acabou, você não teve vontade de voltar?
– Claro que tive. Mas minha vida estava aqui e, além disso, eu não tinha mais ninguém lá. Meu avô já tinha morrido. Então, eu resolvi ficar.
– Não tem mais ninguém no mundo?
– Basicamente, não.
– Bom, então estamos no mesmo barco. Minha mãe morreu ano passado.
– Nossa... pensei que ela morasse aqui com você...
– De certa forma, ela ainda mora... – ele murmurou melancólico. – Ela teve um infarto fulminante no ano passado... Mas vamos falar de outras coisas?
Os dois terminaram o jantar e então Shiryu levou Shunrei para a varanda lateral, que dava para a área da piscina.
– Uau – suspirou Shunrei quando percebeu a Lua cheia refletida na água da enorme piscina cujo formato lembrava uma pera. – A Lua está tão perfeita.
– É... hoje ela está... incrível – concordou Shiryu, enquanto retirava o casaco e os sapatos. Shunrei percebeu o que ele ia fazer.
– Você não vai...? – indagou a repórter, mas antes que ela terminasse a frase, ele pulou na piscina.
– Vem! Vem ver a Lua daqui – ele chamou.
– Não, Shiryu...
– Vem! – ele insistiu.
E, como já estava virando um hábito, ela não conseguiu dizer não a ele. Também tirou os sapatos e sentou na beirada da piscina, apenas com as pernas dentro da água, mas sabia que não seria por muito tempo.
– O que é você tem, hein? – perguntou a ele.
– Eu tenho uma vontade inexplicável de beijá-la outra vez – ele disse e puxou-a para dentro da piscina.
– Então me beije – Shunrei murmurou. – Me beije agora.
Com a permissão de Shunrei, Shiryu tomou-a nos braços e beijou-a de uma forma intensa, invadindo-a com os lábios e a língua. Shunrei deixou-se levar pelo momento e aproveitou o beijo. Também lembrou-se do sonho que teve com ele. Aquela piscina não era bem um lago, mas a Lua sobre eles era hipnotizante e, diferentemente do sonho, ali havia uma tensão sexual absurda. Ela, porém, ainda tinha um medo irracional de repetir a história de seu casamento de mentira, por isso lutou para resistir quando as mãos de Shiryu começaram a ficar tão ousadas quanto o beijo.
– Melhor ficarmos só nos beijos... – murmurou, ainda que estivesse desejando levar as coisas adiante. Foi um esforço tremendo, mas conseguiu dizer não. – Não quero apressar as coisas...
– Está bem... – ele concordou. – Eu vou me comportar...
Trocaram mais alguns beijos dentro na piscina, pouco menos ousados que o primeiro, mas ainda era inegável o desejo que havia entre os dois.
Quando saíram da água, Shiryu pegou roupões felpudos onde os dois embrulharam-se.
– Eu tenho medo de você, sabia? – disse Shunrei.
– Eu sou inofensivo – ele disse rindo.
– Não é mesmo! Eu me joguei na piscina de roupa e tudo com você.
– Mas você ficou feliz?
O olhar que ela dirigiu a ele era definitivamente um “sim”.
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No dia seguinte, Shunrei foi conversar com Eiri. Ainda estava com um pouco de raiva da colega, mas agora entendia o porquê de ela ter insistido nas perguntas indiscretas: era uma fofoca gigantesca, talvez até uma chance de promoção.
– Vem cá, Eiri, você sabia que o Shiryu é milionário? – Shunrei perguntou, mesmo já sabendo a resposta.
– Claro, né? Você não?
– Não! Eu não fazia ideia!
– Você não conhece a história dele?
– Agora eu conheço porque ele me contou... É herdeiro de um cara rico.
– Ele não era rico, era poooodre de rico. E não era casado, nem tinha filhos. Bom, não tinha filhos reconhecidos. Quando ele morreu, o seu motoqueiro apareceu dizendo ser filho dele. Todo mundo achou que era golpe, mas exumaram o corpo e o exame de DNA provou que ele falava a verdade. Então ele se tornou o único herdeiro da grana. Por grana entenda-se “algo na casa do bilhão”.
– Sério? – despistou Shunrei. Com aquela casa e os carrões na garagem, ela imaginava algo assim.
– Pelo que sei, ele leva uma vida discreta, só curte lá as motos e uns carros caros, mas não é de farra. Ele mora numa mansão, mas acho que é mais pela segurança que o lugar oferece do que pelo luxo mesmo. Afinal, se você tem alguns carros de um milhão de dólares e uma dúzia de motos raras, é preciso ter uma garagem segura.
Shunrei pensou que a garagem de vidro não parecia lá tão segura. Depois, percebeu que aquele vidro todo nem devia ser do tipo comum.
– O.k., além de chocada, estou me sentindo um lixo de repórter – ela disse.
– Quando eu fui encarregada de entrevistar vocês, eu fiz meu dever de casa. Sei tudo sobre ele.
– Estou vendo.
– O que mais quer saber?
– Já foi o bastante, Eiri.
– Sabe, foi bem chocante esse beijo que ele roubou... bom, os dois beijos... E o segundo foi um beijão! O pessoal adorou! Foi um sucesso! Deu até trending topics no Twitter!
Shunrei arregalou os olhos.
– Quê?
– Bom, a câmera estava ligada e...
– Vocês filmaram? Foi ao ar?
– Sim. Bom, o cara sempre foi muito discreto, ninguém nunca o flagrou com uma namorada. Aí de repente ele beija uma repórter na tevê! Claro que ia virar notícia! Eu não podia deixar passar! Além do mais, você devia estar feliz! Ele é um excelente partido.
Shunrei quis gritar os piores xingamentos por Eiri ter levado ao ar o segundo beijo, mas engoliu a raiva. Suspeitava que o efeito da noite anterior estava ajudando bastante no seu autocontrole, mas obviamente não comentou nada.
– Está bem, Eiri. Deixa pra lá. Agora eu entendo que era importante pra você, que era uma oportunidade que você não poderia perder.
– Se eu estivesse no seu lugar, provavelmente teria a mesma reação, mas eu precisava aproveitar. Eu trabalho no programa de fofoca e uma desse tamanho eu não poderia desperdiçar.
– Eu sei...
– Que bom! Agora me diz, vocês se viram depois da entrevista? Vai, me conta! Rolou mais alguma coisa?
– Não! – mentiu Shunrei e praticamente saiu correndo de perto de Eiri. – E agora eu tenho que ir trabalhar.
Depois de gravar uma matéria, Shunrei correu para o orfanato onde Mino trabalhava. Precisava falar com ela sobre a noite anterior e não queria fazê-lo por telefone.
– Como é que é? – gritou Mino quando Shunrei falou da casa, dos carros e do presente que ganhou. – O motoqueiro é bilionário, trilhardário, podre de rico?
– Pois é, Mino. Me deu um brinco que deve custar uns dez mil ou mais. Quase morri de constrangimento. E chegou num esportivo italiano, você acredita?
Mino riu.
– Italianos perseguem você, amiga!
– Pois é. Pelo menos no caso dele, são só os carros. A parte principal da casa dele é a garagem.
– Nossa. Isso é que amor pelos motores. Mas e aí, rolou o quê no jantar?
– Bom, conversamos, comemos e... depois nos jogamos na piscina.
– Ai, caramba!
– De roupa.
– Sério?
– E ele me beijou loucamente...
– E aí vocês foram para os finalmentes?
– Vontade deu, né? Mas eu resisti heroicamente. Você nem pode imaginar como foi difícil porque ele é meio... hipnotizante.
– Mas e depois?
– Depois nos enrolamos nos roupões mais felpudos e macios que já vi na vida e ficamos lá na beirinha, vendo a Lua, beijando mais um pouco... Então ficou tarde e ele me levou pra casa, de roupão, toda descabelada, mas me sentindo feliz como eu me senti poucas vezes.
– Ai, Shunrei, você está caidinha por ele.
– É, eu admito. Mas eu tenho tanto medo, Mino.
– Eu não sei você, amiga, mas eu estou cansada de ter medo de viver. Se me aparecesse um cara como o seu motoqueiro milionário, eu me jogava de cabeça.
– Acontece que eu me joguei com o Emanuele e minha cabeça dói até hoje...
– Mas você sobreviveu, não foi?
– É...
– Então vale a pena!
À noite, Shiryu ligou para Shunrei com a intenção de convidá-la para um passeio no final de semana.
– Eu tô buito, buito gribada – ela disse ao telefone. – Dão vai dar, Shiryu.
Ele riu do outro lado da linha.
– Tá é falando muito engraçado...
– A culpa é sua por ter me jogado na piscina – ela disse, esforçando-se para falar direito.
– Eu peço desculpas.
– Está bem. Então, fica para a próxima o passeio.
– Certo. Se cuida.
– Tá... obrigada – ela disse e desligou o telefone.
Cerca de uma hora depois o porteiro interfonou avisando que Shiryu estava subindo. Quando ela abriu a porta, de pijamas, ele estava sorrindo e carregava uma grande sacola de compras.
– Vim cuidar da doente – ele disse.
– Vai pegar gripe.
– Não tem problema. Aí você já estará curada e cuidará de mim. Vá deitar. Vou preparar um chá e uma comidinha reforçada. Você já jantou?
Ela fez que não com a cabeça.
– Então vá para a cama e espere...
Minutos depois, Shiryu apareceu no quarto trazendo um chá e uma cumbuca de sopa.
– Assim eu ficarei mal acostumada – Shunrei disse, ajeitando-se na cama.
– É isso que eu quero.
Ela provou a sopa.
– Está muito boa!
– Fico feliz – ele disse, e sentou-se na beirinha da cama.
– Você quer mesmo pegar gripe.
– Eu só quero ficar do seu lado... – ele disse, depois completou: – por muito, muito tempo.
– Eu quero que você fique... mas eu tenho medo...
– Medo? Medo de quê?
– Medo de me prender demais a você e depois te perder. Medo de ser a boba da história de novo. Medo...Eu não quero passar por tudo aquilo de novo.
– Eu garanto que sou solteiro! – ele disse rindo. – Não vai ter nenhuma mulher enfurecida xingando você pelo telefone.
Shunrei também riu.
– Já é uma vantagem. Você não passa meses fora?
– Bom, acabo passando um tempo viajando por causa dos torneios... Mas vou sentir sua falta cada segundo que eu estiver longe, como eu sinto agora. Sabe, na noite da final, eu estava radiante, realizando o sonho da minha vida ali naquela arena. Aí você apareceu e eu a beijei sem pensar em nada. Nem eu mesmo entendi o que fiz, mas agora eu sei. Você me perguntou que sonho eu iria buscar agora... Acontece que era você mesma. Foi por isso que a beijei. De alguma forma inexplicável, eu senti que você tinha que entrar na minha vida. Se eu não tivesse feito aquilo, provavelmente nunca mais nos veríamos. Você iria para um lado, eu para outro e pronto... Nunca mais...
– Então que bom que você me beijou – ela disse.
– É, que bom – ele concordou e a trouxe mais para perto de si. – Eu quero beijá-la de novo.
– Eu estou muito gripada. Vai me beijar mesmo assim?
– Vou correr o risco. Você já sabe que eu gosto de viver perigosamente.
– É, eu sei – ela disse, e então o beijou.
Continua...
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