INESPERADO

Chiisana Hana

Eu estou assustada, tão assustada...

Mas quando você está perto de mim

Eu sinto como se estivesse acompanhada de um exército.(1)

Capítulo IV

Quando Shunrei chegou em casa, o telefone tocava sem parar.

– Conte tudo, não esconda nada! – Mino disse quando Shunrei atendeu.

– Tudo o quê?

– Não se faça de desentendida! Você não ia reencontrar o motoqueiro hoje?

– Bom, sim. Fizemos aquela maldita entrevista. E deu tudo errado. A Eiri acabou comigo!

Shunrei contou tudo minuciosamente, incluindo o segundo beijo roubado, o jantar, a carona e o perfume. Ao fim do relato, Mino estava eufórica.

– Vocês vão namorar! Tenho certeza!

– Que namorar, Mino? Ele é maluco!

– Pode até ser, mas você não está conseguindo resistir ao charme do maluquete, isso é bem óbvio. E pelo que você contou da entrevista, ele também está muito afim de você. Dê uma chance a si mesma, amiga.

– Eu me dei! Eu fui jantar com ele, não fui? Eu até dei meu telefone a ele.

– Sim, já foi um grande passo, mas não fique tão na defensiva. Deixa rolar.

– Eu admito, ele é muito interessante, mas já vi que não vai dar certo, Mino. Somos muito diferentes.

– Pois aí é que é bom. Não tem graça namorar um cara igualzinho a você.

– Eu não sei, Mino... Sinceramente, não sei. O outro era assim diferente e você sabe no que deu... E depois, tenho que ver se ele vai ligar mesmo, né?

– Eu aposto que ele vai ligar!

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No dia seguinte, Shunrei chegou à emissora e foi direto falar com o editor-chefe.

– Já vi o material gravado – ele disse antes que ela pudesse falar qualquer coisa. – Eiri fez um excelente trabalho e, graças a ela, você não está na rua.

– Está bem – ela disse resignada. Depois falaria com Eiri. – Quando a palh... a entrevista vai ao ar?

– Hoje mesmo, no programa vespertino.

– Que maravilha – ironizou e saiu da sala. O tal programa era notadamente conhecido pela exacerbação dos fatos, além do mau gosto e apelação. Shunrei procurou Eiri na redação, mas ela já havia saído para fazer uma matéria. Quando chegou a sua mesa, ela viu que teria de ir ao centro da cidade entrevistar algumas pessoas para uma pauta sobre insônia.

– Muito estimulante – pensou, preparando-se para encontrar o câmera e o motorista.

Já no centro, entrevistou algumas pessoas, até que uma delas a reconheceu...

– Você não é a moça que o piloto de FMX beijou? – o entrevistado perguntou. Shunrei desconversou.

– Eu? Não, imagina! É que meu rosto é muito comum.

– É sim! Eu vi! Eu lembro de você!

– Não, era alguém muito parecida comigo.

– Era você mesma! Que beijão, hein?

Envergonhada, Shunrei continuou tentando despistar o curioso e, sem conseguir, encerrou a entrevista com o rapaz. Deu sequência às entrevistas com outras pessoas e mais duas a reconheceram, porém foram discretas e ela pôde terminar a gravação sem mais percalços.

Já era quase hora do almoço e ela foi para um restaurante junto com a equipe. No meio da refeição, o celular tocou. Era Shiryu. Ela se afastou um pouco da mesa e atendeu.

– Estava pensando cá com meus motores – ele disse. – Será que você não gostaria de sair comigo hoje à noite? De carro, dessa vez.

– Gostaria, sim – ela respondeu sem pensar. Se ponderasse um minuto acabaria dizendo não, então se deixou levar. Não esperava que ele ligasse tão rapidamente, mas já que ligou, por que não?

– Então eu te pego às oito, certo?

– Está bem, Shiryu. Até mais tarde.

Ela voltou para a emissora, onde editou a matéria, gravou narrações adicionais e correu para casa. Àquela altura já estava na hora do programa de fofocas e ela resistiu à tentação de ligar a televisão para ver o circo armado. Entretanto, seu celular tocava freneticamente.

– Mas que porcaria! – exclamou, e desligou o aparelho. – Tá, a reportagem já foi ao ar, mas por que tanto reboliço? É só um motoqueiro maluco que roubou um beijo de uma repórter iniciante!

Ela enfiou-se debaixo das cobertas com um bom livro e só saiu perto das seis, quando foi se arrumar para o encontro. Não tinha mais tanta certeza de que queria sair com Shiryu. Com a reportagem no ar, todo mundo estaria falando disso e provavelmente seriam reconhecidos e abordados na rua. Decidiu que quando ele chegasse, resolveriam juntos o que fazer.

Às oito em ponto, Shiryu chegou para buscá-la. Ele subiu até o apartamento e presenteou Shunrei com um par de brinquinhos de madrepérola em formato de orquídea. Ela achou o presente lindo e o “Cartier” estampado na caixinha dizia que o parzinho provavelmente custava mais que uns três meses de salário dela.

– Eu realmente achei lindo, mas não posso aceitar – ela disse.

– É mais um pedido de desculpas por tudo...

– Não precisa, Shiryu.

– Vou ficar bem chateado se você não aceitar.

– Ai, meu Deus. Assim você me deixa ainda mais encabulada. Eu nem tenho onde usar algo assim, Shiryu.

– Por favor... não vai me fazer voltar com o presente, né?

– Está bem. Eu aceito.

Ele sorriu, sentindo-se vitorioso.

– Agora eu queria falar sobre o programa... – ela continuou.

– Eu não assisti – ele disse –, mas meu assessor de imprensa ligou desesperado, dizendo que o telefone dele não parava de tocar.

– Então... acho melhor adiarmos esse jantar, Shiryu. Não vai dar certo.

– E se eu levá-la num lugar bem discreto? Ninguém vai nos importunar lá. Prometo.

– Como pode ter tanta certeza?

– Confie em mim.

Ela finalmente decidiu acompanhá-lo, mas estacou quando Shiryu abriu a porta do Lamborghini Gallardo azul metálico estacionado na frente do prédio. Shunrei não entendia muito de carros, mas sabia que um esportivo daqueles custava certamente mais de trezentos mil dólares. O valor do esportivo também a fez lembrar a velocidade que ele atinge, algo perto dos trezentos quilômetros por hora. Não que Shiryu fosse conseguir dar esse arranque nas ruas de Tóquio, mas ainda assim era assustador.

Quando entraram no carro, Shiryu notou a expressão atônita dela.

– Está se perguntando como um cara que ontem disse que ralou pra bancar o esporte tem um carro desses, né?

– Bom, sim... Você disse que foi garçom, vendedor... Achei que você ia chegar num carro bem mais simples.

– E eu achei que... você soubesse.

– Hã? Soubesse o quê?

Shiryu deu a partida e saiu devagar. O motor do carro parecia reclamar da baixa velocidade.

– Meu pai era um homem muito rico – ele começou a explicar. – Mas eu só fui reconhecido como filho depois da morte dele, através de um longo processo judicial. Até então, eu era só o filho de uma mãe solteira, operária de fábrica, e ralei como todo mundo. Essa garota italiana foi um presente que me dei quando finalmente recebi o que tinha direito.

Shunrei achou interessante ele se referir ao carro no feminino, como os italianos. E de italianos ela entendia bem até demais... Depois bateu a palma da mão na cabeça.

– Então é isso! – ela exclamou.

Shiryu ficou sem entender.

– Por isso todo esse interesse na gente! – ela completou.

– Bom, provavelmente. Não comentei nada porque achei que você soubesse, já que é repórter e sua emissora explorou muito o meu caso. Chegaram a exibir cópias do processo, do exame de DNA e fotos da exumação do corpo do meu pai no programa de fofocas.

– É que eu não vejo esse programa...

– Pois devia – brincou ele.

– Isso explica também meu presente...

– Só espero que agora você não passe a me achar um playboy sem noção. Eu sou um cara normal que ganhou alguns milhões. E só fiz isso, só enfrentei o processo por causa da minha mãe. Ela merecia por toda a humilhação que o meu pai a fez passar.

– Eu entendo... eu acho...

Conforme prometido, Shiryu levou-a em um lugar discreto e inacessível para repórteres: sua própria casa. A mansão de arquitetura moderna tinha linhas retas e uma enorme parede frontal de vidro que, de certa forma, fez Shunrei pensar num aquário. Na verdade, era a garagem onde estavam mais três carros esportivos, um sedã de luxo e pelo menos uma dúzia de motos. Shiryu parou o Gallardo bem ao lado de uma Ferrari preta que Shunrei só reconheceu pelo indefectível escudo com o cavalinho.

– É aqui que eu moro – ele disse. – Eu tinha reservas num restaurante, mas como você achou que iriam nos importunar...

– Não acho que seja uma boa ideia...

– Nem se eu prometer me comportar?

– Por que eu sempre acabo cedendo, hein?

Uma porta larga dava acesso direto à sala de estar da casa. Shunrei prendeu o fôlego. A sala provavelmente era maior que seu apartamento inteiro e a decoração clean, com poucos móveis, criava a impressão de que o espaço era ainda maior.

– Bom, a minha cozinheira já foi embora a essa hora, então você vai ter que se contentar com a comida do chef Shiryu. Só espero não estragar tudo.

– Vamos ver seus dotes culinários... – riu Shunrei, e o acompanhou até a cozinha que era o sonho de qualquer pessoa que gostasse de culinária. Ali havia todo tipo de apetrecho para cozinhar e o enorme balcão de granito negro fez Shunrei pensar em sovar um pão ali. Ou em fazer algo mais interessante...

– Eu não sou exatamente um grande cozinheiro – Shiryu disse –, mas minha mãe me ensinou algumas receitas e acho que dou conta de fazer nosso jantar.

– Estou descobrindo bastante coisa sobre você hoje.

– Enquanto isso, você ainda continua um mistério pra mim...

– Não tem nada muito interessante na minha vida. Eu não ganhei nenhuma herança, não pratico nenhum esporte radical, não tenho tatuagens...

– Mas ainda não sei como você veio parar aqui em Tóquio.

– Bom, foi meu ex-marido quem me trouxe pra cá.

– Isso é interessante.

– Foi um casamento complicado... Casei muito novinha, com um cara mais velho, um italiano. Ele aprontava, a gente brigava, mas eu sempre acabava perdoando. Aí um dia recebi um telefonema de uma mulher muito irritada, falando italiano e me chamando de vadia e dizendo que era mulher dele. Pois é, aquele italiano filho de uma mãe já era casado quando se casou comigo na China e me trouxe pra cá.

Shiryu não pôde evitar uma risada.

– Como você foi achar um italiano na China?

– Foi ele quem me achou. Eu vendia frutas na feira com meu avô, ele era representante comercial de um vinhedo. Vivia lá nos hotéis para vender os vinhos. E eu era só uma menina encantada com aquele cara mais velho, cheio de galanteios... Casamos e ele passava parte do ano na Itália e parte aqui...

– E o que houve depois que a mulher ligou?

– Eu exigi explicações. Então ele riu na minha cara, disse que eu era mesmo muito boba, que era bom ter uma esposa aqui, para cuidar dele nas temporadas que passava na Ásia, mas que agora a esposa legítima já sabia e ele precisava se livrar de mim. Então ele me mandou embora de casa.

– E você diz que a sua vida não é interessante? Isso daria um livro!

– É... O livro da minha vida poderia se chamar “Italiano Safado, Chinesa Boboca”.

– O da minha seria o quê? “Motoqueiro Maluco”?

– “Ladrão de Beijos” – ela disse.

– É, eu concordo... – ele disse, e pensou em roubar mais um beijo, mas lembrou que tinha prometido se comportar. – O que você gosta de comer?

– Eu como praticamente tudo.

Ele examinou o que tinha na geladeira.

– Acho que vou fazer um risoto.

– Ah, não, comida italiana, não! – protestou Shunrei.

– Brincadeira! Vou preparar minha especialidade: enrolado de carne com cogumelo.

– Parece bom!

Continua...

Notas finais
(1) Adore You, Miley Cyrus