Os personagens de Saint Seiya pertencem ao tio Kurumada. Se fossem meus, o negócio se chamaria Saint Shiryu. Não ganho nada com minhas fics.

INESPERADO

Chiisana Hana

Eu soube que tínhamos algo

No momento em que te conheci

Eu soube que tínhamos algo

Ninguém pensou que podia ser verdade

Ei, você acredita?

Você acredita em destino? (1)

Capítulo II

– Droga, eu não consegui encontrá-la – Shiryu resmungou quando voltou ao box.

– Podemos ir para o restaurante agora? – Seiya indagou com impaciência.

Ele assentiu e foi cumprir seu compromisso com os patrocinadores, mas a cabeça estava longe, naquela moça que lhe despertou um instinto que ele até então desconhecia. Beijar uma mulher sem o consentimento prévio dela, diante das câmeras e enquanto ela estava trabalhando? Seiya tinha razão. Ele definitivamente tinha ficado louco. Não tinha outra explicação.

–x-x-

Shunrei e Mino ainda conversavam sobre as possíveis consequências do beijo roubado, quando o celular da repórter tocou. Ela pediu um minuto, atendeu o celular, ouviu o que lhe disseram, respondeu com grunhidos monossilábicos e desligou. Voltou à conversa com a amiga no telefone fixo.

– Acredita que me ligaram dizendo que o maluco me procurou na arena?

– Olha, procurou, é? Ótimo sinal. Ele curtiu mesmo o beijo, hein?

– Acho mais fácil ele estar me procurando pra pedir desculpas pela loucura, né?

– Ou para completar o serviço!

– Ai, para com isso, Mino!

– É sério! Se ele estiver mesmo afim, você vai dar uma chance?

– Não! Ele é louco!

– Você precisa!

– Eu não preciso! Falando desse jeito parece que estou desesperada e eu não estou!

– Está solteira há tanto tempo...

– E você também!

– É diferente. Você teve uma relação conturbada, cheia de idas e vindas, e eu entendo que não se sinta segura para tentar de novo, mas é preciso seguir em frente.

– Mino, por favor, né? – Shunrei replicou irritada. Esse relacionamento era um assunto que ela não gostava de lembrar. – Você falando de seguir em frente? Até hoje você rumina seu amor de infância pelo tal do Seiya que você não vê desde que tinha, sei lá, uns oito anos!

– Ok, agora você pegou pesado.

– Desculpa, não foi a intenção. Mas você sabe que eu não gosto de falar desse assunto...

– Tudo bem... Me desculpe também e vamos esquecer isso...

– Isso... Até porque agora eu tenho é que pensar em procurar outro emprego...

As duas conversaram mais um pouco e, desculpando-se por estar cansada, Shunrei desligou. Ela adormeceu pensando no beijo e acabou sonhando com Shiryu. Estava na garupa da moto dele, passeando por uma estrada deserta, tão agarrada ao corpo do rapaz que sentia o calor. Ele parou num local onde havia um declive e convidou-a a descer da moto. Andaram um pouco por uma trilha até chegarem a um pequeno lago de água tão cristalina que se via o fundo, os peixes, as pedras, tudo. Shiryu despiu-se completamente e convidou-a a fazer o mesmo. Ela prontamente o fez e entraram na água. Não havia conotação erótica, apenas uma indescritível sensação de liberdade e uma felicidade serena.

Shunrei acordou quando o sol já ia alto. Olhou para o relógio. Estava atrasada. Tomou um copo de vitamina e saiu de casa pronta para ser demitida assim que entrasse na emissora.

Quando entrou na sala do editor-chefe, ele resmungou, fitando-a com ar de impaciência:

– O que foi aquilo ontem, Tzeng?

Shunrei tentou se explicar.

– Eu não pude fazer nada, o cara é doido, simplesmente me beijou e...

O editor continuou encarando Shunrei.

– Por que não foi para a coletiva?

– Pelo motivo óbvio de eu ser o foco da dita cuja.

– Devia ter ido, devia ter ido... O negócio é o seguinte, marca uma entrevista com esse cara agora. Quero uma exclusiva com ele para o programa de fofocas.

– Eu?

– Não, eu – ironizou. – Você vai entrevistá-lo de novo. Ele se recusou a responder perguntas sobre isso na coletiva e não foram poucas. Hoje está em todos os jornais e deu em todos os programas de fofoca, só que ninguém conseguiu falar com ele. Você vai conseguir essa exclusiva. Vamos explorar o caso o máximo possível. Você podia até continuar insinuando um climinha, hein? Quero essa entrevista no ar amanhã, Tzeng, ou...

– Ou...?

– Ou você está na rua!

– O.k., então eu me demito.

– Como é que é?

– Não vou servir de palhaça nessa história. Não mesmo!

O editor-chefe não a levou a sério e finalizou:

– Você quem sabe. Ou entrevista o cara ou está na rua. Tem até amanhã para escolher.

Decidida a se demitir, Shunrei foi arrumar suas coisas. Enquanto fazia isso, ouviu diversas piadinhas desagradáveis sobre o beijo.

"Nem era pra eu estar naquela droga de evento", ela pensava enquanto ia para casa. "Eu sou repórter do programa feminino, não de esportes. Aí aquele maluco me beija e minha vida desmorona. Que porcaria!"

Quando chegou em casa, deu de cara com o piloto esperando-a em frente ao prédio. Trazia um vaso de bonsai nas mãos.

– Boa tarde – ele cumprimentou-a com um sorriso constrangido. – Sinto muito pela atitude impensada. Não é meu estilo, mas... Espero não ter lhe causado problemas.

Shunrei não se rendeu ao belo sorriso dele e retrucou de forma áspera:

– Como descobriu onde moro, seu maluco?

– Meu assessor de impressa procurou saber na sua emissora. Trouxe um pedido de desculpas – ele disse, entregando o bonsai a ela.

– Obrigada, mas não precisa. Não quero nada!

– Eu realmente sinto muito, Shunrei.

– Vem cá, você estava drogado ontem?

Ele riu.

– Não! Eu só estava feliz!

– Menos mal...

– Então, me diga, houve algum problema no seu trabalho? Fiquei muito preocupado com isso.

– Na verdade, eu me demiti agora há pouco...

– Demitiu-se? Por quê? Ficou... envergonhada?

– Não, não foi isso.

Ela ponderou. Não tinha certeza de que seria bom contar a verdade ao maluco. E se ele quisesse entrar no jogo do editor?

– Então o que foi? – ele insistiu.

Shunrei respirou fundo e resolveu falar.

– É que o meu chefe queria explorar o caso ao máximo. Ele exigiu que eu fizesse uma exclusiva com você e eu me neguei.

Ele pareceu pensar por alguns instantes.

– Bom, eu também não gostaria de render mais história, mas eu vou dar essa entrevista pra você. Não quero que perca o emprego por minha causa.

– Não precisa. Eu vou me virar, arranjo outro emprego. Não vou morrer por causa disso.

– Por favor, aceite. Não quero que se prejudique. Fazemos essa bendita entrevista e encerramos o assunto.

Agora foi Shunrei quem pareceu pensativa. Tinha um pressentimento de que esse negócio de entrevista não daria certo, mas se sentia inclinada a aceitar. Perder o emprego agora, tendo o financiamento do apartamento para pagar não era mesmo uma boa ideia.

– Tá – ela finalmente falou. – Preciso que seja no máximo amanhã.

– Amanhã tenho uma sessão de fotos, mas podemos fazer isso depois dela, se estiver bom pra você. Deve terminar umas cinco da tarde.

– Está bom. Com a entrevista acho que meu emprego está seguro...

– É minha obrigação resolver essa questão, Shunrei. Eu realmente sinto muito. Não pelo beijo em si, mas pelas consequências dele... E não se preocupe, as pessoas vão esquecer logo, aposto. É só surgir o próximo escândalo.

– Assim espero.

Ele pegou um cartão onde escreveu o endereço do local do ensaio e entregou-o a Shunrei.

– Então eu vou indo – disse. – Espero você amanhã, certo?

– Certo – ela respondeu. Não estava muito segura de que isso correria bem, mas provavelmente era melhor do que perder o emprego.

No dia seguinte, Shunrei acordou ansiosa. Não gostou da ideia de ela mesma perguntar ao piloto por que raios ele a tinha beijado, então ao invés de fazer ela mesma a entrevista, chamou Eiri, a colega do programa de fofocas, com experiência em fazer esse tipo de coisa. Aproveitou para pedir que ela fosse o mais discreta possível.

Na hora combinada, ela, Eiri e a equipe de filmagem chegaram ao estúdio onde Shiryu fazia a tal sessão de fotos. Ele usava apenas uma calça jeans e o cós dela estava muito, muito baixo. Shunrei tentava não olhar, mas era inevitável que vez ou outra seus olhos se dirigissem ao belo corpo torneado do piloto. Ainda mais quando ele virava de costas, jogava o cabelo comprido para frente e exibia a imensa tatuagem. Ela a tinha visto no dia anterior, quando ele arrancou a camisa depois da vitória e antes do beijo, mas na hora pareceu-lhe um borrão horrendo. Agora via que era um belo dragão que tomava toda a extensão das costas dele e ainda descia um pouco mais. Shunrei acabou sentindo-se tentada a descobrir até onde ia o dragão e não gostou dessa sensação.

Quando ele finalmente terminou as fotos, chamou a equipe dela.

– Está pronta? – ele perguntou a Shunrei.

– Acho que nunca estarei, mas que comece logo a tortura.

Depois de ajustarem a luz e o microfone, Eiri começou a entrevista.

– Então, Dragão, o que aconteceu ontem? – ela perguntou rindo travessa. – Todo mundo está comentando!

– Eu não sei – ele respondeu muito sério. – Não pensei em nada, só aconteceu e pronto.

– E arrependeu-se?

Ele ponderou um pouco, depois respondeu:

– Na verdade, não.

Shunrei arregalou levemente os olhos. Era para ele dizer que sim, que estava profundamente arrependido, que nunca mais faria algo assim! Eiri deu outro sorrisinho e então se dirigiu a Shunrei.

– E você, Shunrei, como se sentiu ao ser inesperadamente beijada ao vivo na tevê?

– Eu tomei o maior susto da minha vida.

– Mas você gostou?

– Foi uma total falta de respeito, como eu poderia gostar?

– Mas não seria uma boa ideia vocês continuarem o que começaram ontem?

Shunrei recuou um pouco na cadeira. Queria gritar que não foi esse o combinado com a colega, mas manteve o controle. Enquanto procurava o que dizer, Shiryu respondeu:

– Não sabemos...

– Mas você gostaria? – insistiu Eiri.

– Por que não?

– E você, Shunrei?

– Eu? Eu não sei... – ela respondeu, totalmente desarmada e envergonhada. Queria mesmo era correr para casa, enfiar-se debaixo das cobertas e chorar.

– Bom, estamos torcendo para que o beijo roubado se torne um romance tórrido – disse Eiri .

Chocada e irritada, Shunrei ergueu as sobrancelhas.

"Eu não devia ter concordado com essa palhaçada", pensou. "Toma, quem mandou? Quem mandou?"

Eiri continuou fazendo perguntas um tanto inconvenientes, que Shiryu eventualmente respondia, enquanto Shunrei lutava para não sair correndo, nem voar no pescoço dela. Quando a colega finalmente encerrou a entrevista, Shunrei soltou os cachorros.

– Você é louca, Eiri? Eu disse para ser discreta!

– Estou fazendo o meu trabalho, Shunrei!

– Obrigada por ter me feito de palhaça – ela disse e saiu indignada, pisando duro e praguejando. Shiryu correu atrás dela.

– Ei, por que ficou tão brava? – ele perguntou. – Não foi tão ruim assim.

– Você também me fez de palhaça! Por que disse aquilo?

– Aquilo o quê? O que foi que eu disse de extraordinário?

– Que não se arrependeu! E ainda falou "não sabemos", no plural, como se houvesse algum tipo de combinação entre nós!

– Eu só quis deixar alguma coisa no ar. Não foi isso que seu chefe pediu?

– Ele que vá pro inferno! Ele, você, a Eiri e todo mundo!

– Calma, Shunrei. Eu não estava mentindo quando disse que não me arrependi. Eu...

Ele não completou a frase e roubou outro beijo dela. Nenhum dos dois percebeu que o câmera que acompanhava Eiri ainda estava filmando tudo.

Continua...

(1) 23, Shakira.