Inerzia
14 Vermiglio

Thiago nunca fora um homem namorador. Havia beijado algumas garotas ao longo de sua vida, até tentou relacionamento sério com uma mulher que morava numa cidade vizinha, todavia, a mesma rompeu devido à distância.
Nunca acreditou nos romances típicos de filmes. Na verdade, esse gênero nunca o agradou. Gostava de coisas reais, palpáveis, como os filmes de Quentin Tarantino. E claro, coisas policiais que o influenciaram a seguir esta carreira.
Há sete anos tudo estava prestes a mudar, quando o sargento pediu que ele e mais dois colegas fizessem uma ronda em uma escola na região da Brasilândia*, um bairro que vinha acumulando casos de violência.
Estava próximo ao portão de saída das salas de aula, no momento em que viu uma bela mulher junta a uma criança, a qual chorava copiosamente após cair de uma escada que dava acesso à classe.
O garoto estava com um dos pequenos joelhos ralado, alguns cortes no braço esquerdo e um arranhão no direito.
— Moça, aconteceu alguma coisa? — aproximou-se.
Ao ver aqueles olhos castanhos escuros o fitarem, sentiu uma espécie de eletricidade atravessar sua espinha, fazendo suas pernas bambearem. Dissidente, tomou fôlego e respondeu:
— Ele estava indo embora quando notou ter esquecido seus materiais na classe. Decidiu voltar, porém acabou escorregando e rolou no chão de concreto. — o aluno ainda chorava. — Estou tentando ligar no celular da mãe dele, mas ninguém atende. — esclareceu.
— Ei, garoto... — o policial se abaixou à altura do pequeno. — Onde você mora?
— Duas ruas pra baixo da escola. — replicou tímido.
— Ótimo! Sabe me dizer se sua mãe está em casa? — confirmou com a cabeça. — Ok. Vamos andar no carro da polícia! — pegou sua diminuta mão. O pequeno olhou-o surpreso, radiante.
A mulher os acompanhou até uma viatura, na qual um dos policiais levá-lo-ia até sua residência.
— Muito obrigada, policial! Nem sei como agradecê-lo! — já distantes dos outros, agradeceu ao homem.
— Não foi nada, moça... — fixou-a por longos segundos, gravando em sua mente cada traço, cada movimento e característica da beldade. — Mas então... Você é professora? — tentou puxar assunto.
Riu fraco.
— Sou sim. Mas só da segunda série. Mais especificamente da sala daquele rapazinho que acabamos de socorrer.
— Tem que ter muito amor para atuar nessa profissão! — discorreu e a notou ficar desconfortável. — Ah... Me desculpe... Não quis ofender...
— Não foi nada! — interrompeu. — Também não deve ser nada fácil trabalhar na polícia! — deu de ombros. — Preciso ir buscar meus materiais na sala. Obrigada novamente! —acenou com a mão, voltando ao mesmo lugar onde o encontrou.
Daquele dia em diante, Thiago sempre pedia ao sargento para que ficasse responsável por aquela escola em específico. Até que a polícia percebesse que o perigo daquela região havia diminuído, aceitaram.
Tentava de várias formas cortejá-la. Contudo, sempre que se apropinquava o máximo que conseguia dizer era um “boa tarde!”. Não sabia seu nome, endereço, telefone. No entanto, já sonhava em como seria se constatasse o quanto ficava bobo ao vê-la dando aula.
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Um dia soube que aquela seria a última vez em que ficaria responsável pela segurança daquele local. Sua equipe seria transferida para outro bairro. Esta era a chance derradeira de se aproximar da mulher que vinha lhe atormentando nos sonhos.
Esperou que o sinal de saída tocasse. Aproximou-se da sala dela; bateu na porta, apesar de aberta. Orientou-o para que entrasse.
— O que faz aqui, senhor? — indagou curiosa.
— Bem moça... É que... Eu... — coçou a cabeça. Mirou-a. Estava de braços cruzados, esperando concluir a frase. — Não sei como te dizer isso, mas... — fez uma pausa para tomar fôlego. — Você é muito linda!
Gargalhou alto. Colocou as mãos na frente da boca, a fim de abafar o som.
— Isso é sério? — assentiu nervoso. — Oh, obrigada! Senhor...? — tentou ler seu distintivo.
— Thiago. Pode me chamar apenas de Thiago! — esticou sua mão direita, a fim de cumprimentá-la.
— Prazer, Thiago. Meu nome é Bruna! — retribuiu o gesto.
Ambos se olharam por instantes silenciosos.
— Bem, Bruna, — destacou seu nome. — finalmente descobri o nome da mulher mais linda do bairro! — exclamou. Ela enrubesceu, abaixou o olhar. — Será que apesar de sua vida corrida e mega ocupada, há alguém nela? — apoiou as mãos na mesa, em cima de seus materiais.
— Não, não tenho. Mas sabe que não seria nada mal um policial na minha vida!? — contou, passando as mãos por cima das suas, tirando-as de cima de suas coisas.
— Oh, sério? Então acho que cheguei na hora certa! — transpareceu. Chocalharam.
— Que tal me convidar para um jantar amanhã à noite?
— Não é uma má ideia! Às 20 horas?
— Ótimo! Rodízio de pizza?
— Fechou! Onde te encontro?
— Na minha casa! — pegou um papel, uma caneta, escreveu rapidamente seu endereço. — Não chegue atrasado! — deu uma piscadela, saiu sem olhar para trás.
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Bruna estava deslumbrante. Usava um vestido branco, com uma renda leve na altura do busto. Os cabelos curtos andavam soltos, balançando ao vento. Sua maquiagem era um pouco escura, entretanto, nada fora de sintonia com a roupa.
Thiago — por sua vez — optou por uma camisa preta de manga curta com calças de mesma cor. Os cabelos curtos foram penteados em um topete, o que lhe dava um ar mais jovem.
Ao se verem, elogiaram-se simultaneamente, embaraçando-os.
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Na pizzaria; comeram, conversaram, riram, se conheceram. Já iam embora quando descobriram que uma forte chuva os deixaria ensopados até que chegassem ao carro estacionado na rua de baixo, devido à falta de vagas.
Concordaram que a noite estava perfeita, um banho de água natural não os faria mal. Já próximos ao automóvel, ela abria a porta do passageiro, quando sentiu seu braço ser tocado. Ao virar-se, viu-o há poucos centímetros de si.
Suas respirações quentes, descompassadas, entregaram o desejo que sentiam um pelo outro. Assim foi o primeiro beijo do casal. Da forma mais clichê e romântica possível, como ele nunca imaginou que fosse.
Aquele era o começo de um relacionamento duradouro, cheio de alegrias, romantismos, carinhos, volúpias.
***
Três anos se passaram até uma tragédia afligi-los: Bruna era infértil, devido a um problema em seu útero.
Ao receber aquela notícia, sentiu-se triste, vazia. Disse ao namorado que se quisesse poderiam romper, tendo em vista que nunca poderia lhe dar uma família. Todavia, se recusou. Era ela a quem amava e com quem queria passar o resto de seus dias. Poderiam recorrer a outros métodos, no entanto se negava a viver sem sua presença.
Pouco tempo depois, pediu-a em casamento durante um jantar no Terraço Itália**. Aceitou de prontidão, parecia que nada os abalaria.
Até que há um ano e meio, a felicidade deles foi interrompida quando três tiros a acertaram fatalmente.
Não queria, não sabia, não achava possível viver sem ela. Contudo; tivera de superar, ser forte, recomeçar sua vida.
Ao terminar de contar sua história com Bruna, seu rosto está repleto de lágrimas. Algumas gotas caem sobre as fotos reveladas que segura nas mãos, enquanto mostra para Pâmela, que bebe sua água com açúcar sem saber o que dizer. Rodrigo está sentado na poltrona em frente, apenas os observando.
— Algumas pessoas estão fadadas a não terem seu “felizes para sempre”. — Thiago expõe em meio a soluços. — Mas você pode mudar isso, garota! É muito jovem, sonhadora, perspicaz. Precisamos ligar para o seu pai para avisarmos o que Daniel está fazendo. Creio que o Fábio não admitirá essa atitude babaca dele!
— Além disso, Pâmela... — Rodrigo complementa. — Você pode processá-lo! Precisará apenas de algumas testemunhas.
Ela consente.
— Ligue para o seu pai! — o vizinho coloca seu celular nas mãos dela. — Vamos te ajudar a se livrar de Daniel!

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