Inerte(s)
1 um espectro de metáforas infelizes.
Notas iniciais
I realized I was in love with a voice
I called it, again, and again
But all I heard was the echo in the light
M83, Moonchild
Há muito silêncio ali.
Um silêncio quebrado todos os dias pelo som que era como o arraste quieto de uma porta. Embora a porta em si continuasse fechada. Em seguida, vinha a sensação de um filete ínfimo de sol escapando pela janela e tropeçando no pequeno criado-mudo. A janela está supostamente vedada por uma grossa cortina de veludo, mas a luz ainda consegue se esgueirar por entre suas brechas e invadir o pequeno quarto.
E o que pode ser uma modesta promessa de liberdade se torna apenas a certeza de um dia a mais preso na quietude daquele lugar.
“Como você se sente?” a voz ao seu lado sussurra e o barulho é como um eco no escuro.
Ele finge que continua adormecido, ainda que seja em vão, pois consegue sentir na pele do rosto o peso do par de olhos que o observa minuciosamente — a respiração quente batendo em sua bochecha direita. Ele sabe que o outro sabe, e mesmo assim nenhum dos dois se move.
A respiração segue alta, e ele não consegue evitar estar consciente dela, do que significa perante aquele confinamento sufocante. Ele quer mais do que tudo que ela cesse para sempre. E ao mesmo tempo, teme que seu pedido seja acatado.
O murmúrio o remete sem querer a certo momento de sua vida. Ele não sabe ao certo quanto tempo se passou desde aquele dia, talvez pela letargia do sono, talvez não, mas sua mente o leva até aquela lembrança de uma maneira ou de outra.
A atendente do pequeno café é muito simpática e sorridente, e o cumprimenta quase silabicamente; o sorriso dela o agonia de modos que ele nem pode tentar descrever. Assim, numa tentativa desesperada de ser atendido e sair dali imediatamente, ele se senta na mesa mais distante do estabelecimento e tamborila os dedos na madeira. Verniz.
Há um aquário entre a sua mesa e a mesa ao lado. Ele observa o balanço da água deixada pelo rastro dos pequenos peixes que ali nadam. O barulho da sineta acima da porta convida a entrada de um novo cliente, mas seu olhar continua vidrado no movimento fluído da água dentro do aquário. E então, um toque. Os peixes saem nadando desesperados. Há um par de olhos que o encaram do outro lado da vidraça.
Ele quase falha em manter-se parado onde está, tamanha é a urgência interna de levantar-se e sair dali o mais rápido possível. Mas o sujeito é mais rápido e se posta em frente a sua mesa com naturalidade, quase como se toda aquela cena tivesse sido planejada minuciosamente por ele. É um homem pálido, de cabelos curtíssimos e está vestido dos pés a cabeça, mesmo que lá fora o clima fosse ameno.
A pequena TV do café chia na frequência da estática.
O sorriso que o estranho lhe lança no segundo seguinte faz com que a pele ao redor de seus olhos forme um pequeno leque, eles ficam menores e tudo o que sobra é a visão de duas pupilas pretas; a expressão o envelhece alguns anos. Os pelos de seu braço se arrepiam repentinamente frente aquela aparição, mas ele permanece impassível e até mesmo devolve o sorriso com um aceno leve de cabeça.
“Olá” diz o homem.
E ele sente sua presença gélida até os ossos.
“Oi.” pausa. “eu te conheço?”
“Não. Você não me conhece” e o pequeno leque volta a aparecer. “eu me chamo Thiago”
Sua postura é equilibrada, elegante. As mãos são frias em contato com as suas.
Lá fora começa a garoar.
—
Ele percebe quando há um pequeno movimento ao seu lado, e não se surpreende ao sentir logo em seguida o peso dos lábios alheios pressionando sem cerimônia o canto da sua boca. Uma mistura de nojo e prazer o irrompe com força, mas ele a mantém sobre controle. Ele não sente ímpeto algum de corresponder.
“Eu fiz uma pergunta” a voz persiste. Está perto; ele contém a vontade quase inumana de torcer o nariz.
Ele a ignora novamente. É um cadáver. Está morto. O descer e subir de seu peito é apenas uma lembrança longínqua do tempo em que esteve vivo. Não há vontade, não há dor, não há nada.
O silêncio segue ininterruptamente.
—
Alguém uma vez lhe disse que se apaixonar é como acender uma faísca ao redor da fogueira. As risadas, as histórias de terror, o cheiro de maresia e a sensação da areia branca entrando por entre as brechas do dedão do pé. Ela dura por alguns segundos – vívidos – e depois se apaga como se ali nunca houvesse existido.
E assim como o brilho incessante de uma faísca junto ao breu de uma noite sem estrelas, existe também a mariposa atraída por ela. Ele nunca entendera o que um ser tão frágil como uma mariposa estaria pensando ao chegar perto das chamas destrutivas; mas se tornou claro, ao enxergar por sobre as labaredas e sentir na pele a sensação de carbonização, os olhos miúdos brilhando ao encará-lo, que para ela não importa se sairia dali morta.
Até uma certa extensão, ele se identifica.
A verdade que nunca lhe dizem sobre uma queimadura é a sensação após o primeiro choque. Você sente a dor, e ela queima, ela destroça sua pele sem qualquer misericórdia. Mas o que acontece se você continuar sentindo-a por muito tempo? Dizem que você simplesmente morre, mas a verdade é crua e cruel, a verdade é que você se acostuma. É como a própria rotina, e é quase natural o jeito que você lida com ela.
O amor que nasce daquele encontro (quase) aleatório, que com certeza já acontecia com outros milhares de casais, no mesmo dia ou na mesma hora, é tudo menos o que ele esperava. É um amor que vem da conversa monótona que trocam no pequeno café; é um amor que floresce da sensação de uma previsível comodidade. Suas personalidades tão parecidas que descrevê-los é quase como recontar o mito de Narciso.
É fácil o jeito como resolvem ficar juntos.
Não há porque se estender em conversas sobre um relacionamento que já parecia ter sido escrito na pedra. Eles aceitam e permanecem.
Compram um apartamento. Moram juntos. Mantêm-no incrivelmente impecável. Os problemas são poucos, os dois trabalham, vivem uma vida comum — monótona. É um tédio quase poético.
Mas, ao mesmo tempo, se apaixonar também é algo semelhante a estar constantemente submerso por um rio de água gélida sem fim. Congelando aos poucos.
—
O despertador no criado-mudo do outro lado cama – infelizmente, não do seu lado – toca. Estridente, tão estridente que quase o faz abrir os olhos. Ninguém o desliga e o barulho continua por muitos minutos até ser vencido pelo cansaço.
Talvez até infectado pela morbidez.
—
Thiago é, de fato, como um lago congelado. Há uma pequena e fina crosta de gelo na superfície, e abaixo dela, água petrificante. As pessoas que passam por ali tendem a querer andar sobre ele, imaginando que se divertiriam , mas quando aquela fina linha se rompe com o peso de um corpo inteiro, tudo o que sobra é a escuridão e a sensação de desespero em um espaço naturalmente inerte a qualquer definição da palavra esperança.
Ele sente aquela água invadindo seus pulmões sempre que Thiago lhe beija os lábios. Ela o afunda cada vez mais, e, ás vezes, ele consegue ouvir a própria voz chamando-o da superfície. Mas leva um átimo de segundo para que ela suma e seja substituída pelas mãos frias de Thiago sobre seu corpo. Elas o acariciam, mas seus pulmões continuam cheios. Ele sequer tenta nadar.
O tempo passa, e eles ficam. Aquele apartamento e eles. Sumindo sozinhos no espectro de um tempo muito maior do que eles. A luz que vinha da superfície desaparece vagarosa, como se em outra promessa falsa de liberdade.
—
“Cada canto desse apartamento, cada quarto e cada móvel, eles são o nosso túmulo.” sussurra Thiago junto ao seu ouvido em uma noite na qual as cigarras não se calam. É um veredito.
A cortina já veda a janela e o breu os engole mais uma vez.
—
“Como você se sente?” pergunta de novo a mesma voz.
É como se ele estivesse se afogando, responde, mas nenhum som deixa seus lábios.
A voz solta o ar pela boca, e, mesmo com os olhos fechados, ele consegue imaginar a dança que se faz no espaço sobre suas cabeças.
Quando ele finalmente os abre, o cômodo ainda está meio escuro. Vira a cabeça devagar em direção à voz e enxerga por entre os cílios semicerrados os mesmos olhos parados, de lagoa. Thiago sorri aquele mesmo sorriso e a pele ao redor de seus olhos se abre em leque. Eles ficam pequeninos, e ele sente, como se fosse a primeira vez, gelar até os ossos.
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