Indústria do Amor
4 Capítulo 4
— Será que eu poderei ir te ver quando quiser? – Indagou Luiz enquanto colocava mais uma caixa na velha caminhonete estacionada em frente a porta principal da casa do Thomas.
— Não é como se eu fosse ficar trancado somente na fazenda com uma família tão rica que pode comprar todas as casas da cidade. Eu vou poder sair, inclusive para fazer os transportes das cargas da madeireira. – comentou Thomas enquanto arrumava as últimas caixas. — está tudo pronto, aceita ir comigo ou você vai ficar naquele joguinho idiota? – olhou para seu amigo de cabelos cacheados que estava limpando o óculos na barra da camisa.
— Não é um jogo idiota, é Fornite! Você tem noção de como é difícil ganhar jogando contra mais 99 jogadores? – Luiz exclamou o mais alto que podia já que estava quase sem folego de tanto carregar caixas, diferente do Thomas, o menino não tinha um corpo com massa muscular, ele sabia muito bem disso, mas não ligava, seu maior passatempo é ficar pesquisando ou aprendendo algo novo que envolva tecnologia. Era um gênio, isso não havia dúvidas. — Thomas, você já trouxe à sua mente aquela foto da família que vimos no salão dos vereadores?
Thomas se escorou na traseira da caminhoneta e com uma expressão pensativa balançou a cabeça fazendo que sim
— Então... o que você achou? – Aproximou-se Luiz do seu amigo, ficando na mesma posição que ele
— Achei sobre o que? Eu não consigo ler pensamentos ainda, Martins.
— Ué, sobre a família, você vai morar com eles durante um ano e meio, é lógico que deve ter pensando algo sobre eles
— Acho que não tem o que pensar. São pessoas ricas que querem ficar mais ricas e para isso precisam abrir mais uma das suas dezenas de industrias em um local estratégico do país, para isso vão ter que morar em uma cidade que não tem 10 mil pessoas como forma de ganhar a confiança local.
— Sério que você não pensou em como eles são, tirando o fato de ter dinheiro? Qual é, conta aí seus pré-julgamentos.
— Pré-julgamentos não são boas ideias. Você deve evitar ao máximo
— Pré-julgamentos são normais. Todo mundo faz, eu mesmo tive um pré-julgamento de você. – Thomas olhou para o amigo quando o ouviu falando isso, tinha ficado curioso.
— Qual foi seu pré-julgamento sobre mim, Martins?
— Por que você me chama tanto pelo meu sobrenome? Enfim, filho de um cara muito respeitado na cidade, foi para a capital, é bonito, pelo menos as meninas falam, deve ser um cara muito metido.
— Está vendo! Por isso não se deve fazer pré-julgamento de ninguém.
— Você fez ou não, Saraiva?
— Fiz – Thomas finalmente admitiu.
— Então conta aí
— Você está mesmo interessado em saber? – Thomas levantou a sobrancelha para o amigo
— Não só interessado como eu vou fazer questão de anotar e comparar tudo que você disser agora com o que você irá dizer há 6 meses – Luiz tirou um caderno pequeno do seu bolso de trás assim como uma caneta
Uma risada escapou da boca do Thomas. O amigo dele era inacreditável. Balançou a cabeça em negação e disse apontando para o caderninho
— Escreva aí: Senhor Albuquerque, um cara inteligente, sabe jogar o jogo de todo mundo e traze-los para o seu jogo. Senhora Albuquerque, deve ter uns 45 anos, mas tenta esconder ao máximo sua idade, deve estar pensando em como vai ser morar em uma fazenda e em como sujará todos os seus preciosos sapatos. Menino Albuquerque, deve ser uma criança super mimada. Tem todos os brinquedos a sua disposição, não imagino que ele possa usar sua imaginação para criar uma brincadeira. É isso.
Luiz realmente anotou tudo que foi falado, além de parecer escrever algumas coisas que Thomas não tinha dito. Pôs a caneta no meio das folhas e fechou o caderno, olhou para o amigo com uma expressão que esperasse que ele continuasse, mas Thomas não falou nada e a vez voltou para Luiz que disse
— Falta mais uma pessoa, Thomas. O que você tem a dizer sobre a menina?
Thomas entrou no lado do motorista enquanto Luiz foi pelo lado do passageiro, ligando a chave do carro e dando partida, olhou para seu companheiro e soltou apenas uma palavra
— Metida.
Era noite quando Thomas e seu pai tinha terminado de arrumar tudo na sua nova casa temporária. Luiz já tinha ido embora alegando que tinha um dever de casa para fazer, ele mentia tão mal que nem se deu conta que seu último ano na escola foi ano passado. Thomas não o julgou, seu amigo passou o dia lhe ajudando e certamente era merecido um descanso para ele. Junto com o seu pai na fazenda, havia também mais 5 empregados na casa. Um casal seria responsável pela organização e limpeza, uma senhora de uns 60 anos ficaria responsável pelas refeições, um senhor de 50 anos cuidaria das inúmeras arvores que tinha na fazenda e a última era a governanta. Todos trabalhavam para a família Albuquerque em São Paulo, todos tinham um rosto muito amigável. Senhora Torres, a governanta da família, ajudou Francisco em tudo que precisava no tocante a organização dos objetos que trouxeram. Apesar de morar na cidade, era óbvio que ele e o seu filho estavam um pouco tímidos em relação a essa mudança, e os funcionários queriam ao máximo deixá-los confortáveis com a situação, enquanto eles mesmo também estavam se adequando. Todos trabalhavam para a família há pelo menos 15 anos, se existiam pessoas que os conhecesses bem, eram essas cinco pessoas que estavam junto com Francisco e Thomas.
A cozinheira, senhora Dolores, foi preparar alguma bebida quente para eles enquanto todos estavam sentados. Como deixar o clima no maior silêncio não era algo muito adequado a se fazer, Francisco puxou uma conversa sobre o que poderia esperar da família Albuquerque, claro que de uma forma muito educada tentando não parecer invasivo. O assunto foi aceito com agrado pelos empregados, todos comentavam em como o senhor Albuquerque era um cara íntegro e de bom coração, não tirava opiniões precipitadas sobre nada e ninguém, além de ser uma ótima companhia. Thomas tentava prestar atenção na conversa, mas sua mente foi levada a outro devaneio. Ficou pensando na casa, ou melhor, na mansão. Eram três andares, embaixo ficavam a enorme sala de estar, com um sofá bege, uma mesa de centro no estilo madeira e que combinava com os móveis rústicos da antiga casa. Não tinha tv na sala, ele não entendia o porquê. Ao lado direito tinha a sala de jantar com uma mesa para 6 pessoas. Era uma bela mesa, combinava com o ambiente, e mais para o lado tinha a cozinha com tudo que uma cozinha necessita e alguns utensílios a mais. No segundo andar encontrava-se quatro quartos, muito desnecessário. Certamente a família Costa era muito exagerada. Thomas ficou com o último quarto da direita, era no final do corredor, a luz solar iluminava bem aquela parte pela grande janela que tinha, ele acreditava que a mesma coisa deveria valer para a luz lunar. Seu pai tinha ficado com o quarto ao lado do dele. A governanta ficou com o terceiro quarto do andar de cima, ficando reservado o maior para o senhor e a senhora Albuquerque e mais um vazio, não sabia qual dos filhos ficariam com esse. Os funcionários restantes escolheram ficar em uma casa que tem ao lado da mansão, gostavam de ter seu próprio ambiente. Justificável.
O lado de fora da incrível casa que agora pertence à família Albuquerque era mais lindo que dentro. Um grande espaço à sua frente. Arvores e mais arvores do horto florestal enfeitava ao redor da mansão e em frente a ela havia o Lago Pequeno Mar. O lago tinha esse nome por causa da sua extensão, parecia que era um pedaço do mar que foi tirada do litoral e trazido para o interior. Águas limpas, tão limpas que se podia ver o reflexo. O lago se estendia por dentro do Horto e perdia-se de vista. Para entrar na fazenda, havia duas filas de postes de luz de jardim. Parece que foi colocado na distância perfeita, as luzes dos postes não chegavam fortemente até a beira do lago, mas também não ficava uma completa escuridão. Se por acaso você tivesse a oportunidade de querer chegar no Pequeno Mar através da fazenda, ocorreria tudo bem, você conseguiria enxergar qualquer pedra ou algo que possa te atrapalhar. De longe via-se apenas sombras, impossível dizer quem estaria lá. Era um belo local.
E, apesar de ser chamada por fazenda, a mansão não era uma fazenda, era apenas uma casa, uma grande casa, que tinha um quintal enorme. Talvez por não ter outro nome que descreva melhor ficou conhecida como fazenda.
Thomas ainda pensava sobre isso quando um barulho de carro o tirou dos pensamentos, não só dos seus pensamentos, mas tirou todos que já estava em uma conversa bastante entretida. Ninguém estava esperando por visita, era 23:00 de uma quinta-feira à noite. Senhor Cavalcante, junto com a sua mulher, responsáveis pela organização da casa, se levantaram e foram até a porta. Depois de um breve momento a mulher voltou na maior pressa possivelmente com uma cara de quem acabara de algo que não esperava, e realmente, ela não esperava. O senhor Albuquerque tinha chegado mais cedo do que previa com a sua família. Ao falar isso, todos se levantaram e a acompanharam até a entrada da casa. Thomas foi o último a se levantar e a chegar no portão. Quando ele chegou na entrada da casa, o senhor Albuquerque já estava cumprimentando a todos, seguido pela sua família. Parecia mais novo do que na foto, deveria ser pelo sorriso estampando no rosto. O último a receber o aperto de mão foi o rapaz. Moisés se afastou e ainda com o enorme sorriso estampando no rosto disse
— Vocês não têm noção de como eu estava com saudades, a casa em São Paulo estava uma completa bagunça. Não sei como a gente sobreviveu com vocês vindo antes de nós. Como eu duvidava muito que aguentaríamos mais tempo, resolvi vir logo. Cristina concordou comigo, segundo ela um dos motivos era a saudade de sua comida, Rosa.
— Não espalhe meu segredo por aí, amor. O que vão pensar se descobrirem que eu não consigo experimentar outro tempero do que o da dona Rosa? – A senhora Albuquerque se aproximou do marido e passou a mão pelos seus ombros. Thomas observou bem, ele gostava de observar, talvez estivesse errado e ela não fosse só uma perua rica, muito¸ rica. O olhar dela foi de encontro ao de Thomas, um sorriso amistoso surgiu nos lábios da senhora. Tinha cabelos vermelhos, era uma cor bonita, e olhos negros. Sua observação das características parou aí, pois ouviu o senhor Albuquerque apresentar seus dois filhos. Primeiramente o menino, devia ter 11 anos, parecia com o pai, cabelos loiros e olhos também escuro. Usava óculos e uma camisa com o símbolo do lanterna vermelho. Ele lembrava muito o Luiz. Por fim Moisés apresentou a última pessoa. Era uma menina, estava mais afastada do local em que todos se encontravam reunidos. Deu alguns passos para se aproximar, vestia uma calça e uma sandália, além de uma blusa não tão básica assim. Tinhas os cabelos volumosos vermelhos e uma pele clara, mesmo com a noite dava para notar a pele muito clara. Ela ainda estava olhando e digitando no celular quando seu pai chamou mais uma vez sua atenção, levantou os olhos, era a primeira coisa que Thomas pensou, ou pelo menos achou que pensou. Seus olhos tinham uma cor clara, deveria ser verde.
— Essa é a Isabelle, minha filha – Moisés apresentou a menina para Thomas e seu pai, o tirando dos seus pensamentos. Ela apertou primeiramente a mão do Francisco, enquanto todos conversavam sobre a viagem. Decidiram entrar e só por fim foi a vez de Thomas receber o cumprimento da menina. Ela apertou sua mão, era uma mão delicada e macia, as unhas não eram pintadas e nem grandes. Thomas acompanhou o levantar da cabeça dela e seus olhos se encontraram. Era verde, um verde claro. Era bonita. E no mesmo instante um calafrio percorreu pelo seu corpo. Odiava aquela sensação.
— Querida, vamos entrar que já está esfriando aí fora! – Cristina tirou Thomas dos seus devaneios que surgiram rapidamente. Isabelle soltou a sua mão e passou por ele, deixando no ar o seu perfume. Não era muito doce, deveria ser de alguma marca francesa que ele não sabia pronunciar. Começava a pensar se tinha sido uma boa ideia morar um ano e meio com alguém como Isabelle Albuquerque.
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