"Minha história começa de um jeito engraçado. Quase idílico. Poderia se dizer, um sonho. Um conto de fadas, talvez. Mas, não foi assim. Nunca é, na realidade. Quando dizem que todos podem ter seu final feliz, estão redondamente enganados. Ainda mais quando se depende de outra pessoa para que isso aconteça. Duas lições, que você precisa aprender desde cedo, Ginn, é que não existe finais felizes. E que não é possível controlar o outro. De maneira alguma. Por mais que os homens tentem nos controlar, claramente fracassam nesse intento. Pelo menos, para mim, esse foi o caso. Ninguém nunca de fato, me domou. Não sou um animal para ser domado.

Estou a divagar, é um fato. Mas, só tenho a você para conversar. Mesmo que você nunca chegue a ler essas cartas. Não sei nem ao menos se está viva. Eu espero ansiosamente que sim. Que esteja.

Com todo meu amor,

H. Granger."

O que eu não daria para ter mudado o passado. Pensando nisso, agora, eu sei que não poderia mudar nada. Fiz minha escolha. Sai daquele castelo tenebroso e sombrio. Sabia que nada poderia tirar dele. Draco não era dado a arroubos apaixonados. Não tinha nenhum sentimento mais profundo, a não ser pelo próprio poder em suas mãos. E o seu poder, era tudo que teria. Pois, eu não estaria mais em suas mãos.

Caminhei pela trilha erma, com árvores secas margeando. O céu estava cinzento aquele dia. Ameaçava a chover e vento soprava forte vindo do leste. Eu não poderia me abrigar sobre minha capa. E muito menos, continuar naquela trilha, sozinha. Precisava de alguma maneira fazer um feitiço de proteção em alguma clareira e passar a noite, já que eu não sabia aparatar. Não me entenda mal. Sei que está me julgando por não saber um simples feitiço de aparatação, que poderia me levar aonde quisesse. Contudo, não sei para onde ir. Essa é a verdade. Não tive controle ainda desse feitiço, pois sai da escola mais cedo do que o esperado. Infelizmente, Hogwarts não era o lugar mais seguro. E com a ameaça de um bruxo das trevas, bom, não seria mais. Grindelwald estava causando um verdadeira guerra contra o mundo bruxo, desejando mais e mais poder. Tentava tomar o Ministério da Magia a todo custo, apesar dos esforços do Ministro e de Alvo Dumbledore, um excelente professor de Defesa Contra as Artes das Trevas. Bom, esse não era o ponto que queria chegar. Naquele tempo, eu estava muito apaixonada. E havia fugido com a pior pessoa que poderia eleger como futuro esposo. Iria casar mais cedo do que muitas jovens damas da minha idade, com dezessete anos. Mas, estava feliz. Se eu soubesse que estava caminhando para a morte, nunca teria aceitado tal proposta. A de um casamento fadado ao fracasso.

Adentrei pela floresta o mais rápido que meus pés conseguiam me levar. Pensava no que fazer a seguir, mas não havia muitas alternativas. Com o mundo bruxo em guerra, para onde ir? Meus feitiços era bons, mas não o suficiente. Eu passara o ano letivo entre suspiros e arrebatamento. Se eu soubesse o quanto isso teria me custado, não teria seguido aquele caminho. Não teria depositado minhas esperanças em um rapaz frio como ele. Nunca.

Finalmente tinha chegado a uma área de floresta densa. Eu havia deixado os terrenos do castelo Malfoy. As árvores ao redor do castelo eram de um aspecto esqueleto. Pareciam ter sido queimadas. E realmente foram. Era o fogo do dragão, que destruira todo o local. Seu castelo quase fora tomado por invasores vindo da Escócia, pelo menos há quatro séculos. Contudo, o castelo Malfoy resistiu bravamente contra ao ataque perpretado. A magia da casa Malfoy era tão poderosa, que o antepassado de Draco havia domado o dragão e o enjalaudo em uma de suas masmorras. Draco sempre contava com orgulho sobre aquela história, como se ele mesmo pudesse ser como Alanis Malfoy. Afinal, o seu sangue corria em suas veias, tão mágico e poderoso. Contudo, não pude comprovar tal poder. E pensar naquilo me enojava. Ele era tão soberbo. Como não pude perceber que ele pensava mais em si mesmo do nos outros? Eu deveria ter escutado meus amigos. Com pesar, pensei que eles deviam estar agora tentando sobreviver a uma guerra terrível, que obscurecia as mentes e tornava dificultosa a vida.

Ao chegar na lareira, montei acampamento. Eu tinha uma tenda mágica, que aumentava de tamanho ao entrar. O que era uma grande sorte. Depois, fiz os feitiços de proteção que conhecia, para deixar a clareira invisível aos olhos de todos. Eu estaria segura ali, por um tempo, até pensar no que fazer a seguir. Draco não se importara com a minha saída. Na verdade, nem estava no castelo. Ele não se importava com a minha segurança ou presença. Demonstrava isso constantemente, me deixando só naquele castelo a mercê de pessoas que me odiavam. Seus pais, seus amigos. Todos eles me odiavam com profundo desprezo. E era por um motivo simples. Meu sangue. Meu nascimento. Não bastava a riqueza que possuia. Que meus pais tinham. Não. Era meu sangue. Meu sangue trouxa. Meu sangue sujo e maldito. Chorei silenciosamente. Ele disse que não importava isso, mas importava. Eu sabia que no fundo, estava me iludindo. Pensei que seria um conto de fadas, mas afinal, nada disso existia, de verdade.

Adentrei na tenda e sentei-me na chaise longue de cor vinho. Pensei no que poderia fazer a seguir. Poderia voltar para a casa de meus pais, mas eles estavam muito longe. Em algum lugar remoto, na Russia. Papai tinha um trabalho diplomático para o governo britânico. O que o fazia ter de viajar sempre, levando mamãe consigo. O que era ótimo. Ele estava longe do conflito que sofríamos no mundo bruxo, que assolava a Inglaterra. Alguns trouxas pensavam que o conflito era uma guerra civil dentro do país. Mas, isso tudo era obra de Grindelwald. Logo formou a imagem de uma pessoa em minha mente. Alguém que poderia me ajudar, independente do lado que havia escolhido. Fred nunca me deixaria sozinha. Ele havia me dito isso, quando havia abandonado a escolha no quinto ano. Nós trocavámos algumas cartas. Éramos amigos. Tinha certeza que poderia me ajudar. Conjurei um patrono, na esperança que minha lontra o encontrasse, onde quer que estivesse. Não demorou muito, para um passaro pega-rabuda, parecido com um corvo, aparecer no meio da tenda. Em seguida, formou a imagem de meu querido amigo.

"Saudações, senhorita Granger. Espero que esteja bem. Sua mensagem veio como uma surpresa para mim. Não imaginava que estivesse em apuros. Infelizmente, não poderei lhe dizer minha localização, mas rastreei a sua. Fique onde está, que eu irei busca-la em breve"

O quão breve era aquela espera, era meu medo. Temia ficar tempo demais próxima ao castelo. Depois de ouvir claramente que Pansy pensava envenenar meu chá, eu pensei que o melhor era sair. Já havia sofrido acidentes estranhos, como ficar presa em meu próprio quarto, ou objetos cortantes tentando me acertar. Ou ser atirada para dentro deu um poço desativado, próximo ao castelo. Não poderia negar que alguém tentava me matar. Se era Pansy, Narcissa, ou Lucius, não poderia saber. Os três tinham grandes motivos para ver minha morte. Sai da tenda, desejando ver meu velho amigo e seus cabelos ruivos flamejantes, usando um terno roxo e lenço vermelho em volta do pescoço, mas apenas vi alguém caçando. Prendi a respiração, ao vê-los. Lá estava Theodore, acompanhado de Blásio. Carregavam arcos sobre os ombros. Usavam um arco e flecha enfeitiçado, para acertar o alvo que desejassem, mesmo que esse alvo se desviasse. A flecha sempre iria atingir o alvo. Sempre. Blásio estacou a dez passos do limite que estabeleci do feitiço de proteção. Olhou ao redor, de forma desconfiada. Fixou no ponto em que estava. Senti meu corpo enregelar. Tremula, torcia para que não tivesse me visto, mas era como se pudesse me ver.

— Escutou isso? — Blásio perguntou a Theodore, que parecia impaciente, para voltar a caminhada.

— Escutou o que? — Theodore indagou, de má vontade — Não escutei nada.

— É por isso que você é péssimo para se esgueirar, ou para sentir o perigo no ar — Blásio debochou, com um sorriso cínico — Tem alguém aqui, tenho absoluta certeza. Escutei o barulho de algo se quebrando...como se...como se fosse alguém aparatando.

Theodore ficou em alerta com aquelas palavras. E eu sabia o que era. O som de um estralo, como galho se partindo. Devia ser Fred. Só poderia ser ele. Torcia para que nenhum deles o encontrassem. Infelizmente, meu desejo não foi atendido. Virei a cabeça para o lado, para ver se o via e ele estava entre as árvores, mal camuflado.

— Ali — apontou Theodore para o local exato em que Fred se encontrava — Veja. Temos um intruso.

Blásio já estava com o arco poscionado, pronto para atirar um flecha. Meu coração estava aos pulos, quase saindo pela boca. Não queria que tudo terminasse daquela maneira, com a morte de meu amigo. Era tão tolo morrer por uma flecha enfeitiçada. Não era nem ao menos um duelo. O que era injusto. Fred, no entanto, se escondeu atrás do tronco largo. Pude ver o exato momento em que desapareceu. A flecha no entanto, fora atirada e o buscava. Parecia um falcão em busca de sua presa. De repente, Fred apareceu a alguns passos atrás de Blásio, com um sorriso sinistro. Nunca o vi tão diferente. Ele não usava o terno roxo, daquela vez, mas sim roupas escuros, aquém de seu estilo tão excêntrico.

O que veio a seguir me surpreendeu. A flecha atingiu Blásio. Não sabia dizer se fora no peito ou no ombro. O rapaz caiu no chão, urrando. Theodore, sem entender nada se virou para ele, depois vendo Fred que não se mexia, apenas o encarava.

— Maldito seja! — Theodore praguejou. Com aquela distância, não poderia usar o arco, mas estava pronto para sacar a varinha.

Fred fora rápido em imobiliza-lo, a seguir.

— Petrificus Totalus! — conjurou.

Theodore estatelou no chão, como uma estátua. Olhei tudo, boquiaberta, sem saber o que fazer a seguir. Fred olhou ao redor, como se buscasse algo. Tremula, eu atravessei a linha que protegia o local e Fred me fitou com um ar mais calmo. Sua expressão feroz suavizou. Poderia comparar ao sol que saia por trás da nuvens. Essa era a visão. Uma visão que nunca tive dele em nenhum momento. Fred havia mudado muito. Se tornado um rapaz belo e esguio. O rosto demonstrava as marcas de amadurecimento. Não era mais infantil. O maxilar bem marcado e definido, coberto por uma pequena penugem ruiva que se estendia até o queixo quadrado. Ruborizei, por fita-lo demais e por ter sido pega nessa atitude tão imprópria. Ele sorria de forma maliciosa, como se soubesse o que eu estava pensando. Esperava que nunca!

Voltei a realidade, quando escutei o choramingo de Blásio, caido no chão coberto de folhas marrons e dourada. Quase tive pena. Mas, sabia que ele jamais teria pena de mim. Então, não movi um dedo para cura-lo.

— A senhorita parece muito feliz em me ver — Fred interrompeu o silêncio, com um ar petulante — Vejo que cresceu muito.

Ele me mediu de cima abaixo, de forma escandalosa. O fulimeni com o olhar, mas isso o só o encorajou.

— E você continua tão selvagem como sempre — fiz um gesto com a mão, mostrando os inimigos caídos no chão.

— Deveria me agradecer. Eu salvei sua pele — Fred replicou, com um sorriso irritante.

— Ah, claro, vou agradecer quando me convir — provoquei — Agora, precisamos sair daqui, antes que nos percebam.

— Claro, milady. Seu criado, como sempre.

Revirei os olhos, adentrando a barreira que impedia os outros de verem minha tenda. Escutei os passos de Fred atrás de mim. Desmontei a tenda e guardeia na valise enfeitiçada. Fred me olhava admirado, com um olhar profundo. Senti os pelos do corpo arrepiados. Aquele encontro estava sendo o mais estranho possível. Não deveria estar sentindo o que sentia. Mas, sentia. Uma estranha sensação de estar atraída por ele.

— Devemos partir — Fred disse, oferecendo o braço, que aceitei sem hesitar — Você verá nosso novo esconderijo. Talvez, não seja do seu agrado.

— Quem está lá? — indaguei.

— George, Gina — ao escutar o nome de minha amiga, senti meu peito aquecido — Harry, Rony, meus pais, e alguns bruxos que estão se manifestando contra Grindelwald.

— Então, teremos uma armada — constatei.

— Talvez. Não é tão grande quanto se espera. Não poderemos vencer Grindelwald, sem um exército — respondeu Fred, com um ar melancólico.

— Tenho certeza que poderemos — afirmei, com a convicção que não tinha.

— E você deseja isso? — ele indagou, me fitando de forma profunda.

Evitei seu olhar. Olhei diretamente para Theodore que continuava imobilizando no chão. Os grunhidos de Blásio me deixavam com o estomago retorcido. Queria sair dali. E não queria falar sobre o que eu desejava ou não.

— Vou entender seu silêncio como não — Fred resmungou, um tanto irritado.

— Minha opinião não conta — tentei contornar — Não valho de nada nessa guerra.

— Pois, você escolheu um lado. Por ele — Fred rebateu. Seu rosto estava vermelho. Ele estava com raiva de mim — Harry me contou.

— E mesmo assim, você veio até mim — repliquei, sem piedade.

— E mesmo assim, eu iria aonde você fosse, Hermione.

Suas palavras me desarmaram. Derrubaram os muros do meu orgulho. E percebi o quanto fui tola. O quanto fui imprudente por escolher um lado. Era óbvio que a escolha que fiz não fora a mais acertada, mas eu não queria admitir. Não para ele. Talvez, para Gina. Apenas para ela. Contudo, suas palavras ainda reverberavam em meu intimo, quando aparatamos para seja lá onde fosse o seu esconderijo. "E mesmo assim, eu iria aonde você fosse, Hermione." Não sabia o motivo, mas aquelas palavras ecoavam em meu intimo de forma mais profunda do que eu poderia imaginar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.