Notas iniciais
Oi, Blue. Você provavelmente não sabe que é você, e também não faz mal, porque você não vai ler isso agora, mas um dia vai. Fique a vontade. Vocês todos que não são o Blue também fiquem a vontade. Oi vocês todos. ps: incolor e seus amantes não tem gênero, embora estejam com pronomes pré-definidos.

25.05.2016

Torpor

substantivo masculino

1. sentimento de mal-estar caracterizado pela diminuição da sensibilidade e do movimento; entorpecimento, estupor, insensibilidade.

2. indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.

3. ausência de reação a estímulos de intensidade normal.

To: Blue

Querido Blue,

eu não sei o que te levou a achar que só porque acabou eu estava imune. Não é assim. Não é porque me acostumei com as porradas de amor que você me dá que não vai doer cada vez que você bater de novo. Sempre dói. Viu só? Sempre.

E enquanto eu te pedi encarecidamente para que ficasse e me perdoasse, para que não sumisse de novo, você me ignorou. Simplesmente chegou a conclusão de que não me machucaria mais se fosse embora – você não sabe como pode estar errado, porque com você eu posso até não compreender muito bem as coisas ao nosso redor, e você não sabe o quanto eu odeio esse azul, mas, cara, sem você… Bom, sem você eu estou incolor, afinal, sou Incolor e sempre fui, mas será que você me entende? Eu tenho a impressão de que não.

E, pensando bem, prefiro sim levar essas porradas do amor que seu ascendente em escorpião insiste em me dar do que me ver longe de você mais uma vez – você entende isso? Você é a minha zona de conforto, e como um caranguejinho, não quero sair da minha casca, do meu lar. Nunca mais. E meu lar só é meu lar enquanto você estiver aqui. Porque, mesmo que eu seja um individuo independente de você, eu certamente sei que escolheria dividir os meus segundos favoritos com você de novo e de novo.

Te escrevendo isso eu peço que não se vá mais uma vez. Você já se foi o que? Duas vezes, e nessas duas vezes eu não podia ter me sentindo mais entorpecida. Mas acredite: até ficar com hematomas azuis de todas às vezes que você fez o amor doer é muito melhor do que o torpor.

Saiba que você não é indolor. Nunca foi. Mesmo longe, e mesmo que nenhum de nós dois fosse real, suas palavras sempre me atingiram como cometas – e cometas só são bonitos e admiráveis quando estão longe. Desculpe te dizer isso, sei o quanto sempre foi difícil que agradasse a todos que queria agradar, embora todos te amassem muito.

Viu? Você foi muito amado. Eu sei o tipo de amor que você queria, e sei que apesar das porradas de amor, você me amava muito desse mesmo jeito. Pena que isso está em um pretérito, não é mesmo? Eu não te escrevendo isso agora se estivesse no presente, guardado em meu peito enquanto sinto o calor do seu ser. Talvez eu estivesse apenas digitando palavras soltas sobre coisas que sei e que ninguém liga – só você.

Eu não sei o que faria se aquele torpor me atingisse novamente.

Agora eu só lhe imploro que, por favor, fique. Utilizo as mais humilhantes frases que posso para desonrar o meu ser te pedindo para ficar. Nem que seja para aparecer só nos dias 1 e 31 de cada mês, beber um chá de hortelã ou café, falar aleatoriedades até quase cair de sono em bocejos sincronizados e ir embora. Você sabe como eu sou e também sabe que meu casulo sempre está aberto para você – por mais que não haja tempo para visitas, estarei te esperando com bolo e café quente.

E espero que você se lembre que eu odeio café gelado.

Com todo o meu amor e azul,

sua sempre não-amada, Incolor.

Notas finais
Lembrem-se de tentarem sair do azul. (att 15.05.2020: galera, meus sentimentos nessa época eram de um adolescente dramático e exagerado tentando encontrar uma maneira de se expressar. a partir do capítulo 6 eu começo a escrever nos dias de hoje.)