Indigo Soul
1 Capítulo I – Prólogo – «A Little Fall of Rain»
Notas iniciais
Indigo Soul
Capítulo I – Prólogo – “A Little Fall of Rain”
A chuva caía forte naquela madrugada, alojava-se nas telhas das casas, pingava nas janelas, escorria pelos passeios de pedra e molhava o seu corpo. Mas o que interessava? Thomas nem tão pouco reparara que toda a sua roupa estava encharcada enquanto cambaleava pelas ruas frias de Londres. Os seus olhos estavam desprovidos de vida, lacrimejando para o nada, os seus movimentos descoordenados e os lábios entreabertos sussurravam gemidos de intenso sofrimento; não proveniente de dor física, mas dor emocional e psicológica. Quase tropeçava sobre si mesmo, arrastando os sapatos italianos belamente engraxados pela rua deserta.
Teve de ser o lançado Mercedes prateado a desviar-se do corpo ambulante, já que Thomas não reagiu às apitadelas por parte do condutor furioso. O colarinho da sua camisa azul foi agarrado por mãos fortes com uma certa perícia para lutar. Fora tomado por um embriagado, mas pouco mais ouviu dos insultos que o outro indivíduo arquitectara antes de regressar ao seu lugar no banco de cabedal e retomar ao seu caminho. Saíra da situação sem um olho negro ou um dente partido.
Não que isso interessasse.
Perdera tudo o que importava para ele. Que falta lhe faria um braço fracturado, ou uma costela deslocada, quando o seu coração já fugira do seu corpo?
A morte seria um alívio.
Os seus joelhos cederam ao peso dos pensamentos que o atormentavam e deixaram-se cair. Thomas berrou. E teve plena consciência de que o seu grito ecoou por todos os becos da sua cidade natal, e não quis saber. O nome da sua falecida mulher e o da sua filha que morrera antes de nascer foram partilhados com fantasmas apenas, adivinhava-se que todos os residentes dormissem àquelas horas da noite.
Sentiu-se vazio.
Provou a solidão.
Desejou a morte.
Por favor, que venha a morte, que esta seria aceite de braços abertos.
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