Indiferente
1 Café gelado
Arthur Kirkland sempre fora um homem de negócios peculiarmente reservado. Direto, talvez um pouco sarcástico, e impessoalmente educado com todos da companhia. Nunca xingava quando chovia no caminho do trabalho, apenas abria o guarda-chuva preto, que sempre carregava consigo em passeios por Londres. Nunca ria escandalosamente com piadas, dava um aceno e uma risada curta e planejada. Nunca levantava a voz por motivos desnecessários, tentando sempre manter o equilíbrio emocional. Podia-se dizer que era um homem que raramente mostrava sentimentos intensos, e, era por isso que no momento a empresa estava afogada em burburinhos por todo o canto.
Arthur Kirkland, gerente administrativo, e julgado até então “um cara indiferente”, havia explodido com seu novo subordinado.
O inglês não sabia se era o sotaque estadunidense (Nova-iorquino? Texano? Na verdade não importava: Não saberia diferenciar), o sorriso largo e descontraído, a necessidade de atenção ou, bem, talvez o jeito com o qual quebrava o espaço pessoal das pessoas, mas algo naquele novo técnico o fazia perder a paciência.
Massageou as têmporas com um suspiro. Havia gritado com o rapaz, seu sotaque londrino tomando conta dos xingamentos. Pela primeira vez perdera a compostura no trabalho, não se surpreenderia se seu chefe quisesse conversar mais tarde.
O pensamento de perder seu merecido aumento trouxe calafrios para a nuca de Arthur. De repente, o café que estava bebericando já não parecia tão convidativo, nem tão quente quanto há meia-hora atrás. Levantou-se da cadeira acolchoada, ainda com a xícara em mãos, e saiu de seu escritório em direção à sala do café.
O loiro colocou sua xícara no micro-ondas, mas ao virar-se deu um pulo instintivo. Lá estava ele: Mais alto que Arthur, o cabelo de um loiro mais escuro que o dele, e no momento quase o esmagando contra o micro-ondas.
“Desculpe- Eu...” Balbuciou o técnico, uma mão ajeitando os óculos “mn...Vi você vindo pra cá.” Ofereceu um sorriso, a vergonha sendo coberta por sua energia usual.
Arthur ainda estava em choque por ver alguém aparecer tão rápido, e ainda por cima tão perto de si. A única coisa que conseguia fazer era encarar o sujeito com quem tinha gritado, sentindo seu rosto enrubescer.
Alfred deu uma risada sem-graça “Olha, eu só queria dizer que sinto muito pelo que aconteceu. Sabe, o café no seu computador. Quer dizer, na verdade nem fui eu que derrubei, mas, sei lá, acho que se assustou comigo e-“ sua fala fora interrompida pelo pigarrear do mais baixo.
“Primeiro de tudo, escute aqui...” o inglês sentiu seu sotaque ficando mais forte, o sangue subindo à cabeça “Você vem, quebra meu espaço pessoal, derruba a maldita xícara na droga do computador novo que a companhia acabou de adquirir, e agora faz a mesma merda de invadir meu espaço só pra ter a audácia de vir dizer que a culpa não foi sua?”
Alfred sentia-se enrubescer de vergonha. Não, não era aquilo que queria dizer. Ele veio se desculpar, não cantar vitória, afinal, não tinha vindo para Londres pra arrumar encrenca. O Estadunidense se afastou do outro com alguns passos cautelosos, mas o mais baixo se aproximava a cada palavra dita.
“Você. Você está aqui faz quanto tempo? Uma semana?” Indagou.
“Seis dias.” Respondeu Alfred, engolindo em seco. Tinha quase certeza que estava prestes a perder seu emprego.
“Seis dias” riu, o sarcasmo praticamente palpável na ação “Um técnico de computador, trabalhando faz seis dias no lugar, vem instalar um programa no novo aparelho, mas ao invés disso ele consegue quebrá-lo. Diga-me” Arthur franziu o cenho e leu na placa presa ao peito do outro “...Alfred. Você acha que está em bons termos com o chefe dessa companhia?”
Com seu último passo, o mais alto bateu na mesa atrás de si, estavam perto a ponto do rapaz sentir o peito do outro mexendo com a respiração acelerada. Claramente seu superior estava fora do sério, e, devia ser aterrorizante, mas o rubor nas bochechas de Arthur, o colarinho mexendo com o pomo-de-Adão, o roçar dos corpos e o hálito quente de café, tudo aquilo mandava um outro tipo de sentimento pro corpo do técnico.
“Eu acho que não estou em bons termos” Respondeu, a voz rouca.
“Pois por sua culpa” de alguma maneira conseguiu se aproximar ainda mais, o olhar furioso sendo direcionado para o par de azuis, a gravata roçando na camiseta regata “, eu também não estou em bons termos.” Terminou, sentindo-se amargo. Sabia que não deveria descontar todos esses anos de autocontrole no cara novo, mas ele tinha um jeito que o tirava do sério.
Uma risada, dessa vez com um tom de malícia, foi ouvida de Alfred.
“Não sei se pode reclamar de mim...” murmurou baixo, e se Arthur não estivesse encostado no outro, não teria ouvido nada. E, realmente queria não ter ouvido, pois nesse momento percebera o que tinha feito.
O ar começou a ficar escasso, o sangue de Arthur pareceu confuso em se concentrar em seu rosto ou dentro de sua calça. O inglês tremia e mordia os lábios com força, como se fosse um vulcão prestes a explodir.
“Saia. Daqui.” Cuspiu as palavras fora, o olhar desviado.
Alfred ajeitou os óculos, segurando um sorriso nervoso. O roçar de corpos quando o rapaz se mexeu piorou tudo. Arthur soltou um gemido baixo, segurando o braço do outro com um pouco mais de força que realmente deveria.
"A-ah, eu não queria, digo, não que eu não queira, mas você parece assustado ent-" e novamente o rapaz fora cortado pelo outro, que dessa vez tinha prendido os lábios do estadunidense com o indicador e o polegar.
"S-só...Cala a boca e vai embora." mandou, um tom imperativo, mas baixo, com receio de algum outro empregado entrar e o ver nesse estado.
Alfred acenou positivamente, saiu da sala com uma caminhada atrapalhada, amarrando o casaco de modo que tampasse suas calças, e Arthur fingiu não ver a ação, ou pelo menos tentou não pensar muito sobre isso.
O inglês esbravejou, chutando um pilar de gesso e se jogando na cadeira ao lado. Olhou para o micro-ondas ainda não-acionado, e, de repente, a vontade por café tinha morrido.
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