Capítulo 8


O terceiro portão.

A ausência de noção do tempo começava a incomodar Indiana profundamente. Para piorar a prolongada estada a bordo do submarino alemão, a privação de comida ordenada por Vogel também o afetava, seu estômago, depois de algumas horas, emitindo os primeiros roncos insatisfeitos. Já Kriegüer, aparentando estar sempre acima dos contratempos que lhe eram impostos, dormia tranqüilo junto ao casco úmido. Jones desejava ter a mesma calma, ainda mais agora que estavam tão próximos da provável localização de Vineta.

Súbito, a estrutura da embarcação passou a novamente emitir rangidos de gelar a espinha. Por um momento Indy temeu que a tenente-coronel, em sua loucura, houvesse retirado mais uma vez o coração do baú e o mar tornava a reagir sem explicação contra o ato, porém logo concluiu que o U-Boat simplesmente voltava a reduzir sua velocidade. Seria mais alguma “parada” pelo caminho, ou teriam chegado a seu destino?

Sentada à mesa em seu alojamento no submarino, Vogel, sem nem ao menos ter endireitado os objetos e artefatos desarrumados pela anterior turbulência subaquática, tamanho era seu empenho nos estudos, tinha no rosto seus óculos de leitura enquanto folheava com atenção um grande, grosso e pesado livro sobre mitologia nórdica. Desde que apanhara o volume da estante, tentava a todo custo encontrar em suas páginas alguma explicação sobre o evidente fenômeno sobrenatural que presenciara há pouco. Após infrutíferas conclusões, deteve-se, finalmente, numa folha azulada contendo linda gravura representando o mar, do qual emergia, gigantesca, a figura cinzenta de um homem barbado, em cujas mãos abertas jaziam uma pilha de peixes recém-pescados e uma tigela contendo certa quantidade de cereais. Depois de alguns instantes admirando a composição, a loira abriu um triunfante sorriso e exclamou, mais para si do que para qualquer outro indivíduo que viesse a ouvi-la:

– Njord!

Logo em seguida fechou o livro num sonoro baque, erguendo-se da cadeira e deixando a sala apressada, o baú contendo o misterioso coração ainda em cima do móvel junto ao qual pesquisara.

A porta da prisão dos dois acadêmicos foi aberta de repente, o barulho da mesma e a súbita luz proveniente do corredor fazendo Heinrich despertar de forma brusca. Mal teve tempo de assimilar o que acontecia, foi erguido e arrastado para fora do compartimento junto com Indiana por dois brutamontes soldados alemães. Do lado de fora se viram imediatamente colocados de pé diante de uma vívida Vogel, a qual, tendo um inspirado brilho no olhar, informou, sem perder a rigidez:

– Nós chegamos!

A brevidade e singeleza da espontânea afirmação arrepiaram os cabelos dos prisioneiros. Vineta... Finalmente? Parecia mesmo que sim.

A bordo do barco no qual viajavam Mac e Sophia no rastro da rota do U-Boat, o inglês, junto ao leme, também percebeu que talvez houvesse chegado o momento de pararem. Isso seria inclusive necessário mesmo se o submarino continuasse avançando, já que os suprimentos gentilmente a eles cedidos pela Resistência norueguesa findavam. Aquela missão deveria ser concluída o quanto antes, de preferência com Jones de novo junto deles. A ruiva, deixando seu habitual posto junto à proa da embarcação, adentrou a cabine e perguntou ao companheiro:

– Onde estamos?

– Algumas léguas ao norte do estuário do rio Oder, presumo – respondeu, apontando para o mapa do mar Báltico pendurado próximo a uma janela. – A meio caminho entre a costa alemã e as praias do sul da Suécia... Não nos encontramos muito longe da ilha Bornholm. Podemos fugir para lá quando tudo estiver terminado.

– Mais do que encontrarmos essa cidade perdida estúpida, temos de salvar o Indy! – murmurou Sophia, demonstrando latente preocupação em relação ao arqueólogo.

– Bem, ao que tudo indica, o submarino com o Jonesinho está diminuindo a velocidade já há algum tempo... Creio que os nazistas estão perto de encontrar o que procuram...

E, olhando para o escafandro deixado junto a uma das beiradas do barco, acrescentou:

– Logo chegará a hora de mergulhar!

Sophia também lançou um olhar inseguro para o traje de mergulho e fechou a cara. Sua experiência em Atlântida estaria prestes a se repetir. Novos mistérios e perigos. Sacudiu os cabelos. Deveria estar pronta.

Sem quaisquer demais palavras de Vogel, Jones e Kriegüer foram escoltados através do U-Boat de volta ao compartimento contendo o equipamento para exploração subaquática. Após a porta ser aberta, Indiana, fitando novamente os capacetes e pesadas roupas, resolveu indagar à comandante:

– Pode nos contar o que iremos encontrar lá fora?

– O terceiro portão de Vineta – ela replicou, sempre seca. – Os outros dois foram descobertos alguns quilômetros a noroeste daqui, separados um do outro por uma curta distância e estando paralelos entre si em linha reta. Já esse terceiro está situado numa posição diagonal em comparação com os outros dois, e o ângulo existente confirma a hipótese de constituir o prolongamento de uma muralha. Na área dentro da mesma, no entanto, observamos haver apenas um monte de rochas, que impossibilitam que nossos submarinos acessem diretamente a cidade em si. Tememos que elas tenham soterrado as ruínas ou no mínimo as comprometido.

– Isso confirma a teoria de que Vineta possuía a forma de um hexágono, assim como aquele visto na vela e nos escudos do navio afundado! – concluiu Heinrich, tomado pelo assombro.

– Exato. E levando em conta serem no total doze portões, dois a cada lado do hexágono, então deve haver uma outra entrada próxima e paralela a essa terceira que ainda não descobrimos... Assim como as outras oito.

– Vineta assim estava edificada em cima de uma ilha, certo? – quis confirmar Indy.

– Sim, mas de acordo com meus cálculos e especulações, a ilha não é hexagonal. A porção central da cidade foi construída sobre ela e então os habitantes criaram um atol artificial ao redor da mesma, na forma do hexágono, em cima do qual foram erguidos a muralha e os portões. Dessa maneira, Vineta possuía uma espécie de “lago interno” entre os muros e a porção habitada, o que explica o extenso porto descrito nos relatos a respeito da metrópole.

– Um formidável trabalho de engenharia! – observou Kriegüer. – Não me admira que ela tenha sido contemplada com o título de mais esplendorosa cidade do mundo!

– Mas ainda não sabemos o porquê de ela ter desaparecido... – murmurou o norte-americano, sério. – Ou melhor, depois do que aconteceu quando a digníssima fräulein Vogel retirou o coração pulsante do baú, é possível ter uma idéia... Quantos submarinos seus desapareceram mesmo durante a busca pelas ruínas, tenente-coronel? Dois ou três?

A Sophia loira, que, empolgada pelas explicações sobre o paradeiro e aspecto da cidade perdida, perdera por um momento seu ar de arrogância predominante, tornou a alterar para pior sua expressão facial. Com as sobrancelhas franzidas e contornos do rosto duros como mármore, respondeu ao petulante prisioneiro:

– Eu poderia arrancar todos os seus dedos para que me revelasse o que sabe a mais a respeito do fato atípico que presenciamos anteriormente, herr Jones, porém já descobri por mim mesma. Njord, não? O deus nórdico dos mares e rios?

– Perdendo o ceticismo, comandante? – Heinrich provocou-a.

– Cale a boca, traidor! – ela repeliu-o mais feroz do que nunca.

– Sendo Njord ou não, é certo que não estamos lidando com algo deste mundo – ponderou Indy. – Talvez só descubramos exatamente o que é dando mais um mergulho, não é mesmo?

Vogel mordeu os lábios, vermelha de tanta irritação... Mas acabou cerrando os punhos e retomando a marcha compartimento adentro, botas pisando firme. Os prisioneiros foram também empurrados adiante pelas armas dos guardas, a porta por fim sendo fechada às suas costas. A exploração tinha de continuar.

A construção feita por mãos humanas, de tão colossal e firme, dificilmente era distinguida das formações naturais ao seu redor, ainda mais àquela profundidade. O suposto terceiro portão da Vineta afundada era composto por dois altos e imponentes pilares de pedra, cada um possuindo altura de trinta ou quarenta metros, suas extremidades superiores em forma de ponta, assemelhando-os assim a obeliscos. Entre ambos havia, bem-conservadas, duas imensas portas de madeira, apenas cerca de dez metros menores em altura do que as torres rochosas às quais se fixavam. Coberta de algas, crustáceos e outros elementos da fauna e flora marinhas, a barreira parecia firmemente selada. A mesma possuía em sua superfície figuras entalhadas, também dominadas pela vida subaquática no decorrer do tempo, representando deuses e símbolos relacionados a Vineta, o brasão hexagonal estando presente. Dentre tais esculturas, porém, a mais proeminente sem dúvida era a do deus Njord, que, cobrindo quase todo o portão, retratava o Netuno nórdico, barbado e musculoso, controlando a fúria das águas com um remo em suas mãos.

Era dessa incrível edificação nas profundezas do Báltico que seis humanos usando escafandros e lanternas, seus corpos tornados minúsculos perante a grandeza da obra, aproximavam-se em busca de respostas. Vogel como sempre os liderava, comandando os três combatentes alemães que também tomavam parte na expedição e os dois prisioneiros, que, apesar de um fardo para a tenente-coronel, ainda mostrar-se-iam úteis. Principalmente Indiana...

Nadando através das águas geladas, passando por escassos cardumes e outros animais de formas curiosas, como uma raia que por pouco não tocou o traje de Kriegüer, o grupo chegou mais perto de um dos pilares da entrada. Apontando sua lanterna para o alto deste, Sophia deteve o facho de luz num ponto da estrutura de pedra que lhe chamou atenção. Impelindo o corpo para cima, batendo as pernas como exímia mergulhadora, a militar reduziu a distância entre si e o local examinado, constatando o que suspeitara: existia uma abertura na torre, possivelmente uma antiga janela, que dava acesso ao seu interior.

Parando e olhando para os demais exploradores, apontou um dos braços para o achado, logo em seguida já se dirigindo na direção dele. Jones adiantou-se em relação aos demais e acompanhou-a, um dos guardas tomando a precaução de vigiá-lo de perto. Vogel adentrou o pilar sem qualquer receio, desaparecendo na escuridão de suas entranhas. Indy, detendo-se por um instante diante da abertura, hesitou, principalmente devido à companhia do soldado inimigo, que só então percebera, mas acabou também entrando.

Girando sua lanterna ao redor, o norte-americano constatou se encontrar no meio de uma extensa seqüência de escadas que parecia ligar a base do pilar ao topo. Olhando para cima, identificou o foco de luz proveniente da comandante se afastando e também avançou em sentido ascendente, o nazista munido de arpão quase esbarrando em suas pernas a cada movimento efetuado. Apoiando-se em alguns dos degraus para impulsionar o corpo para cima, Indiana atingiu o ápice da torre após breve subida, atravessando uma espécie de alçapão aberto no teto. No ambiente seguinte, Vogel lançava o foco da lanterna sobre o que existia em volta e, fazendo o mesmo, Jones não pôde evitar assumir uma expressão boquiaberta por baixo do capacete...

Estavam rodeados de complexos conjuntos de engrenagens e outras peças dos mais variados tamanhos e funcionalidades, tanto de madeira quanto de metal, compondo intrincado mecanismo. Através de algumas brechas do mesmo surgiam peixes apressados, os quais se afastavam rapidamente dali logo que constatavam a presença de estranhos. Indy quis examinar a máquina mais de perto, tocando alguns de seus componentes. Existiam também fitas, polias, pesos... Simplesmente genial. E o mais fascinante era que, mesmo tendo se passado tantos séculos, o sistema idealizado pelos hábeis habitantes de Vineta mantinha-se satisfatoriamente conservado. Os três mergulhadores não se surpreenderiam se ainda funcionasse...

E foi com tal pensamento que Sophia, voltando a luz da lanterna para a área próxima de uma outra janela, iluminou uma grande alavanca presa ao chão da sala. Seguiu veloz até ela e, tateando-a com cuidado, não resistiu à tentação: fechou os dedos e, segurando firme a velha peça metálica, empurrou-a para frente.

Mais peixes e pequenos animais abandonaram seus abrigos entre as seções do mecanismo quando este esboçou sinais de movimento. Algumas algas se partiram entre os dentes das engrenagens quando estas começaram a girar de leve, a velocidade sem demora aumentando. As fitas passaram a se deslocar, os pesos iniciaram uma intensa rotina de subir e descer... E, quando todos deram por si, a antiga máquina viking operava em toda sua capacidade!

De início não pareceu haver alteração visível no lugar ou conseqüência direta da ação da invenção, até que o pilar estremeceu de leve... Olhando para fora, Jones e Vogel logo perceberam que uma das duas partes do portão de madeira, mais precisamente aquela presa à torre na qual estavam, era lentamente impelida para dentro do que julgavam ser o “lago interior” da cidade perdida descrito há pouco pela tenente-coronel. O mecanismo possuía, afinal, a função de abrir caminho para as embarcações que no passado chegavam a Vineta. Como a barreira de rochas antes também mencionada por Sophia impedira que os U-Boats atingissem as ruínas passando por cima da muralha, agora o submarino poderia chegar até elas atravessando um dos próprios portões!

Sorrindo por debaixo do escafandro, a comandante apontou de imediato, através da janela, para o outro pilar, desejando que a segunda seção do portão fosse igualmente aberta. Indiana foi incumbido pelo guarda que os acompanhava de realizar tal tarefa, como descobriu assim que o mesmo o empurrou para fora da torre sob a ameaça do arpão e, poucos minutos depois, junto com o fascinado colega Heinrich, o aventureiro acionou a alavanca presente na outra sala das máquinas, praticamente idêntica à primeira, existente no segundo pilar. O obstáculo foi então removido em sua totalidade, os exploradores vendo-se diante de um escuro desconhecido que havia além dos muros da famigerada cidade. Executando ansiosos sinais com os braços, Vogel ordenou que todos retornassem ao interior do submarino, pois desejava que o transporte cruzasse o portão e se alojasse em meio às desconhecidas ruínas a seguir para que estas pudessem ser exploradas bem de perto. O capitão protestou:

– Befehlshaber, compreenda que a manobra que sugere não é segura! Nós podemos encalhar! O ambiente diante de nós é escuro, pequeno e lembre-se que outras três embarcações de nossa frota desapareceram ao chegarem até aqui!

O ímpeto da Sophia loira, no entanto, era maior, e ela não conseguia delinear as conseqüências que atos impensados poderiam ter àquele ponto da jornada:

– Você deve se ater às minhas ordens, capitão! Nós vamos atravessar aquele portão, não me importa o que ache!

O oficial assentiu resignado, enquanto Jones e Kriegüer, que, sob a mira da submetralhadora de um combatente alemão, haviam sido instruídos a não deixarem o compartimento no qual eram alojados os trajes de mergulho até a tenente-coronel voltar, temiam o pior. No caso de Indy, o qual durante suas expedições pelo mundo acabara quase sempre se deparando com inesperadas forças e entidades sobrenaturais, aquela insana viagem liderada pela desequilibrada Vogel não prometia um final muito feliz. Fechando os olhos, ouviu o casco do U-Boat novamente ranger enquanto o mesmo manobrava para atravessar o portão... Só esperava que não fosse o portão para o inferno. Mas um inferno gelado. O inferno nórdico.

No barco na superfície, Sophia terminava de vestir o incômodo e desproporcional escafandro. Após certificar-se que o traje estava ajustado de acordo com seu corpo, apanhou o capacete até então depositado em cima de uma caixa encostada à cabine, cobrindo a cabeça com a grande peça circular. Jamais se acostumaria a ela.

– Está tudo certo? – indagou Mac, que ajudava a companheira a se preparar para o mergulho.

– O tubo de ar! – lembrou a ruiva, olhando para a máquina de bombeamento próxima dos dois. – Eu vou precisar de um estoque de oxigênio lá embaixo!

– Oh, sim, já ia me esquecendo...

O inglês apanhou uma espécie de mangueira presa ao dito mecanismo e fixou-a numa abertura presente nas costas da vestimenta, perto do pescoço. Estando tudo acertado, Hapgood sentou-se numa das bordas da embarcação, criando coragem e disposição para saltar mar adentro.

– Precisando de um empurrãozinho? – perguntou o agente do MI6, sorrindo.

A jovem não teve tempo de negar por meio de algum gesto, sendo que não podia mais falar, pois o colega rapidamente empurrou-a com um dos braços para dentro d’água, sem que ela pudesse protestar ou xingá-lo. Desprovida de qualquer outra opção, pôs-se a nadar rumo a uma ampla formação rochosa metros e metros abaixo da posição na qual se encontrava... A tempo de ver um submarino terminar de passar pelo que parecia ser um túnel ou coisa do tipo...

O U-Boat naquele momento realmente se aventurava através do portão recém-aberto, rumo a um destino desconhecido. Cardumes se retiravam o mais rápido que podiam no sentido contrário ao tomado pelo transporte, como se possuíssem consciência de alguma sorte atroz que aguardava sua tripulação e fugissem dele. No interior da embarcação, Vogel, junto a um temeroso capitão coordenando a rota que tomavam pelo desfavorável ambiente, não fazia nada a não ser sorrir. Ansiava por comprovar sua hipótese, mostrar a todos os especialistas e estudiosos que os arianos no passado haviam controlado o comércio do mundo possuindo como base tão imponente e rica metrópole. Seguiria até o fim para evidenciar a toda a população do planeta, principalmente os empedernidos Aliados, que sua raça era superior a qualquer outra existente. E tinha consigo que tal certeza seria capaz de fazer com que sua nação revertesse os rumos da guerra.

No compartimento dos escafandros, Indy e Heinrich, permanecendo imóveis com as mãos unidas atrás da cintura, apesar de não estarem amarradas, e vigiados pelo guarda, presenciavam angustiados o incerto trajeto do submarino, desejando ao menos poderem visualizar o exterior para terem idéia do que os esperava. Apesar de o pensamento de estarem se encaminhando direto para a morte – ou coisa pior – não os agradar, não conseguiam deixar de imaginar que a decisão da tenente-coronel em avançar sem saber o que existia adiante apenas os conduziria a um pesaroso fim.

A primeira prova disso veio quando as luzes do transporte tornaram a piscar, como na ocasião em que o casco fora vítima de misteriosa e avassaladora pressão assim que Vogel retirou o coração místico de seu descanso no baú. Rangidos mais uma vez se fizeram ouvir, as lâmpadas oscilaram mais e mais...

E, num descuido do vigia, que passou a olhar assustado para cima tentando compreender os prováveis indícios de uma tragédia por vir, Jones agiu, tomando a submetralhadora de suas mãos, empurrando-o para trás e fuzilando-o antes que pudesse perceber o que acontecera. Kriegüer arregalou os olhos, assustado tanto devido à instabilidade a bordo quanto à inesperada ação do companheiro, e pôs-se a segui-lo na direção da porta de saída... Quando um súbito tremor levou-os ao chão. Os gemidos do U-Boat intensificaram-se, um grande estrondo ocorrendo. Batidas, gritos, frases de lamentação... Até a autoritária voz da comandante foi notada pelos prisioneiros num dado momento, em meio a tiros.

As luzes apagaram-se de vez, mergulhando todos em total escuridão. E tudo levava a crer que muito em breve também estariam mergulhados em algo mais, pois o inconfundível som de água corrente passou a ser captado pelos desesperados ouvidos dos ocupantes. Mais berros, novos tremores. Barulho de componentes metálicos se desprendendo de onde quer que antes estivessem fixados. A estrutura do submarino, ou ao menos o compartimento do qual os dois acadêmicos não haviam conseguido sair, inclinou-se de repente, a atordoada dupla sendo lançada de encontro ao duro e frio revestimento da embarcação. Heinrich perdeu a consciência, mas Indiana ainda teve tempo de perceber todo o casco sendo comprimido ao redor de si, como se o envolvesse naquele que seria seu eterno sarcófago perdido nas profundezas do mar Báltico. Antes de sentir a cabeça latejar e fechar os olhos, escutou algo como um urro, um brado de guerra do oceano em fúria, personificado numa divindade vingativa que tomaria a vida de todos que ousassem perturbar o cenário da desgraça de Vineta... E apagou.

Glossário – Capítulo 8:

Netuno: Deus das águas e do mar na mitologia romana; análogo, mas não idêntico, ao Poseidon grego. Também era adorado como divindade relacionada aos cavalos e padroeiro das corridas eqüestres. O planeta do Sistema Solar de mesmo nome foi batizado em sua homenagem devido aos gases azulados em sua atmosfera lembrarem oceanos.

Continua...