Indestino

2 Primeiro


Notas iniciais
E AI LEITORES, ANTES QUE VOCÊS ME MATEM, lembrem-se que autora morta não escreve viu???

JOÃO

Escócia, Novembro/2010

Já fazia exatamente doze semanas que eu estava nesse país que se parece muito com um jogo do mundo medieval, era algo surreal como o tempo passava quando se entra na rotina. Caminhar pelo gramado verde e andar até o castelo que na verdade era a Universidade St Andrews, era tão normal quanto comprar um café na Starbucks da esquina nos Estados Unidos.

Devo dizer que apesar de estar curtindo, não nego que vergonhosamente resmunguei feito uma garota ao sentir na pele o frio do inverno da Escócia mas depois de três meses, seu corpo se habitua e você passa a parar de tremer toda vez que sua bunda se senta em um banco.

É uma evolução e tanto.

– Ei carioca, o mundo te chama, vamos para casa? – sorrio de imediato ao reconhecer o inconfundível sotaque americano dela e ergo os olhos para encarar a única cabeça de fogo que conseguia se destacar em meio de um monte de ruivos.

– Vamos ginger.

Em um lugar onde a população predominante era ruiva, não era de se admirar que eu já estivesse acostumado de ver mas ela, Alicia Russell conseguia me fazer ficar com mais cara de idiota que já tinha. Ruiva, americana, olhos azuis, pele rosada e quando sorria mostrava duas covinhas na bochecha e minha primeira amiga naquele lugar.

Quando cheguei aqui na Escócia, eu e meu pai se mudamos de imediato para um prédio bancado pela emissora da série e nesse mesmo prédio foi onde eu conheci Alicia que mora com sua host family e cursa Medicina na mesma faculdade que eu. Nós vamos juntos e se separamos na hora de ir para as salas.

– Você está silencioso hoje, saudades do Brasil? – ela tentou inutilmente tentar pronunciar o nome do país sem o sotaque fazendo que eu abrisse um sorriso.

– Vou ser sincero, não sinto falta. De nada, talvez do clima. – murmuro dando os ombros enquanto sentia seus olhos azuis me analisando.

Mas eu estava mentindo, havia algo que eu sentia falta. E esse algo tinha nome e sobrenome, Bianca Duarte. Nas últimas semanas, tudo que se passava em minha mente era da última vez que se vimos, no casamento de minha mãe, dançamos, ela foi embora e eu fui pra casa do meu pai, dois dias depois embarquei para Escócia sob os protestos de Dandara.

É realmente um saco estar apaixonado por outra garota que está ao outro lado do oceano enquanto tem uma maravilhosa bem ao seu lado.

Irlanda, Janeiro/2011

Estávamos em uma casa da “amiga” irlandesa de René que havia nós convidado para passar a virada de ano e no fim eles acabaram indo para a rua enquanto eu e Alicia que havia ido comigo, ficamos na sala esperando a contagem regressiva que iria passar na televisão.

– Vou pegar as cervejas, já volto.

– Traz alguma coisa para comer. – gritei assim que a ruiva foi para cozinha e já ouvi os resmungos dela.

– Levanta a bunda e vem você querido.– retorquiu ela enquanto eu ria ainda focado em prestar atenção na contagem.

Os fogos se explodiam no céu sem parar e a gritaria de felicitações ecoavam por todo lugar, o mundo todo estava comemorando a nova virada de ano. Antes que eu pudesse piscar sentir o cheiro de rosas e braços finos me envolvendo em um abraço forte que não só retribui e a ergui no ar fazendo que Alicia risse.

Ela estava especificamente linda naquele dia, com um vestido branco que no corpo dela enlouquecia só de ver e ainda como se não bastasse, Alicia era absurdamente linda.

– Feliz ano novo! – falou em voz alta por conta do barulho dos fogos dando-me um leve selinho. – Para você começar o ano bem sabe? – deu uma piscadela enquanto eu a soltava delicadamente e atordoado por dentro.

Alicia corou absurdamente e tentou se afastar ao ver que eu não conseguia disfarçar meu choque, mas consegui a puxar pela cintura forçando que aqueles olhos azuis me encarassem faiscantes e céus, não havia como resistir á aquela americana mesmo que meu coração fosse de uma brasileira.

– Vamos começar melhor que isso. – mordi os lábios segurando sua nuca fazendo que nossos lábios se encostassem e iniciassem um beijo que ela retribuiu de imediato.

Á medida que o clima esquentava, meu coração que nunca esteve tão acelerado quanto hoje parecia a ponto de explodir naquele momento. Pressiono o corpo dela contra a parede e antes que pudesse piscar seus dedos ágeis abriram botão por botão de minha camisa social enquanto eu procurava o maldito zíper da porra do vestido.

– Eu disse que ia valer a pena você começar a correr de manhã. – Alicia percorreu os olhos sobre meu corpo logo começando a provocar lançando beijos sobre meu peitoral fazendo que eu gemesse.

Em meio ao desespero puxo com força e acabo rasgando uma parte do vestido fazendo que ela me ofegasse surpresa. Com o estrago feito, termino o trabalho e quando vejo já estávamos subindo as escadas trôpegos ora se beijando e quase batendo a cara na parede fazendo que ríssemos.

– Você realmente quer isso? – pergunto com uma certa insegurança, ela seria a primeira e eu era apenas um inexperiente.

– Se eu não quisesse, não estaria aqui. – colocou suas mãos em meu rosto e eu vi que Alicia estava tão nervosa quanto eu. Havia algo em seus olhos que de algum modo mexeu comigo como nunca.

E foi ali que pela primeira vez, eu comecei a acordar pensando em uma garota ruiva com olhos azuis e o sorriso mais incrível do mundo.

Los Angeles, Novembro/2012

Fazia alguns dias que não conseguia de modo algum entrar em contato com Alicia e aquilo me deixava absurdamente louco. Ficar pensando a cada segundo onde a mulher que eu amo está, era agoniante. Nem mesmo o fato que finalmente fui escolhido para dirigir uma pequena peça conseguia me alegrar.

Bebo mais uma dose de café e trinco o maxilar tentando me concentrar no roteiro que estava em minha frente mas meus olhos me traem e fico encarando a merda do celular esperando nem que seja uma mísera mensagem.

Eu tinha uma maldição de me apaixonar e a garota morar em outro lado do oceano. Porém nesse caso, ela retribuía meu sentimento tanto quanto eu.

O barulho da campainha me desperta de meus pensamentos e de má vontade com o celular na mão caminho até lá pronto para depois reclamar com o porteiro que não avisou que alguém estava vindo. Porém assim que abro a porta, tudo desaparece e só resta apenas a única pessoa que eu queria ver naquele momento.

– Alicia? Uau, o que... – exclamo sem conseguir conter minha euforia e a puxo para um abraço finalmente sentindo aquele familiar cheiro que tanto sonhei em todas noites.

Apenas quatro meses longe dela já me enlouquecia de um modo que nem dava para me aguentar. Não resisto em a encher de beijos e estranho ao sentir um gosto salgado logo sentindo ela esconder o rosto na curva de meu pescoço. Seus soluços me deram um aperto por dentro e antes que eu pudesse perguntar o que houve, ela recua e me estende um envelope.

– O que é isso? – indago com uma leve curiosidade e seus olhos azuis me olham em puro medo.

Alicia hesita e aquilo foi o suficiente para que minha testa franzisse ainda mais preocupado.

– É um exame. Eu tô grávida João.

Los Angeles, Maio/2013

Com a tamanha correria, estágio, mudança de Alicia para meu apartamento, faculdade, desejos de grávida, basicamente mal tive tempo de falar com minha família e comunicar a novidade. Certamente prevejo sem dúvidas a cara de pasmo do Gael, meu “padrasto” tão querido e bem, minha mãe? Vai pegar o primeiro avião para arrancar meu couro e depois obviamente vai se encantar pela Alicia.

– Ei amor, vou ir na casa da minha mãe hoje, ela tá me enchendo o saco por causa do chá de bebê, não aguento mais. Já não basta estar gorda, inchada, vou ter que ficar aguentando aquelas brincadeiras toscas e gente tocando na minha barriga? – emburrou-se ao ver que eu mantinha um sorriso na cara gostando de ver aquele mau humor todo.

– Calma que você não teve que aguentar o sogrão querendo me levar para uma caçada. – a beijo antes que ela pudesse falar algo e percorro minha mão sobre a barriga saliente dela.

É surreal imaginar que havia um ser humano crescendo ali, minha filha ou filho que daqui um mês iria nascer e me tornar o homem mais feliz do mundo. Eu não vou negar, fiquei em estado de choque quando ela me contou da gravidez, entrei em pânico quando estava sozinho mas aguentei porque era uma responsabilidade minha.

Que eu com toda certeza do mundo vou arcar e mesmo não sendo um exemplo de maturidade, eu tinha convicção que seria o melhor pai para aquela criança assim como Alicia seria a melhor mãe e a mais linda de todas. E não é porque eu amo ela viu?

– Eu to indo viu? Boa viagem para o Brasil, volte inteiro meu amor. – não consigo resistir um sorriso idiota vendo ela se despedir um aceno e entrando no carro que ganhamos de presente do meu pai que no momento era o único que sabia das novidades.

A tarde passou e logo eu já estava no aeroporto internacional que me levaria de volta para minha terra natal onde eu teria o maior desafio de todos, contar para minha mãe que eu não via há três anos que ela teria um neto.

Vôo 234545, dirija-se ao portão de embarque.

E bem nesse momento meu celular toca incansavelmente no meu bolso a pior ligação da minha vida.

Senhor Spinelli? Aqui é do Hospit...

San Diego, Maio/2013

Se eu tivesse que definir a pior noite de toda minha vida, eu diria sem dúvidas, a que hoje está me fazendo ficar sentando na merda de uma sala de espera aguardando por uma mísera noticia sobre o estado da mulher que eu amo e o bebê que ela espera. E tudo aquilo por causa de um maldito caminhoneiro bêbado, por causa de um maldito chá de bebê.

– Familiares e amigos de Alicia Russel? – de imediato levanto ao mesmo tempo que Nora, mãe da garota que eu amo e futura sogra.

– Somos nós. – arranjo voz para falar algo e o médico fixa seus olhos frios em mim abrindo um leve sorriso que de imediato trouxe um pingo de esperança.

– Sua filha está maravilhosamente bem, nasceu prematura, ficará fora das áreas de risco mas tem que permanecer na incubadora por algumas semanas. – ouvi a melhor noticia em horas e por mais que gay pareça, não consegui evitar um soluço e sorriso torto.

Eu era pai. Eu era pai. Eu era pai. EU TINHA UMA FILHA.

– E minha filha? Eu quero saber da minha filha! – Nora foi direta e foquei no médico sentindo uma leve calafrio ao perceber que ele demorava em dizer algo.

– Nós tentamos muito. A paciente chegou aqui com um edema no cérebro devido á forte batida, foi até uma sorte que tenhamos conseguido salvar a criança porém a mãe... Ela faleceu durante a cirurgia de emergência que tivemos que fazer para salvar a criança.

E bem no momento que eu assimilava que era pai, eu teria que assimilar que minha filha não tinha mãe.

San Diego, Junho/2013

A única coisa que conseguiu fazer que eu levantasse da cama nessas ultimas semanas era poder ver Lydia, minha menina que havia nascido prematuramente e que estava no hospital tentando ter forças para lutar contra um problema no pulmão. Ela tinha o mesmo mal que eu e era asmática. Não tinha herança genética pior que essa.

Eu a via pelo vidro, tocava de leve em suas mãozinhas rosadas e seus olhos grandes verdes me encaravam com uma curiosidade descomunal. Ela era o ser mais perfeito de todos.

– Boa tarde. – sorri para enfermeira indo ao mesmo lugar que ia sempre e sinto meu coração parar ao ver que a incubadora estava vazia.

Meus olhos de imediato procuram pelo lugar em pânico e antes que eu pudesse piscar, senti alguém apertando meu ombro fazendo-me virar e deparar com a enfermeira Morrison segurando minha filha nos braços. Ela estava perfeitamente enrolada em um cobertor e usava as roupas que estavam na bolsa de parto.

– Você está preparado para levar sua filha para casa papai? – antes que eu pudesse processar, segurava minha filha nos braços e não conseguia parar de olhar para ela.

Seu pequeno rostinho rosado exibia uma covinha no queixo que de imediato me lembrou de alguém que há anos não pensava no nome. Alguém que eu já fui muito apaixonado. Minha lembrança logo se dissipou ao ver que ela abriu os olhos de leve mostrando aquelas duas bolinhas de gude verdes.

– Oi Lydia, você finalmente vai para casa.

Los Angeles, Maio/2014

E antes que eu pudesse piscar, depois de várias noites de choro, cólicas agoniantes, desespero por causa de febre, acordar para checar se estava dormindo, trocar fraldas, dar banho e tomar cuidado com o cordão umbilical, passar pomada nas assaduras, trocar de roupa três vezes ao dia, aninhar até pegar no sono, ter mini infartes por ver a pequena ruiva engatinhando pelo chão e tentando encostar em tudo, tentar compreender os balbucios dela tentando falar as primeiras palavras e ao mesmo tempo fazer faculdade, estágio, contar com a ajuda da velha vizinha do apartamento de baixo, um ano havia se passado.

Eu juro que nunca mais vou reclamar da minha mãe. Porque ser pai não é fácil, ser pai solteiro e “viúvo” é pior ainda.

– Lydia, vamos, colabora com o papai minha princesa, engole essa coisinha nojentinha de maçã. – suspiro ao meu drama matinal de tentar colocar algo nutritivo na boca de minha filha que se recusava a comer fazendo beiço e cara de choro.

Reviro os olhos já notando o quanto que minha filha era manipuladora e corro para pegar aquele troço esquisito doce que todos bebês comem mas que é ruim da porra.

– Só estou deixando hoje por que é seu aniversario sua chantagista. – resmungo ao ver ela soltar aquelas risadas fofas de criança e ergo a colher fazendo aquela típica voz de retardado.

Bem ao contrario da coisa nojenta de maçã, este ela comeu com gosto mas antes que Lydia pudesse me manipular ainda mais por eu ser um pai babão, meu telefone toca e eu corro para atender pegando rapidamente minha pequena no colo.

– João Spinelli, quando que você ia ter a decência de me informar que eu tenho uma neta?

– Mãe?

– Abra essa porta agora.

Nova York, Junho/2015

Aperto a pasta que contem meus roteiros com força por causa do vento fresco que vinha e ergo a mão para chamar um táxi, assim que entro no automóvel, digo de imediato o endereço e observo no vidro sorrindo. Moro em Nova York há quase um ano quando me formei em Artes Cênicas na UCLA e consegui, graças á meu pai René, um emprego que além de ser bem incrível, pagava bem e dava para não só me bancar e bancar minha filha de dois anos.

Eu trabalho para um estúdio de cinema, mas no momento estou fazendo um roteiro de peça na Broadway sendo o diretor que orienta os artistas. Vou dizer, é bem legal ver as pessoas fazerem o que eu mando, brincadeira.

– Bom dia senhor Spinelli. – Kate minha secretária me saudou assim que entrei no teatro onde estavam todos prontos e ensaiando.

– Quantas vezes vou te pedir para me chamar de João? – reviro os olhos enquanto ela permanecia impassível, sendo a mesma Katherine fria de sempre.

– Quanto você quiser até desistir, senhor Spinelli. – sorriu sarcástica logo voltando a ser a mesma profissional de sempre. – Já liguei para a babá Sanders, ela disse que Lydia está assistindo filme de Despicable Me 2, já tomou sua papa de maçã com cereais. Aliás como você faz isso com a criança?

Ri dando os ombros, na verdade era mais que uma exigência médica da pediatra linda que eu levava Lydia há anos e que morava em Los Angeles. Aproximo-me do palco e começo a dar as instruções para se posicionarem.

– Senhor, perdão, chequei seus e-mails. Parece que você tem um casamento para comparecer no Brasil, devo já comprar as passagens? – viro-me incrédulo fazendo que meu cotovelo batesse sem querer no rosto de Kate que me fuzilou mortalmente com os olhos.

– Casamento?

– É, parece que é do Pedro Ramos e Karina Duarte.

Notas finais
migas, sou exigente, quero 10 reviews, beijos, é um acordo concreto, sejam lindas e comentem.