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13 Chapter 12 - Checkmate.
Notas iniciais
Você não tem nenhum lugar para se esconder
E eu estou me sentindo como um vilão com essa fome dentro de mim Um olhar nos meus olhos, e você está correndo porque
Eu estou indo comê-lo vivo...
...A perseguição apenas começou.— Ruelle, Monsters.
O silêncio se seguia. Nada além de olhares contínuos era trocado pelos dois presentes no recinto. Já que Percy havia se retirado para dar mais liberdade à conversa que sabia que iria ser delicada. No entanto, não menos culpado por ser o motivo do que sabia que iria arruinar a relação familiar de Nico.
Nico soltou o ar fortemente pelas narinas. Se havia uma coisa que o deixava mais frustrado era o silêncio. Não a paz que o silêncio proporcionava, mas sim, um silêncio incômodo e constrangedor. Ainda mais considerando as circunstâncias.
— O que foi? Veio me repudiar por ter nascido com defeito? — Nico cortou a quietude do ambiente com uma ironia regada de farpas. Já que provavelmente estava ferrado, que se danasse o resto. Se seu pai queria botar tudo as claras, não se faria de negado.
O mais velho – que estava parado com as mãos paralelas apoiadas no pé da cama de hospital do menino – meneou a cabeça e estreitou os olhos de modo perigoso. Como se pensasse em mil maneiras de como atingir o filho com palavras. Pelo menos, era isso que se passava na mente de Nico. Era para si, o único motivo viável para o seu longo silêncio.
— Você acha que eu vim aqui para julgá-lo? – Hades franziu seu cenho enquanto falava com a voz banhada numa rouquidão da qual Nico desconhecia o motivo. ‘’ Não, claro que não. Imagine. Estou até esperando os fogos de artifício de felicidade pela minha opção sexual‘’ pensou o mais novo com sarcasmo.
— Se não veio para isso, para que veio então? Para confraternizar meu beijo gay com o filho de um dos seus sócios é que não foi.
— Por deus, não me importo com quem você beija Nicolas. Eu sou seu pai! – Hades bateu ambas as mãos no pé da cama de modo abrupto, o que a fez balançar minimamente. Nico de pronto agarrou os lençóis com os dedos. Não tinha condições de se meter em brigas naquele momento, tinha plena consciência disso. Mas não deixaria que seu pai dissesse suas inúmeras palavras duras para si novamente.
— Ah, mas é claro que não! O que eu estava pensando? Você só se importa mesmo com a merda das suas aparências perante a sociedade.
— Céus, eu errei tanto com você. – O mais velho pronunciou em um fio de voz, abaixando também sua cabeça. O olhar fixo no chão. Algo que o menino tomou como um tom de desprezo e decepção. Afinal, isso era meio óbvio demais. Nico riu. Uma nota carregada em sarcasmo viajando por sua voz. Mesmo por todas as coisas que aprontou, se surpreendia com a capacidade de seu pai ainda se decepcionar consigo. Ele já devia esperar por isso.
— Não me diga. Não se sinta culpado, eu sou mesmo uma aberração. Não é isso que vai dizer dentro das próximas frases? Não vai apontar o dedo para o meu rosto e dizer o que sempre diz? Não vai botar a culpa do acidente da mamãe em mim? – Hades endireitou seu corpo num solavanco. Os orbes quase tão negros quantos os de Nico contendo uma chama obscurecida e perigosa.
— Eu não vim aqui para falar da sua mãe.
— Eu sei que não. Mas vai acabar falando, porque é o que você sempre faz. Você sempre diz que a culpa é minha, e eu sempre me pergunto depois de todas as suas palavras o porquê de eu ter nascido, já que sou um estorvo na sua vida. – O mais velho trinca seu maxilar, enquanto seus olhos continuam fixos no rosto do filho. Nico por outro lado nem mesmo se intimida. Sabia o que viria á seguir, mas se desencorajar ou mesmo recuar numa briga não era de seu feitio.
— Me diga Nicolas, o que eu deixei de te dar para agir assim comigo? Eu sempre lhe dei tudo o que quis e mesmo assim não me respeita. Nem mesmo quando quero conversar pacificamente ou me desculpar de meus erros com você. É sempre assim. – Nico gargalhou. Uma gargalhada tão profunda e melancólica que suas estranhas doeram pela queimação constante da bebida em excesso de quase três noites atrás.
— Você ainda pergunta por que sou assim com você? Francamente Hades Di Meno, você é patético.
— E você é uma criança mimada, que em momentos sérios nem mesmo sabe lidar com conversas civilizadas! Cazzo! Sua defesa é se botar dentro dessa armadura de amargura que você tem e jogar tudo o que pensa em cima das pessoas que te amam. Garoto, você nem pensa na consequência de seus atos e palavras. Está nessa cama de hospital á quase quatro dias e ainda não aprendeu lição alguma sobre a vida. – Nico calou-se, estava á um passo de descontrolar-se totalmente. No entanto, estava fraco demais para quebrar as coisas e descontar tudo o que verdadeiramente sentia e tentava demonstrar apenas com palavras e espinhos.
Teve como única alternativa continuar observando a figura do homem furioso à sua frente. As mãos vermelhíssimas apertadas nas barras de ferro da cama e o maxilar trincado de forma que só deixava sua figura cada vez mais enraivecida em termos de expressão. Mas para Nico, não fazia diferença. Já estava acostumado o suficiente para nunca mais se intimidar com aquele tipo de postura. ‘’ E aí está você valentão’’, pensou o menino com relação á sua suposta pacificidade que se quebrara com um estalo de provocação mínima.
— Conversa civilizada? Dessa maneira? Aposto que queria que fosse meu pescoço em suas mãos, assim acabava com todo seu sofrimento e irritação. – Hades grunhiu. Um som animalesco que saiu de seu peito e ecoou pelo quarto. Nico estremeceu em seu lugar, dando um pequeno impulso para cima. No entanto, não menos determinado.
— Cale a boca, Moleque! – Hades ditou entre dentes. Fala que não surpreendeu o filho, o mesmo não esperava menos. O mais velho abaixou a cabeça, respirando como se precisasse de todo o ar possível. Após minutos olhando com o peito ardendo cheio de verdades para jogar pelo vento, viu seu pai levantar o rosto. Sua mente se revirou numa profunda confusão, assim que seus olhos focalizaram na visão de uma careta de dor costurada á face de Hades. — Eu só queria que você pudesse me entender... Filho. — Seu coração palpitou em desespero. Não sabia por qual motivo, mas uma palavra assim não era algo que esperava. Naquele instante, Hades não parecia ser o mesmo. Era alguém diferente ali, diante de seus olhos, sofrendo como se tivesse milhares de palavras querendo saltar pela sua boca. Talvez, até um pedido de desculpas no meio delas.
— Eu não posso entender alguém que acha que errou comigo, quando eu apenas estou sendo eu mesmo. Você errou Hades, mas não sou eu que vou apontar cada um deles pra você. Pense em tudo o que você falou para mim ao longo da vida, e quem sabe quando entender o significado de cada uma de suas palavras, um dia eu te diga o que mais doeu ouvir. E por favor... Saia daqui. Vamos conversar um dia, mas esse dia não é hoje. – Nico abaixou a cabeça ao final de suas palavras. Nada do que disse era o que realmente iria falar primeiramente, porém, quando viu, as palavras já tinham saltado de sua boca e se espalhado, unindo-se á tensão desconfortável que á muito já havia se condensado ao ar. Não estava pronto para enfrentar seu pai em mais uma de suas inúmeras batalhas verbais violentas.
Hades olhou para o chão, encarando um ponto fixo no piso perfeitamente limpo. Por um momento, Nico pensou ter visto uma lágrima furtiva seguir o caminho das poucas linhas de expressão. Descendo pelo seu rosto e rasgando sua opinião – antes tão certa – de desprezo e desgosto para consigo.
— Você me odeia Nicolas? – Os orbes negros se levantaram de supetão assim que as palavras foram proferidas com o que Nico presumiu ser pesar. O garoto quis gritar de várias formas o quanto sim seria a melhor resposta, mas suas capacidades físicas e mentais esgotadas o impediam de fazer tal coisa.
— Vá embora! – Nico gritou á única coisa que lhe veio à mente e quase que de pronto, Hades rompeu em direção à porta, empurrando-a tão forte que o menino jurou que a mesma havia de deslocado do lugar. Enfim, quando estava sozinho, permitiu-se fazer a única coisa que tinha prometido nunca mais fazer quando tivesse acabado de enfrentar mais uma briga com seu pai. Chorar.
Colocou as mãos no rosto como uma forma de deixar tudo escuro, apenas para não enxergar o exterior branco que definitivamente não representava seu cansaço. Chorou. Deixando as lágrimas caírem e banharem desdê as palmas de suas mãos até a ponta de seus dedos, de onde escorriam e umedeciam a ponta de seu nariz e seus lábios. Nico soluçou, e logo em seguida sentiu sua própria respiração abafada contra seu rosto.
Deixou que suas mãos escorregassem para baixo, os olhos ainda apertados enquanto se recostava no travesseiro e tentava da melhor maneira ajeitar-se em posição fetal. A dor em seu peito piorou, fazendo com que quase ficasse sem ar, e talvez, por um tempo pode ser que tenha ficado, mas pouco se importou. A única coisa que queria era esquecer que um dia tivera aquela conversa. Se é que poderia chama-la assim.
Talvez tivesse ficado sensível de uma hora para outra. Ou talvez sua fraqueza tenha sido efeito de todos os remédios que as enfermeiras haviam lhe injetado no soro ligado por uma agulha em sua veia. Mas a alternativa mais viável era que estava cansado de ter que aguentar tudo como se fosse realmente forte o suficiente, mesmo quando aparentemente as coisas haviam começado a dar certo.
De repente, dentro de um soluço ou outro, escolhido de encontro à cabeceira da cama, enrolado nos lençóis que quase não lhe esquentavam os braços arrepiados de frio enquanto as lágrimas secavam sobre seu rosto e pescoço, sendo substituídas por outras novas, sentiu que não estava mais sozinho. Dois braços lhe enlaçaram a cintura, lhe trazendo de encontro á beira da cama enquanto um rosto se encaixava na curva de seu pescoço molhado.
— Me desculpe. – A voz soou derrotada e melancólica aos seus ouvidos, e o menino nem precisava virar-se para saber que era Percy. Nico negou com a cabeça e tentou rir como forma de demonstrar que tudo estava bem.
— Não precisa se desculpar. – Arrepiou-se quando a respiração quente do moreno atrás de si beijou sua pele. Esticou os dedos e tocou o braço que lhe envolvia e o aninhava contra o peito alheio.
— Mas é claro que preciso. Eu fui o pivô disso tudo. Eu causei a briga com seu pai. Eu... – Nico virou-se minimamente, ignorando a dor em seus pulmões. Com o braço livre da agulha, esticou os dedos até os lábios do mais velho, calando-o.
— Meus momentos de tempestade com o meu pai já são de longa data. Você não foi culpado de nada. Aliás, nem mesmo tocamos nesse assunto. O pivô de nossa briga foi nosso profundo desentendimento por conta de vários outros momentos ruins que dividimos. Não se preocupe, eu sei superá-los. – Percy tocou em seu rosto com a ponta dos dedos, subindo para os cabelos negros – que agora estavam maiores que o normal – tirando algumas mechas que lhe caíam sobre os olhos.
— Não acho que saiba superar esses momentos e sim, acho que os guarda para si. – Nico desviou o olhar, deixando de encarar os orbes verdes cristalinos, transferindo sua atenção para um único e minúsculo ponto preto na parede. Naquele momento, achou aquele minúsculo pontinho bem mais interessante do que tocar num assunto que realmente não o agradava.
— Não quero falar sobre isso.
— Tudo bem. Não falaremos se não quiser. Mas, se quiser dividir algo que sente que não pode mais suportar sozinho, eu estarei aqui. Para tudo o que precisar me dizer. – Nico virou-se para Percy, e sem querer, sorriu. Era algo realmente inoportuno quando queria fingir estar bravo, mas simplesmente acontecia quando estava perto dele.
— Nesse momento, não quero dizer nada. – Percy sorriu, notando a insinuação clara nas palavras do garoto. Inclinou-se sobre o corpo do mesmo, chegando perto o suficiente para mesclar as duas respirações, que se tornavam descompassadas de ansiedade pelo que vinha á seguir.
Os sorrisos se encontraram, assim como os olhos abertos de ambos, encarando com ansiedade cada movimento um do outro. Por fim, carinhosamente, Percy juntou os lábios. No começo, apenas um leve selar, algo contrário do que o mais novo queria. Mas Nico não ficara muito atrás, e afoito, permitiu-se ignorar um pouco de seu estado frágil e dolorido apenas para contrair o abdômen e se impulsionar um pouco para cima, passando seus braços em volta do pescoço do mais velho, puxando-o para mais perto enquanto aprofundava o beijo.
Percy gemeu ao sentir as unhas curtas lhe arranharem a pele da nuca. Não de dor, muito pelo contrário. Nico era o causador das inúmeras emoções descontroladas que passavam como furacões sobre seu corpo, mas nenhuma lhe trazia dor extrema. Apenas quando se sentia muito distante dele ou quando o via chorando, algo que aconteceu nos últimos dois meses e á poucos minutos atrás. Ambos os acontecimentos respectivamente.
Quando se separaram, ambos ainda absortos na sensação de seus lábios colados e mais ofegantes do que nunca, sorriram. Percy colou sua testa com a do garoto. Os olhos fechados apenas apreciando o tempo correr ao redor. Mal podia acreditar que estava acontecendo de verdade.
Percy abriu os olhos e tocou o rosto de Nico com a ponta dos dedos, contornando os lábios. Afastou-se alguns centímetros apenas para observar melhor o menino em seus braços. A respiração sendo controlada aos poucos, as bochechas ruborizadas e os lábios avermelhados pelo beijo. Estava prestes a pronunciar que nunca faria Nico chorar, nunca mais. Que seu desejo maior era fazê-lo o mais feliz possível. No entanto, o som da porta do quarto rangendo, os fez despertar do momento intimo. Algo que desagradou os dois profundamente.
— Oh, me desculpem. – Os dois riram. Observando a enfermeira de cabelos grisalhos virar-se de costas com as bochechas vermelhas de vergonha. De costas para os garotos, ela também ria. – Rapazes, desculpem-me de verdade por interromper, mas segundo a ficha, Nicolas Di Ângelo precisa fazer alguns exames antes de ser dispensado. E pelo que chequei no número da porta, ele habita temporariamente este quarto. – Nico olhou para Percy. Um olhar cheio de felicidade. Sorriu também. Era assim que gostava de vê-lo, sempre sorrindo. Sorrindo como se tudo de ruim fosse apenas um detalhe mínimo que não precisasse existir.
— Então isso quer dizer que Nico vai ser liberado depois dos exames? – A mulher se virou de frente para os dois, que nem sequer haviam notado que as mãos ainda estavam unidas desdê o beijo. A senhora meneou a cabeça, comprimindo os lábios e varrendo o quarto com os olhos, como se buscasse pela melhor resposta á dar para o jovem, e talvez, era isso que estivesse fazendo.
— Dependendo do resultado deles, sim. Se forem positivos, diga adeus à comida sem sal e a camisola desconfortável. Se não, terá que aguentar por mais um tempo a dor na vista por conta da paisagem branca e todo o seu pacote completo entediante. – Ela pausou por um momento, olhando para o casal a sua frente. Aproximou-se um pouco mais. – Algo que eu não espero acontecer, pois me parece bem saudável Senhor Di Ângelo.
— Também não quero ficar aqui por nem mais um segundo. Sem ofensas. – Dirigiu a última palavra à mulher, que piscou para si como forma de dizer que estava tudo bem. Percy apertou mais sua mão na de Nico, sorrindo para ele e depositando um beijo em seus cabelos.
— Podemos ir?
— Mas é claro! – Nico disse de olhos arregalados. Sua ansiedade era visível, tanta que fazia suas bochechas ficarem vermelhas. Algo que fez os dois mais velhos presentes no recinto, rirem.
Nico virou-se em direção á Percy, também rindo. No entanto, não apenas por um único fator como sua atitude cômica, como também de euforia e felicidade. Ansiedade principalmente. Queria poder aproveitar cada segundo dos momentos ao lado do mais velho, para caso se fosse um sonho, poder dizer que havia aproveitado até a última nuvem de algodão se dissipar. Retribuiu o aperto em sua mão um pouco mais forte, sorrindo para ele. Mal podia acreditar que estava acontecendo realmente, assim como outro. Era surreal estar ali. Ao lado dele. Com ele.
[...]
Nico suspirou, irritado. Moveu-se desconfortavelmente sobre a cadeira, evitando ficar de olhos abertos por muito tempo ou mesmo observar enquanto seu sangue jorrava dentro do vidrinho de amostras. Embora não tivesse problemas com sangue, no instante, sentia-se enjoado demais para manter sua visão resistente. Desejava com todas as suas forças que seus exames dessem apenas resultados positivos. Apesar de agradecer à situação desagradável por lhe proporcionar a realização de um de seus maiores desejos, ocultados pelo seu medo, ainda assim, lhe irritava o fato de não poder fazer quase nada. Por ter como única opção, o tédio.
— Pronto. – Enfim, ao escutar o que aparentemente encerrava seu exame final, abriu os olhos minimamente. De fato, a agulha já não estava mais em contato com seu corpo, ao invés, como se marcasse o local do pequeno furo, um curativo redondo.
— Quanto tempo para o exame de sangue ficar pronto? – Nico resolveu se pronunciar ainda levemente absorto numa nuvem de preguiça. Ficou esperando pela resposta, observando com atenção por alguns minutos até achar entediante demais, cada movimento vagaroso que a enfermeira reproduzia.
— Acho que nem notou que já tiramos sangue duas vezes, não é mesmo Senhor Di Ângelo? – Nico riu, realmente não fazia nem ideia de quando foi parar na pequena sala de exames, que dirá de quantas vezes sua veia foi perfurada.
— Me pegou Rose. – A enfermeira riu com o apelido. Após a mulher grisalha que mais parecia a chefe das enfermeiras — o que de fato devia ser — abandoná-lo com a moça, teve como passatempo apenas observar as coisas e as pessoas ao seu redor. Seu maior alvo foi a bela garota ruiva que agora cuidava de si. Obviamente seu nome não devia ser Rose, mas que ela se parecia com a personagem de Titanic, se parecia. Fator que o estimulou a nomeá-la com tal apelido.
— Bem, já que não prestou atenção. Á duas horas estamos fazendo uma bateria de exames. Não só para constatar se está tudo bem com seu organismo como rotineiros. Quem decide se vai pra casa é a doutora, então perca suas esperanças de que após eu pegar esse exame aqui. – Ela pausou, balançando o envelope em suas mãos — Eu te dê alta.
— Que pena Rose. Eu pensei que poderíamos nos tornar bons amigos. Gostaria até de conhecer o Jack. Mas isso destrói nosso futuro laço de amizade. – A garota deu uma risadinha e corou. Fator que alertou Nico á parar com sua brincadeira. De longe gostaria de dar esperanças ou mesmo insinuar coisas que jamais teriam possibilidades de existir. Remexeu-se desconfortável novamente sobre a cadeira assim que notou a aproximação repentina da moça, junto com seu sorriso, um tanto quanto diferente. No entanto, quando a garota da qual nem mesmo sabia o nome estava prestes á proferir algo, um pigarro soou na sala, chamando a atenção de ambos. Algo que Nico agradeceu mentalmente por acontecer.
Dirigiu seu olhar para o lado oposto da sala, de onde o som havia vindo. Encostado no batente da porta, Percy o olhava de modo quase felino. Diferente do certo, não se sentiu repreendido e sim, mais tentado a livrar-se de sua condição física e correr em direção aos lábios cerrados do outro. Algo que só o deixava mais convidativo e nada ameaçador. Riu baixo. O ciúme lhe caía tão bem quanto sua pacificidade e seu jeito nerd executivo.
— Percy? – A garota pronunciou com um fio de voz. O som soou tão surpreendente e inesperado que Nico arregalou os olhos e virou-se repentinamente para a moça, que no processo, havia derrubado alguns vidrinhos de remédio. Percy, não teve reação diferente da do menino.
— Vocês se conhecem? – No entanto, sua pergunta fora ignorado. Percy estreitou seus olhos, para logo em seguida, arregala-los mais do que da outra vez. No instante seguinte Percy entreabria os lábios e partia em direção à moça para um caloroso abraço. Algo que de fato incomodou Nico de uma maneira agonizante. Agora, quem estava com ciúmes, era ele.
— Meu deus, Rachel. – Percy ofegou completamente surpreso e feliz. Á tempos não via sua antiga amiga e reencontrá-la de forma tão inusitada o pegou de surpresa. Afastando-se da garota, dando suas mãos para a mesma — sem notar que expressão estava costurada á face de Nico — a encarou. Observou suas mudanças, estas, poucas, mas significantes. Suas linhas de expressão – provavelmente adquiridas na tensão do dia a dia de seu novo trabalho – a tornavam mais velha, mais amadurecida, algo totalmente diferente de quando á viu pela última vez. Seus cabelos estavam mais curtos e nas pontas – de onde a cor avermelhada era mais densa – cachos volumosos se formavam. Seus lábios estavam rachados, algo que não influenciava em nada na beleza que quase não mudara, pelo contrário, apenas tornava tudo mais harmonioso. – Como veio parar aqui?
— Bem, quando eu perdi o cargo de Presidente na empresa da mãe de... Ahn, não gosto de falar o nome dela, eu tive de arranjar uma alternativa de emprego. Foi quando estava numa entrevista em uma empresa, que um carro desgovernado atingiu boa parte de uma feira de livros ao lado do prédio em que eu iria entrar. Sofri apenas alguns arranhões, mas tinha uma garotinha que sangrava muito. Tentei ajudá-la e no final, consegui que ela não perdesse sua perna. Isso me comoveu de uma forma tão imensa que eu me aprofundei no assunto enfermagem e em Ongs que ajudavam crianças carentes. – Ela pausou, virando-se para a mesa e organizando algumas coisas que estavam amontoadas e espalhadas. A história soava muito interessante para Nico, tanto quanto era para Percy. No entanto, ainda se sentia deveras incomodado com o fato de não fazer e a mínima ideia de como aquela garota conhecia Percy e de onde toda aquela intimidade havia surgido. Por tal motivo, assumiu uma pose desconfiada, cruzando as pernas e os braços, olhando com vigor para os dois, que mais pareciam antigos namorados que ainda tinham grande carinho um pelo outro. – Por isso estou aqui. Custeei minha faculdade com o dinheiro que havia guardado de minhas economias. Estou feliz. Tenho uma vida estável, tenho um emprego que gosto e me dá segurança, além de que um salário até muito bom. Solteira mas nunca sozinha e a espera de grandes e fatídicos acontecimentos. Como este.
Percy, assim como Rachel, riu de forma exagerada. Ato que apenas fez Nico ficar ainda mais impaciente por respostas e explicações. Naquele instante, arrependia-se de ter dado um apelido tão lisonjeador à moça. Cansado de ser ignorado e exercendo tal em sua dor estomacal, enjoo e fraqueza, levantou-se ainda cambaleante da cadeira, pondo-se no meio dos dois. As bochechas vermelhas de irritação e os olhos fulgurando labaredas de perguntas proferidas em suas mente de modo completamente interrogativo. Nada menos e nada mais que puro ciúme percorrendo cada quilômetro de suas veias.
— Reencontro bonito e tenho certeza que regado de emoção. Mas, não me responderam de onde se conhecem. – Ambos trocaram olhares e riram. Retribuição que incomodou mais ainda o mais jovem.
— Trabalhamos juntos por um período. Ficamos amigos e nunca paramos de nos falar. Mas quando Rachel repentinamente sumiu do mercado de trabalho e também da vista de todos, perdemos contato. – Percy se pronunciou, segurando a mão de Nico e a afagando. Algo que de longe tornou a deixa-lo mais tranquilo ou mesmo mais calmo. Depressa, tirou sua mão da dele.
— Bom, me desculpem, eu tenho que ir. – Rachel — que até então olhava para o moreno mais velho de modo bobo – despertou do que parecia ser um transe pessoal e recolheu diversas pastas de cores diferentes do móvel prateado como todo o resto dos equipamentos hospitalares da sala de exames. Por fim, virou-se novamente para os dois outros presentes no recinto. Sorriu. Dessa vez, dirigindo seu olhar não só para Percy, como também para Nico. – Foi muito bom conhecê-lo, Senhor Di Ângelo. Espero que não desista da ideia de começarmos uma amizade. E você, Senhor Jackson, não suma novamente. – A garota piscou ao fim das suas palavras, e Nico não soube dizer se era para Percy, para si, ou mesmo para os dois. Preferiu levar isso como uma despedida, apenas para não se irritar mais, já que as mãos da garota estavam ocupadas.
— Não suma você, a procurarei para conversarmos mais depois. – Nico, sem pensar duas vezes, assim que a garota deu as costas, desferiu um golpe contra a costela do mais velho com seu cotovelo. O que o fez se curvar de dor e acariciar o local atingido. Nico sorriu sarcástico assim que Rachel virou-se para verificar o que havia acontecido. Em seguida, moveu a ponta dos dedos, simbolizando seu irônico tchau.
— Até breve querida Rose. Ainda quero conhecer o Jack. – Nico piscou e sorriu amarelo. A garota sorriu, em seguida, rumou sem mais delongas pelo corredor, sumindo pela multidão de médicos e familiares.
— Por que me deu uma cotovelada? – Nico virou-se em direção á Percy. Ainda com o ciúme correndo em suas veias como um vírus altamente contagioso e que se alastrava tão ou mais rápido que fogo. O maxilar trincado e os lábios pressionados um contra o outro, assim como os dedos apertados de encontro à palma de sua mão.
— Por quê? Você parecia um idiota babando por aquela garota! Que porra foi aquela? – O mais velho ri divertido, ainda acariciando o local do impacto proposital do cotovelo de Nico em sua costela.
— Bem, digo o mesmo sobre você dando em cima de Rachel. Me parecia bem à vontade enquanto ela cuidava de você. – Disse as últimas palavras de modo vagaroso e mais baixo, enquanto que cerrava os olhos e adquiria um olhar provocativo. Nico ficava deveras belo com ciúmes, e isso o deixava imensamente desejoso de tê-lo em seus braços, ainda mais de ter seus lábios colados com os dele. Aos poucos, Percy se aproximava ciente que em mais alguns passos encurralaria o mais jovem, e era isso que queria.
— Não seja ridículo, sabe que eu não gosto de garotas. Já você, quer até outro encontro para conversarem melhor. Sinal de que... – No entanto, Nico nem havia se dado conta da visível armadilha em que se colocava a cada vez que andava um passo para trás. Nesse instante nem mesmo teve tempo de relutar a aproximação repentina do outro, ou continuar a despejar toda sua imensurável raiva repentina. Não até o instante seguinte, em que estava colado de encontro à maca metálica da sala de exames. Completamente á mercê dos caprichos de Percy, que sorria muito satisfeito.
— Sinal de que adorei ver como reagiu às minhas provocações. — Percy olhou profundamente nos orbes negros quase turvos. Nico engoliu em seco. Próximo demais para tentar resistir, mas não custava tentar manter-se firme o suficiente apenas para virar o jogo. Percy se aproximou mais. Agora as respirações se tocavam gentilmente, os lábios estavam próximos e o mais velho não perdeu a oportunidade de escorregar suas mãos pela cintura do outro, fazendo com que a camisola gélida do hospital levantasse minimamente.
— Não tente me enrolar, sei que nem pensou em me provocar quando riu que nem um bocó junto com aquela ruiva de farmácia. – Nico foi calado por Percy que ousou um pouco mais, fazendo-o ofegar e interromper suas palavras enquanto apertava seus dedos na grade da maca. O mais velho desceu seus lábios ao longo do pescoço do outro, inalando o cheiro e sugando a carne, soltando-a vagarosamente. Nico estremece, odiando-se no instante seguinte por ser tão fraco quanto a pontos sensíveis.
— Como pode saber? – Percy indagou de modo provocativo. Os dedos correndo pelo quadril e acariciando os ossos protuberantes. Nico morde os lábios e faz um grande esforço para livrar-se do torpor causado pelo moreno mais velho, completamente determinado á virar o jogo. O mais jovem sobe as mãos para os cabelos de Percy, contornando o pescoço com um leve roçar da ponta de seus dedos gelados, sentindo os pelos se eriçarem ao toque e observando o mais velho fechar os olhos em deleite. Nico sorri. Ali, claramente havia adquirido pontos. Continuando o passeio de seus dedos, chegou aos cabelos sedosos, de onde enterrou seus dedos e puxou os fios, consequentemente trazendo o rosto de Percy para frente, para longe de seu pescoço. Nariz tocando nariz. Olhos de repente abertos encarando outro par de contas negras totalmente desafiadoras.
— Eu simplesmente sei. – Nico retruca. Os dedos ainda apertados nos fios de cabelo de Percy, tentando ignorar o quanto sentia a necessidade de beijá-lo. O mesmo sorri, roçando seu nariz no de Nico. Os orbes esmeraldinos fixos, recuperando-se do surpreendente ato do outro, no entanto, muito satisfeito ainda.
— Eu devo ter medo de você ler os meus pensamentos? – O mais velho pergunta, inclinando seu quadril para frente, pressionando seu corpo contra o de Nico e o pondo contra a maca, fazendo-o desiquilibrar. Consequentemente também o fazendo soltar seus cabelos.
— Depende do que está pensando. – O moreno mais novo responde, recuperando-se do desequilíbrio com as mãos apertadas nos braços do mais velho. Muito embora, não menos propenso a um desafio. O outro ri malicioso e de surpresa, ergue Nico pelas pernas, colocando-o em cima da maca. O mais novo ofega, agarrando-se ainda mais a camisa de Percy. Uma boa jogada, de fato.
— Estou pensando nisso. – O mais velho replica com o rosto próximo do outro, o encarando de forma faminta. Seus dedos passeiam pelas pernas panturrilhas descobertas, parando nas coxas. Um sorriso maroto brincando em seus lábios avermelhados e desenhando covinhas quase imperceptíveis na pele bronzeada. Nico geme baixinho assim que os lábios roçam nos seus. Suas mãos se enroscam mais da camisa, apertando os músculos por cima da blusa enquanto o mesmo o puxava para a borda da maca, preenchendo qualquer espaço restante.
— Acho que são pensamentos nada bons então. – Nico dita. A voz completamente rouca de desejo. Se Percy queria atiça-lo, estava conseguindo atingir seu intento, e a prova viva era seu membro latente, apenas protegido pela fina camisola e cueca. Que aos poucos, tornava-se desconfortável demais, pequena demais. Mas ficar para trás não era uma coisa de que gostava. De surpresa, Nico envolve suas pernas no quadril de Percy, trazendo-o para frente, impactando os volumes de suas excitações, fazendo ambos gemerem. Percy solta uma risada, as mãos presas nas ancas do outro. A excitação percorrendo suas veias.
— Nem os seus. – Os lábios roçam novamente, mas dessa vez, a tensão dominava ambos, tornando quase irresistível que o tesão não lhes subisse a cabeça. No entanto, não tiveram tempo de aprofundar mais o contato.
— Rapazes? – A voz soou como um balde de água fria, afastando os dois quase que de imediato e com reação igualável a de um choque. Já longe um do outro, encararam ainda alarmados a mulher de jaleco e saltos parada com os olhos voltados para o chão e os braços cruzados. Provavelmente constrangida com a situação no mínimo indecente e inapropriada para a ocasião. Percy encolheu-se em seus ombros. As bochechas queimando de modo vergonhoso para um homem na casa de seus vinte e seis, quase vinte e sete anos. ‘’ Muito longe. Tenho que aprender a me controlar. Céus, no que estou pensando? Nico é apenas um garoto!’’. Nico por outro lado sorria. Não menos constrangido, mas a visão de um Percy completamente desbancado e corado valia a pena sua falta de vergonha e respeito contra moral. Só não o satisfazia com relação ao seu membro completamente duro e necessitado de alívio.
— Doutora? – Percy pronunciou. A voz rouca e o cérebro tinindo em um alarme vermelho que implorava para que saísse da sala o mais rápido possível. Por fim, a mulher levantou seu rosto, sorrindo como forma de dissipar a onda de tensão que havia se formado na hora do digamos, flagra da situação às escondidas na sala de exames do hospital.
— Sim. Bem, gosto de começar com nomes, depois vamos a os resultados e por fim aos cuidados e precauções. – Nico ajeitou-se de melhor forma em cima da maca, ainda observando com graça o quanto o jeito desconcertado também era adorável em Percy. Talvez esse tivesse sido o troco perfeito. – Imagino que o senhor na maca seja o Senhor Di Ângelo.
— Perfeitamente.
— E este? – A médica apontou para Percy com os olhos, parando para observar seus traços. Nico abriu e fechou a boca, ainda não fazia ideia se chamar Percy de amigo era o que ele apenas ou se namorado era mais apropriado. Mas mesmo perdido em como deveria apresenta-lo, não deixou de notar que se não estivesse enganado, havia ouvido uma ponta de interesse carregada na voz da mulher impecavelmente vestida. ‘’Mas que infernos! Não existem médicos e enfermeiros homens nesse hospital de merda?!’’
— Meu namorado. – Nico respondeu na lata. Tão depressa e de modo tão afoito para que o interesse da outra sumisse que alteou a voz por um momento, fazendo todos se sobressaltarem pelo momentâneo susto. Percy virou o rosto, surpreso pela resposta. Não pela rapidez com que ela foi dita, mas sim por seu significado. Foi nesse instante que notou que estava tão desesperado por Nico, que nem mesmo o tornou devidamente uma das pessoas mais importantes de sua vida. Não que ele já não fosse. Não o havia pedido em namoro. Erro fatal que o fez substituir a vergonha do que havia passado pela culpa do que não havia dito. Algo que era de seu maior desejo.
— Ah, sim. Sabe que não são permitidas pessoas que não sejam da família acompanhando os exames. Da próxima vez, não irei perdoar e lhe livrar da multa. Ou melhor, livrar a sua família da multa caríssima do hospital, Senhor Di Ângelo. – A doutora fora direta assim que a incredulidade abandonou seu corpo. Nico teve vontade de jogar todas as seringas em pontos de risco no corpo da mulher, mas seria deselegante de sua parte e ainda arrumaria uma briga séria com seu pai, já que ele também patrocinava o hospital. Não queria esquentar sua cabeça, mais do que já estava cheia de problemas. – Eu não me apresentei ainda, e peço mil desculpas por isso. – ‘’ Não precisa, tenho um apelido perfeito para você, puta de jaleco’’ O apelido não era ofensivo especialmente para sua atitude com Percy, mas para com sua conduta moral e de moda, uma vez que sua blusa parecia quase transparente e sua saia, demonstrava o quão fresco estava ali embaixo, já que calcinha, por aparência não devia usar. – Meu nome é Doutora Jennifer Howard.
— Nicolas, como deve saber. – A mulher assentiu, ainda com os olhos completamente vidrados no corpo – agora relaxado – de Percy.
— Andei analisando seus exames Nicolas e os resultados são bons, felizmente. – Para Nico, por sua impressão própria, quase jurava que o infelizmente seria proferido no lugar de felizmente. Felizmente, a Doutora parecia saber camuflar sua frustração. No meio disso, enquanto a médica de nome Jennifer analisava e procurava na pasta por alguns papéis, conseguiu puxar Percy pela manga de sua jaqueta Jeans, o trazendo para perto o suficiente para sussurrar algo em seu ouvido. Algo provocativo, apenas pelo simples prazer de mostrar o quanto ele era totalmente seu.
— Devia ter caprichado nos gemidos e lhe puxado para cima da maca. Parece-me suficientemente excitante e para você Doutor Jackson? – Percy gemeu na hora em que as palavras atingiram sua audição. Seu subconsciente não foi o único atingido pelas palavras do mais jovem. Também havia seu corpo, que prontamente reagiu mandando espasmos de pensamentos impróprios para o cérebro e de prazer para o monte concentrado no meio de suas pernas, pulsando sangue o suficiente para torna-lo dolorido. A vontade de satisfazer-se e de dar uma resposta para Nico à altura de suas palavras era grande, mas a razão impedia ambos de acontecer. Assim como o olhar da médica, que foi outra coisa desperta por seu gemido involuntário.
— Indecente e impróprio para praticarmos. – Nico revirou os olhos e inclinou-se um pouco, mordendo o lóbulo da orelha do outro, ouvindo um ofego controlado como resposta. Satisfeito, tornou a sussurrar. Queria um gemido mais alto, queria deixa-lo totalmente fora do controle de si mesmo.
— Corta essa! Aposto que se colocasse minha mão aonde mais quer ser tocado agora — porque eu sei que quer — você estaria pulsando em meus dedos. – Percy arregalou os olhos e mordeu os lábios. Controle não era uma de suas virtudes quando se tratava de Nico. De certa forma, o menino não havia dito nenhuma mentira, mas a razão ainda assim tentava, mesmo que quase coberta por sua luxúria, se sobressair.
— Nico, não me provoque! Estou falando sério. – Ditou com a voz endurecida, algo que fez o menino arrepiar-se dos pés a cabeça. Parece que suas provocações haviam virado o jogo, mesmo que não fosse de seu feitio dizer tais coisas explicitamente. Sorriu ainda mais. Estava quase lá.
— Por quê? Você vai me foder quando chegar na minha casa? – Xeque mate. Percy virou-se de modo abrupto, seu baixo ventre revirando em excitação. Nico arregalou os olhos assim que o mais velho prendeu seus pulsos com uma das mãos. Ficou sério, ou na verdade, admirado. Vê-lo sereno, com ciúmes, ou mesmo com cara de apaixonado era diferente de vê-lo em um modo mais selvagem e confessava que de todas, esta era uma de suas melhores expressões. Aquele que mais lhe deu prazer observar. No entanto, não pôde deleitar-se com o próximo ato pois um pigarro soou na sala, chamando atenção de ambos.
— Tenho que lhe dar os parabéns Senhor Di Ângelo, por pouco não teve sequelas mais graves. No seu exame de sangue deu que suas plaquetas estão normais. Muito provavelmente sentirá mal estar dentro dos próximos dias. Isso significa que seu fígado está tentando eliminar qualquer resíduo de álcool restante em seu organismo. Sinal ótimo. Obviamente você sentirá coisas ruins como fraqueza, insuficiência física, enjoos e muita sonolência. Por isso estarei receitando alguns cuidados. Coma alcóolico é um assunto muito sério. E como um assunto leva outro, seus exames de rotina estão normais. – Jennifer deu uma pausa. Muito provavelmente com a garganta seca de falar várias coisas sem parar um instante para respirar ou descansar suas mãos nervosas que arrumavam, ajeitavam e colocavam inúmeros envelopes de cores diferentes em ordem. Assim pensava Nico de modo entediante e nem mesmo prestando tanta atenção assim nas palavras. Por fim, sorriu e acenou com a cabeça para os dois. – Seus resultados deram positivos. Coisa boa, não é mesmo? Isso significa que está com alta Nicolas. Poderá ir pra casa, mas...
— Graças á Deus! – Nico interreompeu as palavras da médica, exclamando aliviado. Suspirou e de um pulo estava no chão. Já estava de saco cheio da camisola que o deixava totalmente desprovido de conforto. – Posso ir mesmo pra casa né? Tipo, agora mesmo?
— Sim. Pode sim, mas... – A médica arqueou uma de suas sobrancelhas em direção á Percy que sorriu simpaticamente, preparando-se para saltar fora assim que Nico rompe-se pela porta. O mais jovem assentiu e colocou a mão no peito.
— Obrigada Senhorita Howard. – Nico se dirigia para porta tão rápido quanto gostaria, mas freou. Não podia perder a oportunidade de alfinetar aquela a quem já o estava irritando desdê o começo em que interrompeu seu momento intimo com Percy. – Ah, mas sobre próximas vezes. – O garoto pausou, deixando uma aura curiosa pairar no ar, chamando a atenção não só da médica como de Percy. – Diga aos enfermeiros da recepção que prefiro os médicos sarados com quatro casas de suas camisas sociais abertas. – Nico piscou, rompendo pela porta pisando duro sem nem esperar para ver a reação da outra para quem dirigiu à indireta.
— Senhor Di Ângelo, espere... — Quando passava pela janela da sala coberta pelas persianas, ainda pôde escutar ela chamando por si. Provavelmente, pois ainda não havia passado suas recomendações. No entanto, o que realmente lhe chamou a atenção e o fez parar por um minuto foi desculpe apressado de Percy com relação ao que havia dito. Algo que o enfureceu totalmente.
No mesmo instante tornou a andar pelos corredores apressado por chegar em seu quarto, tendo que desviar de alguns parentes e muitas vezes de enfermeiros, uma vez, de uma maca que transportava uma grávida em trabalho de parto. No entanto, foi impedido de andar mais um passo por uma mão que puxou seu braço para trás. Não muito surpreso, encarou Percy de modo furioso.
— Por que disse aquilo? Médico sarado? Que papo foi aquele? – Nico sorriu vitorioso. Não esperava reação diferente de sua indireta para a Doutora de sex-shop. Algo que o vingava pelas desculpas que o deixaram com raiva.
— Ciúmes? Medo de que eu possa me atracar com algum médico bonitão assim como você poderia se derreter naquela puta de jaleco? – Nico mudou sua expressão radicalmente, chutando a porta de um dos quartos do hospital, arrependendo-se no segundo seguinte em que sentiu seu dedo latejar. Olhou novamente para Percy. Os olhos fulgurando chamas de raiva enquanto o outro revirava seus globos esmeraldinos em sua direção. – Merda! Por que você sempre atrai um par de seios por onde passa? – Nico quase gritou. Completamente indignado.
— Que boca mais suja Nicolas – Percy fingiu um olhar de desaprovação e logo em seguida, riu. Nico bufou e virou-se de costas. Ainda ódio e ciúmes de ra transbordando em seu corpo.
— Preferia uma coberta de batom? – Dessa vez, foi Percy quem bufou. Respirou fundo e abriu seu típico sorriso para logo em seguida puxar Nico novamente para seus braços, ainda de costas.
— Sabe que somente você me atrai Nicolas. Eu estou brincando. – Percy sussurrou, virando o menino aos poucos, colocando-o de frente para si. Escorregou seus dedos pelos lábios rosados, sorrindo harmoniosamente.
Nico encarou os profundos olhos verdes do outro. Escorregou o olhar pelos lábios enquanto os seus eram contornados. Por um momento, só o que se passava em sua mente era o quanto queria beijar Percy. O quanto apenas queria tê-lo em um abraço e esquecer que havia os inúmeros demônios que sem consciência o faziam louco. Naquele momento, era só ele e Percy ali. Os lábios próximos, propensos á um beijo, enquanto isso, Nico arquitetava mil formas de tentar esquecer o quanto a junção Percy e Rachel tornava-o cada vez mais irritado. Por fim, lembrou-se da Doutora e a cada corredor em que mulheres o olhavam apenas de relance, mas ainda assim, com interesse. E como uma bomba perfeita coberta de chocolate, para fechar com chave de ouro, o quanto ficou profundamente louco de ciúmes quando Percy afirmou que adoraria um segundo encontro – agora, menos formal – com Rachel. No fim, como um impulso involuntário de suas próprias mãos e movido por sua onda de ciúmes, empurrou Percy para trás, fazendo-o desequilibrar e cair em cima de uma das enfermeiras que passava apressada pelo corredor.
— Eu ainda estou bravo com você, Senhor Jackson. – E sem esperar por uma reação concreta, sumiu pelos corredores tão rápido que os olhos de Percy não puderam capturar quando se misturou a multidão de pessoas que se esforçavam para atender todas as emergências.
Percy riu e mordeu o lábio inferior, em seguida, enfiou os dedos em seu próprio cabelo. Nico conseguia ser completamente temperamental, mas era isso que Percy gostava. Do seu gênio forte e de seus ciúmes compulsivo. Isso o tornava completamente adorável e tudo se tornava mais harmonioso. Estava adorando conhecer cada parte nova que Nico apresentava nesse meio tempo em que se declarara e diferente do que o outro pensava, não o trocaria por nenhuma garota bonita com os lábios tingidos de batom. Nico era único. E Percy estava completamente apaixonado por ele.
[...]
Enquanto tentava retornar para o quarto, desviando das inúmeras pessoas aglomeradas nos corredores do hospital, ainda procurando por algum sinal de Nico na multidão, o celular de Percy vibrou. Bufou. Dar atenção ás ligações e ás mensagens de seu pai não era algo de que pretendia. No entanto, ainda havia a implicação de que poderia ser Mina. O único motivo pelo qual o mais velho tomou de seu precioso tempo para encostar-se em uma das paredes de um corredor pouco movimentado e pegar o aparelho do bolso.
Como esperava, nenhum sinal de Mina. Apenas uma mensagem de seu pai. Estava realmente reclinado á ignorá-la, mas estar ciente do nível de raiva de Poseidon e de em que terreno pisaria quando retornasse para a empresa, poderia ser uma vantagem. Por tal motivo, em segundos e com apenas um movimento de seus dedos, a mensagem se abria na tela do smartphone.
‘’ (212) 932.2300. – PAI.
... Perseu, onde você está? Não aparece aqui á quase três dias, não responde minhas mensagens, telefonemas. Sua irmã sumiu do internato, sabia disso? Perdemos alguns patrocínios e as reuniões foram um fiasco. Onde você está? É assim que você quer ser o meu legado? Francamente Perseu, eu realmente achei que você fosse alguém com que eu pudesse contar de olhos fechados. Meu braço direito. Você havia se redimido perante meus olhos. Estava enganado, você é apenas um moleque irresponsável que acha que é rei de si o suficiente para deixar suas responsabilidades de lado e embarcar numa aventura por aí...
...Estou decepcionado com você Perseu. Quando vir esta mensagem, me ligue com urgência. ’’
Percy negou com a cabeça, tornando á andar sem dar muita importância às pessoas a sua frente. Apagou a mensagem, suspirando e rindo de sua própria vitória interna. Finalmente havia se tornado independente, depois de anos de medo de sua própria sombra após o acidente. Se fosse em outra época, seu desespero seria grande e quase que prontamente se arrependeria de seus atos, ligando no mesmo instante para o pai. Mas agora parecia que todas as coisas que o mesmo havia planejado para si não faziam mais sentido. Cada plano, cada conquista publicitária e científica escorrendo pelo ralo e Percy definitivamente não dava a menor importância.
Devolveu o celular de volta para o bolso, rindo com sarcasmo da necessidade e do falso – ou não – desespero de seu pai.
— Agora você precisa de mim, não é mesmo papai? – As palavras não só foram cuspidas de sua boca com desdém como também amargura. O motivo era simples e claro. Ao refletir sobre sua vida dentro desses três dias em que passara ao lado de Nico, velando seu sono, notou que havia se tornado o que menos queria nos últimos dois meses. Ser igual ao pai. Havia seguido os passos do mais velho que outrora em sua adolescência tanto repudiara ser comparado. Seus sonhos haviam sido dizimados por Jonathan e suas esperanças de uma nova felicidade só reapareceram quando a irmã de Nico revelou a si o amor que o outro sentia.
O pensamento só lhe proporcionou uma coisa, uma nova perspectiva. Agora, tudo seria diferente.
Percy optou por tentar esquecer o mais velho por um momento. Seus problemas com certeza não se resolveriam apenas com a força de seus pensamentos e de nada ajudaria esquentar sua cabeça com estes que com certeza lhe trariam irritação. Quase a uma curva do quarto, seu celular vibrara novamente. Dessa vez, não se sensibilizaria com a possibilidade de ser sua irmã, não olharia a mensagem e pronto.
Quando enfim avistara a porta do quarto cinzento aberta, suspirou aliviado. Dentro dele, era possível ver a movimentação e até um vulto de cabelos negros passando vez ou outra de um lado para o outro. Com certeza, era Nico ali. Encaminhava-se para o quarto, á poucos metros de romper pela porta, quando a voz grave – agora totalmente familiar – lhe surpreendeu a audição.
— Percy? — O sangue congelou em suas veias e tinha plena certeza que o rubor de suas bochechas também havia sumido. Devagar e apertando seus dedos gelados contra a palma da mão, virou-se em direção ao indivíduo que lhe chamara a atenção. Hades se encontrava á poucos metros de si. E embora sua postura estivesse relaxada, sua expressão ainda mantinha-se fechada. Percy só não sabia se deveria acreditar que estava tudo bem como seu corpo aparentava transmitir e escutar o que tinha á dizer. O que mesmo assim, para todo caso, aparentava ser ruim pela seriedade de sua expressão. Algo de que deveria realmente temer.
— Hades. – Percy o cumprimentou igualmente, tentando manter-se firme o suficiente para enfrentar o que quer que lhe aguardasse. Por fim, respirou fundo. Quem iria começar dessa vez, era ele. Brigar não era de seu feitio, mas se preciso fosse, o faria. – Hades eu... – No entanto, foi interrompido, antes que sequer pudesse começar á esclarecer tudo o que queria.
— Por favor. Tive uma briga horrível com meu filho mais cedo, não espero desencadear outra agora. – O mais velho pausou, coçando a barba grisalha por fazer. Percy assentiu, fazendo o outro soltar um pigarro, pronto para continuar. – Percy eu não quero que se intimide comigo. Negócios são negócios e eu ainda estou bastante interessado em sua proposta sustentável, mesmo que seja perigoso desafiar seu pai nesse projeto. – Percy no mesmo instante arregalou os olhos e sorriu. Era muito esperar que escutasse uma resposta positiva depois da manhã conturbada, mas isso era ótimo. No entanto, ainda não era o suficiente para sentir-se seguro. – Mas, não foi sobre isso que vim falar com você.
— Estou ouvindo. – Mesmo ainda bastante incerto, concordou. Afinal, era justo que escutasse o que o outro tinha á dizer, entretanto, isso não significava que iria concordar. Obviamente, dependia do que se tratava e isso, o fechava cada vez mais em sua defensiva, desmanchando o sorriso de seu rosto.
— Certo. É uma coisa bem simples na verdade e encerra qualquer outro papo. É apenas uma advertência. – Hades esfregou suas mãos, aproximando-se vagarosamente de modo quase imperceptível, ato que fez o moreno mais jovem ali presente engolir em seco mentalmente. Mas não menos determinado e firme. A feição alheia não era de muitos amigos. Mas mesmo assim, estava disposto a escutar. Fugir era uma opção que jamais estaria propenso a considerar. – Você, é um jovem muito ambicioso não é mesmo, Perseu? – Percy intrigou-se e mesmo não tendo juntado todas as peças, entendia perfeitamente o que o outro mais velho insinuava.
— O que está querendo dizer com isso? Que eu estou com Nico por interesse? – A voz soou ofendida, e na verdade, era assim que Percy se sentia. Seus sentimentos eram verdadeiros, jamais imaginou que um dia eles seriam colocados em dúvida, ainda mais que seriam julgados como mero interesse publicitário.
— Não estou dizendo nada, por enquanto. Muito embora essa ideia esteja fixa em minha mente. – Percy se aproximou. As narinas infladas e as bochechas ardendo. Uma raiva fulminante tomando seu peito como a febre se apossando de um corpo indefeso. Percy não era o tipo de homem que o outro insinuava que fosse.
— Eu não sou esse tipo de homem, meus sentimentos para com seu filho são verdadeiros. – Hades riu. Uma gargalhada tão profunda que invadiu seus ouvidos como o som de mil tambores desgovernados e instalou calafrios cortantes em sua espinha. O ato irritou o rapaz profundamente. Zombar era algo que o mesmo não aprovava, além de ser algo nada respeitoso.
— Por favor, o que um homem de vinte e cinco anos iria querer com um menino de dezesseis? Isso se chama pedofilia. Eu podia te denunciar por aliciação de menores, Senhor Jackson. Eu só não o faço em respeito á minha longa parceria com seu pai, e porque acredito no potencial de sua proposta. — Percy trincou seu maxilar. O teor da conversa lhe embrulhava o estômago. Não podia acreditar que tudo a sua volta era real, embora soubesse que iria correr o risco se seguisse com seu coração. No entanto, preferia que tudo apenas fosse um breve pesadelo, ou mesmo, que nunca tivesse acontecido.
— Me denuncie então, eu não preciso que me poupe de um processo por conta de uma porra de uma parceria com o meu pai. Eu enfrentaria tudo pelo amor do Nico, sem reservas. – O desdém brincava nos olhos negros de Hades, era visível mesmo de longe. Percy odiava sentir a tensão que se instalava no ar durante e após uma discussão, isso o trazia más lembranças de um passado que não queria realmente mexer.
— Você é corajoso rapaz, mas eu te aconselho a não comprar uma briga comigo. Eu sempre ganho.
— Talvez não dessa vez. — A voz saiu endurecida e firme de sua garganta. Tanto que até surpreendia-se com a força de seu desejo. Por um momento, começava a entender o porquê de tanto ódio por parte de Nico.
— Certo. Essa discussão ridícula já foi longe demais garoto. Eu só tenho uma única coisa para dizer á você, e espero que não me leve a mal. – Dessa vez, quem riu foi Percy.
— Eu já levei a mal, a maioria das coisas que acabou de insinuar sobre minha pessoa.
— Ouça rapaz, é simples. Se eu descobrir, que minhas impressões sobre você estavam certas, se você seguir os passos que eu presumi, se você fizer o que imaginei, se você magoar Nico, se tudo o que você fizer for o já previsto por mim, eu vou acabar com você rapaz. E eu não estou blefando. – Percy escutava com atenção, sendo atingido por cada palavra que apenas aumentava a brasa de seu ódio.
— Eu também espero que não esteja blefando, porque eu vou lhe provar que todas as coisas que presumiu, que imaginou , que previu, estão erradas. – Percy ditou em alto e bom som. Sua voz transmitia uma verdade e uma determinação de que Hades não duvidava. E isso é o que era confuso. Ao mesmo tempo que duvidava, acreditava. O mais velho estava pronto para responder no mesmo tom, no entanto, uma voz mais altiva se interpôs entre os dois homens.
— Hades! – A atenção foi chamada para uma mulher de expressão jovial, cabelos muito bem cacheados e uma pele morena que pelo brilho, deveria ser tão macia quanto seda. O homem a sua frente bufou, revirando os olhos e focalizando os lábios trêmulos de raiva na mulher muito bem vestida.
— Não se meta nisso Perséfone.
— Eu já me meti. Agora cale a boca e me acompanhe. – E sem esperar por uma resposta, virou-se em direção ao vasto corredor. — Agora! – Sua voz estridente ecoou pelo recinto num grito. O eco assustou algumas enfermeiras, que deixaram cair suas bandejas de medicamentos, parando para olhar a cena. Hades desferiu um último olhar mortal para Percy, antes de ultrapassar a morena e sair batendo os pés entre a multidão branca. Assim que o homem sumiu de seu campo de visão, a mulher, cujo nome era Perséfone, segundo o outro, virou-se para si, abrindo um largo sorriso e adquirindo uma expressão amável.
— Não se preocupe docinho, eu sei amaciar a fera. Vai lá com Nico. Aproveite o momento. Ah, a casa é de vocês. – Ao fim de suas palavras, piscou, tornando a olhar em sua antiga direção, mas dessa vez, fazendo o mesmo caminho que os passos de Hades.
Percy enfim pôde respirar assim que Perséfone sumiu de vista. Suas costas — que pareciam agora carregar o peso do mundo – bateram fortemente contra as paredes do hospital, enquanto o ar preso em seus pulmões era solto aos poucos através de seus lábios. Não queria que as coisas tivessem tomado esse rumo, a pacificidade sempre foi uma de suas melhores virtudes. No entanto, não admitia ser tão insultado apenas por amar. Não admitia que tivessem dúvidas de seus sentimentos, pois cada palavra era verdadeira, assim como tudo o que guardava dentro de seu peito.
— Agora você entende? — Uma voz ao seu lado lhe despertou de seus devaneios e esta, nem precisava se virar para confirmar de quem era. Mesmo assim, virou-se, abrindo um sorriso fraco, apenas desejando que o momento anterior nunca tivesse acontecido. Seus olhos focalizaram na figura centímetros mais baixa que si, e que como de costume, trajava suas típicas roupas escuras. Suas bochechas ainda estavam rosadas, provavelmente ainda tentando fingir que estava com raiva de si. Entretanto, Nico não aparentava ser um bom mentiroso. E na verdade, não era realmente. Tudo o que aquela expressão causava em Percy era o pensamento de como o menino conseguia ficar ainda mais belo.
— Não, eu não entendo. Por que diabos ele é assim? Não acredita em ninguém, não gosta de ninguém. – Nico relaxa sua expressão, negando com a cabeça. O mais velho suspira quando o menor se aproxima, envolvendo os dedos gelados nos seus, tão quentes. Por fim, quando abriu os olhos, já tinha o moreno mais jovem á sua frente, um sorriso fraco, mas não menos malicioso.
— É um motivo que está além de sua compreensão, Perseu Jackson. E eu não quero falar sobre isso. – Percy sorri quando Nico aproxima os lábios, sentindo a respiração quente do garoto arrepiar sua pele. – Vamos? – Percy se afasta de Nico. Um sorriso brincalhão dançando em seus lábios vermelhos.
— Só se me prometer que não vai abusar de mim sexualmente. – Nico faz uma careta, escondendo o rosto na camisa de mangas preta.
— Isso é uma coisa que eu não posso prometer á você.
Percy riu divertido. Era incrível como Nico conseguia fazê-lo esquecer de tudo em um segundo, pena que o efeito como todo remédio, não era duradouro. Enquanto encaminhavam-se para a saída, o braço sobre os ombros de Nico, sua mente trabalhava em milhões de possibilidades que poderiam ser respostas a sua pergunta. ‘’ Por quê?’’. Optou por tentar esquecer por um tempo os pensamentos, todos eles. A presença de Nico valia muito mais que os problemas que lhe assolavam a mente. Tudo o que queria naquele momento era esquecer que um dia toda aquela situação existiu. Cortá-la do rolo de fita que era o filme de sua vida e apenas beijá-lo, como se fosse à última coisa que iria fazer antes de o mundo acabar...
[...]
Silenciosa, completamente silenciosa. Foram as primeiras de muitas impressões de que Percy teve assim que pisou os pés na casa de Nico novamente. Diferente da última vez — da qual não lhe trazia boas lembranças — a casa mal estava iluminada. As luzes dos lustres estavam apagadas de modo que tornava quase impossível distinguir móveis de sombras. A única coisa que o permitia não tropeçar nas coisas era a pálida luz do dia que transpassava a fresta das cortinas fechadas e o grande farol de luz da porta aberta. O que não fazia muita diferença, pois a claridade não abrangia grande espaço.
Seus passos eram controlados e cuidadosos, como se estivesse prestes a afundar na areia movediça se não prestasse atenção. Tanto que foi inevitável seu sobressalto quando a porta se fechou com tudo atrás de si, dando-lhe um susto e o privando da sensação de prazer que sabia que Nico tinha estampada no rosto enquanto gargalhava.
Percy também riu. Os únicos sons da casa, suas risadas. Mas mesmo tendo plena consciência de que a vida real não era um filme de terror e que nenhum maníaco mascarado sairia das sombras para lhe arrancar as tripas, ainda assim, o escuro lhe dava arrepios. E Nico parecia se divertir ainda mais com isso. Como se pudesse ver sua cara de espanto e ao mesmo tempo vergonha.
Os pelos de sua nuca se arrepiaram ainda mais quando dedos gelados pousaram em suas duas mãos, entrelaçando-se aos seus. No entanto, não pararam seu trajeto por ali. Fechou seus olhos em deleite quando os mesmos subiram para pulsos, massageando o local enquanto pousavam em seguida nos cotovelos. A seguinte parada foram os ombros, subindo em seguida para o pescoço, de onde os dedos tornaram-se braços que o trouxeram para mais perto, o envolvendo.
— Temos a casa só pra nós. O que quer fazer? – Nico sussurrou em seu ouvido, a respiração quente e aconchegante acariciando sua pele. Percy sorriu, e embora apenas conseguisse ver a silhueta de Nico em contraste com a escassa luz, podia jurar que seu olhar havia capturado um sorriso igual por parte do garoto. Suas mãos não perderam tempo em se apossar do quadril de Nico, trazendo-o para mais perto – se possível – e quebrando os míseros milímetros restantes que os separavam.
— Que tal, isso? – No instante seguinte, o corpo de ambos girou e Percy teve total liberdade em prensar Nico contra a parede. O menino por sua vez, ofegou. Surpreso. Os dedos agora agarrados na blusa do mais velho pelo susto do ato repentino, mas ainda assim, um sorriso brotou em seus lábios – antes uma careta de olhos arregalados- , assim como nos de Percy, do qual nunca saíram.
— Confesso que eu esperava mais. – Nico sussurrou malicioso. O sorriso jocoso brincando nos lábios avermelhados por natureza. Seus dedos desprenderam-se da camisa de Percy, deslizando para a nuca, arranhando a pele superficialmente com suas curtas unhas. Seu objetivo era visível, mas duvidava que conseguisse êxito, justamente por conta da grande diferença de tamanho, o que tornava quase impossível que conseguisse trazer os lábios do mais velho aos seus sem que o causasse alguma dor nos músculos. O que não passou despercebido pelo mesmo.
— Tipo? – Percy provocou, pressionando-se propositalmente contra Nico. Seu corpo encaixando-se com o do menor. O sorriso sem dentes preso nos lábios do moreno mais velho, que muito vagarosamente deixou de lado o quadril do menor para começar a subir seus dedos pelas laterais do corpo do mesmo. O que consequentemente o fazia ter pequenos espasmos que resultavam em todos os seus pelos arrepiados. Como se seu corpo inteiro estivesse reagindo a substâncias químicas. Nico mordeu os lábios, prestes á pender a cabeça para trás como forma do pedido mudo da continuação das palavras do mais velho em atos mil vezes mais prazerosos. – Me diga Nicolas. O que você quer que eu faça? – As palavras lhe foram sussurradas ao pé do ouvido. Os lábios a milímetros de sua pele provocando seus sentidos e fazendo Nico apertar seus dedos com mais força no pescoço de Percy. – Me diga. – O segundo pedido fora mais exigente, acompanhado de uma língua provocativa que circulou a pele de modo vagaroso e atrevido. E o mais novo não teve outra reação á não ser soltar um pequeno gemido em resposta da provocação.
— Isso... Isso é tão injusto. – Nico tropeçou nas palavras, respirando com dificuldade. Sua cabeça pendeu contra a parede de madeira lustrosa. Percy riu, enquanto a ponta de seu nariz traçava um caminho não demarcado sobre o pescoço alvo, agora, completamente exposto.
— O que é injusto? – Percy pausou. Seus dedos subindo pelo corpo esguio, tateando as costelas alheias e deliciando-se com os movimentos involuntários do corpo de Nico. Prováveis sinais de que aquele ponto o fazia sentir cócegas. O que só tornou as coisas mais divertidas para o mais velho. – O fato de eu ainda não ter tocado você, ou de eu ter frustrado seus planos em me ter contra parede? – O menor mordeu os lábios instantaneamente reprimindo o gemido sôfrego do tom suave e rouco das palavras.
— Droga. P-pare de enrolar. – Nico amaldiçoou-se mentalmente por gaguejar e ainda mais por ser tão fraco ao ponto de entregar seus planos tão rapidamente. Mas era difícil se manter sem reação quando até a respiração do outro a sua frente parecia excitante para si. Percy sorriu vitorioso, observando com atenção quando Nico apertou os olhos e deixou os braços penderem contra seu peitoral, segurando sua blusa fortemente entre os dedos ‘’ Parece que as coisas mudaram, não? Meu pequeno Nicolas’’.
— Então me diz Nicolas. O que você quer que eu faça? – Percy exige. Ofegante. A boca agora colada no lóbulo da orelha do mais novo, não perdendo tempo em se aproveitar da oportunidade para lhe sugar aquela parte com afinco para então soltá-la com uma mordida que fez Nico vibrar em suas mãos. Nico, agora era um misto de explosões emocionais e sensações não identificadas que não tinha controle sobre seu próprio corpo e mente. E, por tal motivo, suas mãos trêmulas se dirigiram quase que imediatamente para o rosto do mais velho, trazendo-o para baixo bruscamente, pouco se importando com as possíveis dores musculares que o outro teria mais para frente. Os olhos de pálpebras ainda apertadas tatearam a pele em busca da boca alheia no escuro, sentindo seus olhos lacrimejar de alívio assim que encontrou a carne úmida depois de muitas tentativas falhas.
O beijo fora seco. Um selar sem delongas e sem necessidade de língua. Puramente carnal. Naquela instante, Percy nem mesmo se importou se á qualquer momento, alguém pudesse romper pela grande porta de madeira. Tudo que importava era estar ali, com Nico.
Nico, por sua vez, não pensava em nada que fosse saciar sua cede de ter o mais velho contra si. Sentir seu calor, seu cheiro, sua respiração, sua carne. O gosto da sua boca. Sua mente era na verdade uma massa gelatinosa constituída por todas as cores existentes ou não, todas as palavras, todos os gostos, todos os objetos de que se lembrava. Percy era toda raiva, toda a dor, todo o amor. Ele era mais intoxicante que a nicotina que tomava seu corpo. Era a substância química que fazia sua pele entrar em ebulição a todo o momento. E foi a explosão atômica que fez seu corpo se partir em bilhões de pedaços assim que teve seu corpo suspenso pelos braços fortes do mesmo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Notando suas mãos livres de impedimento, sua primeira reação foi agarrar os fios negros entre os dedos, puxando-os com necessidade enquanto seus lábios eram capturados numa forte sucção, para em seguida serem soltos e logo serem recuperados. Percy não precisou pedir passagem para infiltrar sua língua sem delicadeza nenhuma por entre os lábios cor-de-rosa e se deliciar com o espasmo ocasionado pelo choque elétrico do encontro de suas línguas. Nico sentia sua pele arder, como se seu corpo inteiro estivesse em chamas. E talvez, de fato, estivesse. Talvez Percy também fosse a faísca que fazia seu corpo entrar em combustão espontânea.
Percy não estava muito distante de pegar fogo, ou mesmo explodir em radiação enquanto sentia sua pele derreter. Sentia-se transbordar de sentimentos, de emoções, de sensações. Era calor demais, mas também era frio, era nervoso e certeza, era o incerto, meio termo. Não era coerente, tinha consciência. Mas se sentia a um passo do abismo. Suas mãos inquietas pararam por um instante, apenas para equilibrar o corpo de Nico contra parede e seu quadril e deslizar a jaqueta jeans pelos braços, puxando em seguida a blusa pela cabeça, jogando-a em uma direção qualquer.
Nico gemeu em deleite. Tanto por ter a visão prazerosa da parede de músculos bronzeados que compunha a obra prima que era o corpo de Percy, livre de qualquer impedimento, tanto pelas mãos do mais velho, que se apossaram de suas coxas, pressionando seus quadris de modo provocante na medida certa, tocando suas respectivas ereções. As línguas brincavam sem pressa de se separarem, mesmo sabendo que minuto a mais, minuto a menos, iria acontecer.
Percy suspirou. Os olhos apertados enquanto suas mãos se atreviam a apertar as nádegas redondas do mais jovem, que arfou, puxando os fios de seu cabelo de maneira tão espontânea e forte que lhe causou uma aguda dor de cabeça momentânea. Mas pouco se importou, uma vez que sua concentração estava inteiramente voltada para seus lábios unidos no simples ato que lhe causava tantas explosões de calor e de sensações.
Nico resfolegou durante o beijo assim que sentiu o peito de Percy vibrar num gemido. Logo, quando se deu conta, suas mãos, assim como as de Percy, estavam por toda parte. Acariciando com a ponta dos dedos gelados o peitoral sólido e de pele macia do mais velho, não se atrevendo a muito mais que os gomos bem desenhados do abdômen do mesmo.
Percy já não sabia o que em seu corpo e mente falava mais alto. Se a razão que lhe gritava para parar antes que não conseguisse mais se controlar á ponto de fazer uma loucura, ou o desejo que zumbia em seus ouvidos, insistindo que nunca mais soltasse os lábios de Nico. No fim, só teve forças para atender seus instintos e subir suas mãos para as costelas do moreno mais jovem, envolvendo-o em seguida em seus braços, o carregando como uma criança até o que presumia ser um móvel.
Nico apertou-se contra Percy, surpreso, mas não menos consumido pelo êxtase do momento. Percy, por sua vez estava igualmente rendido ao desejo, absorvendo todas as reações de Nico ao seu toque e suas próprias reações a cada roçar de lábios e encontro de línguas. Nico sentia seu corpo arder. A boca de seu estômago vibrava em nervosismo e excitação. E foi no ápice dessa dança erótica de sensações e toques que tudo desmoronou.
O tilintar insistente de sinos e barulhos metálicos não identificados soou de algum lugar bem perto. Logo, Nico notou que provinha da coxa de Percy, de onde uma luz acompanhava a vibração e o som. O mais velho também o sentiu, partindo o beijo de modo abrupto e seco. A respiração dolorida. O peito subindo e descendo descompassado enquanto o oxigênio chocava-se dentro de seus pulmões.
Nico abriu os olhos vagarosamente, respirando de modo ruidoso. Suas mãos paradas contra os músculos do mais velho. As testas unidas, apreciando os últimos momentos em que seus corpos ainda se mantinham próximos.
— O que... Quem? – Nico sussurrou, tossindo. Engasgando-se com o ar que entrava rapidamente e saía queimando por suas narinas e boca. Percy negou com a cabeça, gemendo em desaprovação.
— Não importa – O mais velho respirou fundo, fechando os olhos com força. — Só... Vamos ficar aqui. – Os lábios foram unidos num rápido selar, o que instintivamente fez Nico subir as mãos para a nuca de Percy. No entanto, o som não era agradável e harmonioso para o momento, o que mesmo contra a vontade, despertou em Nico a razão, o fazendo se afastar milímetros para o olhar nos globos verdes escuros de desejo do mais velho.
— Pode... P-pode ser importante. – Foi tudo o que conseguiu murmurar com um fio de voz. A mente bagunçada e ainda absorta pelo prazer interrompido não o ajudava a formular frases coerentes o bastante. Percy soltou o ar com força pelas narinas.
— Se é importante, não se incomodarão de ligar mais tarde. – Percy respondeu, dando de ombros, dirigindo seus olhos para Nico novamente. O mesmo soltou uma breve risada, inclinando-se de encontro ao mais velho, unindo os lábios num rápido selar antes de bater levemente nos bíceps de Percy.
— Atenda. Vamos. Eu não me importo, de verdade. –Disse. A respiração ainda falhando. Percy bufou, revirando os olhos, colocando a mão no bolso logo em seguida.
— Ainda não terminamos Nicolas. – Percy proferiu, depositando um beijo cálido sobre as bochechas avermelhadas de Nico. Este, que instantes depois, sentiu seus pés tocarem no chão novamente. Por fim, enquanto via o mais velho afastar-se com os músculos retesados e claro descontentamento, jogou-se no sofá de maneira desleixada, penteando o cabelo para trás com as mãos. Rindo como bobo.
Percy por sua vez se dirigiu para o outro lado da sala de forma tensa. A frustração que percorria o seu corpo quase chegava a deixa-lo de mau humor. Mas se bem presumia quem o ousou interromper, não se preocupava com a hostilidade com que atenderia á ligação. No entanto, quando seus dedos estavam prontos para tocar a tela do smartphone, o tilintar encerrou. Tudo o que restara foi uma mensagem pronta para ser aberta. Uma pequena carta holográfica que vibrava. O mais velho bufou, sabia o que encontraria. Provavelmente, á cada meia dúzia de palavras, cinco faziam parte de um sermão político de como sua conduta profissional estava sendo incorreta.
No entanto, para a sua surpresa, quem assinava a mensagem não era exatamente quem de fato esperava que o tivesse interrompido.
‘’ Maninho. Maninho. Tenho que dizer que estou realmente decepcionada por você não ter atendido sua irmãzinha gata logo no primeiro toque. Mas eu sou uma pessoa iluminada, não guardo rancor. Tenho uma proposta generosa para você se redimir comigo. Que tal você vir me buscar agorinha mesmo no aeroporto? Sim! Eu cheguei. É rápido quando você meio que sequestra o jato de negócios do seu pai. Mas isso não vem ao caso agora. Acho melhor que seja rápido, já estou aqui há dez minutos. Não vai querer deixar sua maninha sozinha, na solidão de um aeroporto cheio de estranhos...
... Beijos. Mina. Obs: ANDA LOGO! ‘’
— Mas o que... – Percy leu e releu diversas vezes, não acreditando na veracidade do que estava lendo. Mas se tratando de Mina, tudo era possível. No fim de tudo, ainda que bastante perplexo tudo o que conseguiu fazer foi rir.
— Aconteceu alguma coisa? – Nico sussurrou. Embora sendo um sussurro, foi alto o suficiente para despertar Percy de sua bolha. O mais velho o olhou ainda sorrindo. – Você demorou, vim ver se estava tudo bem. – Percy franziu o cenho. Devia estar tão concentrado em se convencer de que Mina não estava brincando que mal notou o tempo passar. Por fim, o mais velho assentiu, passando por Nico, pegando a camiseta embolada num montinho no chão.
— Nada. Quer dizer... Minha irmã. Ela precisa que eu a busque no aeroporto. – Nico abriu a boca por um instante. A informação o pegou realmente desprevenido.
— Não sabia que você tinha uma irmã. – Percy deu de ombros. Parecia indiferente e nervoso aos olhos de Nico. E no fundo, estava. Não se sentia confortável falando sobre a irmã. Era uma história delicada e realmente tocar nela não estava na lista das coisas que estava afim de fazer.
O silêncio se fez presente. Nico encontrava-se recostado contra a parede de madeira, os braços cruzados sobre o peito, ainda esperando uma resposta, uma explicação. No entanto, sua mente parou de funcionar por alguns segundos quando seus olhos prenderam-se na imagem de Percy vestindo sua camisa.
— Você e o resto do mundo. – Percy disse, colocando a jaqueta sobre os ombros.
— O que?
— Não sabem que eu tenho uma irmã mais nova. – Nico mordeu o lábio inferior. Estava perdido. De repente, não havia mais assunto. Parecia que tudo o que tinha planejado para falar numa conversa real havia sumido.
— Ah, sim. – O mais velho suspirou, andando alguns passos e parando em frente a Nico.
— Tenho que ir. Ligo para você mais tarde. – Nico se sentiu desconfortável quando Percy lhe beijou a testa, virando de costas em direção à porta como se nada tivesse acontecido. Desejou mais. Que ficasse mais. Parecia não se importar em sua mente.
— Mas... – Sua voz saiu rouca. Não sabia o que dizer ao certo, só queria prolongar aquele momento. Ter certeza que tudo o que viveram minutos atrás ainda era real, não apenas um momento que poderia ser esquecido. Afinal, eles estavam juntos, não estavam?
— Mas? – Percy virou-se para Nico, a ponta dos dedos brincando com a maçaneta da pesada porta de madeira. Nico parou por um instante. Tudo o que pensava em dizer lhe parecia tolo e egoísta de se falar á Percy. Afinal, pelo que aparentava á quanto tempo ele não via a irmã?
De repente, se sentia encurralado novamente. Estava sem palavras. Seus argumentos não eram bons o bastante para convencê-lo a ficar. Na verdade, nem tinha o direito de pedir que ficasse ao menos mais cinco minutos. Pensando de uma forma, ele havia tido á minutos atrás, tudo o que sempre desejou. Foi mais do que imaginou que um dia conseguiria. Deveria se sentir satisfeito. Mas porque não conseguia? Porque ainda lhe parecia difícil acreditar que fosse real? Talvez a resposta para ambas as perguntas fosse o fato de que ainda existia um abismo de indiferença que os separava. Suposições. Dúvidas. Elas matavam Nico mais do sua dor nas costelas.
Quanto voltou a olhar para frente, livre da fração de segundos em que sua mente flutuou para longe, Percy ainda esperava por uma resposta. Por fim, Nico chacoalhou a cabeça levemente, as palmas das mãos suadas e o os dedos agarrados à blusa de mangas em nervosismo.
— Nico? – Percy insistiu. Os olhos verdes se estreitando em curiosidade. No entanto, o menino ainda não tinha respostas. Não o bastante para ser suficientemente convincente de que não havia nada de errado.
— Esqueça. Não deixe sua irmã esperando. Vai logo. – Nico proferiu. Diferente do que imaginou, sua voz foi firme, segura e em nenhum momento gaguejou. O que o deixou bastante satisfeito, uma vez que se esforçava para aprender a controlar suas emoções. Percy sorriu e antes de fechar a porta atrás de si, lhe mandou uma breve piscadela.
Nico olhou a sua volta, sentando-se ao pé da escada, de frente para a porta. Não sabia dizer qual emoção predominava seu corpo. Se a ansiedade de quando seria a próxima vez que teria mais momentos como aquele, a felicidade de finalmente estar sendo retribuído ou a sensação da solidão se infiltrando em suas veias. Deveria se sentir incrível. E de fato se sentia. Deveria se sentir feliz. E estava feliz. Mas ainda assim, em seu peito, havia a sensação fervilhante de que algo estava faltando.
No fim, com as pernas esticadas e os cotovelos apoiados num dos degraus, optou por sorrir, ignorando sua insegurança desnecessária. No entanto, ainda que preferisse pensar na sensação macia dos lábios alheios em sua boca, ainda lhe restava à sensação incomoda. O pensamento melancólico e vazio. Havia significado algo? A pergunta lhe assombrava a mente no escuro. Como demônios que espreitavam criancinhas inocentes em suas camas.
[...]
A atmosfera a irritava. O ambiente tinha todas as características do que ela considerava lugar desprezível. Mas ela estava disposta á superar seus limites em busca de realizar seus objetivos.
— Isso não vai dar certo. – A loira revirou os olhos. Octavian conseguia ser insuportável tanto quanto maldoso.
— Suas reclamações e sua insegurança patética estão me causando náuseas. Portanto, se não quiser que eu vomite nessa porcaria que você chama de suéter, cale-se. – Annabeth virou-se abruptamente, olhando-o de cima abaixo com suas orbes intempestivas. O outrora loiro engoliu em seco. – Ah, você até que não ficou tão ruim. – Ela o analisou perigosamente. Um sorriso perverso brincando nos lábios vermelhos.
— Tão ruim? Estou péssimo. – Octavian bufou, tornando andar de um lado para o outro no recinto.
— Ah meu deus, pare de ser dramático. Odeio bichas dramáticas. Me enoja a forma como elas se acham femininas e parecidas com nós, mulheres. – O mais jovem olhou a moça, completamente perplexo.
— Como você consegue ser tão cruel com as palavras? – Annabeth revirou os olhos.
— Meu caro Octavian, estou apenas sendo sincera. Personalidade é tudo e eu não vivo para agradar as pessoas. Elas é que devem me agradar e se sentirem agradecidas por terem a minha presença perto delas. – A loira sorriu irônica, virando-se para a recepcionista que olhava quase embasbacada para cena. – Não é mesmo querida? – A moça engoliu em seco, tornando a voltar sua atenção para a tela do computador. – Vamos, não seja tímida. Qual o seu nome? – A moça nada disse, apenas parou por uns instantes mantendo pouco contato visual com a loira. Annabeth impacientemente olhou no crachá. – Ana? Que nome comum. É bem cafona. Na verdade é patético. – O silencio se manteve impecável. Octavian sentiu vontade de rir, tamanho era seu divertimento ao ver que pelo menos alguém, sabia tratar Annabeth como ela devidamente merecia. – Será que dá pra agilizar a papelada? Eu tenho pressa.
— Desculpe senhorita, eu creio que não poderei ajudar nesse caso. A matrícula de um aluno no meio do ano letivo e com tão poucas vagas em aberto é bem difícil. Sugiro que encontre outra escola disponível ou espere até que um aluno desista da vaga. Esta é uma escola bem concorrida. – Enfim, a recepcionista a olhava nos olhos. Mas arrependeu-se no segundo seguinte em que encontrava os olhos cinzentos borbulhando em fúria.
— Perdão? Acho que não ouvi direito. Sugere que eu deixe meu pobre sobrinho analfabeto por sua incompetência em expulsar um aluno que pouco se importa com estudos? Ouça aqui queridinha, eu sugiro uma coisa para você também. Sugiro que digite logo a porcaria da matrícula do meu sobrinho neste exato momento, para que ele comece a estudar amanhã, se não, por deus, eu volto aqui e enfio sua cara nessa tela de computador.
— Senhora, eu não posso...
— Você pode e você fará. – Segundos depois a cartela de cheques era jogada sobre o balcão, arregalando os olhos tanto da moça quanto de Octavian. O mais jovem ainda surpreendia-se com sua capacidade de se surpreender com Annabeth. – Me diga seu preço, faça o que quero. Todos saem ganhando e ninguém precisa saber. – A moça engoliu em seco. Os dedos trêmulos ainda sobre o teclado.
Minutos depois, a moça intercalava os olhos entre a tela de computador e o bloco de folhas amareladas sendo preenchido pelos dedos habilidosos da loira. Ana, a recepcionista, de fato não tinha culpa. Todos em um determinado momento da vida são tentados pelo dinheiro, a necessidade, a ganancia, essas questões nos fazem pensar em necessidades que estamos vivendo ou que podemos passar, e Annabeth sabia muito bem disso. A loira era dotada de uma visão sobre os outros que a deixava totalmente satisfeita, era como ler os pensamentos de seus oponentes, descobrir seus pontos fracos e tê-los nas mãos. A comprovação veios dez minutos depois quando era entregue em suas mãos o documento e em troca, as mãos ávidas da pobre moça recebiam o fino papel, escondendo-o num dos bolsos da calça logo em seguida.
— Muito obrigada Ana. Embora você seja provavelmente uma vadia virgem, tem um dom para negociações que eu aprecio muito. Espero que continue firme na sua vida patética. – Annabeth piscou antes de virar as costas para a moça, que se encontrava estática e perplexa. Talvez, culpada por ser tão fraca quanto todos que devia julgar por sua fome de ganancia.
— Você não presta Annabeth.
— O que? Todos tem um preço Octavian. Eu não sou hipócrita, você também não deveria ser. Deveria parar de fingir que não sente uma ponta de desejo por mim, parar de fingir que não quer me comer. O mundo seria um lugar bem mais interessante se as pessoas fizessem o mesmo. – A loira piscou, dando de ombros e andando em passos firmes para fora do recinto. Octavian prendeu o ar em seus pulmões, observando quando a figura provocante sumiu pela porta, o deixando perplexo. De fato, Annabeth era uma manipuladora incorrigível, e mesmo que odiasse admitir, suas impressões sobre ele geralmente estavam certas. Ela tinha efeitos atômicos sobre si.
Annabeth sorriu triunfante, parando passos mais tarde, analisando o documento em mãos. Ela quase podia sentir o sabor da vitória em sua boca. Octavian dizia que ela era cruel, mas de sua perspectiva diabólica, se lutar pelos seus interesses significava ter que assumir o papel de vilã, que fosse. Perder estava fora de cogitação. Acariciando o papel de textura grossa ela tinha tudo que precisava para começar.
— Ah meu querido Octavian. Esse é só o começo para o meu Xeque Mate...
... Continua...
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