Apesar de alguns meses terem se passado depois da reunião, o assunto continuava a render na boca do povo, principalmente depois da notícia da última semana: Foi escolhido quem colocaria sua indústria na cidade. Isso foi suficiente para a imaginação de todos da cidade fluírem, e uma grande oportunidade de divulgarem essas imaginações. Alguns falavam que não foi feito de acordo com o combinado e em vez de uma indústria nacional, seria uma empresa estrangeira. Outros, com a mente mais fértil, diziam que uma senhora da capital paulista, viúva e entediada da vida, resolveu investir em Liniensinopólis, e ela mesma iria morar na velha fazenda afastada do pequeno centro urbano da cidade, em frente ao Lago Pequeno Mar e que fora comprada recentemente. A conversa que mais se aproximava da verdadeira era a segunda. Realmente, o investidor comprou a velha fazenda que pertencera a família Costa, essa era a maior entre todas que existiam por lá, facilmente abrigaria 5 famílias de 5 membros cada, mas não era uma pobre velhinha cansada da vida, e sim uma família que estava subindo rapidamente na famosa “escada hierárquica da indústria”. O prefeito prometeu que daria mais noticia em breve, e para isso convocou todo mundo para se reunir mais uma vez no velho salão dos vereadores.

Dito e feito, na quinta da mesma semana estava novamente o salão lotado e com um ar mais jovial. Os pais trouxeram pelo menos um dos seus filhos, no total, havia quase duzentas pessoas reunidas. A filha da velha Maria, a senhora com língua afiada, também estava presente, ela se chamava Aline, e desfilava pela rua da cidade com delicadeza e um belo sorriso no rosto. Bezerra e Andrade também trouxeram seus filhos mais velhos, Pedro e João. A senhora Gonçalves trouxe o seu companheiro mais próximo para a reunião: Tobi, o cachorro que sua filha Amanda encontrou na rua e trouxe para casa, deixando aos cuidados da mãe logo depois que ela foi embora de Liniensinopólis. Expedita, a senhora que, segundo ela própria, já rasgou mais de 30 bolas de futebol, veio com Luiz, seu filho mais novo, um garoto muito tímido e calado, mas de um coração muito bom, além de ser a salvação para os leigos de tecnologia da pequena cidade. Ele era o melhor amigo de Thomas, filho de Francisco. Thomas, assim como o pai, era muito querido na pequena cidade. As senhoras mais velhas falavam que ele é tão bonito quanto o pai na sua juventude. Ele já passou um tempo longe de Liniensinopólis, morou em São Paulo por um ano e meio, foi responsável por dar a um homem de negócio a galinha que coloca ovos de ouro ao criar um projeto de negócio no ramo alimentar. Teve a chance de nunca mais pisar na sua cidade. O homem, a quem ele deu a brilhante ideia que tivera, ofereceu a chance de se tornar sócio do negócio, mas Thomas negou. Não queria ficar na cidade grande. Ele nunca falou para ninguém o real motivo de ter voltado, mas corria solto a conversa que ele voltou por amor a Aline. Esse boato foi espalhado pela própria filha da velha Maria, que, apesar de demostrar delicadeza e simpatia, tinha herdado o gene da mãe em ter uma espada em forma de língua. Além deles, outras dúzias de pessoas estavam no local aguardando o prefeito.

Chegou o aguardado momento, o baixo e barrigudo prefeito subiu ao palanque e com o mesmo sorriso que o acompanhou durante a semana começou a falar

— Muito obrigado a todos vocês que puderam estar aqui presentes, saiba que é assim que uma cidade deve agir, com a população participando de tudo aquilo que traz mudança para seu município – o prefeito falava com um tom vitorioso, ele certamente pensava que colocaria seu nome na história da cidade para sempre. Seria lembrado de geração em geração – e, por amor ao nosso município, a população Liniensinense abraçou com grande entusiasmo a vinda de uma nova fonte de renda e progresso.

Passando a folha para debaixo, continuou o sr. Silva

— Como todos devem ter escutado os boatos, finalmente chegamos em uma decisão sobre quem terá a chance de investir nessa maravilhosa cidade. Quero falar isso com um orgulho que não é somente como o prefeito a fazer esse feito, mas também como cidadão de Liniensinopólis.

Era óbvio que o prefeito não ia deixar passar a chance de se autopromover. Por mais que ele fosse querido pelos habitantes da cidade, a sua vaidade era algo que não se podia ignorar. O prefeito continuou o seu discurso, engradecendo tanto o negócio feito, como a cidade e si próprio. Era entediante até mesmo para os mais velhos.

— Se pecado tivesse forma, o sr. Silva seria a representação do orgulho em excesso – disse Bezerra, levando Andrade a balançar a cabeça em concordância.

A reunião estava totalmente fora do que foi planejado, e parece que o prefeito, tão ocupado em falar do seu feito, não notara tal coisa. Alguma providência precisava ser tomada, e foi isso mesmo que Francisco fez. Subiu ao palanque e cochichou algo no ouvido do prefeito, o fazendo ficar vermelho. Batendo no microfone três vezes, conseguiu trazer a atenção para si e continuou:

— A reunião de decisão ocorreu há três semanas atrás, ambas as partes chegaram a um acordo. E como prova do empenho do nosso escolhido, o próprio dono decidiu morar por aqui durante um ano e meio, tempo em que será construída e inaugurada.

Sussurros começaram a rolar no salão, então o novo dono da antiga fazenda dos Costa era também o dono da empresa que se estabeleceria em Liniensinopólis. E não apenas isso, ele moraria durante dezoito meses na cidadezinha.

— Muito bem – continuou o prefeito – deem as boas-vindas para a Industria Albuquerque.

Todas as luzes se apagaram e um logo com a letra A foi projetado para todos verem, começou a se reproduzir um vídeo contando a história da empresa e do seu criador, Moisés Albuquerque. Ao terminar de reproduzir a gravação, foi a vez de uma foto de uma família de 4 pessoas aparecer no telão. Era oficial, Liniensinopólis não será mais a mesma.

— Isso vai ser interessante, muito interessante – falou Luiz se aproximando de Thomas que olhava fixamente para a foto exposta.

Notas finais
Bom, estou postando o segundo capítulo para ver se alguém me entrega um norte nos comentários. Eu vi que até agora 10 pessoas leram (só n sei se até o final) a história. Galerinha, por favor, não fiquem tímidos, vocês não têm noção de como um comentário é super motivador. Usarei um pouco da teoria behaviorista nesse exato momento, se algumas pessoas aparecerem eu prometo tentar postar um capítulo na quarta e isso é loucura já que estou escrevendo o quarto capítulo agora!! (00:12/03/09/18). E se alguém pegou o primeiro capítulo logo quando eu postei, deve ter percebido que mudei de título. Realmente tenho duvidas em qual dos dois vou ficar. Enfim, é isso Qualquer coisa tem os comentários ou a própria caixa de mensagem.