Incógnita
7 6. Visitas de um Passado (In)Desejado
Notas iniciais
xoxo, me.
Eu estava em um quarto escuro, sem conseguir ver nada. Eu nem conseguia saber se eu realmente era real. O silêncio do quarto era o silêncio que se faz em uma floreste durante a noite: desconfortante e assustador, a qualquer momento poderia aparecer algo de um local que eu não imaginava.
A minha vontade era a de gritar, mas após diversas tentativas descobri que de nada adiantaria. A minha vontade era a de fugir, mas os homens que me vigiavam eram muito mais fortes que a minha coragem. Eu era apenas uma garota contra desconhecidos.
No silencio do quarto a porta se abriu e o som de passos fortes e decisivos encheram o ambiente. Continuei de cabeça abaixada.
– Onde está o garoto? – perguntou um dos homens que haviam entrado.
– Qual garoto?
– Vamos, menina! Eu não quero perder o meu tempo. Me responda logo!
– Mas eu não sei qual é o garoto que você está procurando! – disse enquanto uma lágrima escorria pelos meus olhos.
– Eu quero saber de Harrison! Harrison Cipriano! Cadê o garoto?!
– Eu não sei de quem você está falando. Eu não conheço esse menino.
– Não minta para mim! – vociferou o homem e no momento em que ele o fez senti uma dor flamejante dentro de mim, eu sentia que queimava de dentro para fora. Uma garota gritou.
– O que você está fazendo?
– Isto é para você aprender que ninguém mente para mim. Entendeu?!
– Eu não estou mentindo. – a queimação me atingiu de novo.
– Como ousa repet-...? – o homem parou e todos os outros que o acompanhavam também ficaram estatelados. – O que você faz aqui? – no começo achei que ele estava falando comigo, mas percebi que ele olhava para alguém que acabara de entrar no quarto.
– Vim para salvar a garota.
***
Deitada na cama eu suava frio e de alguma maneira eu chorei enquanto dormia. Os lençóis não me cobriam mais e eu estava deitada de uma maneira estranha.
Levantei-me e vi pelas cortinas que o dia estava amanhecendo. Peguei uma muda de roupa e fui para o banheiro.
Debaixo do chuveiro deixei a água quente escorrer no meu corpo tirando todas as impurezas da minha alma, levando toda a melancolia causada pelo dia anterior e limpando as lágrimas do meu rosto.
Por não lembrar nem um pouco dos meus pais, a dor só se fazia maior dentro de mim. E o pesadelo da noite anterior só aumentava a minha aflição.
De alguma maneira eu sabia que aquilo tinha realmente acontecido o que me assustava mais. A voz do desconhecido no meu sonho despertava a minha atenção e me dava uma sensação de segurança – pouca, mas era segurança – pois alguém tentara me salvar, alguém queria o meu bem.
Vesti um short e uma camisa e desci para a cozinha. O dia já havia amanhecido e Irina preparava o café da manhã.
– Bom dia, Ava. – disse Irina tristemente.
– Bom dia.
– Sente-se, o café da manhã está quase pronto. – sentei na mesma cadeira que eu tinha sentado na manhã anterior.
Irina colocou um prato com panquecas na mesa e uma jarra com suco de laranja.
Servi-me com uma panqueca com mel e um copo de suco.
– Você está melhor? – levantei a minha cabeça e Irina me olhava de maneira cautelosa.
– Não. Mesmo não me lembrando dos meus pais eu sinto um vazio. Eu queria entender tudo isso que está acontecendo. E, Irina, eu acho que o meu passado esta vindo a tona, pois eu creio que o pesadelo que tive noite passada realmente aconteceu antes.
– Que pesadelo, Ava?
Expliquei a Irina o meu sonho e ela concordou que era alguma memória despertando-se.
– Mas, Ava, se você lembrar-se pode ser que você adquira lembranças desagradáveis.
– É, eu sei. Mas prefiro me lembrar para entender.
No momento que Irina ia falar alguma coisa o telefone tocou e ela foi atender. Quando voltou para a cozinha ela sorriu e disse:
– Amanhã você já pode ir para a escola.
– Que bom. – sorri também.
***
Passou-se a manhã e então já era tarde, então fui para o restaurante e expliquei para o Chefe Chen que eu teria que chegar mais tarde, por conta do horário de aula e aproveitei para passar na biblioteca e devolver o livro que tinha pegado.
***
Na manhã seguinte eu me acordei mais cedo, tomei um banho e vesti jeans e uma camisa qualquer com a minha jaqueta.
– Bom dia, Irina – disse quando entrei na cozinha.
– Bom dia! Então, hoje é o grande dia, né mesmo? – concordei e peguei um iogurte na geladeira.
– Depois da aula eu vou passar no restaurante por umas três horas, depois eu volto.
– Certo, querida. Boa sorte no seu primeiro dia de aula! – assim fui caminhando para a escola.
Os corredores estavam cheios, e pessoas se reuniam para falar das novidades, mas eu fui para a secretária onde encontrei a secretária que havia falado no outro dia. Ela me entregou o meu horário e me deu a senha do meu armário.
As aulas que eu tinha escolhido eram: Inglês, História, Matemática, Geografia, Biologia, História da Arte e História da Idade Média. Não era um horário pesado e os conceitos das Histórias me encantaram.
Fui procurar qual era o meu armário, guardei as minhas coisas nele e quando fechei me assustei com uma menina de cabelos cor de mel e de olhos castanhos que sorria para mim.
– Que susto você me deu! – disse a ela.
– Oi. Desculpa. Eu sou a Ísis, tudo bom?
– Oi, Ísis. Eu sou a Ava.
– Legal, nós duas temos nomes estranhos.
– Pois é, né?! – sorri para ela. Ela parecia ser muito agitada.
– Qual é a sua primeira aula?
– História.
– A minha também. Vamos, vou lhe mostrar onde é. – disse ela enquanto me puxava pela escola.
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