Incógnita
5 4. Fragmentos
Notas iniciais
Uh... Muitas surpresas aguardam para Ava! Espero que gostem, porque eu fiz com muito amor.
xoxo
Já passava das 10 horas e o meu corpo estava muito dolorido devido ao trabalho. Mesmo com as dores minha cabeça só pensava na senhora que falara comigo mais cedo, e algo dentro de mim – talvez a curiosidade, ou o desejo de descobrir quem eu realmente era – me impelia a encontrar a mulher desconhecida.
Depois de ajudar Leila e o Chefe Chen troquei as minhas roupas e peguei os meus pertences no armário, o que não era muita coisa, e fui ao encontro da mulher que me aguardava em um banco na frente da biblioteca, iluminada apenas pelo poste que ficava na esquina. Foi então que eu percebi o quanto aquela cidade era perigosa, principalmente durante a noite.
Tremi com a rajada do vento e apertei mais a jaqueta em torno dos meus braços.
Sentei ao lado da senhora e esperei ela falar.
– Que bom que você veio, Ava.
– Não sei se posso dizer o mesmo. E antes de você falar qualquer coisa, por que não me diz o seu nome?
– Eu me chamo Irina.
– Irina. Certo. E o que você quer comigo?
– Bem, você está correndo perigo Ava. E eu posso lhe ajudar. Eu sei que você sente falta de alguma coisa e não sabe exatamente o que. Eu sei que você está procurando respostas.
– Como você sabe disso? – aquela mulher era uma desconhecida que sabia mais de mim do que eu mesma, e isso me assustava... muito.
– Eu vou precisar lhe contar uma história, e você vai precisar me ouvir.
– E como eu sei que o que você vai dizer é verdade?
– Você não vai saber. Você vai ter que confiar no que eu lhe digo. E pense da seguinte maneira: as coisas não podem piorar para você, né mesmo?
– Hm, certo. Eu vou escutar você. – ela estava certa: nada poderia piorar para mim.
– Bem, Ava, no mundo em que vivemos não vivem apenas humanos. No decorrer dos tempos, foram surgindo diversas espécies, e algumas dessas espécies existem até os dias de hoje, se escondendo entre nós. Eu, por exemplo, não era humana.
“Antigamente eu vivia em uma sociedade de outro plano, mas então eu cometi um pecado, e fui expulsa da terra que antes habitava, o mesmo aconteceu aos meus amigos que cometeram o mesmo erro: cobiçar sempre além do possível.
“Você pode não acreditar, mas eu era um anjo. E com o pecado, fui expulsa do céu e tive minhas asas arrancadas, me juntando a um grupo de anjos caídos.
“Durante o período de Cheshvan, no mês de Outubro, nós podíamos possuir nefilins, e alguns dos anjos caídos tinham relações sexuais com humanas nesse período, gerando novas gerações de nefilins. Os primeiros nefilins ainda existem, pois assim como os anjos são imortais. E desde então os nefilins e os anjos caídos vivem em guerra, além dos arcanjos que procuram manter os anjos caídos “na linha”.
Quando ela terminou de falar eu realmente não acreditava nela, porém uma faísca tremulava dentro de mim acreditando. Passei alguns minutos fitando o céu e lembrei do livro da biblioteca.
Abri o livro na página da imagem do garoto que tanto chamara minha atenção.
– Você disse que os anjos caídos tinham as asas arrancadas, não foi? – perguntei enquanto passava os dedos na imagem das cicatrizes nas costas do anjo.
– Disse sim. E no local eles ficavam com cicatrizes, onde eram guardadas todas as lembranças deles. – a confirmação dela fez o meu estômago borbulhar e mais uma vez eu tremi naquela noite, e dessa vez não foi porque sentia frio.
Fechei os olhos e quando o fiz escutei uma voz, mas não entendi o que ela dizia, e depois senti a vontade de fugir, misturada com o medo, porém nada eu podia fazer.
– Você está bem? – perguntou Irina.
– Eu estou bem sim. É só que essa história toda, é muito para processar.
– Então é melhor irmos para casa. É melhor você descansar um pouco.
– Eu não vou conseguir. E mesmo assim, eu não tenho para onde ir.
– Não tem? – ela esperou, entretanto não recebeu nenhuma resposta – Levante-se. Você vai dormir na minha casa.
Eu levantei os olhos para a mulher. Ela me transmitia uma sensação de paz e de segurança, por isso eu sentia que podia confiar nela. E quando ela estendeu a mão para eu me levantar, eu segurei-a.
Do lado de Irina eu andava na mesma direção que ela. Um caminho desconhecido para mim, mas que ela já sabia.
– Você disse que era um anjo caído. – aquilo soou mais como uma afirmação.
– Sim.
– Então o que você é agora?
– Quando eu era anjo caído, eu me apaixonei por um humano, e ele por mim. Eu era jovem e imortal, precisava de uma companhia. Mas então, certa noite ele quase foi assassinado, só que eu cheguei e o salvei. Ganhei a humanidade, e o tive pelo tempo que eu precisei ter. Passamos mais de 50 anos juntos. Os melhores anos desde minha vida imortal. Agora ele me aguarda na eternidade. – ela terminou sorrindo.
Quando ela terminou de falar sorri também. Aquela era uma bela história. Trocar a eternidade por alguns anos. 50 anos era muito, contudo a eternidade era mais.
– E mais uma coisa: como você sabia que eu estava com problemas?
– Quando eu toquei em você eu senti isso. Porque quando eu me transformei continuei com fragmentos dos meus poderes enquanto anjo, e quando eu era um anjo eu conduzia os espíritos e as pessoas para o lugar que elas deveriam ir. Para conforta-las eu precisava saber o que elas sentiam.
Quando ela terminou nós paramos na frente de uma casa branca.
Irina abriu a porta para que eu entrasse e acendeu as luzes. A casa era cheia de retratos pendurados nas paredes pintadas de verde claro, e na sala só havia um sofá e uma estante cheia de livros.
– Seja bem vinda! Venha, vou lhe mostrar o quarto de hospedes e você pode tomar um banho quente, irei preparar um pouco de chá. Você tem roupas?
– Não tenho nenhuma. Apenas a do corpo. – eu respondi enquanto observava as pessoas nas imagens: Irina acompanhada de um homem, sentados juntos no sofá, em outra imagem o homem com um bebê aninhado nos braços enquanto uma menina espiava dentro das cobertas. Muitos momentos felizes, e concordei mais uma vez com a escolha de Irina de trocar a eternidade pela vida mortal.
– Sem problemas, eu lhe empresto uma camisola.
Assim ela me conduziu para uma escada e me mostrou o quarto de hospedes.
Fale com o autor