Incursão no inferno (livro 2)
8 Capítulo 7 – Ataque sincronizado
“Você não pode confiar em seus olhos quando sua imaginação está fora de foco.” — Mark Twain
New Orleans
Lucy ouvia o tiquetaquear do relógio, o ritmo sutil a lembrava de outro ruído que a acompanhava naquela cela, o pingar das goteiras. Elas marcavam o ritmo dos chicotes, das garras e dentes e cabelos arrancados. Cada pingo lembrava os ossos esmagados e ácidos corroendo as camadas epiteliais. Pareciam brindar enquanto puxavam suas vísceras para fora do abdômen. Jekyll sopra as palavras muito próximo ao ouvido de Lucy enquanto está sentado em um banco próximo da cama:
— Deixe sua memória retornar à masmorra, onde tudo aconteceu.
O quarto escuro auxilia o momento de concentração. Ela respira fundo, está deitada de costas sobre o edredom, sua cabeça pende na beirada, levemente inclinada com a queda onde o amigo idoso se curva avaliando sua respiração pausada.
— Onde você está? — a voz serena de Jekyll conduz as imagens na mente da vampira.
Ela é transportada mentalmente para o lugar maldito.
Faziam meses que não liberavam água, dessa vez a banheira estava cheia, ela entrou, estranhou ter uma barra de sabão à sua disposição, será que acabou a tortura? As pernas magras se moviam cuidadosas no amplo espaço de cerâmica. Ela pega a barra branca e escorrega na pele para desincrustar a sujeira, o sangue seco e outros fluidos que preferia não lembrar. Sente arder as pontas dos dedos sem garras, apenas seu dedo mindinho ainda estava inteiro, com a promessa de que seria o próximo a ser mutilado. Ela não entendia como conseguiam controlar sua regeneração, os dedos não cresciam novamente como costumava ser. É a penitência, até o tempo nesse lugar maldito parece se arrastar, muito mais do que nos reinos onde esteve antes. A água fria ameniza a dor nas falanges e o ardor entre as coxas, a água turva rapidamente, tingida de marrom avermelhado. Ela escuta as goteiras, por um instante, esse som não a incomoda.
Ela submerge até os ombros sentindo o frio no colo e pescoço, apoia a cabeça e dorme profundamente pela primeira vez em anos. Foi no meio do sono que uma mão empurra a cabeça dela até debaixo d’água. Ela vê através da água o ser de pele cálida e cabelos rubros que gritava com a prisioneira. Quando finalmente a mão se solta de seus cabelos, ela sobe, engolindo o ar o mais rápido que pode, antes de sentir o aperto em sua garganta. O braço forte a elevou no alto e a arremessa facilmente contra o chão de pedra. Ela tenta rastejar, mas ele a arrasta pelos tornozelos de volta. Ele joga os cabelos rubros para trás antes de quebrar o braço dela no chão. O cheiro de almíscar permeia o ar, aos poucos, a pele dele se tornava cada vez mais castanha. Os cabelos, antes longos e vermelhos, se torciam em cachos curtos e rosto de Mefisto se formava na sua frente.
Ao fundo de gritos, ela ouve as goteiras, ecoando enquanto assistem sua humilhação.
— Lucy, onde você está? — Jekyll fala novamente, a mulher balança o rosto, tensa de horror.
A mão com garras a virou segurando-a pelo ombro, as unhas foram fincadas em seu seio enquanto ele mordia seus lábios. Estranho, parecia que outra pessoa segurava seus braços. Não que ela tivesse condições de lutar, não depois de como foi a última vez que fizera isso, ela evitava lutar agora.
Na casa da vampira, nos tempos atuais, o idoso aproxima o relógio no ouvido dela e sussurra.
— Não precisa lembrar de tudo, apenas do rosto dele.
Ele se posiciona entre suas pernas. Sente que o segundo se levanta e pisa em sua mão com a pesada bota de couro.
— No chão. Ele está sobre mim — ela responde trêmula na cama.
Ela sente dor no baixo ventre, sua bacia estava quebrada. Os movimentos repetitivos de Mefisto causam asco, ele está arfando, seu hálito se derrama em seu rosto. O outro ainda estava de pé e pisava em sua mão, estava tomando algo na taça de vinho.
Jekyll percebe que ela está sentindo demais.
— Concentre no seu rosto, apenas nisso.
A mulher respira profundamente com as palavras do amigo, se concentrando, a dor passa instantaneamente. Ela já estava com as garras fincadas no colchão, agora fica mais relaxada, seu rosto solta a tensão.
— Ótimo. Agora, tente olhar o rosto dele.
Na prisão de sua mente, a vampira vira para olhar seu agressor, a face de Mefistófeles aparece sorrindo morbidamente. Um pingo marca o momento de visão, ela oscila a respiração apreensiva.
— Descreva — pede o idoso.
— É Mefisto, mas está errado.
— O que há de errado?
— Ele não sorri assim. É quase sempre de lado, assimétrico.
Jekyll fica pensativo.
— Como é esse?
— Tem presas, sangue e ele sorri simétrico, largo.
— Além do sorriso, o que mais?
Por um instante o rosto deformado de Vlad aparece nitidamente, seus olhos vermelhos, os cabelos longos e negros caem nela.
A vampira ainda deitada na cama do próprio quarto move sutilmente a mão, ainda sendo conduzida pela voz mansa de Jekyll, ela tem as visões misturadas na memória.
Ela se concentra em ver seu rosto, o olho vermelho brilha mais intensamente. Por um instante, os longos cabelos também ficam vermelhos como sangue, em uma cortina que cobria seu rosto.Ela se assusta, mas novamente os cabelos se tornam pretos, ela reconhece as feições de Vlad.
— Não! — murmura a mulher na cama.
— Ele não pode te machucar — Jekyll tenta acalmá-la.
Os olhos vermelhos de Vlad se fecham, se deleitando em prazer, ele treme em um gemido sobre ela antes de deixar seu corpo cair, ofegante, satisfeito. Uma dor em seu pescoço, uma pressão ficando mais forte aos poucos, a mão muito branca a esgana, cabelos como fogo que cobrem parte do rosto de pele muito clara. Essa imagem some, Vlad está deitado sobre ela, uma dor de rasgo em seu pescoço. Ela sente as correntes em seus pulsos, seu pescoço está quente e dolorido, ele se levanta exibindo as presas tingidas de vermelho.
— Você é tão doce, meu bem— disse o falso Mefisto.
Ela se lembra dele entrando na cela com suas botas, do momento em que aquele cheiro doce fez com que o couro lustrado virasse os pés de Mefisto.
— Meu bem — fala a vampira para Jekyll.
— O quê?
— Vlad me chama de meu bem, sempre fez isso. Eu o vejo agora. Os olhos vermelhos. As botas pretas de couro...
— Somente ele?
Vlad segura seu rosto, beijando-a. Ela vira o rosto, vendo alguém se afastar de costas, sua pele é branca como leite puro, coberta de cabelos longos e vermelhos, estava nu com as pernas torneadas. A cada passo que ele dá, mais uma gota cai.
— Quem é esse? — ela fala confusa.
— Lucy, fale o que está vendo — pede Jekyll.
Ela volta a olhar Vlad se levantando ofegante do chão, sua virilha está manchada de sangue, a pesada bota negra pisa em sua mão novamente ao se apoiar para erguer-se.
— Eu tenho certeza que é Vlad, desgraçado nojento. O tempo todo...
O tiquetaquear do relógio está alto, e é a única coisa que ela ouve naquela masmorra.
— Você está bem? — indaga, preocupado, o amigo.
— Sim. Eu quero matá-lo.
— Ótimo. — Ele aproxima o relógio novamente no ouvido dela e coloca a mão em sua testa. — Quando eu terminar a contagem, você vai abrir seus olhos, voltará com todas as lembranças do que viu, sentiu e do que conversamos. Cinco, quatro, três, dois, um.
Silêncio profundo, não existem mais goteiras, ela está em segurança em sua casa. Ele tira a mão da testa dela e dá um sonoro estalo ao lado de seu ouvido, fechando o relógio de bolso. Ela abre os olhos verdes e desperta, em uma estranha calma. Jekyll se inclina e pega a garrafa térmica com chá para beber. O líquido sai frio e morto de sabor na tampa. Ele desiste da bebida e recoloca a garrafa no chão.
— Como está se sentindo agora?
— Melhor. Acho que é a primeira vez que não voltei atacando ninguém.
Jekyll bufa, ele aperta os olhos com os dedos, massageando a face.
— Você foi muito bem, quero dizer, agora quase não teve efeito do alucinógeno que disseram ter usado.
— O que quer que seja, é poderoso. Parecia real, ás vezes parecia até misturar algumas coisas.
— Como assim? Os rostos?
Cabelos curtos e cacheados castanhos de Mefisto. Cabelos longos e pretos de Vlad. Cabelos vermelhos? Não, ela não viu isso. Viu? Eram pretos, é claro que eram pretos. Provavelmente aquilo era apenas mais uma confusão dos alucinógenos.
— Sim. Foi estranho, mas o importante é que não veja mais Mefisto... daquela forma. — Ela suspira aliviada. — Obrigada, Jekyll. As sessões me ajudaram muito.
— Não tem de quê, eu não poderia te negar isso. Eu também já tive muitas memórias para aprender a lidar. Só acho estranho todo esse...
O idoso hesita.
— O quê?
— Mais de cem anos de tortura, Lucy? Sendo que aqui na superfície... eu estava junto de você instantes antes, deve ter sido quarenta minutos, uma hora no máximo.
Ela franze a testa com a confusão dele.
— Sim. O inferno tem um tempo mais longo.
— Sim, isso você já disse, mas tanto assim?
— Normalmente não é assim, pelo que costuma acontecer comigo, uma hora morta aqui correspondia a uma manhã. Seriam seis ou sete horas no inferno. Mas na penitência é diferente. Para que os demônios tenham tempo de sobra para fazer as penitências eternas e ainda terem o tempo deles.
Ela se levanta devagar e se senta na cama, ainda de costas para o amigo confidente. Olha rapidamente o celular, que piscou alertando diversas mensagens de Manson, perguntando dela. Ela lê somente a primeira mensagem e desliga a tela brilhante, não quer responder agora, não quer se comunicar. O idoso que observava tudo a questiona:
— O Manson sabe que no inferno você...
— Não! — ela responde abruptamente.
— Não seria bom ele saber? Afinal, vocês são íntimos.
— E como eu explico que foi alguém se passando pelo demônio que está no meu porão? Ele nem sabe que Mefisto e eu temos... O que quer que seja que temos... Ele não precisa desse tipo de insegurança.
— Lucy, foi você quem sofreu tortura, porque está tão protetiva com ele?
*******
Mefisto está em um dos cômodos do construto criado por Metatron, sentado na cama ele divaga, enquanto os dedos passam suavemente no próprio peito, sentindo a cicatriz recente. A imagem da vampira o atacando em fúria quando retornara do inferno, o atormenta. Foi um corte profundo, mais fundo emocionalmente, do que fisicamente. A pele dolorida e esverdeada no entorno o faz sentir raiva, de ter tido que exibir sua forma verdadeira em público, na superfície. Foi necessário para conseguir contê-la, ele achou que assim, ela se acalmaria mais fácil e, por um instante, realmente parecia funcionar.
A irritação o faz pensar quando ela o viu pela primeira vez como gárgula. Sua mente divaga na memória. Ele fingiu ser outra pessoa, achava que poderia ser rejeitado se o visse assim. O efeito foi o oposto, ela o identificou no mesmo instante, se aproximou, acariciou suas asas, enaltecendo que pareciam feitas de camurça. Disse que era lindo, que o desejava. Ele ficou surpreso pelo interesse dela, até entre demônios havia segregação pela aparência.
A massagem que acalmava a dor em seu peito acabou arrancando a casca de cicatrização, a dor faz dissipar suas memórias e voltar para o porão da vampira. Ele rosna baixo, irritado pela dor, pela guerra e por ter de estar na superfície enquanto assiste ela com outro. Pior, ela ainda tinha horror de olhá-lo, isso tornava tudo insuportável. Então ele sente sua presença, os passos são sutis para surpreender os primatas, ele não era um primata.
— O que está fazendo? — Mefisto questiona do corredor para Lucy, ela olhava a geladeira com as poucas unidades de sangue de doação.
— E-eu...
Ele percebe que ela recuou um passo.
— Precisa de ajuda?
— Não. Eu vou sair para fazer compras, eu só estava conferindo o estoque de sangue, estou preocupada com quando houver um novo ataque. Eu não posso morrer de novo.
— É, de fato, seria bom se isso... não acontecesse. — Ele engasga um pouco na fala. — Não teríamos mais nada a oferecer em troca de sua alma.
Ele fala dando um sorriso desconcertado antes de retomar:
— Espero que um dia consiga confiar em mim novamente.
— Eu não diria que não confio em você. Eu só estou... minha mente nunca foi a mais confiável.
— Sim, claro. Eu é que não poderei mais usar minha fala orgulhosa que sempre cumpro minhas promessas.
Enquanto as palavras saíam, cada uma era dita mais baixo, como se quisesse engolir por vergonha, ou desaprovação própria. Ela concorda com a cabeça, isso parecia ainda pior. Sim, ele prometeu que Vlad não chegaria perto dela e ele chegou, perto de acabar com sua sanidade.
— Você fez o que podia — ela diz, mesmo sabendo que não é uma boa resposta.
— Sim, mas não bastou. E agora você está com pavor de morrer novamente.
Ela pensa em muitas respostas, mas todas elas morrem antes de chegar em sua boca. Ele pergunta preocupado:
— Você não vai lutar no próximo ataque?
— Acha que eu te deixaria na mão? Você me pediu ajuda, eu farei isso.
Ele sorri lateralmente.
— Mesmo que tenha que fazer isso perto de mim?
Ela respira profundamente.
— Eu sempre lutaria ao seu lado. Eu sei que... que não foi você. Eu só preciso de um tempo para tirar aquela imagem da minha cabeça.
— O tempo que precisar, Lucy.
Ela fecha a geladeira que estava conferindo e sobe as escadas em direção á parte superior da casa. Lá, ela encontra o namorado policial que a aguardava no sofá.
— Tudo pronto? — pergunta Manson, com a lista de compras na mão.
— Sim, eu vou passar no banco de sangue essa noite, tenho poucas unidades aqui. Dependendo de como e onde for esse novo ataque, posso ter problemas depois, quero me garantir.
— Tá, mas agora, vamos só no mercado né? Uma coisa normal de humanos, sem nada estranho...
— Nada estranho.
— Vocês precisam de uma mão? — fala Hidekki após jogar fora a gimba de cigarro, a brasa ainda acesa cai no jardim.
— Não. Obrigada, Hidekki, eu devo volt... — A mulher observa chocada para a mão mecânica que Hidekki usava, ele movia os dedos perfeitamente quando cruzou os braços, exibindo a peça. Porém, a pele artificial tinha sido removida, deixando inteiramente expostos seus emaranhados de fios e brilhos elétricos. — Vejo que está usando a mão.
O magricela sorri debochadamente.
— Ainda não dá pra desenhar, mas logo pego o jeito. Ficou bom, né?
— Achei que não tinha se incomodado com a pele.
— Não era a minha pele, Lucy. Não fazia sentido ter uma, não importava a cor.
— É, acho que tem lógica. Vou fazer compras. Se precisar de algo, me avise.
— Claro.
Lucy e Manson acenam entre si em um desconfortável sorriso. Ela se sentia sendo vigiada pelos olhos do adolescente quando entra no carro do policial rapidamente, ambos atormentados pela cena. Ele liga o carro e dirige por intermináveis dois quarteirões em silêncio, antes de vomitar seus pensamentos:
— Ele me dá arrepios.
— Ele só tem vinte e dois, foi torturado pelo Clinton e perdeu uma mão. Dá um tempo.
— Eu já prendi gente que me olhava como ele. É sério, Lucy. Ele mudou — Manson fala com as mãos tensas no volante.
— É claro que mudou, todo mundo muda depois de tortura, Manson.
— Ele tirou a porra da pele da mão, Lucy!
— Ele não... não era pele de verdade, ele deve ter achado maneiro, uma mão mecânica, você já viu os animes que ele assiste? Tem personagens em quadrinhos assim, sem contar que ele gosta de eletrônicos e programação, sempre gostou.
— Não é a mesma coisa, ele está frio, fala estranho, Lucy! Como você não enxerga isso?
Ela leva as mãos no rosto para se acalmar e fala, já irritada:
— Dá pra ir ao mercado logo? Eu só quero resolver isso, esse monte de gente na minha casa acabou com toda minha comida. Se possível, vou comprar algo para beber também.
— Ah ótimo, vai recomeçar o ciclo novamente! — ele eleva o tom de voz.
— O quê?
— Eu não vou te carregar do banheiro de novo se você passar mal, não quero mais ver isso, Lucy.
— Não! Não assim, é para nós, seria bom passarmos uma noite mais tranquila.
Ele a espia rapidamente e volta os olhos na avenida novamente.
— Nós? Você quer dizer nós dois? Sem demônios, vovô monstro ou psicodekki?
— Nós dois, acho que precisamos desse momento.
Ela sorria tentando passar tranquilidade, escondia que estava apreensiva, isso daria certo? Era cedo demais? Naquele momento ela só queria superar essa angústia. Afinal, Manson merecia carinho e atenção no pouco tempo que ainda tinha. Ela estava no centro do turbilhão de pensamentos enquanto mantinha o sorriso. Então ela nota que ele não sorria, pelo contrário, seu rosto estava em clara preocupação. Ela percebe que o carro desacelera, estaciona embaixo de uma árvore, o freio de mão foi puxado ruidosamente antes de ele virar para ela. Os olhos negros a avaliam, se acomoda tomando um tom de voz estranhamente mais baixo do que o costume.
— Lucy, o que está fazendo?
— O quê?
Ele inclina o rosto tentando fugir do sol, a sombra da árvore não foi o suficiente, suspira abrindo um botão da camisa clara.
— Você não quer fazer isso, não agora. Não precisa fazer nada pra me agradar, ou para que eu não pense besteiras.
— Do que está falando, Manson? Acha que não quero ficar com você?
— Estou falando do sexo em si. — Ele foi direto, ela sempre gostou de ele ser sem meias palavras. — Desde sua última morte, há duas semanas, não tivemos mais do que um abraço ou beijo. E está tudo bem, eu realmente não estou com pressa.
— Eu só quero superar essa merda. Eu mal lembrava de você quando retornei, e depois, são tantas lembranças, tudo o que vivi foi repassado e misturado. Toda a vida de merda que eu... eu só quero voltar a me sentir eu mesma, e se possível, queria que você me ajudasse nisso.
— E ficarei feliz em ajudar, mas não acho que seja a hora.
— Acha que eu posso tentar te matar como na semana passada? Era um pesadelo...
— Não! Não é isso... eu não tenho medo de você, Lucy.
— Não mesmo? Olha, Manson, eu estou tentando lidar com as memórias, Jekyll está me ajudando muito com isso, a hipnose me ajudou a controlar melhor.
— Está lidando melhor com o estupro?
Ela paralisa, os olhos verdes quase ficam trêmulos.
— Isso não aconte... — ela responde imediatamente, mas logo observa que ele suspirava, como se dissesse que ela não o convenceria do contrário. Ele não era idiota. — Ele te contou? — a voz dela sai quase em um murmuro.
— Não, foi você mesma que falou. Você sabe que fala enquanto dorme? Eu ouvi quando você me atacou, até pouco antes de quase me tornar um quadro na parede do quarto...
Merda, merda, merda. Ele ouviu tudo? Ouviu que era Mefisto? Não, não era ele, era Vlad, sempre foi. Ela afoga os pensamentos quando busca em como pode desviar das palavras comprometedoras.
— Era apenas um pesadelo, não signi...
Ele segura as mãos dela.
— Ei, você já tinha me contado que tinha sofrido esse tipo de ataque, não é de surpreender que fizessem você reviver no inferno.
Reviver?
— Sim. Foram... os mesmos ataques que já tinham acontecido.
Ela ficou aliviada, aparentemente ela não chegou a dizer o nome do demônio, ou ele não ouviu.
— Enfim, o que quero dizer, é que entendo porquê me afastava no começo. Depois desse pesadelo, tudo ficou ainda mais claro pra mim. Leva tempo para você ficar à vontade de novo. Então, não quero que você sinta que tem que me agradar de alguma...
Ele falava de como ela poderia tratar as próprias emoções depois de um trauma. Logo a ela, que antes mesmo da penitência, tinha tantas feridas diferentes que nem conseguiria contar todas. Mas tudo bem, pelo menos ele não achava que ela tinha sido abusada por Mefisto, bastava ela mesma superar ver assim. Nossa, como queria beber agora, sangue e vodca, quantidades obscenas de ambos.
Então ele desatou a falar continuamente. Ela balançava a cabeça concordando em momentos pausados, não estava ouvindo realmente, não queria, ainda menos dele. Ela observou os dentes manchados de nicotina, lembrou que quando o conheceu, ele vivia com aqueles malditos chicletes, na vã tentativa de largar o vício, até desistir e se entregar. Ela notou, que atrás dele passaram adolescentes rindo enquanto atravessavam a rua, um avião passou deixando um rastro no céu, observou as ondas de ar quente emanando do vidro ensolarado do carro.
Enquanto ele usava palavras como “resiliência” e “ressignificar”, que provavelmente aprendeu em alguma exaustiva palestra de como lidar com sobreviventes, ela divagava, como não se sentia assim. Por favor, não me trate como vítima. Agora ela oscilava em raiva, a ansiedade crescendo aos poucos como erva daninha. Tinha vontade de atacar tudo e todos, talvez abandonar a cidade, ele, Hidekki, Jekyll e todos os demônios.
China. Foi bom viver na China por quase duas décadas. Ela ainda tem uma queda particular por mulheres asiáticas. Ah é... também não acabou bem.
Os pensamentos passavam como carros aleatórios no tráfico intenso. Mas não dessa vez, ela não iria fugir agora, não iria ser um monstro. Ela tinha que ser controlada, seja a heroína que ele acha que pode ser, mesmo que esteja se cagando de medo de morrer novamente. Ela nunca teve esse receio, e agora, justo agora, era um tormento.
Infelizmente ele não parava de falar, ela não queria uma sessão de terapia, mas sim uma garrafa de vodca, de LSD de boa qualidade, queria esmurrar alguém muito grande e que jorrasse muito sangue até não sentir mais as mãos. E depois de matar algumas pessoas, demônios, condenados ou qualquer coisa, queria usar drogas e beber até cair de novo, recomeçar. Mas ele não parava de falar.
Isso estava a martirizando, e o pior, ele só estava sendo gentil, não tinha culpa que só estava piorando tudo e ela queria que isso parasse
Pare, por favor, cale a boca.
Manson, apenas fique quieto, por favor, suma. Se você continuar, talvez eu queira te agredir.
Quero sumir, deixar de existir.
Então ela decide que vai falar a única coisa que o faria silenciar.
— Eu te amo, Manson.
As palavras dela cortaram não só a fala dele, mas como alguns de seus neurônios também. Ele dá um sorriso tolo e quando está olhando para ela, a mulher sorri de volta. Era genuína felicidade, não pelos motivos que ele pensava, mas pelo silêncio tão desejado. Logo em seguida, sua feição muda para o temor. Os faróis muito próximos em alta velocidade os atinge na lateral dele. Ela só tem tempo de cortar o cinto e envolver com os braços a cabeça dele, para tentar o proteger. O impulso da batida é forte o suficiente para fazer o carro capotar.
*******
Quando os portais se abrem na superfície, Belzebu, Abigor e Abadon passam com suas tropas de demônios e amaldiçoados. Abadon abre uma caixa branca perolada e entrega duas espadas reluzentes para cada um. Abigor observa os signos dourados desenhados ao longo da lâmina.
— Cuidado com isso, toque somente no cabo — avisa Abadon, com seus seis chifres e face de caveira.
Abigor fica surpreso e Belzebu já balança as espadas de um lado a outro, testando seu peso.
— Achei que não teríamos armas abençoadas. — Abigor tenta disfarçar o desconforto.
— O anjo acabou entrando em contato. Demorou, mas chegaram. Inclusive, ele garantiu que agora o veneno pode matar em poucos minutos.
Abadon indica o caminhar da tropa de condenados que portam lanças, arcos e espadas reluzentes, ele flutua com seus pés ossudos que saíam do manto negro, pairando pouco acima do chão. Abigor fita impressionado e apreensivo, está pensativo de como fará para impedir que consigam matar o grupo resistente. Sua mente zunia quando sente a ponta da lâmina abençoada cutucando perigosamente sua armadura. Seus olhos fendidos percorrem desdenhosamente até seu irmão que o instigava, Belzebu.
— O que foi? Está com receio de matar os traidores, serpente? — Belzebu o provoca com a ameaça das toxinas divinas presentes na lâmina.
— Eu não tenho receios de guerras, Belze, só de ser feito de marionete.
Abigor caminha se separando do grupo e avisa antes de se afastar totalmente:
— Aliás, Belzebu, a próxima vez que você apontar qualquer coisa para mim, eu farei você engolir sua própria cauda.
Os demônios se dividem em três grupos, cada um seguindo por uma das ruas da cidade do jazz. A tropa de espanhóis coloniais seguia atrás de Abadon na rua a oeste. Na rua a leste, Abigor foi com seu pequeno grupo de mongóis, enquanto Belzebu, seguiu pela rua central com uma tropa de britânicos. O foco agora não é mais matar apenas o grupo, mas de sacrificar o maior número possível de mortais. Eles logo chamam a atenção, alguns poucos tiros de policiais locais tentavam conter os ataques, mas rapidamente, os bares e hotéis luxuosos estão sendo atacados. O centro turístico era conhecido pela sua intensa movimentação, ainda mais durante o carnaval.
*
Quando o portal de Mefistófeles se abriu na zona central, já haviam diversas lojas incendiadas, e pessoas em pânico em fuga. Os policiais inutilmente atiravam e poucos condenados caíam alvejados. Mefisto segurou no ar uma viatura que voava com a explosão, e por pouco, não atingiu um grupo de pessoas. Ele fala pelo comunicador com Hidekki, que ficou no porão de Lucy, vigiando as câmeras de segurança das ruas.
— Para onde eles foram, Hidekki?
— Estão em três grupos, norte, leste e oeste desse ponto que vocês estão.
— Três? É por isso que está pior dessa vez... consegue ver se são os mesmos?
— Os dois da outra vez, mais um que tem mais chifres e parece uma caveira. O baixinho está na rua central, ao leste está o cobra, e a oeste está esse novo, que agora acabou de mostrar que sabe voar.
— Maldição! Meta, preciso que você me auxilie com Abadon.
— Achei que sua preocupação era com Abigor. — Metatron fica confusa em seus olhos brancos leitosos.
— Ah, cara anja, não tem nada tão ruim que não possa piorar.
Jekyll abre um frasco e toma sua poção, iniciando sua transformação, Belial brilha seus olhos vermelhos iniciando a duplicação de diversas cópias de olhos brancos. Yuri toma sua forma de licano, contorcendo seus músculos para se reposicionar no dorso de ombros já muito largos. Suas garras estão expostas, e a pele coberta de pelos acinzentados quando ele olha em volta. Preocupado, ele nota muitos corpos de vítimas no chão, o cheiro de sangue se espalha no ar devido ao asfalto quente. Yuri questiona Mefistófeles:
— Alguma notícia da Lucy? Onde ela está?
— Eu não sei, ela deveria já ter voltado, mas ela vai ficar sabendo desse ataque, certeza que aparecerá aqui em breve — disse Mefistófeles, indicando ao grupo de repórteres, que já estavam provavelmente transmitindo para a televisão local.
— É bom ela chegar logo, ou precisaremos de um milagre para não matarem toda a cidade em horas.
Yuri sai, e o demônio retoma a fala com Hidekki pelo comunicador:
— Você ainda está ligando pra ela?
— Não parei de ligar, só toca o celular, ninguém atende, nem o Manson. Devem estar em algum lugar sem sinal.
— Bom, continue tentando. Se conseguir, me avise.
— Claro.
No porão da vampira, Hidekki traga profundamente e joga a guimba no copo com resto de café enquanto olha para as diversas câmeras de segurança. Lentamente, os olhos espiam a tela do celular e lê a notificação do banco. Uma gorda transferência de muitos zeros tinha acabado de chegar em sua conta. Ele sorri, pega o outro celular, o mais simples, que recebera recentemente do traficante e lê a mensagem.
Pacote recolhido, destrua esse aparelho.
— Foi bom fazer negócios com você — ele murmura enquanto desmonta o aparelho e o joga em uma lixeira metálica, o fluido de isqueiro é jogado por cima e o fogo é aceso, criando uma chama intensa.
O tremular das labaredas tem um efeito narcótico nos olhos de Hidekki. Ele se levanta, abandonando seu posto de telas e vigília pelos aliados amaldiçoados. Vai até o meio do porão, junto da boneca de pano antiga protegida pela caixa de vidro, se abaixa observando os detalhes bordados. Fica pensativo de como auxiliou Lucy a encontrar o quadro de sua família morta na idade média. Na pintura, a boneca estava presente nas pequenas mãos da criança, o casal feliz exibia a filha e o amor autêntico. A vampira demonstrou gratidão intensa por ele, ainda adolescente, quando encontrou o quadro. Isso foi há muito tempo, ele pensa, em um tempo em que o policial não estava presente, dividindo a atenção dela. Ele afasta o rosto da caixa vítrea devagar, então sua mão mecânica bate na proteção de uma única vez, despedaçando-a. A mão mecânica avança devagar, recolhendo a frágil boneca.
*******
Quando Belzebu vê Belial acompanhado de Yuri, fica surpreso. As cópias do demônio em olhos brancos se distribuíram pelo espaço em defesa dos civis que eram atacados pelos condenados britânicos. Enquanto Yuri corria para destroçar os soldados, Belzebu tenta se aproximar do verdadeiro Belial, seu cabelo inteiramente trançado com diversas contas brilhantes vermelhas, tal como seus olhos. Sua túnica negra possuía um peitoral de proteção em bronze, forte para armas comuns, mas inútil contra as espadas abençoadas.
— Achei que tivesse morrido, Bel. Da última vez que te vi, você foi feito de espeto por Vlad. Ele até ficou triste de ter perdido a espada.
— Eu não caio com facilidade, Belzebu, e nem me curvo a qualquer um.
Belzebu ri histericamente.
— Realmente, você gosta mesmo é que te tratem como vaca, já que gosta de um boi encima.
Belial treme as pálpebras em ojeriza.
— Satanás! Como você é infantil, Belze. Poucas coisas são mais patéticas do que um demônio moralista.
— Isso não importa agora, já que seu búfalo está morto.
— Com todo respeito, Belze, mas isso não me preocupa, você não teria tamanha competência.
— Abigor é quem fez a limpeza, eu mesmo vi o abatedouro.
Belial oscila sua feição entre pânico e fúria, em seguida, olha para os lados, tentando saber onde seu irmão Abigor estaria serpenteando. Belzebu o ataca, o que Belial defende com certa facilidade.
*
Na rua onde a serafim estava, Abadon desaparecia em uma penumbra negra, avançando em ataque. Ele levanta as mãos invocando quatro diabretes de cólera, que passam a circular a Metatron, causando delírios, a impedindo de lutar. Feliz com o feito, ele admira a manipulação, em um largo e cruel sorriso. Mefisto o ataca no ar em sua forma verdadeira, de gárgula esverdeada, o chamando para lucidez:
— Abadon! Não deveria se aliar a Astaroth, ele vai acabar destruindo tudo com essa loucura!
— Eu me alimento de ira, Mefistófeles, para mim, toda guerra é lucrativa.
Abadon agarra o demônio da heresia e aspira o ar próximo ao seu rosto, inalando uma névoa rubra que sai de seus poros. Mefisto se contorce e o empurra, atordoado, ele cambaleia e cai em cima de um carro, destruindo-o com seu peso. Abadon, com seus olhos negros profundos, se ramificam em outros dois pares em sua fronte. O manto negro se abre, enquanto ele alça voo abrindo os braços e revelando mais ossos das costelas e bacia, imersos no vazio trevoso de seu corpo. Ele parece estar em transe e plena felicidade de poder.
— Ah, irmão. Você realmente está furioso com essa guerra, eu poderia me deliciar só com você! Mas agora, eu desejo fazer uma colheita!
Mefisto fica em desespero.
*
Enquanto Baphomet usava sua lança contra os soldados que estavam dispersos, Abigor está em sua forma de naga. Suas escamas negras e amarelas deslizam rapidamente para fugir dos golpes da maça de Azazel, que voa entorno da grande meia serpente. Porém, Jekyll consegue agarrá-lo por trás, segurando-o firmemente pelos braços, para que o anjo renegado o atinja. A clava bate em cheio no rosto de Abigor uma vez, mas quando Azazel volta para acertar novamente, o corpo do demônio se modifica, crescendo em uma serpente naja completa e imensa. Não há mais braços para que Jekyll o segure, o corpulento escamoso sibila com sua boca, exibindo suas presas. O capuz de sua cabeça abre em duas abas, as cores vermelhas e amarelas movem-se em um mosaico fluido.
Azazel, assim que vê a figura, fica paralisado, hipnotizado pelo mosaico do capuz da serpente gigante. A clava do anjo desliza de sua mão, caindo no chão. Jekyll se esgueira atrás, mas a naja gigante se vira para ele, capturando sua atenção. O sibilar que reverbera de sua garganta sai junto de sua língua anil, sua cauda com ponta metálica se movimenta devagar, posicionando-se para um golpe fatal. Então o grito de Belial chama sua atenção, a cobra reconhece a voz e se alonga para o alto, em busca do demônio negro, o encontra lutando com Belzebu.
*
Abadon sobe no ar, seus braços abertos comandam seus soldados que armam as flechas.
— Não faça isso, filho. — Lúcifer aparece, logo abaixo daquele que parece a própria visão da morte.
— O quê? Pai?
Os quatro olhos negros de Abadon se surpreendem com a presença daquele que há muito tempo não via.
— Ah, filho. Você sempre está faminto, eu devia ter te colocado no círculo da gula.
O caveira desce até o chão, ficando frente ao seu criador e estranha sua aparência.
— Pai, você está muito magro! E estranhamente é eu que estou falando isso.
Lúcifer ri da situação, o caveira sorri de volta nas alvas saliências pontiagudas, se aproximando afetuosamente.
— Abadon, vamos acabar com essa guerra, não precisa ser dessa forma.
— Que cheiro bom — Abadon sussurra, enquanto estreita os olhos de forma vagarosa, saboreando o deleite.
— O quê? — Lúcifer recua o rosto, temeroso.
— Você, pai. Você ficou tão furioso por termos te traído.
Lúcifer percebe que Abadon o segurava pelos pulsos e começa a aspirar sua ira da prisão. A cada vez que enche os pulmões, sua capa negra parecia ficar maior. Mais uma puxada de aroma colérico e ele abre a capa negra, revelando mais de seu corpo de penumbra. Mais um par de braços sai do dorso e segura o dorso do pai, o aproximando. Lúcifer grita e se contorce fracamente em desespero quando Mefisto atinge Abadon por trás, com sua espada conjurada.
A dor faz com que Abadon solte o pai, enfraquecido e caído no chão. O demônio da ira vira-se, sacando suas duas espadas reluzentes em um movimento cruzado. Mefistófeles engole em seco e rapidamente conjura uma segunda espada para tentar se igualar. Abadon sorri ao ver que a lâmina esverdeada treme na mão do irmão mais novo. Ele desaparece no ar e ressurge nas costas de Mefisto, que defende o golpe, perdendo o equilíbrio. Ele responde com um golpe lateral em que Mefisto desaparece em uma névoa verde e ressurge do lado e Abadon, que o bloqueia facilmente.
— Mefisto, lembre das brincadeiras de criança, sabe muito bem que isso não vai acabar bem pra você.
— Eu não posso deixar Astaroth vencer isso!
Abadon sorri com os dentes pontiagudos, então estreita os lábios para aspirar a ira de Mefistófeles, que responde com um chute entre as espadas.
— Para com essa porra!
Abadon se afastou poucos metros, mesmo em sua forma verdadeira de gárgula, Mefisto não era forte ou ágil como ele.
*
Abigor, em sua forma de serpente gigantesca, tinha hipnotizado completamente Jekyll e Azazel, ambos balançavam junto do pulsar das cores em mosaico da cobra. Mesmo com os gritos de Baphomet, eles não despertavam, ela não podia simplesmente deixar de lutar com os soldados que ainda estavam dispersos na área. Abigor finalmente avista Belial, então a serpente tremula suas escamas, como se buscasse do fundo de sua garganta alongada o som específico. O silvo é baixo e sai como um aviso para seus soldados que param imediatamente. Baphomet percebe que não havia nenhum morto naquele local, os condenados estavam assustando as pessoas, mas provocavam apenas ferimentos leves para causar sua fuga.
A demônia cabra olha para Abigor, tentando entender qual é sua verdadeira intenção. Ele balança seu eixo, exibindo o mosaico do capuz, mantendo a hipnose em Azazel e Jekyll, então o olhar da cobra vai para Baph e para.
— Fiquemmmmm aqui, preciiiso falar com Bel — a cobra avisa rapidamente e nota que Belial já tinha desarmado Belzebu.
Baphomet acena confiança com a cabeça e vê o serpente se lançar contra Belial, afinal, ele agora estava encurralando Belzebu, que rastejava para trás. A cobra gigante se enrola, prendendo Belial, porém sem apertar demais. Belzebu respira aliviado ao ver que seu oponente era levado cada vez mais ao alto.
— Desgraçado! Você o matou! — Belial grita furioso para a serpente.
— Não, me escuta! — Abigor volta à sua forma de naga para falar, mas grita de dor após duas cópias de Belial, voltarem, atingindo sua cauda.
Ele deixa Bel cair no chão e se contorce voltando à serpente completa, usando a cauda longa para rapidamente afastar as cópias que o atacavam. Ele mal tem tempo quando percebe que Belzebu se aproxima com a espada abençoada para o matar Bel, que ainda estava atordoado no chão. Abigor volta à forma antropomórfica e vai rapidamente para as costas de Belze, prendendo-o com os braços em um mata-leão. Ele tomou cuidado para que o demônio da ganância não soubesse exatamente que era ele quem o esganava por trás, e rapidamente, deixa-o desacordado. Belial, surpreso com a ação, encara os olhos verdes fendidos do serpente.
— Seu maldito — dizia o negro, enquanto girava sua espada.
— Espera! — Abigor levanta as mãos pedindo calma, ele tira as espadas abençoadas rapidamente do coldre e as joga no chão, indicando que não irá lutar. — Baal está vivo, todos os orobas estão bem.
Belial para seu movimento, ainda segurando sua espada no alto.
— Não acha que vou... — Belial rosna, desconfiado.
— Baal sempre foi meu braço direito, eu não trairia os orobas por um capricho de Astaroth. — Abigor move a mão devagar, abrindo seu uniforme militar, a mão estava buscando algo no bolso interno.
— Pare — avisa Belial, posicionando sua lâmina para o pescoço longo do serpentino, que volta a mão para o alto.
— Pegue você mesmo, está no meu bolso da frente.
Belial prende a espada no cinturão, invoca uma adaga e a posiciona na garganta do irmão ao se aproximar. A mão esguia de Bel se move devagar pelo tecido, tateando o bolso e trazendo um delicado brinco de pérolas. Ele observa a peça ainda confuso quando o comandante da violência diz:
— Baal mandou te entregar, para mostrar que está bem.
— Boi sacana... — fala Bel, aliviado.
Ele sorri levemente, pensando sobre o brinco em questão, era algo que precisaria ser conversado com seu amado búfalo mais tarde. Ele respira fundo antes de retomar ao irmão cobra:
— Como você fez isso? Belzebu disse que viu...
— Eu fiz uma ilusão, tive sorte que não foi o Abadon que foi verificar, provavelmente eu estaria morto.
— Baal está ferido?
— Ninguém se feriu, eles estão escondidos. Baal também está agoniado achando que Vlad tinha conseguido te matar. Eu disse a ele que você devia estar se recuperando.
— De fato, foi por pouco.
— Você tem alguma mensagem que eu deva dizer para ele?
Belial tenta se conter, mas a emoção vem a face. Ele corta uma das tranças com contas vermelhas e entrega ao demônio da violência.
— Diga... que estou com saudades e que ele não ouse morrer.
Abigor levanta uma das sobrancelhas.
— Agressivo e romântico, gostei.
Belial ri, grato. Abigor suspira antes de falar:
— Eu preciso que vocês levem embora Belzebu, ele é um fanático, fará qualquer coisa para agradar Astaroth. Toda hora ele me atrapalha me seguindo, tenho receio de ele descobrir Baal e os orobas escondidos em meu castelo.
— Levar Belzebu é perigoso, e se ele escapar?
Abigor pressiona os lábios em desdém.
— Por satã, ele é o senhor das moscas, não das armas.
Belial olha em volta e percebe que os soldados pararam, Yuri e Baphomet voltam confusos quando percebem que os soldados simplesmente pausaram a luta e ficaram estagnados em transe. Azazel e Jekyll também já estavam próximos.
— O que você planejou? — questiona Belial para Abigor.
*
Abadon dá duros golpes em Mefistófeles que se desconcentra, uma de suas espadas feitas em construto se parte. Em mais um gesto, o esquelético talha o braço direito de Mefisto em um corte liso e longo. O demônio da heresia grita, perdendo sua arma que se desfaz no momento de dor, ele se afasta, voando com suas asas. Então sente um formigamento crescente em seu braço e vê que foi contaminado por algo branco, que se ramifica rapidamente ao longo do corte extenso. Ele olha para as espadas nas mãos do caveira, observando os signos dourados na lâmina.
— Mas essas armas são abençoadas, nós não podemos segurar, como?
— Você é o demônio dos contratos, deveria saber que é bom ter com quem negociar.
Abadon se aproxima, Mefistófeles está com o braço direito dormente, com o esquerdo ele cria uma espada. Mas o veneno parece se espalhar rapidamente por ele ter usado as asas, ele pousa titubeante no chão e vê a imagem da morte cada vez mais perto. Quando se defende, usa as asas para saltar rapidamente, desviando do ataque. O caveira o rodeia e finca a ponta da lâmina dourada no joelho esquerdo de Mefistófeles, que urra de dor.
— Desiste, sangue sujo! — o caveira provoca.
— Cala a boca!
Abadon torce a espada antes de puxar, arrancando um sibilo dolorido de Mefistófeles ao sentir sua rótula descolada, ele desaba no chão. Abadon levanta a espada no alto, alinhando a lâmina no pescoço do agonizante, que consegue escapar ao tornar-se uma fumaça verde. Ele reaparece, mas não consegue apoiar o pé, precisando sumir novamente para escapar de outro golpe envenenado.
Mefisto desaparece na névoa verde e reaparece diversas vezes, tentando cansar o caveira, que finalmente para, usando seus quatro olhos para captar a áurea colérica do demônio. Os olhos superiores do caveira brilham encontrando Mefisto, que surge muito próximo dele, tentando um golpe de cima contra a caveira, que responde com um gesto certeiro em seu estômago, atravessando a espada no ventre da gárgula. O caveira segurava firmemente o cabo conduzindo Mefisto, que tentava sair da lâmina. A mão branca e esquelética torce o cabo, o girar do aço divino faz Mefistófeles gritar e cuspir seu sangue azulado, recuando, ele tropeça e vai ao chão. Ele se contorce em dor, sente seu corpo com diversas contrações como se ele estivesse sendo torcido internamente. Um pulsar frio se expande da lâmina fincada e do corte de seu braço, então olha a caveira sorrindo morbidamente acima, se posicionando para decapitá-lo.
Mefisto olha para o sorriso largo de dentes pontudos quando um brilho dourado no céu explode, emanando uma estranha luz. O caveira nota a luminosidade peculiar, vira-se a tempo de ver o céu ser cortado por um feixe dourado, o som de estouro só consegue chegar depois. A luz bate no chão de uma vez, fazendo com que Abadon levante um braço para proteger o rosto da poeira.
— Quem diabos é você?
Mefisto só vê o vulto dourado passando e lançando Abadon para o outro lado, abrindo um buraco na terra. Metatron finalmente pode se livrar dos construtos que a prendiam, já que Abadon ficara finalmente desacordado. A arcanja Jehudiel sai da cratera, em uma armadura dourada no estilo egípcio. Sua cabeça negra e lisa possui desenhos dourados, fazendo um adorno e também uma áurea de proteção. Sua espada curva khopesh faz um estranho som quando corta o ar.
— Achei que os arcanjos tinham decidido não interferir — diz Metatron, se aproximando.
— Eu não cheguei a dar meu voto. E eu vim por mim mesma, não pelos arcanjos. — Jehudiel tem uma voz ressoante, quase como se tivessem várias vozes juntas.
Mefisto se contorce no chão em dor, Metatron se abaixa para iniciar o processo de cura, começando por remover a espada, de forma que a lâmina estivesse intangível e assim reduzindo os danos. O demônio urra de sofrimento, suas garras se fincam no asfalto quente tentando se segurar enquanto, em seus braços, sobem tremores tensos. Abadon se levanta e ataca a arcanja, que voa em suas quatro asas, ambos travam uma batalha no ar onde ela gira o corpo com facilidade para confundir e cansar o demônio. Lúcifer finalmente chega e segura os braços de Mefistófeles no chão, tentando contê-lo.
A espada abençoada foi removida e jogada de lado, a lâmina brilhante está cheia de sangue azul índigo. Metatron pode colocar suas mãos no corte profundo do abdômen de Mefisto para canalizar o contaminante divino que se distribuía em sua carne. A absorção queima por onde passa na pele verde do demônio, que é contido por Lúcifer para que não se debata mais. A coloração enegrecida dos dedos da serafim passam a subir por suas mãos e pulsos. Ela sente sua mente confusa e cada vez mais colérica. Mefistófeles respira rápido, hiperventilando, ele rosna quando seus caninos ficam mais expostos, saindo pelas gengivas que sangram em sua boca. As escleras dos olhos foram tomadas completamente pelo amarelo, sua pupila se estreitara em um fio tão estreito que era quase ausente. Ele sente seu coração acelerado, se debatendo na caixa toráxica, como se quisesse escapar da contenção.
— Está muito mais forte dessa vez, mais tóxico! — avisa Metatron.
— Não pare, está funcionando! — Lúcifer falava quando, de súbito, a gárgula verde respira profundamente e solta um longo rugido de agonia, fazendo o terreno tremer.
Abadon vê do alto que Mefisto quase não respira depois do urro, mas esse momento de contemplação permite um golpe certeiro de Jehudiel, que corta sua espada parcialmente abençoada. Desarmado, o demônio não tem escolha a não ser desaparecer para livrar-se dos golpes diligentes dela.
É nesse momento em que finalmente Abigor aparece, fingindo escapar dos outros membros do grupo e junto dos soldados. Ele se junta a Abadon que estava esgueirando-se de Jehudiel.
— E Belzebu? — questiona Abadon ao aparecer junto do naga.
— Ele foi pego, eles se uniram contra nós.
— Que se foda o Belze — responde Abadon, abrindo o portal para que ele e Abigor fujam.
Os amaldiçoados e condenados que não conseguiram passar nos portais, aos poucos, se deterioraram em uma poeira acinzentada. Jekyll, e Belial chegam logo em seguida, eles correram ao ouvir o rugido de Mefistófeles, o demônio do Limbo fica chocado ao ver o estado de seu irmão ao chão.
— Não, ele também! — ele murmurava lembrando das próprias dores que sentiu quando estava contaminado, mas ao olhar para o irmão, ele se assusta. Aparentemente, pela quantidade de ramos brancos na pele de Mefisto, ele estava muito mais envenenado do que ele foi. Mesmo que tivesse ficado com a espada fincada por muito mais tempo no corpo.
Rapidamente ele se ajoelha para segurar seus pés, que batiam com os calcanhares diretamente no asfalto, e Jekyll passa a segurar os braços para que Lúcifer mantivesse sua cabeça em segurança. Com o abdômen completamente fechado e sem contaminante divino, agora Metatron precisava retirar a toxina do joelho e braço de Mefisto. Os fios brancos de veneno tinham coberto totalmente a coxa trêmula, a celestial rapidamente absorve as toxinas que recuam em queimaduras ácidas e pouco se preocupa com a rótula pendente, já que estava preocupada com o avanço do veneno. No braço, os fios brancos se subdividem até seu pescoço e alguns já chegavam ao peito.
Sentindo que seu coração estava bombeando o veneno diretamente ao seu cérebro, o gárgula se contorce, apoiando as pernas no chão e movendo seus quadris para cima. A serafim sobe em seu abdômen para usar o próprio peso para contê-lo, já que suas pernas não paravam, e criava ainda maiores feridas os quadris com as batidas. A boca verde passa a espumar enquanto escapam guinchos disformes, seus olhos viram para cima. Ele convulsiona, sua cabeça acaba escapando das mãos do pai batendo agressivamente no chão. As asas raspam freneticamente no asfalto quente, o esfolamento intenso deixa alguns de seus ossos à mostra. Foram longos minutos de espasmos horrendos e continuava até que as veias brancas diminuam, permanecendo somente as que estavam próximo do corte.
Os braços de Metatron já estavam completamente negros, seus olhos parecem buracos em sua face. Ela sofre com a absorção, e ondas de energia saíam em símbolos geométricos intrincados. O solo em volta começa a tomar forma de seu círculo, misturado a cubos intersecionados. Ela sente, absorvendo não só o poluente divino, mas também muito da essência do próprio demônio. As linhas negras agora se ramificam em seu alvo pescoço.
Quando o corte do braço de Mefisto finalmente fecha, ele respira falhado pela boca, o ar entra ruidoso em seu pulmão como se estivesse se afogando instantes antes. Metatron finalmente solta suas mãos da pele de camurça verde do demônio e cobre o próprio rosto com as palmas, sentindo sua pele queimar. Jehudiel vai até ela, tentando conter suas contorções. Uma risada difusa se inicia, quando a arcanja a toca, a mão enegrecida de Metatron acaricia seu rosto, exibindo a língua que percorria o lábio superior de forma maliciosa. Jehudiel se assusta e se afasta, ouve a serafim dar um gemido baixo, claramente em luxúria e depois falar:
— O que aconteceu? — diz Metatron com a voz oscilante em um tom angélico suave e um mais grave gutural.
— Você estava curando Mefistófeles — responde a arcanja em seu traje egípcio.
— Ele está bem?
A angélica olha para Lúcifer, que está com o rosto muito próximo da narina verde do demônio delirante. O antigo rei avisa:
— Você o salvou. Obrigado.
— Achei que me desejava morto — responde Metatron com os olhos amarelos e sua voz mista.
— Por quê? — Lúcifer fica confuso, mas entende que ela acabou capturando talvez até memórias dele.
— Pensei que me odiasse por eu ter sido um dos que te colocou na prisão.
— Ainda é meu filho. Eu não dou meus filhos em sacrifício, nem mesmo em meu nome.
Jehudiel fica pensativa quanto ao que Lúcifer falara, o quanto isso poderia ter outros significados. Ela toca no ombro de Metatron, que se vira para ela, em um ganido:
— Venha me saciar, deliciosa — a voz que sai é grave.
Jehudiel encosta a lâmina de sua espada curva no braço de Metatron, que parecia oscilar em seu transe, ela grita quando o metal queima sua pele.
— Onde está Lucy?
Metatron lamenta com os olhos negros e depois finalmente brancos novamente. O restante do grupo chega, Belzebu vem amarrado com eles, sendo puxado por Baphomet. Estão exaustos e confusos, questionando do que ocorrera ali, eles só ouviram os gritos, mas, agora, o demônio da heresia no chão respira lentamente.
Esconderijo de Nikolai
- minutos antes do ataque de Astaroth -
Quando o caminhão bateu na lateral do motorista, o carro de Mason virou de ponta-cabeça. A única coisa que a vampira conseguiu fazer naquele momento foi cortar o próprio cinto e usar o corpo para envolver a cabeça de Manson, já que ele não tinha o hábito de cuidar da própria segurança. Ainda caídos, ela sentiu vagamente quando seu corpo foi puxado para fora do carro, alguém não se importou muito em arrastar seus pés no asfalto quente, provavelmente não eram socorristas. Ela conseguia abrir os olhos por pouco tempo até apagar novamente, uma dor latente em sua cabeça fazia um zunido constante. A sensação de que tinha algum metal fincado em seu crânio deu a impressão que não morreu novamente por pura casualidade.
Aos poucos, o som abafado de algo úmido batendo começam a ficar mais altos, ela finalmente abre os olhos tentando focar. A mulher, ainda tonta, tenta compreender onde estava, quando um som de grito em sua mente a desperta. Ela olha assustada, reconhecendo a voz de Mefisto em um urro de dor, porém ele não estava ali, apenas em sua mente. Um arrepio percorre o corpo a deixando confusa, estava pensando no demônio, assim, do nada. Como se ele estivesse tão próximo e em sofrimento. O som repetitivo de um soco na carne macia interrompe a aparente alucinação dela, para ver que Manson estava amarrado em uma cadeira, e um dos capangas de Nikolai dava um gancho forte em seu rosto com um soco inglês. A cabeça negra do policial virava lateralmente até o limite e balançava de volta com o impulso, o sangue descia grosso de sua boca, antes dele falar.
— Filhos da puta. Me soltem e lutem como homens. Covardes canalhas!
Outro capanga se aproxima com um teaser, encostando o aparelho em sua jugular. Ele treme o corpo todo ao som elétrico, grita após o choque que deixara seu pescoço queimado. Os homens em volta estão armados de metralhadoras e pistolas, um deles se aproxima de Nikolai, com a máscara que a vampira usa quando luta, provavelmente ele conseguiu no porta-luvas do carro de Manson. O chefe recebe a peça, sentado confortavelmente ao lado de uma mesa com uma taça vazia na mão. Ele faz um movimento com a taça de cristal e olha para a vampira, que o avaliava.
— Agora que ambos acordaram, podemos conversar! — fala Nikolai, em tom de grandeza.
Ela olha para cima e vê as correntes de carregamento penduradas, sentindo as algemas nas mãos.
— Não vai escapar por cima dessa vez, essa viga não é solta — fala Nikolai, enquanto derruba a máscara no chão e a quebra em uma pisada, ele se vira para Manson.
Ele anda com sua camisa entreaberta, exibe suas muitas tatuagens, a vampira lia atentamente o russo, que brinca na beira do precipício.
— Confesso que no começo eu não imaginava que uma vigilante estaria trabalhando junto de um policial. Fiquei surpreso, de verdade — ele fala, segurando uma faca na mão direita, a leva ao peito e gesticula com a lâmina brilhante enquanto anda.
— É mesmo? Eu fiquei é surpreso com as mãos macias de seus homens. Não conseguiriam lutar comigo se eu não estivesse preso — Manson fala com seus dentes vermelhos de sangue, ri provocativo.
— Olha, nigga, você tem o meu respeito. — Nikolai se aproxima. — É sério, você tem culhões. Mais do que muitos dos que estão á nossa volta, sabe?
Manson cospe um pouco de sangue no chão. Uma garota ruiva de no máximo catorze anos se aproxima e traz uma bandeja, serve o Blood Mary para Nikolai, que a admira com malícia. Manson apenas segue com o olhar a menina de roupas curtas, franze um pouco a testa.
— Não posso dizer o mesmo, Nikolai. Não poderia apenas vender drogas e armas como um bandido qualquer?
Nikolai ri alto, toma o drink antes de se virar para Lucy.
— É, temos ótimo gosto, Senhor policial — fala enquanto bate continência com a faca na mão. —, eu também gosto de coisas incomuns. Apesar que eu nunca provei uma mutante.
— Não sou uma mutante — responde Lucy.
— Não? Vai me dizer que é mesmo um demônio? Uma vampira? Devo usar uma estaca?
— Por que você não tenta? — Ela se levanta, colocando o corpo à frente. Ele para, desconfiado e se aproxima. A observa de baixo para cima, bebendo o líquido róseo no copo longo.
— Na verdade, isso não me importa. Mas se aceitar trabalhar pra mim, isso seria realmente interessante. Eu posso pagar bem.
— Ou o quê? Vai me matar? Já tentou isso, lembra? — responde a mulher em russo.
— Parece que temos muito em comum. — Ele inclina o rosto com surpresa.
— Obviamente, mas eu não desonrei a junta militar, nem matei pessoas na cadeia.
Ele se aproxima desconfiado, seus olhos semicerrados exibem a raiva do que ela possa saber.
— Mas como você...
— Suas tatuagens o denunciam, as gotas pingando da adaga no pescoço, as estrelas nos ombros... Já as rosas...
— Fala como se tivesse conhecimento de causa. Fomos vizinhos, por acaso? — questioma, interessado.
— Possivelmente.
Ele se aproxima, olha o seu rosto profundamente e, de repente, suas sobrancelhas levantam.
— Vanessa?
Ela responde com um sorriso discreto.
— Boa memória, você era só um garotinho.
Ele se vira confuso. Volta a olhar e começa a rir alto.
— Agora muita coisa faz sentido! Ah! Não quero te matar agora, pensando bem, quero chamar alguns velhos conhecidos. Tenho certeza que meu tio Igor iria adorar te reencontrar.
— Chame, assim eu termino o que comecei. É uma pena que não possa chamar seu pai e seus irmãos, não é mesmo?
Ele ri nervoso, ela completa:
— É uma pena, sua mãe era linda.
Os capangas se entreolham, ele percebe.
— Vaca maldita. — Ele bebe mais um gole do líquido olhando-a como se fosse o predador. — Bom, tenho que matar o machão lá atrás. Nada pessoal, questão de negócios. Não posso deixar nada inacabado.
— Eu entendo você tentar.
Ele toma o drink até o final, sorri com o canudo preso entre os dentes. Ela se debate tentando quebrar as algemas, mas nota que são grossas demais. Então começa a puxar com muita força o braço, Nikolai percebe o que ela está fazendo. Ele esmurra o seu rosto e a esfaqueia no peito, Manson urra de ódio, se levanta na cadeira e corre, atropelando Nikolai de costas. Ainda preso à cadeira, ele salta de costas sobre o bandido, quebrando a madeira com seu próprio peso.
Os homens começam a correr e pegar suas armas, ela quebra o pulso esquerdo para passar a mão pela algema. Liberta, agarra um dos bandidos que já estava com a pistola em mãos, apontando para Manson, e o lança para o outro lado do morro de caixas de madeira.
— Manson! Sai daqui, agora!
Ela grita abaixando-o em seus braços e se vira para ser um escudo a ele. Então o empurra para trás de um morro de caixas, podendo correr e saltar, cortando a garganta de um dos capangas com as garras. Outro a fuzila pelas costas, mas quando ela lança o seu colega morto, ambos caem no chão. A mulher dá uma rasteira em um para tomar sua pistola, dando um tiro em sua cabeça, e depois acerta os outros mais próximos.
Ela faz golpes de cotovelo na garganta de um e salta apoiando-se na caixa para chutar o rosto de outro. Quando consegue pegar a arma de mais um, escuta os pesados passos de Górki se aproximando, novamente com seu taco de baseball. Ela corre em sua direção e desliza no chão, desviando de seu lento golpe, para atirar em suas costas repetidamente. Ele cai por um instante, apenas atordoado, o maldito deve ser resistente às balas de calibre menor.
Agora ela salta, se pendurando nas correntes da transportadora, serão úteis para estrangular esse maldito, mas não consegue soltá-las. Ela não está em sua melhor forma. Górki a segura pelo pé e a arremessa no chão, saltando em cima dela em seguida, esmagando alguns ossos. Quando se levanta, ele ainda a chuta no abdômen, a mulher solta um gemido e vê Manson correndo em direção à empilhadeira. Ela segura o pé do gigante e tenta chutar suas partes baixas, ele agarra seu tornozelo, torcendo-o, que emite um som de palitos quebrando. Ela berra com a dor e ouve o motor da empilhadeira, correndo e atropelando o gigante até a parede. Manson o deixa preso nas vigas, Górki finalmente desmaia.
Nikolai se levanta, ele tenta escapar, mas ela corre, esmagando o que sobrara de do pé, para saltar sobre ele. O soca ainda no chão e nesse instante sua mente novamente é invadida com a voz do demônio Mefistófeles. O quê? Parecia estar chamando seu nome, ela estava no meio de uma luta com traficantes ainda sentindo sua presença. Isso não fazia sentido algum. Foi esse estranhamento que a fez bater mais devagar, tempo o suficiente para o russo alcançar uma barra de metal e acertar em cheio na cabeça da vampira.
Quando vai acertar na segunda vez, Manson segura a barra, tomando-a de suas mãos. Eles se socam e o russo crava uma pequena faca na perna do policial. Manson cabeceia forte o russo, dá dois grandes ganchos em seu rosto, segura pelos louros cabelos e bate a cabeça de Nikolai na parede. Duas vezes antes de soltá-lo, apagado no chão.
A vampira olha para a garota encolhida no canto, vê suas mãos de unhas vermelhas descascadas, ela tampava os ouvidos. Sua roupa muito curta exibe a meia-calça com um longo desfiado. A vampira se aproxima com as garras prontas para matar o animal, quando Manson estende sua mão.
— Chega. Ele já caiu.
— Você já me impediu uma vez, não é assim que as coisas funcionam!
— Ele vai ser preso, é o suficiente.
Ela para por um instante, mas depois empurra Manson para o afastar e se abaixa para Nikolai. O traficante conseguiu pegar uma arma que estava caída de seus capangas, o cano da arma fica entre os olhos da vampira, que para seu movimento. Ela hesita, não pode morrer agora, suas mãos tremem em pânico da possibilidade da penitência novamente, porém ela não desvia, já tinha aceitado que poderia acabar no inferno novamente. O louro sorri com o rosto ferido, mas então ele redireciona a arma e atira três vezes, muito próximo de seu rosto, podia sentir o calor do cano da arma em sua têmpora. Ela vira o rosto e vê Manson caindo no chão com dois furos em seu peito.
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