“Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências.” — Pablo Neruda

São Petesburgo

A fenda se abre em uma rua erma, a noite só tem a iluminação pública levemente amarelada. O frio é intensificado pela brisa suave que carrega a neve para a roupa pouco preparada de Manson, Mefisto, Lucy e Jekyll. Assim que fecha o portal, o demônio manifesta roupas mais densas a todos, o policial observa o quanto o tecido parece nobre, apesar de simples.

— Fiquem comigo, e não falem nada. — A mulher avisa antes de ir até uma das portas metálicas e bater três vezes.

Uma abertura no metal surge, olhos desconfiados não falam nada até Lucy falar em russo.

Deixe-nos entrar, hoje é dia de cachorro.

Os olhos franzem estranhando ela dizer tal coisa.

Se enganou. O restaurante é no final da rua.

A pequena portinha se fecha, Lucy não se move, respira fundo antes de dar três batidas mais fortes na porta. A abertura se abre novamente, os olhos nervosos surgem xingando-a.

Chame o Pietro, viemos falar com o Yuri.

Se enganou, moça.

Ela se aproxima da porta se apoiando e deixando que ele veja seu rosto melhor.

Se o Pietro souber que deixou a Vanessa esperando, ele vai ficar muito desapontado contigo, Cintra. — Os olhos se arregalam, ele balbucia algo atrás da porta. — Você era só uma criança quando estive aqui da última vez, não se preocupe, eu não vou comentar sua falta de memória.

A abertura se fecha rapidamente, o barulho de trancas sendo desfeitas ressoa e finalmente a pesada porta se move, permitindo que todos entrem. Lá dentro o cheiro de sangue coagulado e suor é pesado, está abafado. Mefisto dá uma respirada funda tragando o ar fétido.

— Que agradável, quase me sinto em casa.

O jovem porteiro olha para a vampira como se não acreditasse na visão.

Ainda tem algum lugar para os casacos, loirinho?

Ele sorri um pouco, como se o apelido confirmasse que não tinha sido enganado.

Claro. — Ele fala enquanto pega os casacos, nervosamente pega cabides descartando um deles que estava quebrado.

Tome cuidado com nossas peças, sim? Elas não vão para a pilha no chão, não é mesmo?

De jeito nenhum, eu não faria isso, Vanessa.

De fato, ele ajusta os casacos nos cabides e os leva para o cabideiro. Inclusive afasta alguns dos casacos que já estavam lá pendurados para não correr risco de confundi-los. Quase tropeça nas peças que foram jogadas no chão na pilha ao lado, daqueles que não eram exatamente convidados nem apostadores.

Você veio para lutar hoje?

Não pretendo, só vim falar com o Yuri.

Ele está na jaula três. No mesmo lugar que você ficava. — Ele diz apontando pelo corredor.

Lucy vai na frente, é seguida por Manson, Mefisto e por último, o idoso que usa a bengala. O cheiro vai ficando cada vez pior, a música de rock alta se mistura com outras que tocam em outras áreas do galpão. Os gritos dos torcedores são caóticos e o som de batidas em corpos e massas é evidente. Então eles chegam no corredor da jaula três, apesar do cheiro, é o único que o som não se mistura, já que possuía algum tipo de isolamento acústico. A jaula é muito maior do que as outras, o metal da grade é mais grosso e brilhante. Aparentemente, foi a única a ser lavada a pouco tempo, ainda que esteja suja da grande porção de sangue que um homem cospe no chão ao receber um soco do louro que estava de costas.

Os apostadores nessa ala são mais organizados, apesar de também gritarem, todos estão bem vestidos com bebidas e acompanhados de prostitutas. A maioria deles ignora a entrada dos estrangeiros, Lucy indica uma mesa para que todos se sentem e assistam à luta.

— Aqui não mudou muita coisa. — Jekyll sussurra para a vampira.

— Não mesmo. — Ela fala enquanto repara que alguns apostadores mais velhos olham para ela e conversam entre si. A mulher desvia o rosto, já que não tem certeza se esses apenas apostavam nela ou se eram inimigos da família Mostovoy.

Os lutadores no ringue continuam, até que o louro sem camisa e com muitas cicatrizes, carrega o outro com as duas mãos no ar e olha para um homem na porta da jaula pedindo autorização. A cabeça balança negando, o louro bufa entediado deixando o pesado oponente cair no chão de lona. O painel anuncia que Yuri é vencedor, os apostadores observam os números serem atualizados em seus tablets de suas mesas. Uma mulher sensual oferece um dos aparelhos para Jekyll que recebe com indiferença a atendente. Quando ele vai colocar o tablet na mesa, a peça é tomada por Lucy que passa a olhar as últimas lutas e programação.

— Nossa, você é sempre tão educado. — resmunga Manson para o idoso, se referindo a forma que tratou a atendente.

— Você quer chamar ainda mais atenção? Aqui temos que nos misturar, ou acha mesmo que esses que estão aqui são apenas apostadores? — responde o velho com um sorriso cruel para o policial.

— Eu disse para não falarem nada. — repreende a vampira.

Ela larga o aparelho na mesa, se levanta e vai até a grade.

Ei, cachorro! — Ela voltou a falar em russo, forçando o sotaque.

O louro robusto se vira, olha e funga profundamente.

Tá brincando, bem que eu senti um fedor entrando.

Esse era o seu.

Ele sorri com a boca cheia de dentes um pouco mais longos do que o normal, percebe o grupo estranho na mesa da frente.

Estão com você? Você sempre gostou de gente esquisita!

Não reconhece Jekyll?

Ele se inclina observando melhor o idoso.

Porra, você não estava tão amassado assim da última vez que vi! — Os olhos azuis dele voltam para a vampira. — Tá, você veio aqui para que? Uma roda de vodca, uma luta, uma festinha?

Preciso de sua ajuda, coisa séria. Eu te mandei mensagens avisando que vinha, mas acho que você nem viu.

Sabe que eu não gosto de nada eletrônico, docinho. — Ele olha para o homem na porta da jaula que acena abrindo o portão e indicando uma pausa.

Yuri pula o corpo do caído que ainda gemia no chão e vai direto pela porta, passa por uma mesa onde usa uma garrafa d’água para se refrescar molhando a cabeça e dorso. Logo em seguida sacode espirrando as gotas suadas nitidamente como um animal, se divertindo com a cara de nojo da prostituta próxima na mesa em frente. Ele então pisca para ela e também para o apostador que sorri em devolutiva. Então ele pega uma garrafa de vodca e vai até a mesa onde a vampira aguarda com os outros convidados.

— O que quer que seja, tomara que seja só amanhã, hoje já tenho compromisso. Quem são os outros bonitões que você trouxe, querida Vanessa?

— Esse é Mefistófeles.

O louro para de servir os copos olhando melhor, ele encosta na cadeira antes de falar.

— Aquele Mefisto?

— Sim.

Ele inclina o corpo para avaliar melhor e para nos óculos escuros do demônio que arqueia as sobrancelhas curioso.

— Achei que teria um rabo, ou chifres.

— Essa é minha versão discreta. — O demônio fala gentilmente enquanto sorri e Lucy continua.

— E esse é Manson, de New Orleans.

Hunf, sem mais detalhes? Só isso? Não é vampiro, licano, viciado, gnomo...

Ele parece um gnomo? Aliás, gnomos existem?

— Não sei, acho que não, se existirem devem ser mais baixos realmente, foi só um palpite.

— É que falar os detalhes dele aqui pode ser um problema maior do que meus chifres. — completa Mefisto.

Yuri arregala os olhos, volta a olhar Manson de cima a baixo avaliando suas roupas, enquanto distribui os copos já servidos de vodca. Ele sussurra para a vampira.

— Você trouxe um policial aqui? Está maluca?

— Relaxa, ele nem entende russo.

— Na verdade... eu escuto vocês falando como se estivessem falando inglês o tempo todo. — Manson fala como se só tivesse entendido agora a situação.

O demônio pragueja.

— Eu esqueci de falar, achei que seria bom eu fazer essa tradução mental como gentileza para o primitivo aqui, ou ele seria o único isolado da conversa.

Lucy balança a cabeça constrangida.

— Certo, realmente, devia ter avisado antes. Mas enfim, nós só viemos buscar você, Yuri. Dá pra deixar a gente contar tudo?

O loiro propõe o brinde para iniciar as tratativas. Todos erguem seus copos juntos batendo em uníssono. Quando Manson e Jekyll pararam de beber na sexta dose, o demônio ainda acompanhou mais quatro junto dos amaldiçoados antes de finalmente colocar a mão sobre o copo impedindo Yuri de servi-lo novamente. O licano e a vampira continuavam falando, agora misturando dois ou três dialetos locais entre risos e entorpecimento mental. O policial apoiava sua negra cabeça na mesa murmurando.

— Meu Deus, eu não sinto a minha cara...

— Não tenta acompanhar... — responde Jekyll.

O loiro ainda serve mais dois copos para ele e a mulher, ambos relaxados com a quantidade obscena de álcool, mas longe de ser o suficiente para eles.

— Eu feliz da minha parceira de copo ter voltado, isso sim. Só começando!

— Pega leve, Yuri, você disse que iria com a gente amanhã, temos que salvar o mundo, esqueceu?

Ela fala rindo um pouco.

— Não esqueci, e detalhe, ainda no trabalho. Eu ainda tenho que fazer pelo menos mais uma luta pra encerrar a noite, depois tenho que pegar o casal que está na mesa do lado, se tudo der certo eu vou comer uma bunda hoje. Ou, do jeito que ele é gostosão, tomara que ele coma a minha.

Ambos riem, Mefisto solta uma gargalhada frouxa, Manson fica vermelho e Jekyll queixa-se de lado.

— Tenha decência, homem!

— Não ligue, querido, ele está bêbado demais! — Lucy fala enquanto apoia a mão no obro de Manson que fazia uma careta encabulada e com vontade de se enfiar embaixo da mesa.

— Não! Em minha defesa, eu diria isso mesmo sóbrio!

A vampira parece pensativa.

— É... provavelmente...

Os dois riem francamente dando os braços quando o chefe de lutas se aproxima.

— Yuri, está na hora de pelo menos mais uma, precisamos encerrar.

— Tá, quem tá na aposta agora?

— Isso depende, se a Vanessa topar?

A mulher inclina a cabeça olhando para os dois velhos que estavam murmurando e olhando para ela do outro lado do salão.

— O merda. Eu não pretendia lutar hoje.

— É, mas foi reconhecida, essa jaula foi feita assim por sua causa, os apostadores antigos lembram dos bons braços. — responde o organizador.

— Como tá o valor? — Yuri questiona tentando ficar de pé.

— Está ótimo, os jovens não acreditam em uma lutadora mulher, os velhos apostaram alto, pois sabem quem é ela.

— Pera, eu sou o azarão? — Yuri questiona indignado.

— Eu não diria que você sairia perdendo de qualquer forma, Yuri, ainda mais considerando que vocês provavelmente podem dividir, não é mesmo?

— Certo, mas eu sou o azarão?

A mulher ri e se inclina segurando a barriga.

— Eu luto a anos aqui, ela não aparece a o que, quinze anos, talvez mais, e ainda assim apostam nela?

— Fazer o que, tradições.

— Vamos lá, Yuri, vai ficar tudo bem. Quanto está se a gente levar o maior valor? — Lucy questiona ao organizador, Manson segura o braço dela por baixo da mesa na ilusão de fazê-la mudar de ideia.

— Cento e cinquenta mil se ele ganhar, quatrocentos se você levar essa.

— Rublos?

O homem responde com uma bufada estúpida.

— Com quem pensa que está falando? Dólares, claro.

Yuri inclina o rosto com fazendo beicinho para ela.

— Setenta e cinco já é bom!

— Duzentos é melhor.

— Porra, Lucy, Vanessa, sei lá que nome você está usando agora... eu quero continuar andando amanhã.

— Vai estar. Só tem que ser convincente.

— Estar inteiro e ser convincente são duas coisas difíceis juntas.

Ele vai se levantando sem muita vontade, dando longas goladas direto na garrafa restante. Manson segura o braço de Lucy para que ela repense.

— Fica tranquilo, vai ficar tudo bem.

— É a droga de uma aposta, um ringue clandestino, não tá nada bem.

— Não seja bobo, Manson, de onde você acha que eu tenho tanto dinheiro? Muito dele veio assim também. E essa é a parte mais leve.

Ela disse isso com tranquilidade de uma bêbada que Manson nunca tinha notado, ele não sabe de muita coisa de seu passado. Apenas que já matou quando atuou como espiã, mas até ontem não sabia que fora assassina de aluguel, e na verdade não sabe ainda tantas outras coisas que ele não aprovaria. Realmente, lutar em um ringe era a parte mais leve de seu histórico. Perceber isso o deixou um pouco atordoado com as palavras, Jekyll olha para o policial visivelmente incomodado com o local todo errado, drogas por toda parte, claramente uma das garotas de programa não está muito à vontade com um dos clientes e ele só está fingindo que não nota tudo isso.

— Eu não devia estar aqui, eu deveria denunciar esse lugar... — resmunga Manson.

— E olhe que você não está nem ouvindo tudo. — completa o demônio em um sorriso presunçoso.

— Está falando da tradução?

— Eu escuto tudo o que dizem e o que desejam de forma pecaminosa. Dois aqui venderam sua alma para mim, outros cinco provavelmente farão em breve. Confie em mim, é pior do que parece.

— Você quer sair daqui? Podemos esperar lá fora. — Jekyll oferece a companhia para o tenso policial.

— Ah, não, eu acho que é melhor eu ficar, caso aconteça algo e...

— Não se preocupe, se acontecer qualquer coisa, eu chamo vocês. — Mefisto ajusta os óculos na face observando o ringue.

Manson reflete e balança a cabeça assertivamente e levanta-se com Jekyll, ambos caminham com dificuldade pela bebedeira para fora. Lucy só repara quando tinha acabado de entrar na jaula, vê os dois se afastarem e Mefisto se espalhar confortavelmente entre os lugares da mesa. Ele parece estar à vontade no local decadente, Manson era um peixe fora do aquário.

Ao se virar, o cerimonialista avisa os dois oponentes para darem as mãos esquerdas que unidas são cobertas por um saco justo de tecido kevlar e com duas voltas entorno dos pulsos e atados por um cadeado ambos ficam próximos.

— Normalmente, ambos têm direito a uma faca, mas acho que nesse caso não é necessário. — O juiz avisa um pouco empolgado. — Alguma dúvida?

— Mudou alguma regra? — A vampira pergunta.

— Não pode matar.

— Ah. Isso eu realmente eu não pretendia.

O mediador se afasta devagar de ambos, avisando do início do embate. Os dois mostram suas garras logo no início, sorrindo um ao outro, se divertindo. Enquanto isso, do lado de fora, Manson acende um cigarro com dificuldades pelo vento gelado, Jekyll, se curva tentando se aquecer dentro do casaco invocado pelo demônio e apoiado pela bengala.

— Esse frio é horroroso, mas pelo menos, não é ilegal, não é, filho.

Manson responde com o balanço da cabeça e uma profunda tragada, mas começa a tossir forte e continuamente. Jekyll se assusta e vai até ele bater em suas costas.

— Credo! Jesus, isso vai acabar te matando, filho. Já pensou em parar?

Manson cospe no canto, longe onde o idoso não possa ver.

— É, já tentei algumas vezes. Quem sabe eu consiga, logo mais.

— Hum. Está fazendo planos? Em uma guerra feia dessas, fez questão de vir até aqui só para acompanhar tua namorada, parece coisa séria.

Manson ri um pouco.

— É tão óbvio assim?

— Pelo jeito que vocês se olham, sim.

— É... o jeito de olhar... confesso que ultimamente tenho reparado nos olhares que dão para ela...

— Do que você está falando?

Manson mira profundamente nos olhos de catarata do idoso para indagar.

— Você já conhecia mais do Mefisto? Quero dizer, eu vi que ela apresentou vocês, mas eles me parecem mais do que apenas amigos...

— Ah, sim. Com certeza são.

O policial arregala os olhos espantado antes de Jekyll rir e continuar.

— Meio século de amizade dá alguma proximidade maior do que mortais. Mas eu não me preocuparia com isso.

— Não? Ela tem uma história um tanto longa...

— É claro que tem, todo mundo tem história. Se for ficar se apegando ao que fomos e fizemos no passado, acredite em mim, ninguém aqui é santo. A diferença é que você teve menos tempo para ser um canalha e nós tivemos... bom, muito tempo para sermos pessoas ruins. O que importa é agora, ela está com você e está tentando ser melhor.

Manson demonstra um ar preocupado.

— É uma história tão ruim assim? — Ele dá um sorriso como se testasse.

Jekyll fica em silêncio, o policial fica na expectativa da resposta até perceber que o que não foi dito já indicava a confirmação. O idoso finalmente suspira e fala.

— Eu conheço a Lucy mais tempo do que você está vivo, filho. Não fique se preocupando com coisas tolas como passado, deixe que ela te apresente apenas o melhor dela mesma.

— Esse Dorian que vocês falam, ele é pior?

— Ele é. Ela me chamou por que tem medo dessa guerra, desse Astaroth. Bom, Dorian é o Astaroth aqui na terra. Silencioso, devagar e cruel. Ele matou muitos maridos dela, muitas esp...

Jekyll de repente interrompe sua própria fala ao notar que talvez estivesse expondo um detalhe que o policial não soubesse.

— Tudo bem, eu sei que ela é bissexual. Aliás, diante de tanta coisa que eu estou vendo ultimamente, isso se tornou a coisa menos relevante realmente. Agora eu entendo quando ela ficou brava por eu ter achado tão importante na época.

O idoso ri.

— Realmente, quando se vive demais, se tem mais parâmetros de vida a gente dá prioridades para outras coisas. Alguns fatores são tão importantes para mortais, é mais complexo e flexível para nós que vivemos mais.

— Você diz sobre sexualidade?

— Tô falando de moralismo. Credo, mortais são muito moralistas. Sexualidade não deveria ser um tabu, e olha que eu sou o velho hétero aqui.

A porta metálica se abre, Mefisto sai calmamente ajeitando o paletó enquanto carrega o casaco de Lucy que cambaleia para frente, ainda bêbada demais e suja de sangue, com as roupas rasgadas em frangalhos. Ela ri enquanto balança a garrafa na mão e abraça Manson dando-lhe um beijo intenso e apaixonado.

— Eu quero comemorar! — Ela diz com a voz oscilante.

— Você ganhou, eu imagino.

— É lógico, até parece que eu iria perder para um cachorro bêbado!

— Velha desgraçada! Lucy, eu disse para pegar leve! — Yuri aparece na porta se agarrando no batente, seu casaco de pele está direto no peito nu cheio de entalhos e ele se contorce para se manter em pé com um tufo de algodão enfiado no nariz.

— Eu peguei leve, só tinha que ser convincente!

— Porra, eu vou cagar sangue... — Ele geme com uma voz chorosa. O casal que o aguardava chega logo atrás e escuta, um pouco desanimados. — Não! Espera, a gente se diverte do mesmo jeito!

Ele se ajeita e vai mancando para junto do casal. Grita para os amigos que os encontra amanhã no local combinado. Todos permanecem na neve vendo o louro ir embora com o casal desconhecido.

New Orleans, dia seguinte

A fenda se abre no porão da casa da vampira permitindo a passagem de Mefisto, Lucy, Manson, Jekyll e Yuri. Ela se fecha rapidamente atrás deles, Manson olha direto para Hidekki que estava de costas nos computadores, o asiático olha pelo reflexo da tela de um dos computadores e vira-se devagar, suspira antes de falar em desaprovação.

— Mais gente? Todos vão caber aqui?

Lucy olha para Mefisto que para pensativo e vai para uma das paredes.

— Eu tenho que resolver tudo aqui... onde está aquela anja quando se precisa dela?

— Eu não sou um anjo, sou uma serafim, Mefistófeles. — Metatron aparece sem aviso muito próximo ao seu lado.

Mefisto solta um miado agudo demais sem ter como disfarçar o susto infantil.

— Meta, vai te a mer...

— Me chamou? — diz calmamente a serafim.

Ele a olha incrédulo o como ela não nota que foi inconveniente.

— Você poderia, por obséquio, fazer uma expansão dimensional aqui nessa sala para acomodar todos que não podem ficar no inferno ou em outros espaços? Já que você é a senhora do cubo dimensional, nada mais justo que você fazer isso não acha?

Ela olha para o ambiente cheio, Azazel sentado ao fundo que até o momento ainda não tinha falado nada.

— Claro, por que não. A propósito, onde está Asmodeus?

— Nós acabamos de voltar de buscar os mortais, ele não voltou da invocação?

— Não. — responde Azazel. — Fiquei aqui só com Hidekki o tempo todo.

Hidekki acena com um ok ainda olhando para os computadores enquanto fuma com o cigarro no gancho que substitui a mão esquerda.

— Algo grave aconteceu então, isso não está certo. Invocações são só favores, sempre algum idiota que quer dinheiro ou números sorteados, não costuma ser tanto tempo. — Mefisto fala.

— Se você descer eu vou junto, vou passar no Limbo e busco Lilith. — afirma Azazel.

— Não. É melhor vocês ficarem, eu vou, posso ir como espectro, não serei notada. — Metatron avisa. — Posso passar no Limbo e no Segundo Círculo, de Asmodeus. Eu os encontro e os trago em segurança.

— Acha que Baphomet e Belial ainda estão seguros? — Azazel questiona.

Ela olha confusa.

— Eu posso procurá-los, devem estar juntos de Lilith.

Mefisto segura o braço da serafim.

— Se você conseguir, tente encontrar Baal, ele está desaparecido desde o início disso tudo. Não tivemos notícias dele desde aquela maldita reunião. Ele deve estar junto dos outros orobas, talvez junto de Abigor. Eu não sei se Abigor está do nosso lado ou não.

— Mefisto, eu não posso passar tanto tempo desapercebida. Podem me notar. — A serafim olha a angústia no olhar dele. — Eu vou fazer o possível.

A serafim levanta a mão tocando em uma parede do porão de Lucy, um cubo composto de dezesseis esferas interconectadas se desenha na parede em tons furta-cor vão se desenhando na parede e se moldando. As peças se movem devagar como se encaixando e reelaborando até ficar em duas abas separadas como portas dimensionais.

— Isso deve resolver a questão de espaço para vocês. Eu volto logo.

Uma fenda branca se abre engolfando a serafim que desparece no ar.

— Caralho que foi isso... — Yuri fala com um saco de gelo na cabeça ainda muito inchada.

— Ah, droga, eu esqueci de apresentar... deixa, depois... vamos resolver isso depois. — Mefisto pragueja enquanto abre as portas recém criadas por Metatron que dá a um corredor dimensional no porão de Lucy. Lá, diversos quartos foram criados.

Limbo

Metatron surge em sua forma espectral em frente ao Castelo das Ciências, ela vê o local em ruínas e diversos restos de almas obliteradas daqueles que cometeram apenas pecados leves e não mereciam penitência. Muitos gritos ocorrem nessa área antes silenciosa, provavelmente há tortura em algum lugar, ela entra no castelo em busca de Baphomet e os outros, só encontra mais destruição no castelo que antes abrigava tantos saberes e artigos científicos que foram considerados profanos pelos tolos humanos.

Então ela fica perturbada ao encontrar o corpo de Lilith, ou que sobrara dele, seus restos estão espalhados em uma mancha disforme pelo salão. No que a serafim se abaixa e toca em seu sangue ela pode ver seus últimos momentos. Pode sentir seu ventre sendo esviscerado por Vlad Tepes, o sorriso macabro de quando ele se alimentava dela. A serafim se afasta com a dor sentida, ela ofega, recua se arrastando no chão e entrando em contato com o sangue agora de Baphomet, as múltiplas facadas que recebera de Astaroth vêm em sua mente.

— Não, eles atacaram todos!

Ela corre e escorrega no sangue caindo novamente no chão, encontrando o corpo de Belial. O susto inicial se dissipa quando ela repara em seus olhos brancos.

— Não são vermelhos, são brancos. É uma cópia. Ele pode estar vivo. Eles podem estar com Asmodeus... foi isso, Baphomet sempre foi a esperta, ela é a mística dos irmãos ela faria uma invocação... foi isso...

Rapidamente Metatron se levanta e se concentra, então ela percebe que tinha saído de sua forma de projeção e estava no plano físico, suas mãos tremiam e estavam sujas de sangue, suas vestes estavam manchadas.

— O que é isso? Não... se concentre...

Então a serafim percebe que está sendo vista por um soldado persa que grita apontando em sua direção. Ela se assusta e desaparece na frente dele deixando-o confuso. Ela ainda estava lá, mas completamente imperceptível a ele, nota que haviam muitos soldados pecadores condenados, alguns notadamente são vampiros. Ela se esconde, mesmo que esses sejam seres capazes de captar o menor dos sentidos, dos pulsares e odores, ela passa invisível por pelo castelo.

Ela vai finalmente para fora quase esbarrando com Abigor, líder do Sétimo Círculo, a Violência. Ele parece estar verificando se todos estão seguindo corretamente os planos de domínio do local quando ele olha diretamente para ela. Abigor é também um místico, ele é capaz de perceber o menor dos movimentos etéreos, Metatron paralisa sem saber se deve ou não se mover. Então ele recua, dá dois passos para trás como se abrisse espaço para a passagem dela que caminha, sente que os olhos do demônio a acompanham, enquanto ela voa em direção ao Segundo Círculo de Asmodeus, na Luxúria.

Ao chegar no segundo Círculo, fica aliviada ao notar que o Vale dos Ventos parece igual, o deserto é belo e suas areias vermelhas pairam de um lado a outro fazendo dunas e pequenas ondas até onde um castelo de rochas surge na montanha. O castelo de Asmodeus sempre fora um dos mais firmes e imutáveis, solidificado no pecado mais comum dos humanos e mais banal também. Porém, aqui, o pecado não estava simplesmente em usar da luxúria, mas em manipulá-la, em usar como arma. Por isso os violentos por luxúria vinham para cá, mas não aqueles que apenas tinham prazeres sem fazer mal aos seus respectivos parceiros. O amor e prazer não eram pecados, mas manipulação ou cativeiro deles, sim.

A serafim adentra e logo que que chega percebe que uma adaga se levanta até a altura de sua garganta. Ela para, e olha devagar para o lado.

— Identifique-se espectro! — avisa Baphomet, em sua hábil capacidade de leitura mística.

— Baphomet, você está bem! — Metatron surge em sua forma física aliviada em ver a demônia.

— Oh. O que faz aqui, Meta? Não me mate de susto aparecendo assim.

— Parece que eu assusto muito as pessoas ultimamente. Eu sinto muito.

Baphomet ri, coloca a faca no apoio da cintura e conduz Metatron pelo salão.

— Eu vim, pois Asmodeus foi invocado, então encontrei a cópia morta de Belial e vi que você lutou e Lilith... oh, Azazel ficará arrasado.

— Eu invoquei Asmodeus, eu precisava de ajuda de alguém para nos esconder e nos ajudar a curar.

Metatron repara nos cortes profundos nas costelas dela ainda em cicatrização, percebe que ela ainda manca. A serafim ergue a mão de forma brilhante levando-a até os ferimentos, Baphomet grita de dor com a cicatrização, a cura angelical queima muito quando é aplicada em demônios. Porém foi extremamente eficiente.

— Onde está Belial?

Baphomet a conduz pelo quarto onde o demônio está na cama, se contorcendo de dor já que a cura de Asmodeus só conseguia mantê-lo vivo apesar da espada ainda estar fincada em seu dorso. O demônio da luxúria se assusta ao ver a chegada da serafim e abre espaço puxando seus filhos Súcubo e Íncubo juntos que estavam auxiliando com tecidos enxarcados de sangue e pontos feitos às pressas para estancar o sangramento.

— Ele está ardendo em febre. — Baphomet observa.

— Essa espada é abençoada, Vlad está usando armas abençoadas contra os demônios, é por isso que está matando com tanta facilidade. Belial sempre foi um ótimo guerreiro, mas Vlad o envenenou em poucos golpes e nem notamos isso. É por isso que não conseguimos tirá-la e ficou contaminando-o aos poucos. — Asmodeus fala com asco da constatação.

— Astaroth pretende matar todos em seu caminho, ele não vai poupar ninguém se precisar. Nenhum de vocês está seguro, ou estão com ele, ou irão acabar assim. — Metatron murmura.

A branca se abaixa, ela toca na espada mudando a forma dela para transmutá-la em intangível e depois tirá-la sem ferir mais o corpo de Belial. O demônio geme com o movimento, a infecção tomou todo seu peito e costas em uma mancha branca que se espalhou em sua negra pele. Metatron inspira profundamente antes de tocar na pele ferida absorvendo a contaminação, suas mãos vão aos poucos tornando-se negras, absorvendo o veneno angelical junto com partes do próprio demônio, todo o material vai se fundindo em seus dedos e crescendo em suas mãos. Belial grita de dor, ele rosna mostrando os dentes e agarrando onde pode na cama, Baphomet precisa conter seus braços enquanto Asmodeus segura seus pés para não se mover.

O urro gutural do demônio ressoa no quarto quebrando alguns itens e derrubando objetos que estavam nas mesas, um tremor atinge todo o ambiente até que todo o branco tenha saído da pele negra e tenha sido sugado pela mão muito cálida da serafim que por um instante, ficou com as mãos e braços escurecidos, a negritude chegara até preencher seus olhos completamente. Ela solta a pele do demônio em um suspiro para trás caindo no chão respirando ofegante murmurando algo sem sentido. Baphomet solta os braços de Belial que se aquietara e observa o ferimento complemente fechado e com uma cicatriz recente, ele respira leve e docemente.

Baal.

— O que? — Baphomet se abaixa para ouvir a serafim no chão.

Ela está anestesiada, entorpecida com os braços negros começando a se dissipar e retornar ao branco, os olhos já retornaram ao branco fantasmagórico, permanecendo apenas suas mãos com o negro que foi absorvido de Belial.

Baal, temos que encontrar meu amor. Baal.

Baphomet estranha a fala da serafim, olha para Asmodeus que também desconfia do que pode ter ocorrido.

*******

Metatron olha para os próprios dedos escurecidos como se estivesse encantada, as pontas parecem ter tornado seus dígitos mais sensíveis, mas fora isso, fisicamente não sente nada diferente. Baphomet se aproxima dos olhos completamente brancos da serafim novamente, pede que a entidade angelical acompanhe com o olhar seus gestos com as mãos.

— Eu disse, estou bem, Baphomet.

— Sim. Mas ainda não ficou muito claro o por que disse que... você se lembra exatamente o que falou?

A branca olha confusa, vê que Belial está bem, se recuperando e é auxiliado por Asmodeus a se vestir, cobrindo a cicatriz em sua pele negra. Ela decide se aproximar.

— Eu tenho que pedir perdão a você.

— O que?

— Eu não entendia, não achei que fosse possível.

— Do que está falando, exatamente?

— Amar! Você o ama. Verdadeiramente. Eu vi, eu senti. É lindo.

— Sim. — Ele concorda, mas com receio dela. — Eu disse que era.

— Me desculpe, eu não acreditava. Mas agora que me sinto contaminada contigo, agora entendo o que sente, essa dor que afaga seu coração.

Belial torce o rosto.

— Contaminada? Você é louca?

— Oh, me desculpe se isso soa ruim. É que para mim tudo o que é carnal é como se fosse...

— Sujo. Baixo. — responde Asmodeus, ainda de costas para ela.

— Exatamente. Mas não quero ofendê-los. — Ela diz genuinamente sem compreender o teor de suas palavras.

— Não, claro que não. Por que ofenderia em dizer o quanto nos vê como inferiores. — Asmodeus se levanta, ele a defronta a entidade divina demonstrando seu desamor a ela. — Se você não fosse tão importante para todo o contexto dessa guerra, Metatron, eu mesmo lhe mostraria o que um inferior como eu é capaz de fazer contigo.

— Eu estou tentando ajudá-los e é assim que me tratam? Eu não tenho culpa se vocês são caídos ou amaldiçoados. É natural eu não acreditar em qualquer demonstração de gentileza de vocês!

— Só está nos ajudando por saber que isso afetaria a balança como um todo, que isso irá te afetar. Não está fazendo isso por ser o certo, porque quer poupar almas morrendo em vão.

— Eu não tenho que interferir nisso, quando se está vivo já se é permitido morrer, o que humanos fazem não é de minha escolha ou controle.

Metatron aponta o indicador ao rosto de Asmodeus que fica enfurecido.

— Não! Realmente não é! — Ele segura o pulso dela. — É justamente isso que te incomoda, não é Metatron? A falta de controle? Se você pudesse você faria tal como o Grande Pai, na completa indiferença e abandono. Ou então seria como Astaroth, controlando tudo!

— Não ouse me tocar!

— Eu já o fiz.

O olhar branco da serafim se estreita e a mão de Asmodeus passa a soltar uma fumaça suave, o toque não permitido na pele de Metatron foi o suficiente para queimar sua palma. Ele rosna com a dor, sente as bolhas surgindo, mas ainda se mantém firme e a puxa para mais perto.

— Acha que por ser uma criação divina está acima de todos nós! A verdade, é que és tão arrogante quanto Astaroth, só não percebeu isso.

— Eu sinto muito que eu seja a própria pureza que vocês não podem alcançar.

— E quem disse que queremos isso?

Asmodeus finalmente solta a mão dela, olha para a própria palma da mão ferida como se orgulhasse da queimadura e se afasta dela.

Baphomet interveem:

— De qualquer maneira, creio que o melhor agora seja nós saímos daqui agora, não é seguro nós dois ficarmos aqui, até para o próprio Asmodeus. Se Astaroth souber que ele nos ajudou pode vir atrás dele também.

— Eu não vou sair do inferno sem Baal, eu preciso encontrá-lo. — Belial retruca.

— Mefisto me mandou aqui para que eu trouxesse todos que eu pudesse até a superfície, lá eu fiz um cubo cósmico, tem espaço para todos. Inclusive ele já reuniu os mortais, devem estar agora se organizando para o resgate de Lúcifer.

Baphomet engole seco.

— Outra reunião que eu queria adiar, fomos nós quem o prendemos, porque ele iria nos ajudar?

— Ele não iria querer o domínio da superfície. — Asmodeus completa.

— Não por meio de guerra, mas ele queria o anticristo. Você se lembra bem. Eu não quero ter que fazer isso novamente...

— Baph. Qual opção nós temos?

Baphomet meneia o rosto se conformando com o plano que ela mesma não concorda em completude.

— Que seja, vamos subir.

— Eu não vou, eu preciso encontrar Baal. — Belial retoma.

— Bel, você vem conosco, quando pudermos nós viremos buscá-lo.

— Há outra coisa. — Metatron interrompe a fala dos demônios. — Quando eu estive no Limbo, eu encontrei soldados vampiros.

— Sim, são do Vlad, eles estão o seguindo, Mefisto ficará furioso quando souber... — Belial fala se referindo a mudança de poder.

— E encontrei várias almas mortais também e Abigor estava lá.

— O que? Ele está do lado de Astaroth?

— Eu não sei dizer. Ele me viu.

— Como assim?

— Ele me viu, eu estava como espectro, intangível, mesmo assim ele me sentiu. Eu não sei se ele sabia que era eu, mas ele me sentiu, isso é certeza.

— E o que houve?

— Ele me deu passagem. Agora, se sabia que era eu e me deu passagem significa que está do nosso lado. Mas, e se não soubesse?

— Por que ele faria isso se não soubesse quem era? — Belial questiona.

— Ainda assim, isso não é uma garantia que ele esteja nosso lado. — Asmodeus avisa, preocupado. — Mas se ele está tendo que atuar para Astaroth, eu não contaria com o apoio dele. Bel, eu sinto muito, mas diante disso, acho que Baal deve estar se escondendo inclusive de Abigor.

— Não, não... por favor, onde ele está... eu não vou aguentar se aconteceu algo...

O lamento de Belial é crescente, ele se ajoelha no chão em desespero enquanto é consolado por Asmodeus. Baphomet olha preocupada para o irmão, ao mesmo tempo também agora se assusta com Metatron, a entidade que normalmente é insensível a tudo agora está trêmula e uma lágrima escapa de seus olhos brancos leitosos.

Norte do Iraque, Templo de Assur

A fenda esverdeada se abre permitindo a passagem de Lucy, Jekyll, Yuri e Mefisto, eles estão no meio do que restara das ruínas do antigo templo assírio de 800 d.C., pouca coisa sobreviveu aos ataques romanos e de tantos outros povos que por lá passaram. Agora, as areias amarelas corroem algumas pedras e apenas a base de uma muralha resiste.

— Não me parece exatamente uma prisão. — diz Yuri enquanto lambia e selava o cigarro de maconha entre os dedos.

— Não é uma prisão para mortais, realmente. — Mefisto suspira antes de pedir que todos fiquem juntos e unir as mãos no chão.

As luzes verdes se espalham ao redor, as areias desaparecem e um piso negro cheio de signos vermelhos brilhantes surgem no lugar. Alguns deles se movem devagar, outros parecem começar a pairar no ar antes de Mefisto rosnar com os olhos brilhantes no amarelo profundo. As paredes surgem e finalmente notam que toda a complexa galeria está ao redor, o teto possui estranhamente o brilho das estrelas como se estivessem muito próximas.

Mefisto se levanta como se estivesse contando retroativamente para se concentrar, ele olha para o grupo que parece maravilhado com o local.

— É lindo, faz séculos que não vejo o céu assim. — Lucy fala.

Ele olha para cima rapidamente e volta para ela.

— É lindo mesmo, deveria ser assim o tempo todo. Mas o excesso de luzes da humanidade acabam ofuscando as luzes que realmente são belas. Enfim, vamos retomar o que vocês precisam fazer, essa prisão foi feita para demônios e anjos. É por isso que eu não conseguiria meramente libertá-lo, isso facilmente me mataria, ou qualquer anjo ou demônio que tentasse.

— Certo, mas não deve ser nada simples, se considerar que você, mesmo assim, precisou chamar mortais que tivessem habilidades extras. — conclui Jekyll em uma fala presunçosa.

— É... se fizerem como eu digo, não haverá maiores consequências.

Yuri ouvia enquanto acendia o cigarro dando uma tragada fica preocupado.

— Pera, a gente vai morrer? Eu não sou como a vampirona, não tenho costas quentes no inferno!

— Eu realmente espero que não. — responde Mefisto. — É um risco, mas eu também espero que nenhum de vocês morra.

— Desembucha logo, Mefisto. — Lucy fala impaciente.

— Eu não posso passar daqui, a partir daquele corredor todas as salas são contra qualquer tipo de entidade. Eu só posso auxiliar com instruções que irei sussurrar em suas mentes.

— Hum... vai sussurrar em meu ouvido? Que tesão. — Yuri fala provocativo.

O demônio engole a seco e aponta para o corredor que eles devem ir. Os três observam o corredor escuro.

— Claro, tem vários corredores, tinha que ser o esquisito. — murmura Yuri.

— Apenas devem passar por ele, ignorem tudo o que virem e ouvirem. Nada é real, são só ilusões para que vocês desistam da missão, vão mexer com a cabeça de vocês. Quando passarem por ele irão chegar direto no salão onde Lúcifer está preso, e será necessário precisar abrir o sistema de trancas.

— Certo, e então é como você tinha desenhado, um em cada ponta da pirâmide, é só abrir as escotilhas. — Jekyll fala enquanto pega um frasco do tônico em seu casaco e apoia a bengala no chão.

— É “só abrir”. — Yuri faz os dedos das aspas no ar deixando claro que provavelmente será tenso nesse momento.

— Apenas se concentrem no que vieram fazer aqui, nada mais.

— Está bem, vamos logo com isso então, assim podemos descansar depois. — Yuri resmunga enquanto tira o casaco.

Os três vão em direção ao corredor estreito, eles olham para a porta que não parece ter qualquer brisa ou som. Jekyll faz um gesto com a mão permitindo a passagem de Lucy.

— Primeiro as damas.

Ela suspira antes de entrar, é seguida por ele e por Yuri logo atrás que entra fazendo o sinal de cruz. Eles andam muito próximos para que não se percam ou se trombem.

— Vá devagar, Lucy, senão a gente se perde. — Jekyll fala já preocupado por não ouvir os passos da mulher logo a frente. Mas não é a vampira que responde e sim Anne que está ali, no corredor sombrio. O idoso fica paralisado, de olhos estatelados para a falecida esposa.

— O que foi meu querido, você perdeu a cabeça novamente?

Ele percebe que o pescoço de Anne parece estar se rasgando aos poucos, mãos enormes seguravam seu maxilar e ombro. Ele reconhece as próprias mãos, olha para si mesmo e se vê coberto de sangue.

— Veio terminar o que começou? — A voz feminina sai falhada pelo sangue que gorgolejava no rasgo da garganta. O som horrendo é abafado por um rosnado próximo e crescente.

De repente, garras atravessam a imagem de Anne e vai em direção ao seu rosto. A mão acinzentada do ser transformado é de Yuri, agora já como lobisomem grotesco.

— Chega de choques, seu desgraçado! — Yuri grita em sua voz bestial.

Mas a fera é impedida por Lucy que o segura forçando-o a virar. Yuri rasga o braço e ombro da vampira que finca suas unhas no peito peludo dele. Eles lutavam quando a voz de Anne volta e começa a gritar, som de tiros assustam Jekyll que consegue ouvir o choro de seu filho também em algum canto. Porém a vampira finalmente agarra Yuri lançando-o para o ponto luminoso. A mulher ainda cicatrizava o rosto quando se aproxima e o agarra pelos braços e o puxa para fora do corredor de trevas jogando-o no chão do salão. Ainda na porta escura, a mulher vira-se para a escuridão com o olhar entristecido, ela parecia dizer algo para as trevas, respira profundamente antes de aproximar-se da luz.

No salão Iluminado, Yuri raspava e cortava os próprios braços procurando algo que estivesse dentro de sua carne. Jekyll está paralisado, ele só via a vampira acalmar o amigo que ainda fincava sua garra no antebraço em busca da sonda.

— Eles colocaram aqui! Estão me controlando, eu sei!

— Não, Yuri, não tem nada!

— É assim que eles me mandam fazer as...

A vampira dá um tapa no rosto do licano e grita por seu nome. Ele fica com o olhar trêmulo de fera balbuciando qualquer coisa a ela que fala com firmeza:

— Não tem nada mais aí. Você já tirou!

Até que ela consegue fazer ele olhar melhor para a pele, a cicatriz no braço, a memória do dia que os controles foram arrancados lhe vem à mente, tudo já tinha acontecido anos atrás. Ele começa a parar o tremor e se acalmar, então ela volta-se para o idoso.

— Jekyll, você está bem?

— Era ela...

— Não, não era. — A voz de Mefisto ressoa na mente dos três ao mesmo tempo. — Eu disse, são apenas ilusões. Agora, podemos seguir com a abertura?

Os três caminham até o centro da sala e Jekyll vira-se para a vampira.

— Você não teve nenhuma manipulação mental?

— Não. Eu só vi a verdade. — Ela fala com a feição culpada.

No centro do salão em que estão há uma grade piramidal, dentro dela um ser aparentemente mumificado, em posição fetal paira no meio das barras de metal negro fosco. Cada um se concentra em ir para a ponta da base. Lá eles encaixam os pés na sustentação e há duas manoplas para que eles coloquem as mãos. Jekyll finalmente toma seu tônico, Yuri encaixa as patas maiores do que o espaço para os pés no local.

— Espero que o tamanho da numeração não faça diferença.

Eles contam juntos antes de segurarem as manoplas e puxarem com força. Inicialmente só há um impulso, nada acontece de grande importância, mas então os apoios de pés se prendem escorando os pés de cada um e as manoplas começam a aquecer e torcer. Os três gritam de dor enquanto elas são puxadas.

— Segurem-nas, precisamos segurar!

Mr. Hyde mal aparece quando ele toma a forma do idoso transformando-o o ser grotesco de músculos, ele mal fala, apenas segura com força as peças de metal. Yuri inclina-se para trás e sente seus pelos sendo queimados, junto com diversas agulhas que estão sendo fincados em seus pés. Lucy usa as garras para se prender ainda mais as manoplas e sente seus músculos dos braços sendo distendidos enquanto ela urra de dor. Algumas pedras se soltam das paredes e parecem atacar no rosto dos três que precisam se manter firmes para não desmaiarem. Até que eles notam que há um trincar, a parede da pirâmide parece estar rachando e o ser em posição fetal passa a se mover, devagar.

Continuem! — Mefisto avisa na mente deles.

Os três continuam, eles puxam as manoplas que agora estão quentes, o metal queimava as mãos deles enquanto ficavam cada vez mais vermelhas e brilhantes, as pedras das paredes continuam atingindo os três. Eles notam que começa a surgir uma luz dentro da pirâmide, o ser magro ficou de pé e se aproxima da parede de vidro embaçado. Assim que ele toca a superfície ocorre uma explosão e cada um é lançado para um lado. Jekyll mal consegue manter os olhos abertos quando vê que as paredes laterais caíram e agora Mefisto se aproxima deles quando olha para o prisioneiro agora livre, em pé no centro.

— Pai. — chama por Lúcifer, que responde com os olhos vermelhos encarando-o.

— Mefistófeles, o que você está fazendo aqui?

Mefisto parece constrangido com o questionamento.

— Te... resgatando?

Lúcifer olha ao redor, estarrecido ele se aproxima do filho rapidamente e dá-lhe uma bofetada no rosto que o faz virar a cabeça. Ao mesmo tempo ele se desequilibra, já que está fraco pela prisão. Sua pele branca contrasta com os cabelos vermelhos de sangue assim como seus olhos, muitas cicatrizes marcam a pele do corpo esguio e um pouco magro demais.

— Você tem ideia do que foi ficar aqui? Você é um escroto maldito, Mefisto!

O filho, ainda atordoado pelo tapa, mais pela humilhação do que pela dor, responde com a voz baixa.

— Pai. Eu sei que você está chateado conosco, mas precisa me ouvir.

— Chateado!? Da última vez que te ouvi eu acabei com minha voz selada e amarrado em uma pirâmide, seu pulha!

Mefisto levanta as mãos em sinal desarmado.

— Pai, eu juro a você. O que aconteceu antes não foi algo que eu decidi sozinho e agora, bem... acredite, nós precisamos da estrela da manhã novamente.

O prisioneiro recém-liberto se acalma, olha para Lucy que estava ajudando Yuri a se levantar e Jekyll que voltava a sua forma senil e com dificuldades de locomoção, ele vê os signos quebrados no chão e suspira.

— O que está acontecendo de tão importante para você achar uma brilhante ideia me libertar?

*******

Após todos retornarem para New Orleans, Lúcifer descansa em um dos quartos dimensionais. Agora alimentado e com algum espaço que pudesse ao menos esticar as pernas ele poderia retomar seus poderes. Jekyll e Yuri também foram curar os seus ferimentos em algum outro cômodo. Os pés cortados da vampira estão apoiados no colo de Mefisto, ele massageia suavemente fazendo-a relaxar enquanto ela tem um saco de gelo em seu rosto para auxiliar a diminuir o inchaço. Então a mão demoníaca começa a fazer movimentos para suas panturrilhas em movimento crescente, em toda a parte que as calças rasgadas permitiam. Ela tira o saco de gelo do rosto, arqueia uma das sobrancelhas o inquerindo.

— Eu acho que já está bom de massagem por aí, querido.

Ele ri, voltando as mãos para seus pés.

— Justo. Hora errada, local errado. — murmura.

Ela sorri retornando o gelo agora para a parte superior do rosto. Ele ainda a fita quando fala.

— Obrigado por resgatar meu pai.

— De nada, mas ainda não acabou. Só começamos.

— Sim. Ainda preciso de suas garras contra outros irmãos. — Ele diz enquanto encontra um ponto de tensão específico na sola do pé dela e pressiona em movimento circular arrancando um gemido da mulher. — Adoro quando consigo desfazer esses nós.

— Oh, sim! Você sempre foi bom nisso. — Ela fala enquanto deixava-se mergulhar no profundo deleite de relaxamento.

Ele continua o movimento pensativo.

— Ainda sobre desfazer nós, tem um que eu gostaria que me auxiliasse.

— Hum-hum... claro. — Ela responde inebriada pelos dedos habilidosos dele.

— Por que mentiu para mim?

Como em um despertar abrupto, a mulher tira o saco de gelo novamente levantando o rosto confusa.

— Eu fiz isso? Quando?

— É antigo... eu só descobri agora.

— Pode me dar uma pista do que se trata?

— Eu falei com Asmodeus recentemente.

— Hum, seu irmão, o que tem ele?

— Falamos sobre aquele dia que eu vi vocês no jardim. — A vampira olha confusa, ele precisa ser mais claro. — Você tinha descido e... foi no dia que você chegou eu estava com Shax.

Ele fala pausadamente como se suas palavras fossem passos hesitantes nas pedras instáveis e perigosas, e talvez fosse. Ela inspira fechando as pálpebras devagar encontrando na memória a referência.

— Ah! Sobre isso. Realmente faz tempo, o que tem?

— Você me disse que ele tinha sido... bem, que ele te cortejou.

— Sim.

— E me disse que tinha dormido com ele.

Ela inclina o rosto rebatendo.

— Eu disse isso?

Ele fica pensativo, despois retorna os movimentos com as mãos nos pés dela.

— Não exatamente. Mas eu achei que... é. — Ele interrompe a própria fala como se tivesse chego à conclusão no meio dela. — Eu realmente não perguntei especificamente.

— Pois é. Não perguntou, mas respondeu para si mesmo.

Um silêncio fica na sala que agora parecia opressiva e fechada demais.

— Você dormiu com Asmodeus naquele dia?

— Não.

— E em outr...

— Não, Mefisto. Eu nunca dormi com seu irmão. Nenhum deles. Você é o único demônio com quem me deitei.

Ele fica um pouco constrangido em ter que ouvir tudo de forma tão explícita para ter certeza do que já imaginava.

— Certo. Então por que deixou que eu pensasse que sim?

Ela suspira.

— Foi um pouco de uma vingança. Peço desculpas, meio infantil da minha parte.

Ele franze o rosto.

— Eu não estou magoado por isso.

— É o que parece.

— Tá... eu fiquei realmente, mas... eu queria entender por que mentiu antes, dizendo que não tinha importância eu ter ficado com outra pessoa. Foi tão importante que quis se vingar.

— Mefisto, eu tinha acabado de sofrer tortura, estava fragilizada emocionalmente, então eu desci achando que encontraria prazer e afeto, mas então...

— Então você me vê, com ela.

— É. — Ela suspira. — Eu fiquei decepcionada. Não quis admitir na hora, mas sim, fiquei.

— Decepcionada... e traída?

Ela engole seco.

— Não foi traição, nós nunca firmamos nada.

— Não... mas você queria? Ser um casal, comigo?

— Não importa o que eu queria a quinhentos anos atrás, nós nos reaproximamos, está resolvido. — A vampira coloca o saco de gelo de lado, franzindo o rosto, evitando olhar para ele.

— Se considerar o tempo infernal, deve dar mais de setecentos. Eu praticamente te conheço melhor que meus irmãos. — O demônio balança a cabeça levemente sorrindo sarcasticamente. — Eu estraguei tudo.

— Você mesmo disse que também se sentiu abandonado por causa do tempo que fiquei em silêncio, então... eu não o culpo.

— Culpa sim.

Ela não responde, percebe que ao levantar a face ele estava fixo em seu rosto, como se tentasse a analisar cada uma de suas confusas e sutis expressões. As fendas dos olhos verdes dela abrem e fecham um instante com a surpresa antes dela falar.

— No fim acabou que isso não mudou tanta coisa.

— Não? E se tivesse sido diferente?

— Diferente como?

— Se tivesse dito o que queria na época, se eu tivesse ouvido.

Ela responde com um resmungo murmurado, então percebe que agora a mão parou a massagem e agora era mais uma carícia suave, talvez nem ele mesmo tivesse notado, afinal o movimento de carinho era tão natural que era como se fosse feito para isso.

— Lucy, olhe pra mim.

Ela conduz o olhar pra ele que se irrita por não ouvir desejo algum vindo dela, então lembra-se que só escuta os desejos pecaminosos. Ele desiste dos poderes para indagar.

— Por que ainda fazemos isso? — A voz dele saiu um pouco ansiosa.

— Isso o que?

— Isso de fingir que não nos importamos, que não queremos... mais!

— Eu não finjo nada, é claro que me importo com você.

Ele dá um incerto sorriso lateral.

— Poderíamos termos estado juntos desde então, não acha?

— Já não estamos? Temos, algo. O que quer que seja o algo que temos. Não está bom assim?

— Claro, estamos juntos, mas sempre temos que separar quando aparece alguém no meio, no caso agora é um moribundo canceroso.

Ela recolhe os pés e fecha a feição.

— Não fale de Manson assim. Até porque, é diferente.

— É diferente pois, você o ama tanto assim, ou por ele estar morrendo lentamente?

— Está sendo cruel.

— Não! Não sou eu cruel contigo, o destino é. Todos que se relacionam com você conseguem uma baixa expectativa de vida, normalmente são assassinados. Mas agora, esse já tem uma sentença anunciada tudo fica diferente.

— Ele não merece ser dispensado por um capricho agora.

— É isso que eu sou, um capricho? Algo supérfluo assim?

— Terminar com ele para transar com você, sim, seria um capricho. E agora você que está sendo hipócrita, lembro bem que fez questão de me dizer para não me aproximar de Asmodeus por ele ser o tipo que só quer sexo e mais nada, sendo que foi você quem fez exatamente isso jogando pela janela o que poderia naquele momento.

Ele se entristece com a fala ácida e incriminatória, logo em seguida abre o sorriso.

— Então, de fato, você queria algo mais.

Ela franze o rosto com o flagrante.

— Queria, tá legal?! É por isso que fiquei triste, eu...

— Se tivesse me falado... — Ele fala com o sorriso presunçoso que irrita a mulher.

— Ah sim, claro, deveria ter dito isso enquanto você ainda estava nu e com fluidos de outra pessoa? — O tom desdenhoso doeu para ela dizer, e nele para ouvir.

— Não, mas... depois...

— Então sugere que eu deveria ter sentado e esperado você terminar com ela para depois “me atender”? Talvez pegar a senha, te levar um café e uma toalha?

O demônio balança a cabeça em negativa, constrangido.

— Não dessa forma... eu juro que não foi intencional.

— Ah, foi um acidente? Você escorregou e sem querer caiu no meio das pernas dela? Eu duvido que tinha sido a primeira vez, cheguei JUSTAMENTE no momento em que você tinha cedido como uma vítima?

Ele era um ótimo mentiroso, mas não para ela, pois agora recua o rosto, os lábios para baixo e os batimentos aceleram. Ela lê seu corpo e sua voz gaguejante e embargada, então bufa e gira os ombros como se desistisse de formar uma desculpa convincente.

— Eunão... o-oque... foram alguns.

Ela ouve sentindo a mágoa crescer.

— E ainda se achou no direito de ficar magoado caso eu tivesse ficado com seu irmão! — Ela respira fundo afogando o sentimento. — Chega disso, Mefisto.

Ele se abaixa recolhendo os pés dela novamente para apoiar no colo em uma carícia gentil.

— Eu errei! Fui estúpido, Lucy. Mas agora, já temos muito mais do que apenas um encontro casual, você sabe disso.

— Levou meio século para você querer discutir isso agora? No meio dessa guerra?

— Qual é, Lucy, você sabe que não precisamos discutir para saber o que queremos!

— Pois eu não sei o que mais você quer! Você é livre pra fazer o que quiser, eu só coloquei limite de quando estou em um relacionamento.

— É por isso mesmo que eu não sou livre. Já que o que eu quero está...

— Acha que tenho alguma obrigação com você, Mefisto?

— O que? Não! Não é isso...

— Pois parece! Tudo é uma questão de contrato de compra e venda? Você acha que as coisas funcionam assim, senhor demônio da heresia? Que em algum momento me comprou para te entreter?

— Está sugerindo que eu sou egoísta? Um hedonista vazio.

— O que está me propondo agora é exatamente isso. Abandonar Manson quando ele mais precisa apenas para suprir sua carência sexual, já que está tão necessitado você que procure outras pessoas pra te saciar.

— O que?

Ele arregala os olhos, tenta falar, qualquer resposta não parecia ser adequada.

— Isso mesmo, procure Shax, ou sei lá mais com quem você se deita!

O demônio fica com o lábio frouxo, como se visse seu brinquedo quebrado e esmagado aos pés de Belzebu. Mas rapidamente ele se contém, e sorri controladamente apenas do lado esquerdo. Seus olhos amarelos permanecem fixos nos dela enquanto ele se abaixa pegando novamente seus pés e apoiando no colo.

— Eu não estava te propondo apenas sexo. — Ele move lateralmente o maxilar como se engolisse as palavras que queria. — Você tem razão, hora errada.

Ela percebe que ele desvia o olhar e fica em dúvida do que ele realmente quer dizer com isso, porém, seus pensamentos são interrompidos pela fala de Yuri, na porta.

— Olhe só! Eu também ganharei uma massagem nos pés do demônio bonitão? — diz languidamente o licano enquanto se aproxima balançando os quadris. — Minhas patas estão me matando depois de resgatar seu pai arrogante do buraco que vocês mesmos colocaram!

A mulher ri do constrangimento visível de Mefisto que ficou por um instante com as mãos paralisadas antes de ceder espaço ao amigo dela. O demônio não é acostumado com a sensação de não ser o mais ousado do local.