“Ao término do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa.” — Provérbio italiano

Em terra, Metatron está com os braços erguidos, mas agora a luz cálida começa a falhar, ela emana pulsando de seu corpo. Já é possível ver o movimento dos olhos de Yuri se fechando devagar para piscar. A serafim muda sua expressão, de calma, para dor.

*

A neblina verde atravessa rapidamente os vestíbulos infernais, entre tantos demônios e círculos ela se espalha e se une quando finalmente chega ao reino Satana. Os diversos vampiros estavam se dissipando após a batalha por sua liderança e o tom esverdeado se une finalmente formando primeiro a bengala clara e logo em seguida o próprio Mefistófeles apoiado. No salão, a Drácula está de joelhos no chão, olhando para o corpo preso e pendurado pela espada na parede. O demônio se aproxima dela e se abaixa tocando-lhe o ombro.

— Lucy, você está bem?

Ela fala sem tirar os olhos do cadáver.

— Ele está... está completamente morto agora?

O demônio se levanta, dá a passada titubeante e confere os olhos vazios de Vlad antes de retomar a ela.

— Você destruiu a alma dele, mais morto que isso é impossível. Aliás, ironicamente você o obliterou por empalação.

Ela respira aliviada, percebe que as mãos ainda estavam trêmulas com as garras expostas.

— Obrigada, eu precisava fazer isso.

— Não acha que pode ter sido cedo demais? Digo, você está...

— Foi tarde, Mefisto. Eu devia ter feito isso séculos atrás, ele não teria...

Um som gutural ressoa e um tremor reverbera em todo o local.

— O que é isso? — Ela questiona assustada.

O demônio sorri.

— É o começo do fim desse caos. Lucy, preciso que você suba, provavelmente eles precisam de ajuda na superfície. — Ele fala enquanto abre um portal embaixo da mulher.

Antes que ela consiga falar, a queda a faz ir para superfície onde Metatron segurava a passagem de tempo. Mefisto vê que a vampira cai devagar pela modificação temporal da serafim e pragueja.

— Porcaria, tô encima da hora! — Ele pega a cimitarra no chão deixada pela vampira e sorri para a lâmina brilhante.

*

Em terra, Metatron está no alto, com suas asas abertas e braços enegrecidos erguidos. Ele começa a ter uma expressão de profunda dor quando sua pele começa a se desfazer, pequenos fragmentos são extirpados e as pontas dos dedos se desmancham. Yuri fechara os olhos no movimento de piscada e agora está retornando a abrir cada vez mais rápido.

Imagens passam na mente da serafim, que já não era um anjo, e agora, sente-se quase um demônio. Fora feita para ser o próprio poder divino, de criação e morte, de justiça e saber. Ela não pôde dizer que amava a criatura criada por Deus, isso por ela sequer saber o que era amor. Agora é diferente. Ela sente, e o sentir a tornara contaminada, ela não pode mais julgar com tamanha sabedoria, pois experenciar as emoções eram a sua ruína. O amor fora a sua perdição.

A serafim tem seu rosto tenso, os braços se desfazem, o vento é presente e suas asas ficam transparentes e magras. Ela lembra do amor que Azazel sentia por Lilith, do desespero e lamúria que teve com a visão da morte dela. Ela sentiu o amor de Belial, tão profundo e cheio de adoração por seu querido oroba. Ela ainda sentiu a paixão, desejo e anseio de Mefistófeles, a sensação de abandono e afeto não correspondido e o temor por seu pai. Ela sentiu. E todas essas sensações eram demais, até quando o grupo conversava tranquilo, alguns brincando com os outros.

A agonia dela não está apenas em sua mente, sua pele arde enquanto sai, descamando parte a parte. Seu corpo se desmantela, desestrutura em uma latente agonia, ela sente, finalmente volta a se mover devagar, olhando em torno, lamentando. As pessoas em medo, o pânico de famílias, a corrida arfante de Yuri enquanto rasgava membros de condenados, Jekyll arrancando demônios que se penduravam em suas costas. Eles lutam, eles sofrem, eles sentem. Tudo isso dói demais, mas ela precisou salvá-los. Outrora, fora ordenado que ele limpasse a terra da humanidade, e assim ela fez. Agora, ela teve a oportunidade de entendê-los. E assim ela fez.

— Obrigada, Pai.

Fala ela antes de seu rosto se formar em sal e areia, fragmentos que se soltam no ar. Ela vê que Lucy cai lentamente de um portal, muito provavelmente de Mefistófeles. O tempo está acabando. Metatron terá que deixar de SER. Contaminada pela emoção, perdida pela humanidade, ela deu todo o seu poder para isso. Agora, ela fecha os olhos e se desfaz por completo, desaparecendo da existência terrestre.

O tempo retoma sua velocidade normal instantaneamente e um tremor intenso acompanha um rugido monstruoso. Todos que estavam na luta percebem que esse som não vinha do Leviatã, algo se aproximava e finalmente o asfalto explode em uma passagem grotesca da gigantesca besta infernal. As asas longas e verdes se abrem levando ao alto Baphomet que se agarrava nos pelos longos da nova fera, comandando seu movimento. Abadon olha chocado a criatura de cabeça e patas dianteiras de leão, chifres longos de cabra, corpo escamoso, patas traseiras de carneiro e tripla cauda com cabeças de serpente. A quimera voa diretamente para o Leviatã o segurando com as garras poderosas, a briga das bestas infernais vai para o alto quando Baphomet salta da criatura para o chão.

— O que você fez, cabra?! — Abadon grita para Baphomet se aproximando.

Baphomet invoca seu pique e defende-se da espada do caveira.

— Sempre só existe um Leviatã, já tivemos vários, o mais jovem sempre devora o mais velho! — Ela responde enquanto luta com Abadon que é contido pela cauda longa de Abigor e começa a ser esmagado entre suas escamas. O demônio serpentino se aproxima se inclinando, Abadon balança sua cabeça batendo na ponta da espada cravada em Abigor. A serpente acaba afrouxando a contenção, mas antes que o esquelético consiga escapar, Baphomet o agarra ainda junto do corpo escamoso batendo diversas vezes em sua cabeça chifruda. Ela se levanta e dá dois coices com o casco largo fazendo-o desmaiar.

Abigor finalmente retoma a forma antropomórfica arqueando o corpo com a dor da espada que encostava no chão. Baphomet segura seu tronco para ele não cair e faz mais um feitiço de contenção do sangramento.

— Abençoada realmente não te contamina?!

— Pra mim é só uma espada, mas se puder tirar eu realmente agradeço! — Ele fala com a boca já cheia de sangue.

Enquanto Baphomet continuava o encanto, as criaturas lutavam entre si, o dragão tinha certa dificuldade de morder o pescoço da quimera devido a sua juba densa, as garras seguravam no tronco de réptil enquanto as patas traseiras davam coices nas pernas escamosas. Eles voaram girando no alto quando Jehudiel finalmente consegue alcançar e fincar sua espada no outro olho do réptil. Ele vocifera completamente cego e sente que uma das cabeças de serpente cravara as presas na parte interna da coxa. A quimera solta o dragão no alto e a fera cai atordoada no chão, a perna paralisada e agora cega tornaram-na um alvo fácil para a quimera que rodeia e dá patadas aleatórias, como um gato se divertindo com um inseto que perdera membros pelo chão. De repente, a quimera lança-se sobre o dragão ferido. O caos finalmente parecia acalmar quando um arfar gutural era contido, a respiração ofegante do Leviatã ficava cada vez mais baixo por conta do estrangulamento que a quimera fazia. A poderosa boca de leão estava em sua garganta, as patas dianteiras seguravam a presa enquanto a cauda atacava com as outras duas serpentes inoculando veneno nas pernas.

Belial conseguira se levantar de cima do carro destruído, ele desliza sobre o capô amassado para pousar no chão, ele olha em volta e ouve os pesados passos de cascos se aproximarem. Baal corre bufando e balançando sua argola dourada na narina quando se atira para o abraço derrubando-o no chão. Entrelaçados eles se olham afetuosos e Belial tosse se recuperando da queda, ambos riem.

— Meu amor, isso doeu mais do que a espada! Se fizer isso de novo vai acabar me matando de verdade!

— Desculpe, eu...

Baal começava a se levantar quando sua crina é puxada para aproximar seu rosto em um beijo apaixonado.

— Não ouse se separar de mim de novo, meu búfalo.

Baal sorri acariciando o delicado queixo de Belial.

*

Em um movimento de giro, Astaroth grita ao erguer a azul flamejante e desce rapidamente para o corte limpo, atingindo diagonalmente o pescoço do pai. A espada se quebra em pedaços e o som vítreo tintila no chão.

Ambos param, Astaroth vê os pedaços de metal azulado no piso. Lúcifer arregala os olhos, mira sem entender. A neblina verde passa rapidamente entre os inúmeros soldados em direção ao rei e o desafiante, Astaroth retoma sua gargalhada para Lúcifer.

— Pai, não me diga que quem lhe entregou a espada foi Mefistófeles? — fala Astaroth, oscilando as palavras com risadas de desdém da tolice de Lúcifer.

Lúcifer olha atônito e irado, no mesmo instante, Mefisto aparece se materializando ao lado deles.

— Falando no diabo... — diz Astaroth em um leve sorriso.

Lúcifer faz menção de se levantar, mas Mefisto levanta a cimitarra que estava na posse da vampira para a altura do queixo dele. O demônio da heresia ergueu a espada com o braço esquerdo enquanto se apoiava mal e tortuoso com a bengala no braço direito.

— Por favor, continue aí, pai.

Mefisto aos poucos se afasta e aponta para Astaroth que o olha como um lobo que confere o coelho se movendo. Ele estreita seu único olho para a lâmina.

— Sério mesmo que vai tentar lutar assim? E ainda usar uma arma feita por simples mortais comigo?

Mefisto move o pulso fazendo a cimitarra emitir seu brilho, uma luz esverdeada percorre a lâmina e retira uma camada de ilusão superficial revelando seu brilho perolado que se escondia abaixo. A verdadeira Cimitarra de Luz é exibida pelo demônio da heresia.

— Não achou mesmo que eu te daria de presente uma arma dessas?

— Mefistófeles, você não é conhecido por suas habilidades físicas. — O único olho vermelho de Astaroth percorre a postura angulosa de Mefisto e concentra-se no joelho mal posicionado. — E agora, acho que menos ainda.

— Isso é verdade, por isso chamei alguém habilidoso para ficar com a Azul Flamejante.

— Nada como um encontro de família. — diz Asmodeus ao entrar no salão em seus passos deslizantes.

O alto demônio de pele vermelha tem seus longos cabelos negros na cintura em algumas tranças e uma veste de linho creme bem cortado carrega consigo a longa espada com chamas azuladas.

— Por favor, se afaste, pai.

— Não, você disse que iria reconsiderar, Mefisto. Disse que não precisava matar Astaroth!

— Isso era antes de eu falar com Asmodeus para me auxiliar, pai.

— Não, esperem. — Lúcifer segura o braço de Asmodeus que brilha seus olhos em ira.

— Não me peça para me conter! Você quer proteger seu filho, eu protejo os meus desse monstro asqueroso!

— O que?

— Não o defenda, ele tentou te matar agora mesmo. — Mefisto fala já sem paciência.

— Duas vezes. — corrige Astaroth com desdém.

Mefisto levanta uma sobrancelha e depois fecha os olhos desgostoso e se afasta abrindo caminho para Asmodeus vingar Súcubo e Íncubo. Quando o rei observa o movimento ele ri cinicamente.

— Como sempre, Mefistófeles não suja as mãos, nunca finaliza, deixa isso para seus lacaios. — Astaroth provoca enquanto é cercado por Asmodeus.

— Cale a boca e morra com alguma dignidade. — disse Mefisto enquanto cambaleava o corpo ao se apoiar na bengala.

Astaroth solta uma risada histérica.

— Qual é! Um demônio de “contratos”, “honra” e “palavra” sendo que é o maior enganador! — O tom de deboche imitando a voz de Mefisto é feita para provocar. — Hipócrita ridículo. Ele não liga para você, Asmodeus, só para ele mesmo! Está sendo usado também, enganou todos nós com as espadas, sabe-se lá o que fará com você também.

— Assim disse o morto. — responde o demônio vermelho enquanto arrasta a ponta flamejante no chão.

Asmodeus simplesmente desaparece em um movimento rápido que desliza até a lateral de Astaroth. A azul flamejante lambe um talho de baixo para cima desde sua cintura até as costelas. Astaroth berra e no que tenta girar para a atacar, o demônio da luxúria já tinha deslizado até outro ponto, ao lado de Mefistófeles. Confuso e humilhado, o rei ainda tenta irritar o oponente, como se ele já não estivesse raivoso o suficiente.

— Acha mesmo que ele se importa com seus filhos? Aposto que o nerd só resolveu tomar atitudes mais drásticas por ter ficado “magoadinho por nós nos divertimos com a vampira dele”.

As palavras com tom de deboche ressoam na mente de Mefisto, ele recua o rosto, franze a testa e levanta a mão pedindo que Asmodeus espere, então olha para Astaroth.

— Nós? — questiona Mefistófeles.

O único olho vermelho do rei se arregala, pausadamente responde.

— O que? Ela não te contou? — Um sorriso cínico escapa maldosamente. — Oh... realmente, ela não poderia reconhecer quem nunca tinha sido apresentada antes.

Mefisto percebe que prendera a respiração por um instante, processando a informação. A revolta cresce, ele segura mais firmemente a espada com o rosto transparecendo o nojo. Astaroth suspira em um lábio torcido debochado.

— Não se preocupe, ela me chamou pelo seu nome.

Mefisto parecia oscilar em seu equilíbrio com as informações, estava com o olhar fixo, as escleras antes brancas são tomadas inteiramente pelo amarelo. Quando olha para Asmodeus, questiona sem palavras, o irmão concorda com o rosto, ambos se aproximam cercando-o. Astaroth ainda tenta desviar, mas tem os braços golpeados de ambos os lados, Asmodeus dá pequenas fincadas nas pernas do regente que rapidamente cai gritando roucamente de dor. Mefisto larga a bengala e rosna de dor ao unir as mãos atacando o joelho e decepando sua perna do rei, Asmodeus espelha o gesto no tornozelo do outro lado. No chão, o abdômen foi perfurado diversas vezes e seu rosto dilacerado em sons ocos e úmidos em que Lúcifer se afasta vendo os filhos assassinarem o irmão mais velho. Eles golpearam por vários minutos desnecessariamente. Em um determinado ponto ambos já tinham largado as espadas, Mefisto se lançou em um tropeço socando diretamente o rosto do irmão enquanto rosnava tomado de confusão animalesca. Asmodeus se apoiava na parede dando chutes esmagando as costelas do dorso claramente já sem vida.

Eles rugiam de rancor e ira ficando complemente exaustos pelo vigor da brutalidade sanguinolenta, apenas pelo desejo de tornar o rei uma massa irreconhecível, até ambos estarem cobertos de sangue e fragmentos ósseos. Quando o som de golpes na camada pastosa parou, Lúcifer começou a se aproximar vagarosamente deles. Mefisto vira-se erguendo a cimitarra ao pai com os olhos arregalados, a mão vermelha de Asmodeus toca na dele e abaixa sua arma devagar e fala com certa calma.

— Venha, pai, vou te levar para uma cela decente.

— Uma cela, que generoso. — Lúcifer repreende.

— É mais do que você merece! — Mefisto rosna as palavras, ainda sob efeito da ira, o cheiro do sangue em seu próprio corpo o atordoa, ele vomitaria se pudesse. — Você pretendia fazer o mesmo que antes, ia voltar com a ideia do anticristo.

— Não, eu só estava... — fala Lúcifer, mas Mefisto o interrompe.

— Eu ouço os desejos de todos, Lúcifer. Se esquece disso? Ou ouvi... inclusive parte de seus planos e com quem.

Lúcifer para, sorri em um embaraço fingido.

— O que quer que eu faça? É minha natureza. Tu me enganaste, muito bem. — Lúcifer fala se aproximando devagar. — Mas me libertou prometendo me devolver o reino que eu mesmo construí.

Lúcifer acelera o movimento e os dois levantam as espadas para ele, agora, Asmodeus anda devagar cercando-o.

— Eu estou com a verdadeira cimitarra, Asmodeus tem a flamejante. Você sabe que não tem como vencer agora. — Mefisto para por um segundo ouvindo, e depois retoma a Lúcifer. — Por mais que agora esteja desejando urinar em meus restos mortais. Por favor, Lúcifer, tente desejar mais baixo, minha cabeça vai explodir.

Lúcifer ergue as mãos com o rosto em protesto, olha para Asmodeus que continua imóvel com a espada apontada a ele.

New Orleans

— Uma semana depois -

Lucy erge a pesada mala para o carrinho, Jekyll agradece o gesto apoiado na bengala e nota que ela não tirou os óculos escuros depois deles entrarem no aeroporto.

— Obrigado pela viagem, vai ser bom descansar um pouco no avião.

Ela não diz nada em sua aparência cansada, apenas balança a cabeça afirmativamente.

— Tá maluco! Vou aproveitar, primeira vez que viajo de primeira classe. — fala Yuri visivelmente ansioso.

— Vocês merecem, dinheiro não serve de nada se guardado. — Ela fala um pouco rouca com o rosto quase inerte.

— Alguma novidade sobre a casa queimada? — Jekyll indaga enquanto eles caminham em direção ao portão de embarque, Yuri permanece com as malas sentado, esperando a vez dele.

— O processo do seguro está rápido por ter sido um ataque criminoso, hoje mesmo deve sair a análise dos bombeiros para liberar o valor de reembolso. O fato do meu relacionamento com Manson ter sido conhecido dos policiais ajudou um pouco.

— Hum, e quanto a isso?

— O que tem?

— A morte do Manson.

Ela vira o rosto, ele tenta avaliar a reação através dos óculos.

— Estou lidando.

— Se você quiser falar sob...

— Obrigada. Mas no momento eu só quero descansar um pouco. Em breve eu te procuro para resolvermos aquela outra questão, do Dorian.

Ela o interrompe docemente, tão gentil que ele entende que se insistir no assunto talvez ela o deixe falando sozinho.

— Sim, eu notei. Quando puder ir a Londres me avise.

— Claro, assim você recarrega sua espingarda.

Quando o sinal sonoro indica que é a última chamada para o embarque ele se vira observando o portão, quando volta a olhar percebe que a mulher já tinha se afastado indo em direção a Yuri que acenava em despedida. O idoso apoia as mãos no carrinho e se dirige para o embarque, foi observado pelo licano que cruza os braços entediado.

— Você tem certeza que não quer ir agora? O Pietro disse que você pode ficar lá enquanto estiver lutando na jaula.

— Agora não. Preciso terminar essa documentação do seguro. Fora que terei que fazer uma nova identidade. — Ela suspira pensativa. — Miryan Winchester vai morrer, tenho que dar fim nessa identidade.

— O que vai ser? Vanessa de novo?

Ela pega um cantil do bolso do paletó e dá dois goles pela boca de metal e oferece ao amigo antes de falar.

— Vanessa já teria mais de setenta anos, não acho que a aparência seria coerente. Terei que criar uma nova.

— Eu detesto mudar os documentos, muita burocracia, muito caro, muito papel.

Ele dá um gole e franze o rosto em desgosto.

— O que é isso? Parece gasolina.

— Parece mesmo, não é? Não me lembro o que misturei.

Ele estranha a resposta.

— Pera, você já tomou gasolina?

— Você não? — Ela fala sem olhar para ele que apenas balança o rosto.

Ele dá mais um gole antes de fechar com a tampa metálica fazendo uma careta pelo dessabor.

— Tá. Duas semanas então?

— Sim. Acredito que deva ser o suficiente.

Ele entrega o cantil para a mulher que coloca no bolso do velho paletó de Manson que está usando. A peça marrom e rasgada foi a única coisa dele que conseguiu resgatar semanas depois na polícia, pois estava na delegacia. Ela ainda não o lavou, queria manter o cheiro de pós barba, cigarros, câncer e derrota pessoal dela. O licano se despede, empurra o carrinho com a mala enquanto rebola sinuosamente para seu embarque.

A mulher, olha a passagem de diversos estranhos apressados e aleatórios, fazia tempo que não se sentia novamente assim. Rodeada de pessoas e sozinha. Porém, antes quando estava nesse marasmo, ela adiantava a encomenda, às vezes fazia uma visita no inferno, no vale dos suicidas. Agora isso agora não lhe parecia confortável, queria adiar sua próxima descida, como se não fosse mais bem vinda, onde sempre se sentiu tão à vontade. Era como se esse refúgio infernal lhe fosse roubado, profanado. Antes haviam muitas lembranças doces e gentis, agora... bom, era o inferno, apenas e puramente. Levaria um tempo para ela voltar a desejar descer novamente.

Assim que chega na casa temporária, ela pega as encomendas da porta, um fardo de bebidas e mais alguns pacotes pequenos. Leva para dentro, usa a garra para rasgar o lacre do fardo e pega o conhaque barato, enquanto gira a rosca ela lê os pacotes menores. Abre um deles, os documentos impressos já estão com sua foto, ela lê o nome novo, data de nascimento, nome da cidade. Tenta pronunciar, mas se cansa e joga os documentos de lado, pega outro pacote. Dentro tem quatro cartelas de selos de diversos países, leva o papel até a narina conferindo a qualidade e observa como eles ficam bonitos na cartela colorida.

— Olá, Lisboa.

Ela destaca o selo de Portugal com o desenho de um ponto turístico de Lisboa, dá dois goles no conhaque e depois abre a boca tirando a língua para fora. Coloca o selo na língua levando o papel para o céu da boca, os óculos são finalmente pousados na mesa, revelando os olhos irritados, o contorno avermelhado e embargado pelas olheiras profundas. Ela respira devagar, sua íris se torna fendida, abrindo e fechando enquanto se ajusta a um fino traço na esfera verde com o efeito do LSD chegando no sangue. Ela olha para as próprias mãos vendo as cores das unhas tingindo seus dedos, o vibrar da pele provoca delicadas notas musicais. Então ela anda cambaleante até a sala, liga a televisão deitando-se no sofá, percebe que ainda tinha um pacote de comida delivery abandonado, ela o puxa de baixo da cabeça antes de conseguir ficar confortável.

O filme tinha terminado, os créditos subiram vagarosamente antes de iniciar o noticiário. O quanto o número de mortos nos ataques ainda não explicados de demônios era pavoroso. Alguns entrevistados que foram salvos pelos que lutaram para defender, alguns entrevistados dos familiares que morreram. As imagens de câmeras não conseguiram captar muito bem os seres, a descrição de testemunhas não batia com as imagens. Falam de histeria coletiva, de possibilidade de drogas alucinógenas na água. Parece que até as ideias mais absurdas são mais coerentes do que a possibilidade de demônios terem lutado com anjos no meio do carnaval da cidade do blues. Não era de se surpreender, ela já até esperava isso, mortais preferem a explicações simplistas do que as verdadeiras.

Hipátia caminha ronronando na frente do rosto da vampira, o rabo peludo envolve seu pescoço antes de deitar à frente. A mão acaricia seus pelos coloridos, ela olha a pelagem se movendo, o amarelo se fundindo no negro e branco. Fluido, belo. Então ela nota três pequenas feridas na barriga da gata, no meio da longa pelagem três queimaduras redondas, a felina parece reclamar e ficar incomodada.

— O que é isso?

A vampira se aproxima apesar do contestar da peluda, ela cheira e nota que parece tabaco, queimaduras de cigarro? A gata pula com o desconforto, então a vampira nota que agora outra notícia está no ar, descrevendo o quanto a polícia está investigando as mortes suspeitas do traficante conhecido como Nikolai.

— O chocante desfecho da morte do traficante ainda é um mistério. O local foi encontrado com diversos sinais de luta, alguns capangas mortos e o policial de grande importância para o 31ºDP SVU de New Orleans. Tudo indica que haviam pelo menos mais uma pessoa que, assim como o policial, estavam sendo mantidas reféns ou até mesmo torturadas.

Lucy escuta a jornalista, sua mente divaga lembrando do som do golpe que Manson levara com o soco inglês. O som de uma goteira pingando perturbou sua mente, ela olha em volta, procurando a origem do tom peculiar. A sala vazia não tinha qualquer goteira, nem poderia ter. O LSD está fazendo a imagem da televisão distorcer.

— O cenário macabro da morte do traficante sugere requintes de crueldade, pois ele ainda estava vivo quando foi esviscerado, dois órgãos não foram encontrados...

Uma gota caiu novamente, em algum lugar. Ela ouviu, tinha certeza que tinha ouvido a maldita goteira, Lucy levanta a cabeça, a gata olha diretamente para a vampira com seus olhos âmbar. A mulher rosna com a desaprovação da felina.

— O sargento Jones Manson ganhou notoriedade na resolução do serial killer conhecido como “homem do pacote” a dois anos. O caso foi de grande relevância... — Lucy mal conseguia acompanhar a voz da jornalista, estava desorientada. — portanto a polícia está considerando um segundo assassino. Devido a brutalidade e o descaso com os cadáveres, é possível que seja algum tipo de retaliação para Nikolai e pode ser extremamente perigoso.

Um assassino, era isso que ela era novamente. A pouco tempo era uma vigilante, uma heroína, mas agora era apenas mais um assassino, um animal perigoso que deveria ser enjaulado, castrado, vacinado e adestrado. Sim, era hora de Miryan Whinchester morrer, foi bom enquanto durou. É nesse momento que o telefone dela toca, vê que é o seguro, se esforça para sentar e atender.

— Pronto.

— Miryan Whinchester?

— Eu mesma.

— Venho relatar sobre o relatório de avaliação incendiário. Infelizmente o seguro não irá cobrir as despesas, pois o relatório dos bombeiros apontou uma inconsistência grave.

— Que inconsistência?

— O relato oficial descreve que o incêndio se iniciou de cima, e por isso o sobrevivente teria usado o alçapão para escapar.

— Sim.

— Mas o incêndio se iniciou no próprio porão, foi encontrado o ponto de ignição pelas marcas no local.

— Desculpe, esse ponto de ignição seria no porão, no sistema elétrico? Eu tinha computadores e vários aparelhos...

— Não, senhora. Era uma lixeira, inclusive havia sinais residuais de acelerante.

— Acelerante?

— Algum tipo de combustível.

— Eu não estou entendendo.

— Dentre os combustíveis possíveis estão solventes, diesel ou fluido de isqueiro.

— Como?

— Esse tipo e acidente na verdade pode ser até comum, alguém querer queimar lixo dentro de casa e acabar exagerando no combustível e provocar um incêndio. Porém isso não é coberto pelo nosso seguro.

A vampira mira para a gata que a encara com seus olhos âmbar, como se estivesse cobrando uma atitude da vampira que ainda ouvia a atendente de fala corporativa.

— Infelizmente, devido a essa incoerência, não ficou comprovado que o fogo foi criminoso externamente, mas sim um acidente por ato impensado e... bom, eu sinto muito.

— Entendo.

— Estou enviando o relatório completo para o seu e-mail cadastrado e estarei reportando as autoridades que investigavam o caso.

— Compreendo.

Em algum momento as respostas passaram a ser robóticas apenas concordando, a mensageira ainda passava informações que não eram muito bem compreendidas. Não pelo fato da vampira agora estar apreciando o movimento da mandala luminosa nos pelos coloridos da gata provocado pelo alucinógeno, mas por não querer acreditar no que estava entendendo. O telefone foi desligado, a mulher dá mais dois goles no conhaque, a gata ainda a encara.

— O que você quer que eu faça? — Lucy questiona a gata que responde em um miado fino e longo.

Sua mão direita, apoiada no braço da cadeira finca as garras no estofado, o perfurar do couro lembra dela mesma movendo a mão dentro do ventre de Nikolai, o gosto cirrótico lhe vem a boca. Ela ouve uma goteira, parecia próxima, ela fecha os olhos querendo afastar os pensamentos, a sensação de... então ela sente uma gota caindo nas costas de sua mão.

Em um salto ela fica de pé, pronta para o ataque, do que quer que seja, quem quer que seja. Ela olha para o sofá vazio, para o teto seco, ao redor. Havia apenas lixo estava espalhado no lugar, ela mesma, era um lixo de pé, drogada, bêbada, inútil, insana. Ela percebe que não há mais nada, até ouvir a tossida longa e cancerosa de Manson. A mulher vira-se para trás vendo a gata filósofa que calmamente lambe as patas e o rosto. Ao lado dela a televisão ainda falava de sua morte, do quanto era um membro importante para a polícia. A mulher atordoada leva novamente a garrafa até a boca virando o corpo junto dos goles antes de se deixar cair novamente no sofá, afundando no estofado, olhando a televisão sonolenta.

Reino Satana

Mefistófeles usa a tocha para acender a lareira, quando se levanta percebe que Lúcifer estava próximo de si. O genitor senta-se então na poltrona e cruza as pernas confortavelmente em frente ao fogo, sua mão passa os dedos na textura do tecido.

— Confortável? — questiona Mefistófeles.

— Você viu onde eu estava, olhando assim, nem parece que estou preso no próprio reino que fiz. — responde Lúcifer zombeteiro, balançando o pé em direção ao fogo.

Mefisto anda pelo quarto que possui tapetes, uma grande cama, livros e uma mesa com alimentos finos. Ele passa pelas grades virando-se para fechar o portão pesado, o ferro ressoa quando tranca o local provocando um arrepio desconfortável no prisioneiro com o som familiar.

— Certos sons, são poderosos.

— Imagino que sim. — disse o filho. — Se precisar de algo, avise.

Assim que Mefisto se vira, sente a mão do pai agarrar seu braço muito forte através das grades. Baal, que estava no corredor fazendo a guarda se aproxima já com o machado, mas então a voz de Lúcifer fala suavemente.

— Eu só queria dizer...

Mefisto finalmente solta o ar, por um instante pensou que seu pai faria o mesmo que fizera com um de seus irmãos que ousara dar as costas a milênios atrás.

— O que foi, pai? — disse virando o rosto devagar ao prisioneiro.

— Boa coroação, filho. Vida longa ao rei. — disse em um sorriso maléfico soltando seu braço marcado pelas garras que já tinham se fincado na carne.

Mefisto sorri falsamente, dá os passos devagar agora sem desviar o olhar da cela. Só quando já tinha passado por Baal ele vira-se apressando o passo na bengala. Baal o segue sussurrando ao seu lado.

— Não acredito que deu as costas para ele.

— Não vai se repetir. — disse o manco que enxugava o suor do próprio rosto.

*******

Os demônios estavam reunidos no salão onde ocorrera a morte do regente anterior dias atrás, os comandantes dos círculos estavam em trajes nobres ainda que algumas das cadeiras permanecessem vazias. Afinal, novos comandantes careciam de ser escolhidos, levaria algum tempo para todos os cargos serem preenchidos. Abadon causou certo desconforto quando entrou, Asmodeus segue com o olhar estreito aquele que aparenta estar muito bem com tamanho desprezo. Ele sorria e caminhou entre os comandantes até se posicionar próximo de Abigor.

— Acha que ele virá? — Abadon questiona para o demônio da violência como se nada tivesse ocorrido e fosse uma casual conversa.

Abigor não responde, continua olhando para frente, observando o trono frondoso feito de ossos negros que estava vazio, aguardava seu regente e estava com tapetes ao longo de sua escadaria frontal.

— Porra, Mefisto. Sempre atrasado. — reclama Asmodeus.

— Achei que já estivesse acostumado com isso. — responde Abigor.

Abadon desmancha seu sorriso de dentes pontudos que ainda permanecia posado em seu rosto quando notara que o local estava cheio de orobas e vampiros que não seguiam Vlad. Eles estão entorno fazendo a segurança principal, estavam ornados com as pesadas armaduras. Alguns já indicavam cansaço de permanecer em pé, aguardando a coroação que não iniciava. Baal permanecia apoiado em seu machado, no alto junto da cadeira simbólica de poder. Estava com muitas contas e correntes no dorso, algumas de suas tranças na crina também tinham contas brilhantes. Ele olha para o trono grande demais ao lado e permanece pronto, tanto para uma luta, como para um rito de passagem.

Quando as portas principais se abrem, os demônios e amaldiçoados entediados endireitam a postura para logo em seguida estranharem o caminhar dos cascos de Baphomet que vai até a frente do trono.

— Como posso dizer isso... bem. Eu não o encontrei.

Alguns suspiram decepcionados, outros reclamam discretamente. Belial respira profundamente olhando para Baphomet e em seguida mira Baal em seu traje militar.

*******

Baphomet caminha pela duna de areias vermelhas até um ponto elevado onde avista um antigo castelo que agora estava em ruínas, abandonado a muito tempo. Baal chega logo em seguida, atrás dela, um pouco ofegante pois ela era mais alta, nitidamente era uma vantagem no trote. Ela nota que ele apoia a mão no joelho no último passo antes de se firmar nos grãos móveis.

— Quer uma mão?

Ele responde com uma bufada e balança a mão para a dela que estava estendida.

— Seus cascos são de cabra, não vale.

Ela sorri e aponta para um dos cômodos fracamente iluminado do castelo em ruínas. Baal franze sua cara larga e balança para ela.

— Você sabe que não enxergo bem a essa distância, quer parar de me provocar?

Ela ri com um balido frouxo.

— Eu disse que ele estaria aqui.

— Se está dizendo...

Ele começa a descer a duna deslizando pela areia em movimentos de arco e apoiando a mão na superfície para firmar o equilíbrio. Ela aspira o ar ruidosamente reclamando.

— Tá, isso eu nunca consegui fazer direito.

Ela desce deslizando, mas sem grande precisão já que seus cascos são mais estreitos. O búfalo aguarda na parte baixa.

— Nunca aprendeu, pois ficou tempo demais lendo livros.

Ela parece concordar enquanto ambos entram no antigo castelo de Moloch, onde cresceram. Eram ainda muito novos quando conheceram Mefisto, quando as brincadeiras infantis oscilavam com conhecimentos de ritos, treinamentos ou lutas, nem todas eram boas ou adequadas ou seguras. Os cascos dela eram silenciosos no piso, ela já estava na porta do quarto quando Mefisto ouvira os passos de Baal e se levantara da poltrona.

— Vai embora?

Surpreso de como ela chegara sorrateira ele vira o rosto e nota que ela ainda estava com os adornos de contas.

— E eu achando que conseguiria me esconder de vocês.

— Acredita que ela ainda não consegue deslizar direito na areia? — Baal fala risonho enquanto se aproxima, Mefisto ri.

— Ainda bem, seria humilhante se até isso ela fizesse melhor que nós.

Baal que ria para e franze o cenho ao entender a fala do futuro regente. Então o demônio de trajes de gala negro questiona os irmãos.

— O que estão fazendo aqui?

— O que parece? Viemos para sua coroação, irmãozinho. — Ela responde enquanto inspeciona a poeira na mesa abandonada.

— Hum... eu não sei se quero realmente isso.

— Por que não? — Baal indaga como se fosse a fala mais idiota que tivesse ouvido.

— Para quê? Eu estava bem no Círculo da Heresia, não preciso de mais.

— Mefisto, se você não o fizer, Abadon seria um que disputaria. Fora que o próprio Lúcifer disse que preferia que você fosse o próximo rei, já que ele não poderia. Depois de você e Abadon, provavelmente o único que seria aceito seria Asmodeus.

— Que também não está nem aí para essa porcaria de reinado, ele também prefere seu próprio canto. — resmunga Mefisto, ele abre um pouco mais a camisa de tantos botões fechados até o alto que parecem sufocá-lo. — Por que não podemos mudar essa linhagem?

— Mudar o que? — Baphomet questiona com seus olhos de cabra.

Mefisto nota como ela está alinhada de frente a um dos quadros onde Moloch estava coroado com as chamas. A pintura se funde com ela fazendo com que as labaredas imóveis ficassem em torno dos grandes chifres curvos dela.

New Orleans

Lucy estava na mesa da sala, anotava em um caderno datas e horários, ela pega o próprio celular buscando por ligações perdidas em dias anteriores. O dia da morte de Manson ficou marcado por catorze ligações perdidas, a maioria de Hidekki que desesperadamente tentava contatá-la para alertar do ataque que ocorria na região central. Ela anota os horários, depois toma os últimos goles do conhaque colocando a garrafa derrotada no chão. Sua mão segura o mouse movendo o cursor na tela até o documento enviado pela perícia dos bombeiros. O horário em que foram acionados.

Uma luz pisca na tela alertando que o e-mail que ela aguardava tinha chego. Um contato de outro vampiro, a comunidade sempre se ajudava, cada um com suas habilidades diferentes. Ela abre a mensagem, ansiosa, afinal pagou caro para obter as informações. Dizia que o número de telefone que ela solicitou só tinha recebido uma única mensagem. O conteúdo não a surpreendeu, o horário dela, sim.

É de manhã, o sol já estava chegando na sacada quando ela vê que a gata exige sua alimentação, ela a alertava com movimentos sinuosos nas pernas da mulher entre as da cadeira. Lucy se levanta, vai até a cozinha buscando uma pequena porção de carne ao molho, a felina lambe os lábios em antecipação. A carne úmida cai no pote metálico, o cheiro não é dos melhores, porém a peluda parece apreciar. Enquanto a vampira arruma a bancada ouve um pingo caindo dentro da pia. Ela olha para a torneira vendo que estava fechada, que a cuba estava seca, ela estranha, mas se afasta com o prato para a faminta tricolor. Ao se abaixar e entregar o alimento, a gata emite um ronronado em agradecimento, a mulher sorri com os dedos longos ao longo da pelagem branca, amarela e preta.

Outra gota cai.

A mulher levanta rapidamente, a pia está seca. Ela suspira, pensando se deveria beber mais para silenciar as goteiras de sua prisão, estavam em sua mente, e aparentemente iriam acompanha-la por muito tempo. Então a vibração do celular ressoa na sala e ela decide desistir de encontrar a goteira fantasma. O cheiro de cigarro parecia estar forte, poderia jurar que era o mesmo que já conhecia e conviveu tão de perto. Ela cheira o próprio paletó e percebe que ele ainda tinha o os resíduos de tabaco barato. Deve ser isso. As mãos finas vão para um dos armários, procurando sua cartela de LSD, ou alguma bebida mais forte quando ela escuta o celular tocando novamente. Alguém não aguenta mais ser ignorado, ela quer sumir. Encontra uma garrafa de cachaça do Brasil, algo que fazia tempo que não bebia, fecha o armário trazendo a garrafa à frente do rosto para ler mais do conteúdo.

Enquanto anda para a sala novamente ele ouvia o celular, lia o rótulo quando a tosse de Manson é alta, muito próxima. Ela olha para a mesa e o encontra sentado confortavelmente, dedos esticados segurando o filete de tabaco, pulso apoiado na mesa. Ela se assusta quando o morto olha de volta com um sorriso debochado, a garrafa de cachaça desliza de sua mão direto para o chão, espalhando cacos e o líquido em uma estrondosa explosão vítrea no estreito corredor.

— Está desleixada, não costumava desperdiçar bebida assim antes de eu morrer.

— Você...

— É. Eu tô. — O homem se ajeita na cadeira abrindo mais as pernas conformado. — E você? Também tá morta? Pelo menos parece, cheira como uma morta.

Ela se aproxima, incrédula em sua visão, senta-se novamente à mesa e sente o próprio celular vibrar avisando de uma mensagem de Jekyll, outras várias de Yuri. Ela ignora. Então o telefone avisa de uma ligação, insistindo, é seu amigo idoso. O morto imaginário acena para ela atender, ela o faz.

— Jekyll, me desculpe, eu sei que estou demorando, mas não posso ir agora.

— Eu não sei porque ainda acredito em você, Lucy.

— Jekyll, eu juro a você. É importante. Assim que eu resolver isso irei te encontrar, já está tudo planejado para o acidente de carro de Myrian. Os documentos estão prontos, mas preciso que você tenha um pouco de paciência comigo agora.

A mulher falava tentando manter a postura tranquila quando o morto leva o cigarro aceso até a boca, puxa o ar com a chama provocando leves estalos enquanto queimava as folhas fedorentas. Já o idoso, parece impaciente no telefone.

— Você vai vir junto daquele indecente do Yuri?

— Ele quer nos ajudar, eu acho que toda mão ou pata é válida, afinal é o Dorian.

— Acha que ele tem estabilidade mental para isso?

Ela olha para frente, nota que a fumaça estava saindo dos furos do peito baleado de Manson enquanto ele batia o cigarro na mesa sem se importar com as cinzas.

— Não. Mas até aí, nenhum de nós tem. — responde com profunda sinceridade.

O idoso fica em silêncio do outro lado da linha, talvez estivesse também refletindo sobre o tumultuado carnaval.

— Está bem, Lucy. Faça como quiser, apenas não desista dessa vez.

— Não irei.

— Até, Lucy.

— Até.

Eles desligam o telefone, enquanto Jekyll se levanta indo em direção ao seu laboratório a mulher observa a gata se aproximar e pular na mesa. Estranhamente ela se senta ao lado dele que apaga o cigarro diretamente na mesa e leva os dedos na pelagem macia em uma carícia suave.

— Você sabe que foi ele. Eu avisei. — disse o morto de lábios azulados, seu rosto ainda tinha os machucados dos diversos socos que recebera no dia. Ela nota a queimadura em seu pescoço provocado pelo teaser. — Ele já dava sinais, será que ele vai virar um homem do pacote 2.0?

— Não. Não vai.

Ele sorri para ela balançando a cabeça assertivamente.

— Você é sempre tão eficiente. — Ele disse em tom de deboche.

O morto move os dedos no queixo peludo da gata e olha para ela, sua camisa clara ainda era um pouco justa no peito e abdômen, ela se lembrava que gostava de ele não ter um corpo perfeito. Era tangível, verdadeiro.

— É uma pena, eu poderia ter durado mais se tivesse me ouvido, aquela emboscada foi culpa sua.

— Você está magoado por eu não ter agido antes?

— Eu não estou magoado, estou morto. Assim como todos os que você encosta.

Ela concorda balançando o rosto.

— Sim, mas no seu caso, você iria estar morto de qualquer maneira.

— Justo. — Ele levanta uma das sobrancelhas. — Aliás, eu sabia que você tinha algo com o demônio. Eu vi o jeito que ele te olhava, e você também.

— Eu...

— Relaxa. Eu sei que foi antes de me conhecer.

— Eu não queria te magoar.

— Não magoou, eu escolhi passar meus últimos tempos com você, não? Foi bom de qualquer maneira.

Ela inspira aliviada, uma lágrima escapa de seus olhos emocionados.

— Não chore. Você sabe que isso nem é real, é só o que você gostaria que fosse. Está delirando, imaginando como seria nossa conversa. Você está ficando louca, Lucy.

— Não, eu só... isso é as drogas.

Ele inclina o rosto de forma cruel.

— Você sabe que precisa beber o suficiente para uma pessoa normal morrer de coma alcoólico para você sentir algum efeito. Sabe que comeu tantos selos esses dois dias que seria o suficiente para matar dez pessoas. Não é as drogas, é você, sua tristeza, sua culpa, sua raiva de existir, de lembrar de tudo... — Ele falava com um sorriso impiedoso, os dois pontos vermelhos de sua camisa vertem sangue e escorrem em direção ao chão.

— É verdade. — concorda a derrotada.

— Você quer que eu vá embora?

— De onde? Você está morto, está no cemitério municipal, gaveta 12 B.

Ele ri.

— De sua mente. Onde mais eu estaria?

— Não. Ainda não.

Ela baixa a tela do notebook e se levanta para sair da casa.

Limbo

O suspiro longo e prazeroso saía das narinas largas de Baal quando ele levava a mão grossa nos lençóis em uma torção. Por um instante o bovino franze o rosto soltando um curto grito de dor antes de virar os olhos em retorno ao prazer gentil. Ele relaxa novamente nos tecidos enquanto as mãos habilidosas de Belial subiam em suas costas.

— Você é muito escandaloso, foi só um nozinho na omoplata.

Baal não tem forças para falar nada coerente, apenas um murmuro sai do meio do rosto enterrado nos lençóis. Belial estava com as pernas em torno dos quadris do terrível guerreiro oroba deitado, derrotado e entregue ao esbelto demônio negro. Então, o massagista já cansado se alonga sobre as costas do amante deitando em um abraço morno nas costas de pelos curtos. As mãos finas percorrem os músculos avantajados dos ombros do bovino.

— Acha que Mefisto fará um bom reinado? Tenho receio de que possam retornar com a guerra.

Baal murmura algo, ainda no meio caminho do desmaio.

— Abadon poderia ser um problema. — Belial fala enquanto puxa delicadamente uma das crinas trançadas. — Ele é assustador, fora que... Baal, querido, estou falando com você!

Baal tentava genuinamente falar, mas sua boca não conseguia se mover devido ao estado de transe que tinha sido colocado. Ele precisou respirar fundo antes de fincar cada mão no colchão e fazer uma flexão erguendo os dois na cama. Belial ri e se deixa rolar para o lado permitindo que o oroba tremesse o corpo inteiro sacudindo a pelagem e virasse para libertar a face dos lençóis azuis.

— Exibido. — Belial disse referindo-se à demonstração gratuita de força.

— Você gosta. — Baal responde rouco, deitando de lado e apoiando a cabeça em uma das mãos. — Então... você dizia?

— Estou preocupado com Abadon.

— Ah, é... você não é o único. Eu soube que Asmodeus requisitou uma reunião com Baphomet para falar dele.

— E?

— Eu não fiquei na reunião.

— Não me conta a história inteira, quer me matar de curiosidade?

— Sou da segurança, não um comandante de círculo. — O oroba ria enquanto levava a larga mão ao rosto fino e anguloso do esposo. — Você provavelmente vai ficar sabendo antes de mim quando houver qualquer decisão, Senhor Comandante do Limbo.

— Terei muito mais trabalho agora que Baph é conselheira e Lilith...

As sobrancelhas de Baal se erguem com a menção da mulher, Belial sente um arrepio o percorrer só com a lembrança da contaminação divina provocada pela espada de Vlad Tepes.

— Foi horrível. Acho que ficar tanto tempo no Limbo me deixou avesso a toda essa sanguinolência.

— Tem certeza que é um demônio, Bel?

Os olhos vermelhos de Belial se estreitam com o toque gentil nos cabelos longos e lisos e ele fala suavemente em seus lábios finos.

— Eu preciso agradecer a Abigor, ainda não falei com ele depois de tudo.

Baal solta uma bufada satisfeita.

— Fazia tempo que ele já desprezava Belzebu, mas ele me disse que ficou feliz em fazê-lo engolir as palavras que disse a você. Se ele não tivesse feito, eu mesmo faria, baixinho nojento.

— Você sabe que ele não é o único a pensar assim, estranha essa obsessão que humanos, anjos e demônios têm em controlar quem deita com quem.

— Quem se meter nas nossas vidas eu vou...

— Amor, não precisamos de mais violência. Até por que ainda pensam sobre isso e ainda sobre ti, sobre os orobas.

Baal para em uma fungada agora conformada.

— Ainda bem que pelo menos você é o bonito do casal.

Belial dá uma alta gargalhada levando as mãos na crina trançada.

— Meu amor, você é deslumbrante. Não consigo entender como alguns são tão obtusos em não enxergarem isso. A verdade é que eles têm medo dos orobas, pois sabem que vocês são mais fortes, se fosse uma luta apenas de braços, sabemos quem ganharia facilmente.

— Hum, numa guerra como essa, você ficaria no paraíso então.

Bel leva a mão esguia até o peito em um fingido gesto de como tivesse estarrecido pela ofensa, antes de empurrar o ombro dele para virar de costas e montar em sua cintura. O beijo apaixonado é seguido pelas rápidas mãos que seguraram os braços fortes do oroba para o alto, juntando-os acima da cabeça em um conjunto de sigilos para o imobilizar. Assim que se percebe feito prisioneiro, o búfalo sorri enquanto mergulha no mar rubro dos olhos de Belial.

— Como eu disse, Bel, você estaria claramente no paraíso caso sobrevivesse.

Em uma expressão mandona, o esguio beija o rosto de búfalo pontuando suas palavras com cada afeto dos lábios.

— Eu me sinto ofendido. Em pensar que você. Imagina. Que eu. Iria querer. Outro.

Bel traça o dorso musculoso do oroba se divertindo com as cócegas em suas costelas, Baal estava mais do que ansioso por mais carinho de seu marido.

Salão Satana

— dias depois -

O salão do trono estava vazio, os irritados demônios frustrados pela falta de rito de passagem se dispersaram após horas de espera na semana anterior. Mefistófeles observa que haviam colocado um tapete nos degraus a frente do trono negro que aguardava vazio seu governante, ele passa os dedos dos pés pelo tecido macio bordado do tapete como se testasse sua textura. Pensativo, sua expressão era de certo desconforto quando deu as costas novamente para o trono. Ele para ao ver uma figura negra nas sombras, a grande gárgula dá um passo se aproximando deixando a luminosa cabeleira dourada aparecer.

— Aproveitando para passear, Moloch?

A fera olha para os lados como se estivesse em um passeio no parque.

— É bom não estar mais em uma jaula. — Ele aponta para o trono com o olhar. — Não é realmente uma poltrona confortável, sempre reclamei a falta de uma almofada decente. — Moloch fala com sua voz cavernosa.

Mefisto vira para trás e repara no trono negro e frondoso.

— Realmente, ficava o tempo todo sentado direto nesses ossos?

A gárgula de corpo senil e musculoso dá um passo à frente, as cicatrizes em todo seu corpo são acinzentadas, Mefisto recua discretamente. Moloch sorri com a boca cheia de presas.

— Tenho certeza que você pode redecorar. Astaroth tinha muito mal gosto, olhe como é feio esse tapete.

Mefisto sorri lateralmente, volta para o tapete que desce os degraus negros. O tecido passa a brilhar e é remodelado do vermelho sangue para um verde escuro com poucos detalhes dourados de ramos delicados. Ele dá um passo para o lado abrindo espaço para Moloch que fica em frente e apoia um joelho no chão para estender a mão no novo tecido.

— Hum, macio, e definitivamente mais bonito.

Ainda abaixado ele vira o rosto para o demônio da heresia encarando-o.

— Não vai testar a cadeira?

Mefisto funga, ansioso.

— Tem certeza que não a quer de volta?

— Não, obrigado. Minha coluna está satisfeita.

Mefistófeles anda sobre o tapete e sobe os degraus, olha o trono de metal e ossos negros, uma almofada negra com detalhes verdes surge no assento. Ele vira-se olhando para Moloch que continua ajoelhado e retribui o olhar. Mefisto então apoia a bengala perolada ao lado, suspira antes de lentamente virar e sentar-se no trono. Suas mãos são atraídas diretamente para o apoio de braço, uma eletricidade percorre seu corpo em um arrepio dolorido. Ele rosna e contorce levemente seu pescoço sentindo seus cornos escuros crescendo e ficando alongados até atrás da cabeça, o sangue escorre em sua testa da pele recém rasgada. Então o queimar parece sair de seus poros, uma coroa surge entre seus cornos feita de labaredas de fogo infernal. A chama aumenta enquanto ele agoniza e de repente desaparece como se tivesse sido extinta por falta de oxigênio. Ele arfa amortecido e seus olhos brilham como luzes amarelas antes de estabilizar. Quando finalmente acalma ele consegue soltar as mãos do apoio sentindo o gosto de sangue na boca, suas gengivas sangraram quando suas pequenas presas se alongaram. Moloch ainda abaixado sorri e fala.

— Vida longa ao rei Mefistófeles.