Incursão no inferno (livro 2)

2 Capítulo 1 — Noite de encontros


“Não penses mal dos que procedem mal; pensa somente que estão equivocados.” — Sócrates.

Éden, no início

O jardim era cercado por muralhas grandiosas, alguns anjos eram guardiões das criaturas. A maioria deles permaneciam encantados com cada um dos seres, sejam as aves, aqueles com pelos, com cascos ou até com chifres. As árvores tinham todos os tipos de frutos, tantas flores, tantos aromas e nunca estava frio ou com falta de água para alimentar a todos. Porém, um par de criaturas gerou notável espanto, feitas do barro e com o sopro divino ambos respiraram juntos. Foram chamados de Homem e Mulher, eram complementares, belos, e de alguma maneira espelhavam o próprio Pai e até mesmo a voz dele, Metatron a sua forma.

Adão e Lilith eram perfeitos, feitos do mesmo material, da mesma essência e ambos amaram imediatamente o Pai. Adão respeitava e desejava a companhia de Lilith, ela gostava dele, o respeitava, mas não demonstrou tanto afeto e interesse em retribuição. O Pai se preocupou com a falta de reciprocidade, ele estimulou que ambos convivessem mais próximos, mas ela só queria companhias breves de seu par. Então o Pai decidiu intervir, ordenou que ela se curvasse a criatura masculina, assim como o próprio criador. A norma assustou a mulher, aparentemente Lilith e Adão teriam funções diferentes, não eram iguais como ela pensava, como havia sido dito anteriormente. Ela ficou entorpecida, petrificada com as regras, se recolheu no riacho pensativa do porque isso lhe incomodava tanto.

Dias se passaram e a mulher não queria mais falar com seu par. Ela conversava com os anjos, com os animais, mas não com aquele quem supostamente deveria servir. Até que um dia, ela recebeu uma fala diretamente do Pai, que se não cedesse seria severamente punida por sua arrogância. Apavorada, ela foi novamente até o rio, onde chorava junto das águas que passavam suavemente.

O anjo Azazel, assistia a mulher, ele ficou mortificado com sua tristeza. Por muitas vezes ele se aproximou e a confortou, já que era para isso que os anjos deveriam ser. Conforto, admiração, amor. Ele sempre amou toda a criação. Agora, as lágrimas da mulher de pele de canela rasgaram o peito do anjo de pele alva e cabelos louros. Ele viu que o sol permanecia queimando, que o vento estava silencioso, nada estava interferindo pela mulher, então ele suspirou e decidiu mais uma vez se aproximar.

— O que houve desta vez, querida Lilith?

Ela esfrega as mãos no rosto contendo as lágrimas, soluçando. Seus olhos castanhos se alegram com a companhia.

— O Pai disse que eu devo me curvar para Adão, ou então que... que... eu não sei, ele disse que eu serei punida se não o fizer. Eu não sei que tipo de punição Ele se refere, mas não quero que aconteça.

O anjo se aproxima, senta-se ao lado dela e acaricia seus cabelos ondulados.

— Minha querida. Isso é o que Ele disse a respeito de todo par, ele disse que seria melhor assim, que todos devem ter um par para permanecerem juntos e servirem juntos.

— Servirem juntos, Az. Mas agora Ele me pede que eu sirva ao homem, como se meu mestre fosse...

Azazel deixou um sorriso escapar ao ouvi-la chamá-lo de “Az”, que forma carinhosa que ele não recebera de nenhum outro anjo ou ser. Logo depois seu sorriso se desmancha um pouco com a crueza das palavras dela, ao mesmo tempo ele se levanta para pentear com os dedos as mechas de seus cabelos.

— Ele os fez juntos para serem um par perfeito.

— Eu sei. — Ela fala enquanto fecha os olhos, sente os dedos do anjo trançar seus cabelos.

— Ele sabe o que é melhor, como poderia errar.

— Ele não sabe.

— Não diga isso. — Ele repreende.

Eles permanecem em silêncio por um instante, os dedos ágeis do anjo continuam o trançado. Ele para e pede a ela:

— Segure.

A mulher segura a ponta da trança enquanto ele volta-se para a própria manga da toga, um cordão dourado que compunha seu bordado é puxado, junto de uma pedraria turquesa na ponta. Ele finaliza as pontas do cordão com um nó firme antes de retomar os cabelos castanhos dela, mais duas voltas firmes e um laço delicado é feito para prender o penteado. Ele admira os ombros dela, os olhos azuis percorrem brevemente pelo pescoço delicado antes de pousar o cabelo adornado na lateral. Então ele caminha novamente até sua frente e senta-se olhando diretamente para a mulher de cílios úmidos.

— Dê tempo, talvez com o tempo você passe a querer.

Ela balança o rosto em negativa.

— Por que eu deveria ter que me curvar se ele não o faz para mim? — Ela diz enquanto envolve o próprio dorso em um abraço.

O anjo franze o cenho preocupado.

— Como sabes que ele não se curvaria ou serviria a você?

— Ele demonstra isso com a falta de gentilezas. Ele me respeita, mas jamais faria algo doce sem eu pedir... como isso.

Ela olha com doçura para a trança recém feita pendendo em seu ombro e depois os olhos passam a admirar a bainha da manga desfeita do anjo. O tecido iria desfiar, provavelmente ele perderia parte do bordado, mas isso não importava para ele, afinal, o dourado ficou muito mais bonito nos cabelos dela, ele pensava.

— Eu... creio que o Pai deva ter um bom motivo para desejar assim, mesmo que nós não consigamos compreender.

— Não me peça você também para fazer isso, eu não conseguiria me curvar, não para Adão.

Aflito, Azazel, leva as mãos no rosto dela e se abaixa, olhando-a mais próximo.

— Diz isso por ele ser feito da mesma coisa de ti?

— Também. Mas não é só por isso.

Ela fica com o olhar vago, mas então ela olha diretamente para o anjo, os castanhos fixos ficam em posição de ataque.

— É por eu não o amar.

O anjo suspira aliviado,

— Oh, querida. Amor pode ser construído, não acho que você poderia amar sem motivo algum, realmente. Deixe que o tempo construa.

Ele disse sorrindo, baixando as mãos junto das dela, apoiados nas pedras. A mulher manteve o olhar firme para os olhos azuis e serenos do anjo.

— Eu não poderia deixar. Meu peito já tem muralhas construídas, tão forte que não sei como mais manter dentro de mim.

— Está dizendo que...

— Que já amo outro.

O anjo paralisa, seu rosto muda, não sabe dizer o motivo que o deixou tão consternado, recua olhando para baixo.

— Tenho certeza que seu precioso amor poderá ser redirecionado.

— E se não puder? — Ela diz ainda observando atentamente cada movimento do rosto dele que permanecia abaixado e agora com um toque de dor.

— Quem quer que seja, ficará muito feliz de ter sua devoção.

Ele dizia isso enquanto tentava construir um sorriso, falhou e se sentia miserável. Algo doía em seu peito e no estômago, algo que o atormentava a semanas e não sabia explicar. Enquanto ele tentava entender o motivo disso tudo as palavras dela o puxam do abismo.

— Anjo, você me ama?

Ele levanta os olhos para ela, nota que ela não tinha movido um centímetro de sua direção anterior.

— É claro, eu amo toda a criação. Eu não poderia não amar.

Ela ainda permanece no olhar, pisca uma vez e retoma.

— Não, anjo. Não esse tipo de amor. Eu quero saber, se me ama como eu amo você, algo que eu nunca poderia sentir por Adão, nem por nada que eu vi.

O anjo se sente engolido pelos cabelos castanhos dela, como se estivesse sendo afogado por seus olhos profundos. Ele volta sua mão para o rosto delicado dela, inseguro do que dizer, mas ao mesmo tempo que parece que finalmente entendendo o que realmente sentia sem saber o nome.

— Eu não poderia não amar... tu és o motivo da minha respiração, do meu amor mais profundo e verdadeiro.

Ela levanta os olhos chorosos e toma os lábios angelicais em um beijo. O anjo fica imóvel, chocado, sem saber por um instante como reagir, mas apenas alguns segundos depois ele fecha os olhos. Os lábios se movem, suavemente, docemente entre os dela, sem destino, sem motivo. Eles se separam apenas para lembrar de respirar, para depois retomar aquilo, agora com ele enterrando os dedos nos cachos castanhos dela enquanto ela contorna seu pescoço alvo com os braços. O movimento se repete, o som do riacho é a única melodia desse momento, até os pássaros se aquietaram, testemunhando. Eles não sabem bem o por que fazem isso, o beijo, afinal, sequer existia antes daquele minuto, mas sabem que é bom.

1498, Círculo da Heresia

Mefisto estava retornando ao seu castelo quando passa pelo jardim flamejante da entrada. Ele carrega consigo um pergaminho que acabara de conseguir quando passa por um banco que lhe chama a atenção. Era o local onde quase ocorrera o primeiro beijo entre ele e a vampira no ano anterior, um leve sorriso escapa com a memória o invadindo. Mas então ele nota o ângulo do local para a janela, lembra-se que foi aqui que ela se sentou depois de o flagrar com Shax. Ele estava na janela quando viu Asmodeus se aproximando, cercando-a sorrateiro em sua conversa arrastada, ele viu que era o mesmo local marcado pela árvore com chamas amarelas e vermelhas que queimavam as folhas e davam origem a flores e frutos.

Por mais que ele sabia que isso foi causado por ele mesmo, pela vampira testemunhar seu deslize, isso não significava que saber que seu irmão levou seu brinquedo precioso não o fizesse queimar por dentro. Ele sentiu raiva de si mesmo, sabia que quando deixou ela ir embora naquele dia praticamente entregou de bandeja a mulher para seu irmão mais velho. O que ele esperava, o que poderia contestar? Agora os frutos que surgiam do fogo eram de ciúmes.

Ele calmamente coloca o pergaminho que carregava no chão e rugindo de raiva finca suas garras no tronco da árvore arrancando-a do solo escuro. As raízes são expostas e ainda colérico quebra em dois o tronco do inocente vegetal. A copa cheia de flores e frutos rapidamente apaga seu fogo de tons amarelos e vermelhos, as raízes do outro lado começam a murchar como que obedecendo ao castigo imposto pelo demônio. Ele deixa o buraco no solo, olha em volta como se conferisse que havia algum vestígio do encontro dos dois naquele local. Não havia, mesmo que tivesse, as plantas não poderiam dizer, elas estariam apavoradas se tivessem tal propriedade. Ele limpa as mãos na calça puída clara e pega novamente o pergaminho antes de ir em direção a entrada do próprio castelo onde ele respira fundo para se acalmar e falar com Lilith e Azazel que estavam juntos da mesa do seu querido funcionário. A primeira mulher olha para o comandante do círculo e fala com certa imposição.

— Vim buscar meu anjo, já que ele parece sempre demorar demais para sair de sua mesa de trabalho, Mefisto.

— Eu juro que é ele mesmo que fica fazendo horas extras, eu não fico o segurando, mulher de barro.

Ela ria e olhava pra Azazel como se confirmasse do que estavam falando anteriormente. Ele parece concordar ainda que sobre pressão.

— Eu não gosto de deixar pilhas de documentos pela metade.

Ele dizia isso enquanto recolhia seu material, Mefisto se aproxima com um pergaminho em mãos.

— Posso te pedir um favor? Juro que é rápido, só preciso que me ajude a localizar um registro de alma.

O anjo olha por cima dos óculos e vira para a esposa que suspira como se já esperasse tal ato.

— Claro, que diferença fará agora mais alguns minutos por meu marido. — Ela arqueia a sobrancelha grossa para Mefisto.

— Juro que o devolvo com todas as penas.

Os dois descem rapidamente para o porão, no estoque de registros. A galeria de diversas estantes era preenchida até o teto com livros de documentos de almas. O período da idade média foi o tempo mais prolífero para o demônio da heresia, nunca acumulou tantas riquezas, havia uma das galerias apenas para padres e bispos. O cansado escrivão suspira e encara o demônio com seus olhos azulados antes de solicitar os dados.

— Sabe o ano?

— São dois registros, um de 1456 e outro de 1460. Qualquer um dos dois serve.

— Dois registros da mesma alma?

— Sim.

O anjo caído caminha para as estantes marcadas pelas datas conduzindo o demônio que segurava a luminária de óleo.

— Local?

— Europa, Romênia, nos dois casos.

O escrivão pega a escada conduzindo até a estante correta e começa a subir em direção da prateleira muito alta. Ao olhar a capa do grosso livro com couro de cobra reconhece a lombada.

— É da Lucy que quer?

O demônio pigarreia como se disfarçasse sua própria fala.

— Sim.

Azazel desce as escadas carregando o pesado encadernado e o coloca ruidosamente na mesa. Quando o demônio sorri e se aproxima da capa é estapeado pelo escrivão alado que o força a olhar.

— Que diabos! — reclama Mefistófeles.

— Você vai fazer mais alguma maldição nela? Duas já não bastam?

— O que? Não, não é uma maldição!

O anjo caído direciona os olhos azuis para o pergaminho que estava na mão do demônio.

— Isso não é uma maldição. — defende-se o demônio da heresia.

A expressão de Azazel é de descrença.

— Eu juro! Não sou um escroto! É só um feitiço de vínculo! — O demônio estende o pergaminho para Azazel que o pega, abre e ajusta as lentes dos óculos antes de ler. — Isso é só para eu sentir quando ela morrer. Assim saberei que ela veio para o inferno.

— Onde conseguiu isso? — O anjo questiona enquanto lê as instruções do feitiço.

— Eu pedi a Baphomet, ela me garantiu que não fará nenhum mal e dessa forma quando ela morrer eu saberei imediatamente.

As sobrancelhas louras franzem por cima dos óculos.

— Para quê precisa disso? Você consegue rastrear todos seus amaldiçoados com seu poder.

— Eu só preciso saber antes que ela está morta. Aí eu rastreio com meu poder e irei buscá-la no círculo que estiver. Assim dará menos trabalho aos outros demônios que as vezes tem que levá-la até mim.

O escrivão enrola o pergaminho fechando os olhos.

— Ah sim, agora entendi. É para evitar com que ela o flagre de novo acompanhado com alguém em seu quarto como da última vez?

O demônio pega o pergaminho da mão dele rapidamente, como se temesse que o amigo destruísse sua solução brilhante.

— Eu só quero evitar que isso ocorra de novo. Nem todos os casais são como você e Lilith, não foi assim que ela combinou comigo.

— Hum, então quer dizer que vocês são um casal agora?

— O... não. Não foi o que eu quis dizer.

— Não, claro que não.

O demônio estende a mão abrindo o livro e a pesada capa se fecha em seus dedos com a força do escrivão.

— Mas que porra! — pragueja o demônio.

— Não seria mais fácil se vocês simplesmente conversassem?

— Isso já foi feito.

O demônio tenta abrir o livro, que permanece fechado sob a mão do anjo.

— Conversar de verdade, Mefisto. Primeiro você é todo ansioso com ela, depois age como se nada tivessem?

— E quem disse que temos algo?

— É você está com um feitiço de vínculo.

— É só... uma formalidade. Ninguém precisa se machucar.

— Não, ninguém precisa se machucar mais... não é mesmo?

Azazel falou encarando os olhos amarelos e hesitantes do demônio, ao mesmo tempo ele movia finalmente a mão deixando o livro livre para o uso. Ele recua um passo para ir embora.

— Quando terminar, deixe o livro na mesa, eu mesmo guardo amanhã no local correto.

— Claro, obrigado, Az.

— Você sabe que esses feitiços são bilaterais, não sabe?

— O-o que quer dizer?

— A antecedência é por ser acionada quando a alma está prestes a desencarnar, se você também estiver em risco de vida, ela também saberá.

— Hum, ainda bem que eu não pretendo morrer.

— Ninguém nunca pretende.

New Orleans, atualmente

No galpão, alguns homens de Nikolai, estão se organizando para uma nova carga de mulheres. Garotas muito novas, pobres e ignorantes, iludidas com oportunidades de emprego em uma terra distante. Mas quando são aprisionadas nos contêineres e veem um balde e algumas garrafas d’água, logo percebem que os homens do leste europeu não estavam contratando para trabalhos fabris. Interessa a eles roubar seus corpos e juventude, escravas sexuais e trabalhos forçados serão seus destinos.

O problema do tráfico internacional de mulheres é que ele faz muitas vítimas, mas nenhuma famosa para chamar atenção da mídia. Por isso é pouco investigado, ninguém liga para uma latina morta na valeta ou uma negra pobre desaparecida.

Uma mulher está presa do lado de fora da jaula, algemada em um pilar do galpão. Outras estão em uma jaula para animais no canto. Cerca de dez homens armados, bêbados e cheios de más intenções estão se divertindo com o medo da escolhida. Um deles tem uma metralhadora, é já uma arma antiga, mas eficiente. Os outros têm canivetes e pistolas automáticas 48mm. A vampira sente o cheiro característico de pólvora e explosivos de uma bazuca escondida em um dos inúmeros caixotes em torno. Eles não vendem apenas mercadorias vivas, mas também armas e drogas. Um deles se aproxima e bate com as costas da mão no rosto da algemada.

— Olha, você é um tanto velha para a mercadoria, mas daria um ótimo uso essa noite para nós. — fala o homem louro, de camisa branca dobrada até os cotovelos, ele tem uma faca na cintura e uma pistola na parte das costas.

— Eu juro que não vi nada! Eu só estava procurando o meu cachorro que escapou... — implora a mulher algemada. Quando o homem lhe dá um soco em seu estômago, ela se curva sem ar.

— Fica quietinha, piranha... — Ele vira para outro que estava ao telefone. — Você confirmou a entrega com ele?

O homem ao celular faz um gesto indicando para esperar. Ele escuta por mais alguns instantes, afirma alguma coisa em russo, tenta falar baixo, desliga o aparelho e finalmente responde:

— O navio chega amanhã, o pagamento já foi feito, o mesmo comprador.

— Aqueles caras me dão arrepios. — retoma o homem enquanto passa a mão na barriga da mulher presa na pilastra.

Cada capanga está espalhado por todo o galpão, um deles olha para o abusador, mas vira o rosto em repugnância. Parece que nem todos são tão nojentos. A vampira avalia a cena em torno, foca que precisa manter vivo aquele que falara ao telefone, os outros não parecem ter a mesma importância.

— Vai querer fazer alguma coisa hoje à noite? — O abusador fala ao negociante que desliga o notebook e começa a guardar os aparelhos.

Antes de responder, ele olha para a mulher, para o colega subindo as mãos em seus seios e para o rosto cheio de lágrimas da vítima.

— Depois de você, não gosto quando brigam muito.

— Ah... eu gosto — O homem está com a mão por dentro de sua blusa. — Adoro quando gritam, adoro ficar sem sentir minhas pernas depois...

— Seu desejo é uma ordem! — Lucy responde levantando o olhar para seu abusador, ela segura a pilastra com as mãos e lança as pernas ao redor da cintura do degenerado, contendo-o.

Os tornozelos se cruzam em suas costas e com um apertão de força sobrenatural pode-se ouvir sua coluna estalar. Ele grita pouco antes de receber uma cabeçada, fazendo-o cair para trás. O negociante saca uma arma, atira junto de outros dois enquanto a vampira sobe na pilastra de costas. Os tiros mal a acertam, do alto ela já quebrara o próprio pulso passando-o com facilidade pela algema. Agora liberta, ela salta direto em um dos atiradores soltando um rosnado alto.

Ela corre para o outro lado do galpão rolando em cima das caixas de madeira. Assim que está do outro lado pega uma adaga presa na parte interna da coxa e coloca a máscara que estava escondida nas costas da blusa. É simples, uma máscara de cerâmica, ela protege os olhos e deixa a mandíbula livre, não para se alimentar, mas para assustar quando necessário. É lisa e branca, no estilo vienense, elegante e prática.

Eles atiram muito, gastam muita munição, logo há menos tiros quando estão recarregando. Essa é a deixa, ela chuta uma caixa na cara do mais próximo, escala pela pilha de encomendas e ataca os mais distantes. Agarra um, vira o seu corpo no chão e prende sua cabeça em suas pernas, consegue usar o seu fuzil para atirar no outro. Um a acerta no ombro, muito perto do pescoço, perto demais para o gosto dela que responde com um tiro em sua cabeça e depois outros dois homens no ombro e peito. Termina o movimento quebrando o pescoço do homem usando a base de seu fuzil.

Ao soltar o homem, ela vai em busca do idiota que estava ao telefone, já estava abrindo o galpão para fugir. Ela atira a adaga no seu joelho e calmamente caminha em direção ao informante. Enquanto se aproxima do fujão, passa pelo boçal rastejante que estava passando a mão em seu seio há poucos instantes.

— Sua bruxa!

A bota dela atinge seu queixo, o agarra pela gola e o arrasta até ele ficar em cima da mesa. Ele se debate como pode, arranha o pescoço dela com uma das mãos, ela responde com um sorriso e puxa a faca de sua cintura aproximando de seu rosto. Nesse momento ela escuta:

— A polícia foi acionada, você tem cinco minutos. — Hidekki fala em seu ouvido pelo comunicador.

— Entendi, só preciso de dois. — Ela se vira para o molestador na frente. — Vocês gostam de sentir o poder, não é mesmo? Gostam dessa sensação de superioridade e dominação. Eu também.

Ele se debate, tenta segurar inutilmente a lâmina, mas a vampira usa sua força superior para baixar vagarosamente o metal cortando sua garganta. Ela ainda aproxima o rosto sorrindo, sadicamente. O sangue escapa para fora cobrindo parte da máscara e rosto, ele agoniza por um instante, ela perde a concentração ao ficar assistindo-o se afogar. Aqueles longos segundos a deixam em um transe, testemunhando o alimento se esvair e escorrer até o chão. Ela lambe os lábios resistindo, assiste, anseia, mas não bebe. Fica apenas na vontade, no desejo não saciado.

O gemido lá fora do fujão corta a sede para dar lugar a outra, em um momento do passado da mulher, quando ela era ainda uma criança chorando com o pavor do homem que cortara sua face. Lucy de agora está prisioneira em sua mente, a imagem do homem se afogando no sangue na mesa torna-se ela mesma, logo após o assassinato de sua mãe.

— O que, não... não é a mesma coisa...

Ela murmura enquanto vê a si mesma na mesa, era idade média, ela era criança, sua mãe estava com o rosto paralisado no chão, seus olhos verdes tal como o dela tinham a pupila inerte. Então um monstro a jogou na mesa, ele a chamou de bruxa quando cortou seu olho, ela paralisou. Ela viu quando o braço forte de seu pai envolveu o pescoço dele por trás e cortou a garganta do algoz, amado Costel a salvou. Mas agora, ela está no lugar do agressor, a criança apavorada na mesa é sua vítima. Ela tornou-se o assassino frio e cruel. Então escuta o choro das mulheres na jaula ao longe, está de volta ao galpão, a cozinha de centenas de anos sumira, está de volta ao galpão de traficantes. Ela recua, quase tropeça em outro cadáver, escuta o gemido baixo daquele que estava no telefone e decide ir até lá.

Ela vai atrás do fujão que, a essa altura, tirou a adaga do joelho, péssima escolha. Agora com hemorragia, ele mal tem ligamentos para se mover, ele manca tentando inutilmente fugir.

— EU NÃO VI O SEU ROSTO! EU NÃO CHEGUEI PERTO DE VOCÊ! — Ele berra recuando enquanto segura a adaga contra a mulher, como se isso a ameaçasse. Enquanto ela se aproxima, uma bala cai de seu ombro, expulsa pela regeneração, ele vê o projétil quicar no asfalto e olha assustado. — Que tipo de demônio é você? É aquela que falaram na televisão?

Ela sorri para ele, mostrando as presas pela meia máscara, o fato de estar com o rosto parcialmente sujo em sangue cria uma imagem ainda mais assustadora. Ele aponta a adaga, ela se aproxima deixando a ponta da lâmina ficar a poucos centímetros de seu peito. Em um rápido movimento ela segura o pulso dele e torce dando um soco em seu rosto e clavícula. Ele cai de joelhos.

— O que você quer?

— Quem é o comprador? De onde ele é?

— Eu não sei, só sei que ele paga em diamantes para o Nikolai. Ele sempre pede mulheres jovens e bonitas.

Ela torce mais o pulso dele que solta a adaga no chão.

— Isso não me ajuda.

— E-eu não... — Ela dá um chute em seu peito fazendo-o deitar, pisa em cima de seu ombro e com a outra perna apoia em seu joelho cortado, ele grita em desespero.

— Onde será a troca?

— No porto! Sempre é no porto! Mas o número da plataforma só sabemos na hora, o comprador manda uma mensagem falando um pouco antes da entrega.

As sirenes policiais anunciam a chegada de mais pessoas.

— Onde Nikolai está? — Ele balança a cabeça negando. Ela torce seu braço fazendo uma fratura exposta no cotovelo, ele grita abafado pela mão na sua boca. Ela abaixa e chega muito próximo ao seu rosto.

Onde está Nikolai ... — sussurra em seu ouvido.

— Está no White Cat, ele se esconde lá, mas o lugar é uma fortaleza!

— Tudo bem, não quero nada fácil mesmo. — Ela solta-o, empurrando seu rosto contra o chão. Os ossos de seu braço espirram sangue na sua camisa. Ela corre para o prédio ao lado, subindo pela parede lateral entre as sombras.

*********

Assim que Lucy chega em casa de moto, entra e vai rapidamente para o porão, onde encontra Hidekki.

— E aí? Conseguiu informações? — Ele está de regata, é possível ver uma grande cicatriz em seu ombro direito que fora causada no porão de Clinton, dentre outros ferimentos.

A vampira desce olhos ao longo de seu braço esquerdo, notando que agora ele encaixou um cigarro no gancho duplo de sua prótese metálica. Ele levanta o braço e dá uma tragada profunda enquanto olha para ela, seu olhar é vago, frio.

— Algumas, a maioria não sabia muita coisa, não pude perguntar a todos.

— Tá. Você precisa de mais alguma coisa? — fala secamente.

— Não, pode ir pra casa, Hidekki. Você tem faculdade amanhã ainda.

— Não se preocupe, você sabe que durmo pouco. Boa noite, Lucy. — Ele fala, enquanto toma mais um gole do energético que estava na mesa. Passa por ela atirando a latinha no cesto de lixo, joga o cigarro ainda aceso no copo de café da mesa e vai embora.

Nesses últimos anos Hidekki mudara muito, não só por antes ser um dorminhoco gentil e vegetariano que de repente tem falas ácidas, ela estranhou quando o viu comer carne agora de uma maneira um tanto grotesca. Ele perdeu aquela leveza adolescente e cheio de ideias positivas, a vampira pensa imaginando no que ele pode ter passado durante os três dias em que ficou preso com Clinton, o canibal. Claro que ela ofereceu pagar uma terapeuta, mas ele sempre desvia do assunto, ela se sente culpada, Clinton só fez o inferno com ele por causa dela. Mais uma vez, uma pessoa que era de sua proximidade era afetada por ela, por seus inimigos. Ele estaria mais seguro se não tivesse se aproximado, se ela não deixasse sua carência criar vínculos com aqueles que não tinham como se defender.

Ela observa o porão que fora todo mudado em relação aos anos anteriores, antes eram apenas suas antiguidades, uma grande adega cobria a parede, um tonel de fermentação e um de curtição. Agora, só sobrou uma geladeira muito mais moderna frost-free, a boneca de Laura ainda está na caixa de vidro. Mas todo o resto são mesas cobertas de computadores, eletrônicos e um emaranhado de fios coloridos. Coisas que Hidekki faz, como trabalhos de sua faculdade.

— Foi uma noite agitada hoje. — Manson interrompe seus pensamentos no alto da escada.

— Sim, foi divertida. — Ela fala sem muito entusiasmo.

— Eram necessários tantos cadáveres?

— Se você estivesse lá, saberia que sim.

Por um segundo a imagem dela assassinando o homem vem à mente dela. O sangue subindo próximo a sua mão, ela sorrindo, a sede, o jeito que ele olhava para ela em pavor. Ela sabe que aquela morte foi desnecessária, que perdeu o controle. Era tão semelhante quando ela era criança, quando foi atacada, quando... é isso mesmo que ela está destinada, a ser um animal? Seus questionamentos são interrompidos novamente pela voz de Manson.

— É por isso que estou perguntando. Dois que levaram tiros estão estáveis no hospital, o com o joelho furado e braço quebrado falava assustado de você.

— Ele me perguntou se eu era a mulher da televisão.

— É, você foi o assunto do mês. Afinal, não é todo dia que uma mulher atira um homem do outro lado da loja... Até agora não entendi porque resgataram essa história de anos atrás somente agora. Você ainda vai naquela mercearia?

— Todas as semanas. — Ela fala enquanto limpa os restos de cigarros, agora além das cinzas de Manson, Hidekki também passou a defumar sua casa com tabaco barato, ela encontra outras latas de energéticos perdidas no chão. — Frequentemente eles me dão descontos agora.

— Eles sabem quem você é? — fala com seu charmoso tom investigativo.

A mulher para, olha para ele, admirando seu lindo rosto negro de barba rala, a cicatriz na lateral acima da orelha ficou bem discreta. Mais uma marca de Clinton, definitivamente o assassino deixou muitos rastros em torno da vida dela, mesmo que com poucos encontros.

— Só me conhecem de rosto, lá não aceitam nem cartão, então, nem dados eles têm.

— Câmeras?

— Já não funcionavam há muito tempo. Nem sei se algum dia funcionaram. E fora que se tivessem, com a pressão que a imprensa fez, teria aparecido alguma coisa.

— É bom, é mais seguro para você e para eles também. Você tem feito muitos inimigos ultimamente. — Ela ri com um pouco de desdém e sobe as escadas, quando se aproxima ele a abraça pela cintura, o beijo vem quente e suado.

— Preciso de um banho. — Ela murmura enquanto solta a trança embutida do cabelo que já cresceu até os ombros.

— Ótimo, eu também preciso de um. — Seu hálito quente acaricia seu pescoço.

*********

No dia seguinte, o pequeno consultório está muito abafado, o ar-condicionado, barulhento e meio amarelado, luta para vencer o calor. O sol passa pela vidraça da janela fechada emanando um mormaço na área. Ainda é quase silencioso quando Manson tosse longamente mais uma vez no punho antes de perguntar novamente.

— Então, que tratamento temos?

— Acho que você ainda não entendeu. — O médico fala calmamente.

— Quimioterapia? Rádio?

— Sargento Manson, o estágio quatro é bastante avançado já, além das metástases. Se você tivesse vindo aqui antes talvez...

Manson para incrédulo por alguns segundo e fala em tom revoltado em seguida:

— Talvez o quê? Tá me falando que eu vou morrer?

O médico permanece em silêncio por longos segundos antes de retomar o tom monofônico.

— A quimioterapia é de um mês de ataque, a remissão só se inicia em três meses...

Manson bate as palmas das mãos nas coxas tentando manter o controle.

— Ótimo! Traz as agulhas aí que eu tenho tempo agora!

O médico de cabelos brancos olha para ele meneando com a cabeça. Manson franze o cenho, olha para o lado antes de tomar um tom baixo.

— Tão pouco tempo assim?

O médico respira fundo antes de falar.

— Eu não faria planos para mais de três ou quatro meses, Sargento.

Manson se encosta novamente na cadeira, olha para o lado vendo as placas de formatura do Oncologista. Ao lado, as chapas de raio-X de seu peito manchado estão ainda no suporte luminoso. Quase como um pôster macabro, lembrando do seu hábito de fumar desde os catorze anos de idade. O silêncio em seus olhos negros é cortado pela fala do médico.

— Entenda que você já está na fila de transplante, mas é preciso encontrar alguém compatível, você sabe que isso é quase uma roleta russa. — fala o médico de forma mecânica, quase ensaiada.

— Quanto tempo costumam esperar na fila?

O médico olha por cima dos óculos por um instante.

— Transplante de pulmão costuma ser rápido, de cinco, às vezes, seis meses.

— Você disse que não devo fazer planos para mais de três.

— Sim.

Manson balança a cabeça, volta a olhar em torno e depois para o bloco de receituário do médico na parte superior da mesa. O médico pega o bloco e anota com sua letra disforme vários medicamentos.

— Esse deve aliviar os sintomas, já esse outro é um antidepressivo que você deve começar agora e não deve misturar com álcool de forma alguma. Já esse último é um calmante caso tenha dificuldades de dormir ou quan...

O policial não tem certeza do que o médico estava falando nessa hora. Ele não estava prestando atenção, só olhava o movimento da caneta que parecia fazer um som maior do que a voz do homem de jaleco branco. Ao destacar as quatro folhas do bloco, o especialista estende os papéis coloridos, pega um cartão de um terapeuta e completa:

— Tente não desanimar, por hora é melhor correr menos atrás de bandidos, certo? — O médico tenta ser animador, não poderia ter sido pior.

O ex-militar sai do consultório ainda desnorteado, o brilho do sol o incomoda como se tudo fosse mais irritantemente colorido. Ele enfia a mão no bolso e pega o maço amassado de cigarros, se aproxima de uma lixeira para descartar seu assassino silencioso. Ele para um momento, lembrando do que o médico lhe dissera. Que diferença isso vai fazer agora? Os pensamentos intrusivos são quebrados pelo celular, uma mensagem de Lucy:

L — Você vem hoje à noite?

M — Sim, vamos comer alguma coisa.

L — Está bem, te espero em casa então.

Ele bloqueia a tela do celular, coloca no bolso da calça, o aparelho disputa espaço com os papéis coloridos recém chegados. Ele passa a mão no rosto tirando suor e limpa na lateral da camisa. Ele fica olhando para os carros passando enquanto pensa nos últimos anos, coça a cicatriz na lateral da têmpora que criou uma pequena falha nos cabelos. Chegou a ir em um terapeuta uma vez, anos antes, antes de conhecer Lucy. Foi perda de tempo, ele caiu na besteira de dizer que tinha sentado na mesa da própria sala com uma garrafa de whisky e imaginou como seria usar sua arma para fazer uma pintura na parede com seus pensamentos acinzentados. Dizer isso para o terapeuta lhe rendeu muita papelada, afastamento, um monte de remédios e nenhuma solução.

Ele também não contou a ninguém que no dia que conheceu a vampira era um desses dias, em que ele chegou a ensaiar sua tentativa de voar do parapeito do prédio do trabalho. Aquela foi a terceira vez, foi a primeira em que chegou a subir na mureta e admirar a paisagem, o vento no rosto e pensar em qual seria o formato de seu cérebro na calçada. Mas bem nessa hora, o telefone tocou e mandou que ele fosse ver o pacote abandonado na rua sem saída, conhecendo Lucy, naquela época a conheceu como Miryan.

Ele a odiou no primeiro momento que a viu, inicialmente achou que era só uma dondoca cheia de manias. Depois, uma dondoca que poderia ser uma assassina. Depois achou ela meio problemática, cheia de histórias tristes que começou a contar aos poucos. Em duas semanas ele já a achava linda, triste, problemática, cheia de histórias tristes e com peitos perfeitos que ele imaginava que encaixariam perfeitamente em sua boca. Ele fantasiou tomando-a na calçada suja uma vez enquanto estava sozinho em casa, se deu prazer solitário enquanto imaginava puxar aqueles cabelos pretos com suas mãos. Primeiro foi tesão, e agora, se ele tivesse tempo, talvez ele até casasse com ela. Só ficou pensando se ele a ama por ser triste problemática, e de peitos lindos, ou se é por que ela não tem medo de morrer, isso não é um problema para ela.

Ele quis morrer, muitas vezes, agora ele sente um pouco de medo disso, afinal, ela confirmou que existe inferno, mas nem todos vão pra lá. Ele iria? Pelo que deu a entender, provavelmente não, mas justo agora que ele não quer, ele está morrendo aos poucos, sem ser por escolha dele e nem sabe como dizer isso a ela. Como poderia? Ele já nem se sentia exatamente seu príncipe galã, ela é mais forte que ele, mais velha, mais rica e ainda tinha os peitos perfeitos. E ele já foi o atlético da academia, agora era esse cara de meia idade que está lutando para respirar sem cuspir sangue.

Seus pensamentos vão se dissipando aos poucos, junto com o sol que parece dar uma trégua, uma nuvem o cobriu. Ele bate duas vezes no maço de cigarros amassado até um deles saltar pela abertura, leva a boca, acende com os fósforos e dá uma tragada profunda antes de caminhar até o próprio carro.

Limbo

Astaroth caminha pelos portões do Primeiro Círculo do Inferno, o Limbo é onde os tolos, os enganados e aqueles que cometeram pecados inocentes devem permanecer. É o único círculo livre da penitência, dor e sofrimento, é o paraíso dos infernos, considerando as circunstâncias. Algumas almas permanecem temporariamente antes de subir, outras jamais serão aceitas e acabam ficando como perdidas no esquecimento. Muitos demônios consideram esse círculo um desperdício de recursos, de espaço, de existência. Mas Lúcifer sempre defendeu a existência do círculo para aqueles que não se encaixavam nos outros e que não eram aceitos nos céus. Lúcifer não era mais o rei, e agora o novo líder caminhava sem um sorriso em direção ao Castelo da Ciência.

No portão, Lilith aguarda sua chegada, a mulher com vestes de tecido cru é ainda tão bela quanto no dia que foi criada para ser a geradora de toda a humanidade, junto de Adão. O criador mudou de ideia, ela manteve sua decisão em não se curvar para seu par, fora condenada, expulsa e rapidamente substituída. O rei para à sua frente, seus olhos vermelhos percorrem o que o tecido deixava à mostra e solta um suspiro.

— Ah, agora lembrei o por que eu deveria ter vindo mais cedo.

Ela faz a reverência oficial.

— Meu rei, vim acompanhá-lo até o salão da Geometria, Baphomet e Belial já o aguardam.

Ele sorri, com muitos dentes à mostra, mais do que seriam realmente necessários e segue a mulher.

— Espero que ela tenha avisado que queria vocês três presentes.

— Oh, sim.

Eles caminham, os tapetes finamente tecidos no corredor amplo abafam o som das botas pesadas do rei, ela caminha descalça. Ao virar em direção ao salão de reuniões as paredes estão cheias de adornos indicando métodos científicos conhecidos pela humanidade que não foram bem quistos pela fé que era dita pelos homens. Astaroth olha para as formas e registros com desdém.

— Não é irônico pensar que ficou conosco todo o saber? A humanidade deveria nos agradecer e ainda assim não sabem a quem servir adequadamente.

— Talvez eles não tenham sido feitos para se curvarem. — Ela responde ousadamente em um sorriso.

— Sim. Talvez o erro esteja exatamente nisso, em esperar que o gado se curve e relinche de volta, eles não servem nem mesmo para isso.

— Mugir.

Ele para, olhando para ela. A mulher apoia as mãos na porta do salão antes de abrir, sorri para ele antes de retomar.

— Relinchar é para cavalos, gado muge, meu querido rei.

Ela abre as grandiosas portas de madeira entalhada, Baphomet já está em pé na mesa de reunião e Belial está ao seu lado. Quando a passagem foi feita, a primeira coisa que viram foi a expressão pouco satisfeita de Astaroth, contrariado, ele caminhou após a mulher fazer o gesto gentil se curvando e estendendo a mão. Todos cumprimentam-se, ele se senta e finalmente todos voltam a se acomodar, Lilith se une aos outros dois demônios fazendo uma base piramidal na mesa.

Baphomet, é uma figura no mínimo peculiar com seus cornos e olhos de cabra. Ela exibe os seios humanos à mostra junto de correntes com pingentes e muitos pelos compridos nas costas e laterais próximas das costelas. As pernas de cabra são as únicas que parecem combinar junto de seu rabo curto. Ela é sábia, calma e muito adaptável. Astaroth olha diretamente para os olhos com pupilas deitadas e demonstra claramente seu dissabor. Ela sabe, sempre soube que ele despreza todos aqueles demônios filhos de Moloch, afinal eles têm mais do que apenas chifres, única característica externa mais animalesca que ele tolera, talvez por ele mesmo possuir.

— O que posso fazer por você, meu querido irmão e rei? — Baphomet fala, fingindo que Astaroth a respeita.

— Prima. — Ele cospe a palavra em desprezo. — Não somos do mesmo pai, por mais que pareça que alguns de nós queiram fingir que somos todos irmãos.

Belial move o maxilar engolindo as próprias palavras antes de montar um sorriso fingido ao rei.

— É claro. — Baphomet parece não se abalar com o comentário. — Então, o que deseja?

— Eu gostaria que enviasse todos os dados de almas presentes no momento. Talvez nós precisemos de muitas almas na guerra.

Ela baliu curto.

— Daqui do Limbo? Os círculos da violência ou da ira não seriam mais apropriados para essas circunstâncias?

— A superfície é muito extensa, e creio que a guerra pode durar muito tempo. Só estou me prevenindo. Imagino que mesmo filósofos e matemáticos consigam lutar se forem treinados devidamente.

Belial olha confuso. O demônio de vestes negras finamente bordadas em dourado aperta os dedos finos de pele igualmente tão negra quanto suas vestes. Os múltiplos colares de pedrarias sobrepostos cobrem todo seu pescoço até parte de sua túnica de seda solta nos ombros.

— Irei providenciar o que solicita. Era apenas isso?

Astaroth volta-se a ele.

— Não, claro que não. Eu só gostaria de olhar para vocês três aqui. — Ele olha em torno do salão. — É sempre tranquilo assim? Não consigo nem ouvir gritos dos condenados.

Belial contrai o rosto por um momento, estreitando os olhos antes de retomar a face neutra.

— Aqui isso não é necessário.

— Não acham que devem reconsiderar?

— Como um cientista deveria ser punido, meu rei? — Baphomet interfere.

— Chicotes, congelamento, esfolamento, eu realmente precisaria dar uma lista com instruções?

Baphomet sorri.

— Não, creio que não. Mas me pergunto quais seriam os motivos para isso, se somos demônios para expurgar os pecados, as falhas. Quais seriam as falhas que eles merecem saneamento?

— Não ter fé, por exemplo.

Lilith franze a testa.

— Mas então estaríamos sendo como humanos, estaríamos tirando deles o livre-arbítrio. A inquisição foi isso e nós temos milhares de inquisidores no sexto círculo, justamente por sua heresia.

— Sim, é algo que pretendo conversar pessoalmente com Mefistófeles por isso.

— Acha que eles não deveriam ser punidos?

Astaroth baixa os olhos para Lilith.

— Acho que deveriam ser qualificados a demônios, afinal, a humanidade é gado, deve nos servir, querida Lilith.

Ele fala enquanto os olhos vermelhos inquerem ela, afinal, ela também já foi uma das criaturas a qual ele se refere. Feliz por ela finalmente não responder, ele retoma:

— Eu insisto que pensem no assunto. Afinal, não é bom ter um dos reinos visto como pacífico ou frágil.

Baphomet pisca lentamente.

— Está bem, iremos elaborar algo que seja do agrado e assim que a nova estrutura estiver pronta irei enviá-la por Belial, meu rei.

Astaroth sorri, satisfeito.

— Na verdade, eu preferia que Lilith trouxesse, se você não se importar. Há tempos que eu gostaria de sua companhia em meus aposentos.

— Perdão? — Baphomet fica consternada, Lilith arregala os olhos, mas logo os fecha para respirar profundamente.

— Eu precisaria descrever também o que gostaria de fazer em meus aposentos, Baphomet?

— Bom, então peça a ela.

— Estou solicitando a você, Baph. Tu és a comandante desse círculo.

— Não sou eu quem decide o que ela faz, seria inapropriado eu... Lilith, querida...

A demônia fala nitidamente constrangida por ele solicitar a ela pela amaldiçoada. Como se a mulher fosse propriedade a ser emprestada a alguém, finalmente, Lilith responde de forma a minimizar a cena perturbadora.

— Mas é claro, eu adoraria servir ao rei. — Ela responde em um sedutor sorriso.

Ele lança seu olhar vermelho a ela novamente, Baphomet sorri ainda perturbada.

New Orleans

Manson desamarra a venda que cobria os olhos verdes de Lucy, ela está sentada à mesa que foi decorada com uma vela baixa. O cheiro do assado escapa pela tampa, talheres e guardanapos foram posicionados ao lado do prato. Uma porção de frutas cortadas ficam ao lado em um segundo prato, ele rouba um figo enquanto vai até sua cadeira. Ele caprichou, sorria ansioso pela reação dela.

— Uau, você fez tudo isso? — fala ela duvidosa.

— Você acha mesmo que não consigo fazer nem um jantar? — fala enquanto balança o lenço antes de posicioná-lo no colo. — Na verdade, eu comprei na mercearia dos indianos, pelo bem da sua cozinha. — Ele admite, ela ri e sente outra pessoa se aproximar por detrás.

— Espero que esteja do seu agrado. — fala Clinton, em pé ao lado, enquanto serve o vinho tinto na taça dela.

A presença do assassino e canibal é aterradora. Instintivamente ela tenta mover seus braços, mas eles estão paralisados, amarrados com a fita adesiva prateada no braço da cadeira. Manson sorri enquanto come a carne crua de seu prato que antes estava vazio. Ela observa o próprio prato de vermes rastejando sobre as folhagens, ela sente-se muito presa, não entende como as fitas ficaram tão fortes.

— Seu prato favorito está na mesa, Lucy. — declara o cozinheiro enquanto levanta a tampa do assado.

Nele, a cabeça de Vlad Tepes, o Drácula, seu primeiro esposo, está deitada, com uma das bochechas cortadas, servida no prato de Manson. A cabeça decorada com figos, ostras e castanhas abre os olhos esbranquiçados, encarando-a decepcionado.

— Sua desgraçada! Foi sua culpa! — fala a cabeça parcialmente assada de seu primeiro esposo.

Ela balança o corpo tentando sair, mas não consegue se mover, Manson bebe da taça, não parece vinho, a densidade indica... aquele cheiro férreo...

— Está na hora da guarnição!

Clinton avisa ao dar uma forte garfada no braço amarrado. Ele rasga a pele com os dentes do talher, arrancando um filete de carne do braço dela.

Lucy acorda com o braço que ela mesma arranhou, as garras estão cobertas de sangue e a pele vai se regenerando instantaneamente. Um outro braço repousa no seu pescoço. A respiração suave de Manson em seu ouvido a acalma. Ela se desata devagar dele antes de se levantar. O policial dorme pesado ainda, sua barba mal aparada dá um charme especial em seu rosto. Em sua pele escura é possível ver muitas cicatrizes. Entre riscos e estrelas indicando balas, uma bem grande atravessa suas costas de um lado a outro, a facada dada por Clinton naquele dia fatídico. Ela admira por um instante, seus contornos fortes, ele é bruto, mas gentil com ela quando quer. Ela veste um hobby de seda azul e vai pegar a comida de Hipátia, que já está reclamando na cozinha. Após alimentar a gata filósofa, ela desce até o porão e pega as fichas que Manson trouxe de Nikolai.

O russo, como também é conhecido, está ligado a muitas mortes de mulheres forçadas a se prostituírem, além de inúmeros traficantes. Esses não a incomodam por estarem mortos, mas se surpreende a forma que foram encontrados, severamente espancados. Aparentemente, usaram algum tipo de barra de ferro e muita raiva para deformar aqueles homens. Alguns foram encontrados em um estado que até o dentista teve dificuldades de identificar.

— Você vai hoje à noite no Black Cat? — fala Manson, ainda cambaleante na escada com sua voz rouca.

— White Cat. Sim, vou.

— Recomendo tentar ser discreta. Você viu o que ele faz com informantes.

— Sim... discreta. — fala ela enquanto olha os restos mortais de um deles.

Céu

— Você não pode estar sugerindo que nós lutemos junto de demônios, Metatron!

A fala de Gabriel ressoa na sala, a maioria dos angelicais concordam. Estão todos em suas finas vestes pálidas com detalhes em dourados e prata. Alguns lembram ternos justos, outros usam túnicas, mas todos têm os mesmos tons perolados e cinza claro.

— Acho que não compreendeu a situação, Gabriel. Estão arquitetando a invasão da terra, a humanidade não está preparada para esse tipo de confronto, será um massacre.

— Sim, é terrível. — concorda Uriel. — E serão almas para o céu.

Metatron fica espantada como a arcanja fala com suavidade tal constatação em seus lábios vermelhos.

— Mais almas para o céu, parece que estão até torcendo que esta guerra ocorra. — Metatron é a única que baixa os olhos brancos profundos lamentando. — Milhares irão morrer, deixarão suas vidas em infortúnio por que não foram auxiliados.

— Metatron, creio que talvez você esteja permanecendo muito tempo na superfície e até lá... — Rafael meneia com os olhos, receoso. — ... lá embaixo. Tem certeza que este é o caminho? Não está sendo muito afetada pelas sutilezas e caprichos terrenos?

— Eu sou o que sou, o que chama de sutilezas, estou falando de serem a única vida que aquelas pessoas conhecem. Como podemos esperar que eles queiram vir ao céu se estamos sequer prezando por seu bem-estar? Talvez sejam vocês quem deveriam descer um pouco, sair de suas salas confortáveis e vejam com seus próprios olhos o que é ser um mortal.

Eles se entreolham consternados, Metatron nota que nem todos estão tão chocados com sua fala. Ela retoma.

— Inclusive, Mefistófeles está organizando um grupo terreno, assim como Azazel descobriu que...

— Azazel? — interrompe Miguel. — Sabe muito bem o por que ele foi banido, Metatron. Ele foi corrompido.

Metatron permanece olhando para Miguel, ela fita que por baixo de seu terno de linho claro ele respira profundamente, sua mão está apoiada no cabo de sua espada, a Azul Flamejante. Ela nota o cordão dourado, enrolado no cabo da espada, sua ponta tem um nó que prende uma conta de turquesa.

— Eu lembro do dia que expulsara Azazel, lembro da ira que se formou em seus olhos.

Miguel torce o rosto em desprezo, balança em negação.

— O que está chamando de ira, Metatron, é justiça divina.

Metatron inclina o rosto.

— Interessante.

Miguel franze o cenho com a resposta.

— O que foi agora?

— Essa fala, “O que está chamando de ira, é justiça divina.”, isso será dito novamente, em breve.

Miguel arqueia as sobrancelhas recuando, os arcanjos ficam surpresos e alguns murmuram entre si. Eles sabem que Metatron não faz premonições ao acaso, que suas visões não são aleatórias, ainda que ele pouco revele sobre o que se tratam antes do tempo.

— De qualquer maneira... eu tenho para mim que não devemos interferir junto de demônios.

— Mesmo que isso seja estar interferindo por mortais, humanos. — completa Metatron.

— Sim. É o ciclo natural, nós não devemos interferir, a não ser que seja uma ordem direta do Pai.

Miguel vira-se para os outros arcanjos em torno esperando a aprovação. Zadkiel e Gabriel respondem em uníssono, logo em seguida Uriel e Haniel respondem concordar. Antes da fala dos últimos arcanjos, Miguel prontamente vira-se novamente para a serafim em seu rosto convencido.

— Creio que isso já seja uma resposta.

— Sim. — Metatron concorda.

Os arcanjos se levantam e começam a dispersar, Metatron admira a luz do sol que se propaga pela sala ampla. Dilatada demais, demasiadamente branca e estéril.

— Eu desci algumas vezes, Metatron.

A serafim vira-se para olhar Jehudiel, ela se aproxima em suas largas vestes de palha dourada, combina perfeitamente em sua escura pele de cabeça raspada. Seus lábios grossos marcados por um fio dourado retomam.

— Eu entendo o que dizes sobre ter a vivência dos mortais, o medo que eles sentem, os anseios, a fome. Mas creio que nossos irmãos não sejam preparados para esse olhar.

Metatron espanta-se.

— Sentiu fome?

Jehudiel sorri com seus belos dentes brancos.

— Eu faço isso a mais tempo do que gosto de admitir. Senti muitas coisas, Metatron. Isso te incomoda?

A que é a voz do Pai se aproxima para sussurrar:

— Como é?

— Dói. — Jehudiel leva a mão até o alto estômago. — Muito mais do que eu imaginei.

— O que te levou escolher sentir... fome?

— Achei que eu deveria saber como é e sentir tudo o que os marca, sejam coisas boas ou ruins. Quando tantas almas vinham aqui e falavam da fome que sentiram em vida eu achei que eu deveria saber do que se tratava realmente.

— Me parece justo. — Metatron olha em conformação.

— Acha que se lutarmos junto desse grupo de demônios podemos impedir com que tomem a humanidade?

Metatron franze as sobrancelhas.

— Eu não consigo ver nada além sobre isso. Eu realmente espero que sim.

8º Círculo do Inferno, a Fraude

Os portões se abrem ruidosamente, Astaroth caminha entrando rapidamente no círculo. O rei está com sua imponente túnica vermelha, formado por camadas sobrepostas, uma sobre as outras. Seus olhos vermelhos percorrem por todo o círculo quando Raum chega em seu traje de nobre europeu do século XII.

— Deseja alguma coisa, soberano? — fala respeitosamente o demônio.

— Chame Paimom. Preciso ter com ele, imediatamente.

Raum levanta o olhar ao perceber que Belzebu entra pelo portão e para logo atrás de Astaroth. O antigo agiota sabe que suas habilidades se limitam a pequenas estratégias visando o lucro, não é um combatente. E mesmo que Belzebu também não seja conhecido por sua habilidade ele é suficientemente grande para causar estrago. O franzino de pernas tortas corre como pode em busca de seu mestre, enquanto isso, Astaroth observa os fossos.

— Eu nunca tinha vindo aqui, senhor. — fala Belzebu.

Sua dicção é catastrófica devido à falta de dentes. Os que sobraram estão quebrados, sua cabeça é parcialmente raspada e os cabelos da parte superior são trançados ou emaranhados em uma mistura sebosa.

— Não perdeu nada, irmão. Aqui estão apenas aqueles que acham que suas riquezas terrenas serão seu eterno conforto, de todos os pecados, esse é um dos mais tolos. Afinal, quando se morre seu nome não ficará para a eternidade por isso, não há conquista, não há valor.

Belzebu observa os inúmeros fossos pelo horizonte avermelhado, cada um profere gritos daqueles que usufruíram de bens que não lhes pertencia. Alguns urram cânticos religiosos, achavam que sua fé bastava para obter um lugar no paraíso. Esqueceram que não deviam usar do dinheiro de fiéis com falsas promessas ou puro descaso com os bens alheios.

Paimom chega, aproxima-se rapidamente e curva-se para Astaroth. Atrás dele fica Raum com seu pequeno caderno de anotações, pronto para a ordem de qualquer um dos mestres.

— Senhor, sei que mandara eu enviar meus demônios para combate e domínio, mas como pode ver, eles não são para esse tipo de atuação.

Astaroth olha em volta e retoma para Paimom.

— Então o que sugere? Todos os círculos serão úteis de alguma forma em minha tomada da terra. — fala impaciente o rei.

— Hoje há guerras, preconceitos, xenofobia, racismo... tudo há leis na terra para que as pessoas neguem seus impulsos malignos. Mas não quer dizer que eles ainda não o sintam, você sabe que a humanidade tem muita capacidade para o ódio. A caça às bruxas, nazismo, islamofobia, homofobia... tantas possibilidades que podemos...

— Novamente com isso, Paimom! — interrompe o rei, cortando o transe do governante da fraude. — Destruir a humanidade dentro deles mesmos. Isso é uma forma menor de batalha, tão mesquinha e desprezível que nem considero como verdadeira vitória.

O fraudulento arregala os olhos quando Astaroth o segura e o ergue pelo pescoço. As poderosas garras penetram na pele daquele que mal se segura nas mãos do mestre. Raum segura com força o caderno e recua poucos passos até bater as costas no dorso de Belzebu, agora está ao seu lado, sorrindo.

— Senh-or, ainda podemos auxiliar, eu posso enviar meus servos para batalha então se pre-ferir... — Tenta barganhar Paimom.

Astaroth espia lateralmente para Belzebu, que dá um passo e se curva para um dos fossos.

— São horrendos e fracos, esses sequer podem ser usados como guerreiros. — fala Belzebu, curvado enquanto mira uma mulher que se passara por vidente em vida ser espancada por um raquítico demônio.

Astaroth sorri com presas curtas e curvas.

— Mas sempre servem para algo, não é? Se não podem lutar, que alimentem os guerreiros.

Belzebu entende, no mesmo momento segura Raum pelas roupas que tenta inutilmente escapar do guerreiro. O anão deformado é jogado no fosso, assim que seu corpo cai os demônios se entreolham sem entender o que acontecera. No alto podem ver seu governante, Astaroth, jogar Paimom no chão forçando-o a se ajoelhar.

— Senhor, irmão! Eu não entendo, eu mesmo te ajudei!

— Acha que preciso de tua ajuda?

— E-eu... os documentos que forjei para que seu nome fosse o primeiro... deveria ter sido...

— Eis aqui sua gratificação!

O rei finca suas garras entre as costelas de Paimom, move sua mão para cima por dentro de seu peito. O magro demônio se debate e é segurado por Belzebu, aos berros, até parar inerte, suas mãos pendem lateralmente tornando-o totalmente pendurado no pulso do rei. Astaroth então apoia a outra mão na cabeça do irmão, move-a de dentro duas vezes e depois puxa com violência. Ele levanta o coração dilacerado do irmão, exibe-o como espólio para todos que estão no fosso e então o órgão para seu general que já acena para a entrada da tropa de guerreiros em trajes nórdicos, mongóis e persas.

Sua pequena tropa é sanguinária, correm aos berros saltando nos fossos e massacrando, condenados e demônios. Astaroth morde e devora em pedaços o coração de Paimom, depois derruba o antigo governante no chão. Belzebu se aproxima e arranca uma faixa de sua veste, entregando-a para o rei que a amarra e coloca sobre suas inúmeras faixas que cobrem o seu corpo.

— Mais uma para sua coleção. — fala Belzebu para seu rei.

— Meu santuário. — fala Astaroth, enquanto limpa a mão e braço nas roupas do falecido demônio.

Ele se levanta e observa a matança feita por aqueles que um dia foram homens, mas a violência os transformara em demônios.

— Esse é o nível de sua Legião menor?

— Eles são pequenos e talentosos, não acha? É um misto junto do terceiro e quinto círculo. — fala Belzebu, com orgulho.

— Sim, impressionante. Você sempre escolhe somente os melhores.

Eles caminham, deixando para trás o círculo que seria completamente destruído. Os mortos servirão de alimento, os fossos serão para prisioneiros com a guerra. Tudo estava indo perfeitamente como Astaroth queria.