“A honra é como a neve, que, perdida a sua brancura, nunca mais se recupera.” — Charles Duclos

Limbo

A grandiosa fera descansava relaxada, as patas de leão estavam cruzadas na frente agarrada a um pedaço de carcaça do antigo Leviatã. Baphomet escovava os pelos de sua juba quando notou que haviam ainda algumas escamas perdidas no meio da densa pelagem acobreada.

— Que gatinho voraz, ainda comendo e se sujando todo! — repreende ela de forma carinhosa.

Enquanto o grande animal parecia ronronar ela sente a aproximação dos passos de pés descalços do rei seguidos pelo raspar da bengala perolada. Ao se virar, imediatamente ela repara no tamanho dos cornos agora muito mais proeminentes do que antes, as pontas chegavam até a parte de trás da cabeça dando-lhe um aspecto de capacete natural.

— Bem que dizem que cada um cresce em um tempo diferente. Virou mocinho, Mefisto?

— Muito engraçado, cabra.

Ele se aproxima devagar e afaga a pelagem da fera que calmamente vira-se de lado com a cauda se movendo e as três serpentes se acomodando na parte superior do quadril da quimera. Todas as cabeças estavam satisfeitas e relaxadas em sono dos animais inocentes, Mefisto observa os detalhes ainda encantado.

— Realmente caprichamos, é um belíssimo animal. Ou será que seriam quatro?

— Cérberus é só um, aliás, ele ainda está em seu castelo?

— Eu o trouxe para o reino Satana, Lucy sempre gostou dele, mas ela também gosta de gatos, acho que vou trazê-la aqui quando puder.

A demônia sorri e guarda a escova depois do longo cuidado com o imenso filhote.

— Que bom que veio, irmãozinho. Tenho algo para te entregar.

— Já começaram os mimos monarcas?

— Não mesmo. Sabe que eu tô pouco me lixando pra isso. Aliás, o que veio fazer aqui? Duvido muito que seja apenas para falar de gatos.

— Vim lhe fazer um convite, oficialmente agora. Quero que seja minha conselheira.

— Eu teria que deixar o Limbo?

— Só se você desejar, mas creio que Belial dará conta sozinho. Eu gostaria muito que você estivesse próxima para me auxiliar a enxergar o que não consigo.

— E falar em seu nome quando você estiver ocupado, subindo na superfície? — Ela fala sorrindo maliciosa, mas a feição em resposta dele cortou a expressão debochada dela. — O que aconteceu?

Ele solta a mão da pelagem e solta o ar nos lábios enquanto olha ao longe, reparando que o castelo do Limbo estava sendo reconstruído. Ela passa a andar em direção ao castelo e é seguida pelo rei que declara aborrecido.

— Certas coisas podem demorar agora. Nem tudo é fácil de reconstruir e curar.

— Achei que vocês já tivessem conversado sobre isso, quero dizer, ela pareceu entender na mesma hora quando você falou quando ela estava no limiar.

Ele para de andar olhando atônito para ela, assim que a demônia nota a falta de companhia vira-se para ele com seus cascos de cabra peludos.

— Como você sabe disso, irmã?

— Desculpe. Ouvidos de cabra são sensíveis, acabei escutando...

— Tudo bem, suponho que isso não seja um problema.

Ele volta a caminhar e passa por ela se direcionando ao castelo. Ela o acompanha quando fala.

— Acho que Yuri ouviu também, mesmo motivo.

O demônio bufa levando uma mão ao rosto e depois passando pela base do chifre recentemente alargado e com sua saída ainda dolorida no crânio.

— Parece que todos ouviram, menos quem precisava.

— Como assim?

— Ela não se lembra de nada. Quando se atravessa o limiar tudo é apagado.

— Oh, bom, então é só falar de novo, não acha?

— Não é tão simples.

— Parecia simples na hora.

— Mas não é! Agora não!

O tom de voz distorcido deixa escapar sua frustração e Baphomet toca seu ombro quando ambos já estão no corredor que agora apenas algumas relíquias restavam.

— Eu nunca fui muito de relacionamentos, você sabe disso. Deveria falar com Baal.

— O certo era falar com Azazel, o único que eu não sentiria tanta vergonha em dizer tudo e receber todas as reprimendas ácidas dele.

Ambos suspiram, ela fala em tom mais assertivo.

— Lilith e ele fazem muita falta. — Ela se aproxima de uma larga cômoda e abre sua gaveta para retirar seu presente. — Aqui, não quero que fique carregando uma peça divina para se apoiar. Ainda mais depois de você quase ter morrido para sua toxina.

A mão peluda dela oferece uma bengala de tom perolado negro, a ponta dourada combinava com o punho redondo e finamente entalhado.

— Você fez isso, pra mim?

— Claro, ou você prefere realmente essa branquinha aí?

Ele balança a cabeça surpreso deixando seu sorriso lateral se expandir. Ao entregar a peça branca, Baphomet a coloca na gaveta enquanto o rei avalia o presente. Ele segura pela cabeça, vê que o apoio é do tamanho exato.

— Interessante, é um pouco mais pesada.

— Claro. Não achou que eu te daria uma bengala, simplesmente, não é?

Os olhos amarelos encaram diretamente os olhos brancos da cabra em um rosnado baixo de satisfação. Ele aproxima a peça para à frente do rosto notando uma fenda sutil no cabo. Segurando firmemente o punho ele puxa revelando uma espada fina e de lâmina igualmente negra. Apesar de estreita, o metal fazia um som peculiar enquanto cortava o ar com o movimento de giro do pulso dele.

— Isso sim, é uma espada leve.

— Imaginei que precisasse de uma lâmina mais leve e flexível caso fosse usar com seu braço estragado. Aliás, não recomendo brincar sem a bainha, a lâmina possui toxina demoníaca.

— Realmente impressionante. Eu não sei como agradecer, Baph.

— Quanto a isso, talvez eu tenha uma sugestão.

Ele vira o rosto para ela enquanto embainha a espada e o som que reverberava ser cortado do ambiente.

— O que quer?

— Asmodeus veio falar comigo.

— Ah, sim. O que ele decidir eu acho ótimo.

— Mesmo? Isso é oficial?

— Eu mesmo já fiz meus pedidos para você, querida irmã. Deixe-o se divertir, cada um tem suas necessidades. Eu concordo com ele, na verdade.

— Perfeito então. — Ela afirma com um sorriso satisfeito.

Um barulho abafado surge sutilmente, chamando a atenção do demônio e fazendo-o olhar diretamente para um armário fechado ao lado. Ele avalia por alguns segundos antes de voltar o olhar para ela que nem se movera. Ele sorri ao notar que ela está com a pelagem dorsal bem alinhada, cabelos trançados e a pele do rosto em tez remoçada. Ela parecia feliz, o que ele notadamente estava curvado e irritadiço.

— Não vou te ocupar mais. — Ele se vira saindo do salão. — Quando você aceitar o trabalho, saiba que terá os aposentos dignos lá, garanto que não sentirá falta de nada, irmã. Se quiser pode trazer o gato.

— Eu agradeço.

Ela sorria enquanto o rei se afastava, assim que ele sai do salão ela vai até a porta ouvindo com ele sair até o final do corredor, só então ela gira o trinco suavemente. Então retorna até o fundo abrindo o armário para ver seu querido Yuri que ainda estava amarrado e contido pelas cordas. Mesmo que vendado e de mordaça ele sentiu a golfada de ar indicando que estava sendo visto por sua mestra.

— Você fez barulho. — Ela dizia enquanto movia os dedos delicadamente pelo peito sensível com pequenas marcas vermelhas dele.

Ele gemeu lascivamente em resposta enquanto ela finalmente tira sua mordaça.

— Perdão, Mestra. — A fala era suplicante, mas de forma gentil e desejosa pelo toque dela.

Ela acaricia gentilmente os cabelos curtos, segura os fios com firmeza puxando-o para um beijo carinhoso.

— Terei que te castigar por isso.

— Sim, por favor. — Ele sorri.

Ela solta as cordas que o continham em um gancho do armário e o conduz em direção aos aposentos particulares.

Reino Satana

Após a coroação solitária de Mefistófeles os comandantes dos anéis foram convocados para a primeira reunião. Seriam necessárias diversas delas até substituírem cada perda e cada cargo novamente negociado. Abadon flutua no ar um pouco tenso com sua capa negra que tremula com seu movimento, seu rosto pálido de caveira não consegue disfarçar suas incertezas se continuará no cargo ou não. Afinal, ele estava ao lado de Astaroth até o fim, ele quem quase matara o novo rei e ainda tinha atacado o pai de todos com sua aspiração colérica. Os olhos fundos e negros analisavam os corredores enquanto caminhava até o salão principal.

Baphomet estava sentada junto a ponta da mesa. Mais ao meio do longo móvel estavam vazios diversos lugares até Belial que estava acomodado. Abadon acena com a cabeça para os dois e se senta no lugar marcado para si, impaciente ele questiona.

— Estranho, parece que dessa vez cheguei cedo demais, muitos ainda não vieram.

Ele observa os nomes dos ausentes, Mammor, Shax, Banshee, Abigor, Valac e Asmodeus. Então nota que os dois do limbo o encaram diretamente.

— Eu entendo o que estão pensando, mas eu só segui ordens. Guerra é assim mesmo, eu me alimento delas.

— Sim, se alimentou até do nosso pai. — retruca Belial. — Ele estava saboroso em sua ira?

— O que foi, Bel? Nunca aproveitou seu trabalho para se divertir?

— Não. — diz Belial após estreitar os olhos vermelhos.

O som da porta se abrindo interrompe o dessabor do caveira, Abigor entra, seguido por Baal que fecha a porta larga atrás de si, posicionado com seu imponente machado em mãos. O comandante serpentino vai até uma mesa lateral e serve o vinho em algumas taças, olha para todos oferecendo a bebida. Somente Baal recusa permanecendo em sua posição, Abigor serve e leva as taças para a conselheira e Belial, retorna e pega as outras duas restantes. Ele se aproxima do caveira e entrega o fino cristal diretamente à mão dele, dá um leve sorriso e ergue para o brinde sem toque.

— Ao rei, Mefistófeles.

— Ao rei. — respondem em uníssono.

Abadon bebe o vinho, sente as notas frutadas e um suave amadeirado, então percebe que os três permaneciam parados, o analisando, com suas taças intocadas. Apenas quando ele pousa o objeto na mesa, assustado, Abigor engole a bebida de uma só vez, os outros tomam um gole comedido, por um instante o caveira se apavorou com a possibilidade se estaria sendo envenenado. Ele suspira aliviado discretamente quando o serpentino volta para o buffet servindo-se e bebendo rapidamente. Na terceira taça ele finalmente pega a garrafa levando-a para a mesa e então senta-se ao lado de Baphomet. Abadon, ainda tenso, leva agora as mãos para as coxas escovando o tecido nobre.

— Então... Baphomet será a conselheira oficial? — Abadon pergunta nervoso.

— Sim. — Ela responde em um sorriso gentil.

— Imaginei. Mefisto sempre gostou bastante de ter orobas por perto.

A fala sai vazia e não gera qualquer resposta dos outros presentes, salvo um segundo gole de Belial no vinho. Algo estava errado, ele não seria morto, mas provavelmente perderia o cargo, parecia bom considerando a situação. Ele olha para a sala e nota que a mesa estava diferente, diversos desenhos entalhados na madeira. Ele passa delicadamente os dedos esqueléticos sentindo as sinuosas curvas em complexos signos.

— Mefisto mandou trocar a mesa?

— Não, é a mesma. — responde Abigor com seus olhos fendidos e escamas surgindo em seu pescoço em arrepios do relaxamento alcoólico. — Só foi redecorada.

— Que bonito. — Abadon elogiava o adorno bem executado quando nota que os signos estavam apenas à frente do seu lugar.

Os olhos negros e ocos dele descem e percebe que há desenhos no chão, entorno de sua cadeira, os mesmos padrões é ausente em todos os outros assentos da mesa. Ele engole seco tentando sorrir com os dentes pontudos, pensando em como poderia sair dali. É nesse instante que um zunido corta o ar quando um cabo fino é alçado em torno de seu pescoço e um gesto ágil torce o metal flexível atrás o içando. As mãos de Abadon desenham no ar para criar uma adaga em construto, mas a peça desaparece de sua mão enquanto os signos da mesa de madeira brilham em um tom avermelhado.

Abadon sente as mãos puxando forte o garrote, sua pele branca do pescoço começa a ser cortada quando ele inutilmente tenta agarrar seu agressor por trás. A confusão de seus braços faz com que ele bata na taça na mesa derrubando-a e espalhando o vinho no chão claro. Ele sente que o demônio mais baixo do que ele o segura com facilidade e se aproxima de seu ouvido para sussurrar.

— Achou mesmo que eu te deixaria vivo? — Os lábios de Asmodeus deixam o hálito descer no pescoço do enforcado. — Você o levou até minha casa, aguardou ele estuprar minha filha enquanto você... você estuprou o meu filho.

Abadon se debate, tenta criar uma lança, e novamente, o objeto se desfaz em sua mão quando os signos mágicos brilham na madeira. Baal vira seu rosto para assistir ao formidável show. Baphomet se levanta e dá dois passos para avaliar se cada signo está devidamente intacto, calmamente permanece em pé. Abigor o assistia apoiando o queixo na palma da mão, ele bebia e tornou-se naga, mantendo a ponta metálica de sua cauda balançando em confortável gesto de apreciação, mas ainda atento caso seja necessário intervir. Nenhum deles quer interromper os desejos de vingança de Asmodeus, não seria justo, nem sensato. Belial ignora completamente a cena enquanto inala os aromas do vinho que vertem em sua taça na mão.

— É realmente muito bom, esse foi o que a vampira mandou?

— Sim, é ótimo, não é mesmo? — responde Abigor calmamente sorvendo mais um gole saboroso.

Abadon franze o rosto agonizante, a sensação de abandono não é algo que ele esteja acostumado. Ele conjura seus dois braços extras para tentar agarrar o irmão, ou a mesa, a cadeira, qualquer coisa! Mas os signos desenhados no chão brilham alaranjados nos círculos entorno dos dois e fazem com que os braços extras permaneçam inertes sem controle. Asmodeus o levanta ainda fazendo os pés de Abadon perderem o chão e o equilíbrio. Um som de ganido escapa, o rosto branco começa a ficar coberto de nervuras negras que se espalham de suas têmporas até as narinas sem uso. Ele abre a boca com dentes pontudos como se pudesse captar qualquer gás precioso.

As pernas esqueléticas tentam balançar, já que agora não tem qualquer apoio. Ele percebe quando Asmodeus chuta violentamente a cadeira afastando-a do fim de seu suplício e depois gira o corpo apoiando agora o enforcado em suas costas para puxar ainda mais os cabos por cima do ombro. A pele branca já fora rasgada, seu sangue negro flui com intensidade enquanto ele tenta ainda fazer uma adaga. Com o gesto, Asmodeus o tirara parcialmente do círculo inibidor de magia e agora a adaga permanece na mão branca. Abigor estreita os olhos por pouco tempo, atento as possibilidades. Mas Abadon, não consegue mover o braço, a peça desliza de sua mão tilintando no chão. A cabeça tinha poucos espasmos quando finalmente seus olhos negros tornam-se um vazio oco e tão branco quanto sua pele. Não há mais qualquer movimento, Asmodeus traz ainda mais uma vez os cabos para o peito enquanto rosna com as presas proeminentes e parte de sua pele sendo rompida por escamas rubras.

Ao fim do rugido, o vermelho estreita os olhos negros observando por cima do ombro, verificando que Abadon já estava ausente desse corpo. Ele solta as peças de madeira das mãos deixando-o cair com o barulho próprio de um saco de ossos. Ele respira profundamente, acalmando-se, pode-se ouvir que ele passa a mão na própria túnica de seda negra conferindo se não estava abarrotada. Ele gira os ombros e arruma a postura, leva as duas mãos para reposicionar os longos cabelos negros que tinham ficado bagunçados com o ossudo. Apenas quando considera estar apresentável ele finalmente vira-se para Baphomet.

— Muito obrigado. Eu precisava disso. — Ele curva-se em um gesto respeitoso.

Ela responde levantando a taça.

Reino Satana

— semanas depois -

Cada dia que passou foi arrastado, as primeiras reuniões infernais foram tediosas listas de nomes para organizar cada círculo que tinham perdido seus governantes. O salão por muitas vezes ficou cheio dos irmãos discutindo fervorosamente sobre as regras a serem seguidas. Mefistófeles revogou a maioria das leis impostas por Astaroth, reestabelecendo a autonomia dos comandantes dos círculos e maior coerência nas penitências. Os orobas não só retomaram seus lugares, mas como agora muitos de sua espécie faziam parte da guarda real. Baal foi nomeado seu primeiro comandante, o búfalo fez questão de sorrir largamente para Bel que sempre demonstrou sua admiração pelo amado oroba.

Nitidamente que nem todas as mudanças agradaram a todos, mas no geral, a maioria parecia satisfeita. Ao final de mais um dia de reuniões o rei estava estressado, seu rosto afundando na mão em desejo de acabar com todo o reinado. Ele fisgou o olhar de Sitri, a demônia com chifres de antílope era do círculo da luxúria, claramente ela retribuiu o interesse enquanto exibia sua pelagem dourada e delicados cascos. Não seria a primeira vez que eles se divertiam, haviam milênios de convivência.

Depois da reunião e alguns arranjos, Mefisto estava entregue aos braços dela, percorria com beijos a curta pelagem dourada e suaves mordidas em seu pescoço fino. Ela estava deitada de costas, entre os lençóis de trama nobre com os movimentos tensos e ritmados tornando um deleite para os dois. Mas por um instante, ele para rangendo os dentes e soltando gemido profundo de prazer misturado com dor. A larga mão de Balberith que estava nos quadris de Mefisto percorre as costas, a omoplata e envolve o pescoço do rei, seu rosto se aproxima pousando um beijo em seu ombro.

— Te machuquei, Mefisto? Posso desacelerar...

— Pelo contrário, continue.

O rei vira o rosto beijando o demônio de pele vermelha que se inclinava em suas costas, os dedos longos de Mefisto se entrelaçaram nos cabelos negros e longos do parceiro. O ritmo é reestabelecido, os três se entretém até a exaustão ser considerada suficiente, ou pelo menos para a maioria. O regente não chegou a realmente se satisfazer, não por falta de dedicação dos demônios da luxúria. Afinal, o trio sempre se dera bem em todos seus encontros, mas naquele momento, não eram exatamente o que ele ansiava. O demônio que ouvia e sentia o desejo profundo de todos não tinha o seu próprio saciado. Já cansado da toada, ele fingiu ter atingindo o clímax para que a tormenta daquilo que era para ser uma deliciosa distração acabasse. Eles se acomodaram entre os lençóis úmidos para descansar, relaxamento que ele também não estava compartilhando. O demônio suspira aborrecido desatando os braços do musculoso acompanhante e da tentadora com cascos dourados. Decide não despertar os dois que dormem com a tranquilidade dos justos na cama larga e sai em direção ao salão. Ele foi cuidadoso em carregar a bengala e só apoiar quando já estava distante e o som não incomodaria o casal. Já longe, ele cobre-se com a habitual calças puídas creme e agora escolhe uma camisa de linho marrom escura bem aberta.

A mesa continha pilhas de papeis a serem analisados e assinados, fora os documentos que ele mesmo tinha solicitado na reunião enfadonha da manhã. O demônio rosna baixo antes de puxar a cadeira e se acomodar na mesa, ele invoca um expresso puro em uma xícara e começa a folhear os registro. Após algumas horas, já estava praguejando o tamanho da letra, a textura dos papeis e a necessidade de tantos quesitos para penitentes da gula. Os dedos longos afundam na cabeleira cacheada e ele abaixa o rosto descontente.

— Eu preciso de um pássaro pra fazer isso ou vou enlouquecer... Az, como você conseguia gostar disso?

Nesse momento em que os dedos pressionavam a têmpora e o pé sujo de Mefisto batia freneticamente no piso frio um pequeno demônio avança rapidamente pelo corredor e se ajoelha curvado. Mefisto apenas levanta os olhos amarelos e fala.

— O que quer?

— Ó grande senhor. Preciso anunciar...

Mefisto revira os olhos com o discurso demorado que já ouvira algumas vezes.

— Desembucha logo!

A pequena criatura fica sem entender, levanta os olhos para o rei que imediatamente leva os dedos pressionando o centro das sobrancelhas.

— Você dizia?

— O arcanjo Miguel, veio ter com o senhor. Ele disse que foi convocado.

— Sim, eu o chamei mesmo, deixe-o entrar logo! — fala gesticulando com desdém.

A criatura demoníaca recua ainda curvada, Mefisto se levanta sem muito entusiasmo e vai até a frente do trono. O arcanjo Miguel se aproxima com uma grande cicatriz vermelha que indicava ser recente na lateral do rosto da têmpora até sua boca que fora causado pela luta que tivera com Azazel. O demônio olha e quando nota a asa quebrada que se arrastava não pôde conter as risadas esganiçadas.

— Foi para isso que me chamou aqui? — fala com desprezo o que usava uma brilhante armadura cheia de marcas da mesma luta.

— Também. Eu precisava de algo para me divertir. Mas além disso, tenho que lhe devolver um espólio.

Ele invoca a Azul Flamejante, apoia com as duas mãos e oferece respeitosamente ao arcanjo.

— Por que está me entregando? É mais uma forma de me humilhar?

— Apenas não quero algo assim aqui. Eu tenho uma casa cheia de crianças, não quero armas que possam machucá-las.

Miguel vira o rosto para o lado e vê a clava de Azazel presa na parede, cruzada com a Cimitarra de luz.

— Sim, posso ver. Eu deveria levar a maça de Azazel também, afinal, ele também era um anjo.

Mefisto deixa os olhos semicerrados, se aproxima devagar e fala baixo.

— Ele morreu por aqueles que vocês anjos não quiseram lutar. Ele foi expulso por você e morreu como um caído, um demônio. A clava fica.

Miguel volta o olhar, balança a cabeça concordando e recebendo a espada de Mefisto, já irritado. O demônio se vira, se apoia na bengala negra para subir os degraus do trono.

— Você sabe que isso ainda não terminou, Mefistófeles. Essa foi apenas uma, mas outras guerras virão.

— E quando isso acontecer, eu irei lutar. — Mefisto se vira novamente para o arcanjo. — E você? Irá lutar quando for preciso ou ainda ficará como um covarde preso na saia do Senhor?

O arcanjo nada responde, embainha a espada na cintura e vai até uma das janelas laterais. Ele abre as asas e voa em movimentos desequilibrados deixando o novo rei dos demônios de costas.

Mefisto ouve a saída de Miguel, olha novamente para a clava e senta no braço do trono. Movimenta um pouco a cabeça de um lado a outro, para alongar o pescoço, isso pois os cornos nunca tinham pesado tanto. Baal se aproxima entrando no salão, olha a pilha de papeis na mesa.

— Saudades do Azazel, ele era um bom burocrata.

— Sim. — Mefisto apoia a cabeça no encosto do trono para aliviar o peso no pescoço. — Estou ficando sem digitais de tanto esfoliar os dígitos com a papelada.

Ele fica olhando para o teto pensativo.

— Baal?

— Sim, meu rei.

Mefisto levanta a cabeça encarando-o irritado.

— É sério, se você começar com essa porra eu...

Baal ri bufando nas narinas.

— Está bem, sem formalidades.

— É melhor mesmo, boi.

— Fale, morcego.

— Você e Bel, digo... você não precisa responder se eu estiver sendo um babaca de perguntar.

Baal dá de ombros.

— Não sendo sobre nossa vida sexual, está tudo bem.

— Certo. Então tenho que reformular a pergunta.

— Mas que merda, Mefisto!

— Não, eu estou brincando, juro! — Mefisto fala risonho e volta a apoiar a cabeça no encosto. — Eu queria saber sobre suas brigas.

— Nossa brigas?

— É... uma vez ou outra eu vi que vocês se afastaram, mas depois voltaram. Então, foi uma briga certo?

— Sim, tivemos algumas. — Baal anda até os degraus, senta-se no tapete verde apoiando-se nas coxas largas.

— Alguma séria?

— Que foi? Quer saber quem deixa a toalha molhada na cama?

Mefisto ri.

— Tenho certeza que você é o que reclama disso, mas... algo mais... Alguma delas, foi por que um de vocês escondeu algo?

— Mefisto, nós estamos juntos a mais de meio século justamente por não escondermos nada um do outro.

— Você nunca faria isso? Mesmo que fosse... algo grave?

O bovino junta as sobrancelhas em consternação.

— Se é grave, é justamente necessário contar, certo?

— Sim, suponho que sim. Mas... mesmo que isso fizesse ele te odiar?

O bufalino franze o rosto largo.

— O que aconteceu?

— Algo que... eu nem sei como... acho que não devo...

— Certo, não precisa me dizer. Ela não sabe de algo que a magoaria e... foi sua culpa?

— Não foi minha culpa, mas... de certa forma, estou ligado a isso, pois foi na penitência. Eu devia ter planejado melhor, devia ter pensado...

— Mefisto. O que aconteceu na penitência foi culpa do Vlad e do Astaroth, ela sabe disso.

Sim, justamente isso, pensa Mefistófeles.

— É, mas... tem ainda alguns detalhes. — Mefisto levanta o rosto olhando para o bisão.

— Esses detalhes, foi você quem fez?

O rei estava pensando no sorriso que Astaroth deu ao informar que abusou da vampira. Lembrou também do som horrível que os ossos faciais dele fizeram enquanto quebravam em suas mãos, alguns fragmentos cortaram seus dedos. Suas mãos doeram por dias, pequenas cicatrizes se formaram evidenciando onde dentes e mandíbula foram esmagados O cheiro do sangue que parecia impregnado em seu nariz, deu enjoo, tomou muitos banhos até se sentir limpo dos vestígios de seu momento de ira, da traição de seu irmão de próprio sangue. Ele ainda atordoado fala para Baal.

— Não.

— Ela saber, muda o que ela viveu?

— Não. Não exatamente.

Astaroth disse que ela não sabia quem ele era. Talvez ela não o tenha visto, talvez ela não saiba que foi abusada por seu irmão. Vlad fez por vingança contra ambos, era pessoal. Mas Astaroth, apenas fez por diversão, era só mais uma que ele usava, um cruel rei entediado. Baal olha atentamente para ele, nota que ele apertava com força o braço do trono, os nós dos dedos estavam já brancos de tensão.

— Se não é culpa sua, mas acha que é relevante para ela, então deveria contar, ser verdadeiro.

— É, mas... é vergonhoso.

— Tão vergonhoso que prefere esconder algo importante dela?

— Não seria justo. Mas ainda assim sinto medo dela me odiar por causa disso.

— É um risco, mas Mefisto, me parece que esses detalhes afetam mais você mesmo do que ela.

O rei reflete nas palavras, balança a cabeça e lambe os lábios.

— Sim, você tem razão.

Ele bate as duas mãos no trono dando o impulso para se levantar. Desce rapidamente os degraus de forma descompassada segurando o bastão negro e passa a mão na larga cabeça de Baal.

— Boi bonzinho, obrigado.

— Vai contar então?

O demônio arregala os olhos amarelos e a boca torce em uma fala que alonga as palavras.

— É... aiiinda não sei a hora. Mas acho que sim, eu acho.

— O que quer que seja, é melhor que ela saiba por você, não é?

— Sim.

Mefisto troca a camisa por uma de seda verde escura, passa a mão ajeitando os cabelos nos cornos longos e se afasta em direção de um portal.

— Cuida da minha cadeira, Baal.

New Orleans

A vampira estava no porão, descalça, roupas largas e suadas, calças velhas e soltas nas pernas. Os olhos verdes faziam a última ronda no local, atentos com o auxílio de uma lâmpada fluorescente. Ela encontra um solitário ponto luminoso, se aproxima daquela evidência e usa o pano ainda úmido para apagar sua existência. Bancada perfeita, chão mais limpo do que se tivesse sido construído agora. Todas as poucas superfícies estavam sem qualquer vestígio de uma história trágica e violenta.

Ela joga o pano no balde, vê o maço de cigarros abandonados e o isqueiro zip lock prateado. Estende a mão pegando o pacote pouco amassada tirando um filete de tabaco, esses não eram tão baratos quanto os que Manson fumava. Quando acende, a brasa farfalha entre o ar e as folhas picadas, a fumaça morna invade seus pulmões deixando um sabor residual na boca que a desagrada. Ela torce o rosto, lembrou o motivo do porque parara de fumar há muito tempo. Porém, hoje, era agradável, ela não estava tão preocupada com o paladar nas últimas semanas. A tampa metálica do isqueiro é fechada com o distinto estalo, a fumaça que era expelida dançava na luz neon, era bonito, ainda mais contrastando no ambiente tão limpo.

Ela se aproxima com a lâmpada especial na outra mão enquanto bate o cigarro na pia, para que não deixe as cinzas no chão. Então se abaixa, avaliando a cadeira com a luz brilhante. Por um instante lembra de como ele balançou as pernas enquanto ela o asfixiava. Em como seu peito lutava por ar e tentava acalmar o coração galopante a cada pergunta, a cada dedo quebrado, a cada corte raivoso, a cada mordida sedenta. Ele chorou, ela não. A mulher sentiu como se estivesse nas sessões de tortura infernais, mas agora, com papeis invertidos. Ela ainda estava abaixada conferindo se podia encerrar o trabalho quando uma fenda dimensional se abriu no meio do porão permitindo a chegada do rei infernal.

Assim que Mefisto chega, a bengala lustrosa pousa no chão frio antes dos pés descalços, ele estranha a nova disposição dos poucos dois móveis metálicos. A mulher se levanta devagar para o demônio que torce o nariz com o cheiro forte.

— Você voltou a fumar? — O demônio questiona com o rosto em franca surpresa.

— Só esse, matando a vontade. — Ela disse enquanto olha para o próprio cigarro como se refletisse no ato. — Realmente não me traz tanto prazer. — ela se levanta e apaga a brasa na pia antes de pegar o maço, e o jogar no balde, junto do pano e outros lixos. O isqueiro é colocado no bolso da calça.

O demônio nota que ela anda levemente cambaleante, parece bêbada então sente a própria garganta queimando com o incômodo de outro cheiro forte.

— Nossa, isso é água sanitária?

Ela apaga a luz fluorescente e acende a do ambiente.

— Sim. Está forte?

— Bastante, não está te incomodando? — Ele completa a fala com uma tossida.

— Acho que me acostumei.

Ela de repente vira o rosto para o canto da sala, olha com severidade.

— Cala a boca. Vá embora! — A mulher gritou com o vazio.

Mefisto choca-se pela frieza em seu rosto.

— Se você prefere que eu vá era só...

— O que? Não... eu, não era pra você. — Ela fala um pouco confusa.

O demônio coça os olhos quando nota próximo à cadeira metálica os dois pares de algemas que estavam na mesa ao lado. A mulher pega os itens e joga no outro balde onde desponta a um cabo de machadinha. Finalmente ela liga o ventilador para que o ar circule e se renove com o restante da casa. Então ela segura os dois baldes nas mãos antes de ir até a ponta da escada e fala a ele.

— Podemos conversar lá encima, não prefere?

— Sim! — Ele se apressa nos passos subindo as escadas logo atrás da mulher que exala álcool e balança o corpo como se ainda estivesse sob efeito de algo mais forte do que o desinfetante.

Assim que passam pela porta o demônio tem outro choque, agora, com a casa da mulher. A mistura de pacotes plásticos de comida delivery, garrafas vazias e quebradas, papéis sujos e amassados estavam espalhados por todo chão do corredor e sala da mulher que sempre fez questão de ordem e sossego. O cheiro familiar de bebida que tinha secado no chão exalava na porta da cozinha enquanto ela guardava os itens de limpeza.

Ele nota que ela tinha um olhar vazio, e novamente pareceu direcionar a atenção para uma parede próxima antes de pegar uma garrafa e dar longos goles diretamente do gargalo.

— Então a reforma começou pelo porão? — Ele pergunta um pouco constrangido ao ver que os insetos corriam por cima das sacolas de lixo acumuladas.

— Eu só estava limpando. Havia muita bagunça.

— Certo, se aqui está assim, imagino que lá embaixo estava pior para você ter dado prioridade...

A mulher dá as costas para as piadas dele, anda em um balançar disforme para o quarto, Mefistófeles a segue ouvindo-a xingar por ter tropeçado em alguma coisa. Quando ele chega na porta vê que ela se apoia na parede para sentar na cama com alguma dificuldade.

— Lucy, você está bem?

A mulher se inclina em um sorriso posado.

— Tô ótima!

Ela leva a garrafa a boca, porém ao notar que não havia mais qualquer conteúdo se irrita por um instante, quase joga a garrafa, mas repensa e recoloca o item no chão. O demônio se aproxima devagar, ela gentilmente tira outra garrafa que jazia abandonada na poltrona ao lado da cama e limpa o tecido com a mão, oferecendo o assento para que ele se acomode. A vampira finalmente fixa os olhos nos chifres de Mefisto quando ele se senta.

— O que aconteceu? Puberdade?

Ele ri um pouco constrangido levando a mão até a base ainda dolorida, mas não mais inchada do chifre grosso, inclina-se para mostrar a ela o resultado da coroação. Ela olha e puxa uma mecha de cabelo dele que estava na frente e a leva para trás. Ele acompanha o gesto com os olhos amarelos então repara que ela está com profundas olheiras arroxeadas.

— Está um pouco dolorido ainda. — Ele diz quase em um sussurro.

— Posso imaginar. A que devo a honra da visita do Senhor Mefistófeles, rei dos infernos, em minha humilde residência?

— Sério que todo mundo agora vai falar desse jeito comigo?

Ela ria, mas os olhos são tristes. Ele nota.

— Vim para conversar, apenas isso.

Ele pressiona os lábios hesitantes quando percebe que o chão do banheiro próximo estava sujo de sangue em diversas partes, uma muda de roupa estava jogada no canto, assim como botas enlameadas. Ela se machucou recentemente? Houve alguma luta? Ela chegou a morrer e não o procurou? Ele decide falar sobre o que era mais importaria naquele instante.

— Eu resolvi a questão do seu contrato, não existe mais.

— Como assim?

— Muitos contratos foram revogados, o seu também, só que agora eu revoguei os dois.

— Isso significa?

— Bom, você não poderá entrar no céu. — disse em tom de alerta debochado.

— Eu nunca combinei com anjos e roupas claras mesmo.

— Mas não terá nada para fazer, nem qualquer penitência para você no inferno.

— Que ocioso.

— Sim... enfim, poderá ir e fazer o que quiser... bom, de certa forma, já é como era antes de todo esse... não tem mais nada sobre você, será como se não existisse.

Ela levanta as sobrancelhas e solta um sorriso.

— Me parece ótimo, não existir, ser um fantasma.

Ele concorda apenas por gentileza, estranha as palavras dela.

— Eu demorei um pouco para subir, tinha muitas coisas pra resolver lá... Quanto tempo foi aqui?

— Acho que um mês e meio, talvez dois.

— Hum... Achei que tivesse sido menos.

Ela balança o rosto, se levanta de repente meio mole, indo em direção a caixa que estava no chão. Pega uma garrafa e puxa o lacre com os dentes.

— Fica tranquilo, eu também fiquei ocupada. Estou inclusive me despedindo dessa vida de Miryan, eu vou morrer em breve e serei... Hã, espera... — Ela remexe a gaveta e pega um documento recém impresso. — Olga!

— Nova identidade? Tão cedo?

— Para que eu ficaria aqui?

— Isso é por causa do Manson?

Ela cospe um pouco do conhaque quando engasga.

— Por que está falando isso?

— Você tem o hábito de fugir do país e mudar de identidade quando uma merda grande acontece.

Ela olha pensativa, por um instante volta a olhar para o canto do quarto, o demônio segue seu olhar percebendo que era apenas a parede. Então ela volta ao visitante, concordando com a cabeça.

— É... merda grande.

— A morte do Manson é grande o suficiente?

— É uma merda grande, sim. Mas não serei acusada da morte dele, então não, não é só isso...

— Então o que é?

Ela move a mão trêmula no rosto e cabelo desgrenhado, então para, avalia profundamente o demônio, apoia-se na parede para se equilibrar. Aponta para o canto ao lado da poltrona onde o demônio está sentado. Ele vira o corpo e pega uma lixeira de metal carbonizada com alguns restos de plásticos e metais.

— O que é isso?

— Isso foi onde começou o incêndio na minha casa, os bombeiros identificaram o combustível, eu identifiquei outra coisa.

O demônio percebe que ela está com a voz embargada, os olhos segurando as lágrimas que vertiam sem autorização.

— O que?

— Um chip, de celular, estava destruído, é claro.

— Eu não estou entendendo, Lucy.

Ela suspira, tenta se acalmar.

— Eu preciso te contar algo que, vai te magoar muito, Mefisto.

O demônio congela na poltrona.

— Eu descobri que fui manipulada...

Mefisto tensiona o corpo ansioso.

— Eu sei. — Ele solta quase em um miado.

— Você sabia?

A boca do demônio cai frouxa pronto para que ela diga que nunca mais quer o ver, que deseja que desapareça pela eternidade. Pronto, ela descobriu sozinha de alguma maneira que sua própria família demoníaca abusou dela na penitência. Um incompetente de merda, afinal, ele não pensou nela morrendo, ele tinha prometido que Vlad não chegaria sequer perto dela, mas chegou perto, muito perto de a enlouquecer. Ele falhou de diversas maneiras e agora nunca mais confiaria nele. Talvez ela dissesse que deseja que ele finque uma espada abençoada pelo rabo até a garganta e que se exploda em pedaços amaldiçoados intoxicados. Sim, ele estava pronto para ouvir qualquer uma dessas palavras, talvez até agradecesse no final antes de prontamente executar.

— Se você sabia, deveria ter me contado, na mesma hora! — Ela fala, mas não parecia estar com raiva, mas desolada, profundamente entristecida na verdade.

— Eu queria te contar, mas não sabia como.

— Eu fui idiota, enganada, estava bem na minha frente e não conseguia ver!

— Eu sei, me perdoe, na penitência eles...

— Mefisto! — O grito dela pareceu um choque elétrico nele que o forçou a olhar novamente para a vampira. — Pra merda a penitência, do que está falando?

Ele inclina o rosto consternado.

— Sobre você ter sido enganada lá?

— Lá? Isso não... não é sobre isso!

— Não?

— Nada do que aconteceu importa mais agora, eu matei Vlad, está feito.

— É, mas, ele não foi o único culpado do que acon...

— Mefisto, acha mesmo que o problema foi terem me torturado? Ou mesmo me estuprado? O que fazia doer não era o que fizeram, o que me matava era pensar que tinha sido você, era isso que tornava tudo pior.

Ele se inclina como um cachorro acuado, em dúvida se deveria se aproximar da mão do tutor.

— Bom saber que eu não faço mais parte da pior lembrança de sua vida.

Ela franze o rosto.

— Você faz. Ainda faz, mas eu sei que é uma memória falsa, é por isso que é menos importante agora.

— Lucy, a respeito disso, ainda...

— Você insiste no que não importa. Cala a boca, por favor, me deixa falar! Hidekki me vendeu para Nikolai, ele quem passou para o traficante onde Manson e eu estávamos.

Como se uma penumbra atordoasse o demônio ele fixa o rosto surpreso, definitivamente não eram as palavras que ele esperava.

— O que?

— E sobre isso, você sabia? Do Hidekki?

— Eu, particularmente não prestei muito a atenção no garoto.

Ela estende a mão a ele como se isso confirmasse o motivo de ter demorado tanto a ver todo o contexto.

— Fomos atacados por causa dele, Manson foi esmurrado em seus últimos momentos por uma infantilidade. O Hidekki disse que era a segunda vez que tentou matá-lo, na primeira ele o direcionou para um grupo em ataque no parque.

— Isso eu lembro, eu que acabei... certo, continue.

— Na segunda vez ele nos vendeu para o Nikolai, então, depois da mensagem do traficante confirmando que tínhamos sido sequestrados ele destruiu o celular nessa lixeira e iniciou o incêndio para acobertar. Eu vi que ele estava surpreso quando eu voltei para casa, depois os bombeiros encontraram o ponto de ignição do incêndio.

— Mas, como você sabe de celular e...

— Eu já queimei o celular muitas vezes, eu sei como ficam os pedaços.

Isso definitivamente era verdade, ele acompanhou muitas de suas fugas, mas ainda não era exatamente algo que o faria ficar magoado.

— Isso é horrível, Lucy. Eu lamento, sei que você gostava muito desse garoto...

— Ainda não é tudo.

O demônio percebe que ela bebe enquanto respira fundo antes de continuar.

— Eu ainda não sabia que tinha sido ele que fez tudo isso. Então depois do incêndio ele ainda ficou conosco e... Mefisto, isso é culpa minha, eu não enxerguei na hora...

— Do que está falando?

— Foi ele quem libertou Belzebu.

As palavras o atravessam como um tiro, Mefistófeles estava paralisado se concentrando em continuar ouvindo o que ela dizia.

— Ele disse para nosso prisioneiro que você estava muito ferido, então Belzebu informou que sabia como rastrear você através de um portal. Por isso que Hidekki o libertou e mostrou onde você fez um portal para encontrar Azazel. Realmente, o alvo era você.

Mefisto se contorce na poltrona e morde o próprio punho, ela desliza o corpo na parede sentando-se no chão, ele vira o rosto vermelho de ira e fala tentando conter a própria voz.

— Então, Azazel só morreu porque...

— Ele tentou fazer o Belzebu te matar, mas provavelmente ele acabou encontrando Az ferido e aproveitou a oportunidade.

— Por que ele fez isso?

— Ele queria se vingar de mim, afinal, eu não o protegi do Clinton, eu... deixei que ele fosse mutilado de certa forma.

— Isso não é verdade.

— Um pouco é. Clinton disse claramente o que queria, eu recusei. Eu deveria ter lutado já naquele momento, ou pelo menos tentado.

Mefisto balança a cabeça pensativo.

— Eu senti o desejo dele, era de posse encima de você, mas achei que era uma coisa adolescente normal que...

— Isso já não importa mais.

— Como não, Lucy?! Eu sinto muito que você tenha apreço por ele, mas eu vou matar esse pirralho desgraçado!

— Não.

O demônio se levanta bruscamente e avança para ela.

— Lucy, por favor não me venha com proteção com esse...

— Mefisto. Como você acha que eu sei de tudo isso? — Ela levanta os olhos para ele, o verde agora tem um tom mais frio, cruel. — Ele confessou, eu... o fiz confessar depois de algum tempo aqui.

Ele nota que ela tem alguns machucados nos nós dos dedos delicados, machucados que ele reconhece. As mãos dele ficaram assim quando espancou o rosto do próprio irmão.

— Ele ficou aqui? — Ele franze o rosto, olha para os lados como se conferisse o quarto.

— Não está mais aqui.

— Onde está então?

— Agora? — Ela torce os lábios em um sorriso invertido com nojo. — Ele está em diversos lugares, eu o distribuí em três pontos do lago Borgne, fui onde tinham jacarés.

Ele quase desequilibra quando compreende, leva as mãos no rosto e depois tapando a boca em algumas lágrimas de alívio olhando para ela. Porém, a vampira dá mais um gole da bebida antes de retomar.

— Eu sinto muito. Se eu tivesse enxergado, Az não teria sido morto. Foi, minha culpa, Azazel e Manson... os dois morreram por que eu não vi o que estava na minha frente.

Ele se abaixa levando as mãos no rosto dela.

— Não, você não tem que pedir desculpas por isso, foi... Lucy...

Ela se levanta ainda trôpega, segura os cabelos negros entre os dedos como se quisesse arrancar da própria cabeça.

— É isso o que acontece, Mefisto! Isso não é algo externo, não são os outros. O problema sou eu, eu atraio isso, faço surgir o mal nas pessoas, é como se nascesse o que tem de podre e mesquinho em... Todos que ficam perto de mim enlouquecem, morrem ou se tornam horríveis! Eu não aguento mais viver assim, tantos que se fodem por minha causa! Hidekki era um garoto normal quando eu o conheci e eu que o transformei em um monstro! Eu tive que matar o que eu mesma fiz! Ele ficou desse jeito por caus...

Ela falava enquanto se afogava em um rio de angústia quando o demônio a interrompe em um abraço segurando-a forte. No segundo seguinte ele pensa que talvez não devesse a tocar assim tão próximo, não depois de ter sido torturada com sua imagem, mas agora ela não travou, não ficou ausente e nem demonstrou querer recuar. Agora ela apertava seu tórax, virou o rosto entre seus músculos peitorais em sofrimento e se aninhou em seus braços. Ele ficou aliviado de que ela não rejeitou o toque, então levou sua mão para os cabelos rente a cabeça suada. Ele acompanha seu choro, ela pela culpa, ele de alívio. Passam assim longos minutos e encosta o queixo na testa dela até que notasse que sua respiração estava mais pausada e constante. Percebe que ela estava exausta, mal se aguentava em pé.

— Lucy.

— Hum.

— Você quer deitar? Eu acho que você precisa dormir um pouco.

Ela balança a cabeça confirmando, eles desatam o abraço devagar, ela ainda está tonta por conta de bebidas, drogas, falta de comida. Quase tudo estava em falta, menos o sangue, ela tinha se saciado recentemente, dormir parece uma boa ideia agora. Então ele segura seu braço para que se sente na cama, ele tira os sapatos dela, as meias, acaricia rapidamente seus pés, ela sorri antes de se derrubar de lado na cama por cima do cobertor. Ela agarra o travesseiro lateralmente olhando para ele, destruída emocionalmente, mais uma vez se sentindo um animal não bem domesticado que escapara do tutor e voltava para casa sujo de lama, sangue e penas. Mais uma caçada que ela não pôde controlar, que só parou quando estava satisfeita de violência. Mefisto acaricia seu rosto, ele mergulhava nos olhos verdes dela, sentia-se como se as fendas fossem o portal que tanto desejava quando ela o questiona.

— O que você ia me contar?

Como poderia contar algo que a ferisse agora, era demais, não agora. Não no momento em que ela estava novamente em luto, e dessa vez pela morte da admiração e carinho que tinha pelo asiático. Ela não disse, mas ele sabia que era mais do que apenas um amigo, era mais um filho, mas agora de uma forma tão distorcida como sempre era sua vida caótica. Ele opta pelo caminho fácil naquele momento.

— Não é importante agora. Depois eu conto, quero que fique bem, querida. Descanse.

Quando se levanta ela segura sua mão.

— Você pode ficar?

Os olhos amarelos se arregalam, congelados de surpresa.

— Si-sim. Claro, se você quiser.

— Por favor.

Ele vai até a porta onde apaga a luz do quarto, devagar ele se deita atrás dela na cama. Os pés descalços dela percorrem as calças de linho dele até encontrar os pés do demônio, encaixando a curva côncava no peito do pé longo dele. A sensação do encontro da pele e o encaixe sutil de suas pernas junto das delas é de um afeto tão ansiado como se fosse a primeira vez que se tocassem, ele se acomoda sentido o calor suave que emana de seu corpo através dos tecidos das roupas. O braço direito dele passa por baixo do próprio travesseiro que dá alívio do peso dos chifres, o outro, ele hesita, mas pousa no ombro dela que puxa sua mão para frente até a altura do rosto. Seus dedos entrelaçados sentem a respiração quente dela, estão próximos de seus lábios, ele imagina. Tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Ele mergulha o nariz nos cabelos negros dela, suas pálpebras tremulam, estava inebriado pelo seu cheiro, parecia estar bêbado, poderia desmaiar apenas com isso de tão relaxado que ficou rapidamente. Então ele nota que ela deu um suspiro profundo, talvez ela também estivesse aliviada.

— Boa noite, querido. — Ela diz com a voz suave.

— Boa noite, querida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.