Incursão no inferno (livro 2)

9 Capítulo 8 – Batalha no céu


“Invejosos e caluniadores vão de mal a pior, afundar-se em suas próprias mentiras!!” – Dom Alexandre Camêlo Rurikovich Carvalho

New Orleans

Os três disparos são em sequência, muito próximo do ouvido esquerdo da vampira, ela sentiu o calor emanando da arma em sua têmpora, estava surda quando virou-se para trás. Manson olhava para sua amada enquanto caía de costas no chão, dois pontos vermelhos estavam em seu peito se ampliando e tingindo sua camisa clara. Ela levanta-se rapidamente abandonando o traficante, corre para não deixar que Manson se machuque na queda.

— Não, por favor não me deixa assim... — Ela suplicava, sabia que estava falando, mas não ouvia a própria voz, apenas o zumbido alto a acompanhava em seu momento de horror e perda eminente.

Ele verte sangue, o rubro se difunde em seu peito alcançando seu pescoço e envolvendo em um abraço de dor, ela o apoia no chão e vê que sua pele normalmente de ébano rapidamente ficando cada vez pálida. Ele gania e uma das mãos agarrou a camisa da vampira para trazê-la mais próxima. Então, em um gesto de desespero, ela recua os lábios e exibe as presas a ele, oferecendo sua monstruosidade. Ela ofertou aquilo que não desejava, mas achava que era seu dever, ele avaliou por menos de um segundo e meneou a cabeça recusando a oferta.

Ele mesmo já tinha se preparado mentalmente para seu encontro eterno, mesmo que não tivesse avisado a sua parceira. As lágrimas transbordam nos olhos verdes fendidos, entristecida por ele partir, aliviada por recusar a maldição. Mas então a culpa a afoga, ela pede perdão por ter hesitado, por deixar isso acontecer. Ele sorri com os dentes vermelhos, a mão negra vai até seu rosto e desliza até sua nuca puxando-a para mais próximo. Ele fala algo, ela não escuta, balança a cabeça indicando que não compreende. Ele fecha os olhos como se dissesse que não importa, ela toca sua barba curta sujando-o de sangue. Os olhos negros dele são gentis e ele diz pausadamente para que ela possa ler seus lábios.

Eu também te amo.

Ela o beija, seus lábios tem o gosto metálico de despedida, o abraça, sente seu coração lento acompanhando o zumbido alto em sua cabeça. Ele bate, lento, pausado.

Ele bate, sua respiração falha.

Um pulsar fraco, ela sente o ar saindo em uma expiração profunda.

Então vem o silêncio, não sente nada pulsando, nada se move, sobrou apenas o zumbido.

Ela vai desatando o abraço aos poucos, olha para o seu rosto imóvel de pupilas escuras dilatadas, a ira crescente em seu peito, a fome, ela percebe o movimento de alguns capangas que se levantaram. Nikolai está em pé, atrás dela, com a pistola apontada para sua cabeça, até Gorki despertou e conseguiu sair de sua clausura da empilhadeira. Ela espia levemente os lados, coloca devotamente o corpo de Manson no chão. Rapidamente se vira batendo na mão armada de Nikolai, o suficiente para a bala perder o ângulo de sua cabeça e atingir seu ombro direito. Depois corre contra um outro capanga que estava desarmado, o agarra carregando-o enquanto Nikolai atira e atinge suas costas e perna. Não foi o suficiente para pará-la, ela leva aquele tolo para trás de uma pilha de caixas de madeira. Enquanto alguns atiravam contra toda área em volta de sua proteção improvisada, um grito de seu refém é ouvido pelos traficantes. O zumbido baixara, ela agora estava ouvindo cada vez melhor.

Os homens se reúnem para cercá-la, mas assim que chegam, encontram o colega morto, com um rasgo profundo em seu pescoço, a vampira estava na parede, com os olhos completamente negros ela salta para se alimentar. Agora, não só o zunido cessara, mas ela sentia o pulsar dos corações, aceleraram com os gritos dos dois que ela matara mais recentemente. Ela se esgueira entre os caixotes e joga uma das pistolas descarregadas diretamente no rosto de um, o metal foi com tanta força que enterrou no crânio do homem que desaba morto para trás. Eles se inclinavam para ver o ocorrido quando um deles apenas largou a arma e fugiu do galpão.

Ela corre pela parede subindo para o teto, um tentou atirar antes que ela chegasse no meio e saltasse em direção ao Gorki agarrando em seus ombros largos. O gigante balança para tirar a sugadora de seu pescoço, quando ela se solta agarrada ao seu braço o torce com facilidade e corta seu cotovelo com as garras, as pontas afiadas separam a grossa carne como manteiga em temperatura ambiente. Em um segundo gesto ela apoia o pé no dorso dele, arrancando seu braço direito com facilidade. Ele grita de agonia e ela o esmurra com seu próprio membro antes de jogá-lo contra outros que atiravam inutilmente.

A vampira salta arrancando um naco de carne do pescoço de um e agarra o cano quente de seu fuzil, o som da carne queimando mal é ouvido por ela enquanto atira nos outros. Terminando as balas, usa a peça como porrete para quebrar a têmpora do mais próximo e depois empalar outro com a ponta da arma, atravessando seu abdômen. Nesse momento, mais dois capangas, param de atirar e abandonam o chefe. Ela vê que Nikolai também se virou em fuga. Ela simplesmente corre e segura seu pescoço por trás, com sua outra mão, finca as garras no meio de suas costas através do paletó cinza.

Espera! Eu posso te dar quanto voc... — Ele gritava em russo antes da vampira mergulhar mais profundamente as garras em sua carne agarrando sua coluna.

Ela agarra e puxa duas peças ósseas para fora, ele grita, ela solta o pescoço dele o deixando cair grosseiramente. As pernas frouxas não podem mais fazer nada por sua fuga quando a mulher vira-o de costas no chão e se abaixa sentando na altura de sua pélvis. Calmante o avalia, ele balbucia qualquer coisa, ela não se importa e nem responde. Os braços dele se movem tentando fazer uma patética defesa, ela segura um deles e quebra seu pulso, depois friamente assiste se contorcer de pânico e dor, então apoia a mão quebrada no próprio ombro e quebra seu cotovelo. Ela solta seu braço moído ao lado, pega o outro. Dessa vez são os ossos longos a serem partidos, ela é cuidadosa em fazer fraturas não muito fortes, não quer que seja exposto. Ele já está sangrando muito pelas costas, vai morrer logo, ela quer que dure. O segundo braço fica torcido em um movimento estranho, é colocado de lado.

Ele respira rápido quando ela começa a desabotoar sua camisa devagar. Sua cabeça abaixa uma vez tentando ver o que ela fará, mas então ele volta a falar algo que ela não está interessada em ouvir. Ela tateia investigativa entre suas costelas, no alto do estômago, posiciona sua mão com as longas e escuras garras na pele e para mostrando a ele a sua posição. Ele balança a cabeça, implorando, ela ainda com o rosto calmo, inerte e vazio, finca suas garras na pele que se rompe com facilidade. Os dedos tateiam mergulhando em sua caixa toráxica, ele tosse sangue enquanto ela procura o órgão desejado. Ele dá alguns espasmos, mas já tinha parado de respirar quando ela finalmente corta as artérias e veias necessárias para sua coleta. Puxa de dentro do invólucro seu coração quente, parado, dentro de sua mão. Ela volta a olhar seu rosto imóvel, admira por alguns instantes sua ausência e posiciona a peça encima de seu peito.

Centro de New Orleans

O grupo tinha acabado de se unir novamente, Belzebu estava firmemente amarrado e contido por Baphomet, mas a preocupação agora era com Mefistófeles que respirava com dificuldade.

— Eu preciso tratá-lo, temos que sair daqui.

— Está bem, faremos isso na casa da vampira. — Azazel dizia para Baphomet enquanto Metatron abria o portal para o porão de Lucy.

Porém, quando a fenda se abre, as labaredas de fogo são visíveis, todos percebem que algo estava errado.

— Que merda é essa? — Yuri olha confuso.

— Você abriu o local errado, Meta? — Azazel questiona.

— Não, tenho certeza.

— Abra então fora da casa, alguma rua próxima. Eu vou ter que buscar a vampira onde quer que ela esteja. — Azazel fala enquanto conjura seu livro de contratos, folheia as páginas finas e busca a folha dela.

— Por que está fazendo isso? — questiona Yuri.

— Mefisto é ligado a todos os hereges, ele pode rastrear qualquer um apenas com o pensamento, eu tenho os contratos para isso.

Quando a página correta é encontrada ele passa a mão no papel até a assinatura trêmula que ela fizera em sua primeira morte. Ele estica a outra palma abrindo um portal, a fenda dimensional permite que ele veja que ela está sentada no chão, de costas. Rapidamente ele caminha pela abertura brilhante e é seguido por Yuri e Jekyll.

— Caralho, que merda aconteceu aqui? — A voz de Yuri ressoa logo após ele ver Nikolai no chão. Além do coração em seu peito, os intestinos estavam para fora, fazendo uma bizarra figura de moldura entorno do corpo de olhos furados e braços torcidos como em uma dança macabra. Jekyll toca no braço do licano direcionando sua atenção para Azazel que se aproximava vagarosamente por trás da vampira. Ela estava com o corpo estendido do policial em seu colo, em um sussurro quase silencioso de palavras gentis.

— Droga, aquele é o Manson?

Jekyll confirma, eles olham o anjo se abaixar ao lado da mulher enlutada.

— O que ouve? — Ele pergunta olhando para o rosto dela coberto de sangue desde seus lábios.

— Era uma emboscada, eles sabiam de mim. — A mulher fala baixo enquanto acaricia a cabeça do policial morto em seu colo. — Nos pegaram no carro dele, talvez tenham me seguido ou... vieram atrás de mim e dele.

Azazel escuta as sirenes se aproximado.

— Lucy, nós temos que ir. Astaroth atacou, você não estava conosco, mas nós lutamos.

— Sim, atacaram. — A mulher fala, ainda desconectada da realidade. — Ele queria que eu não o matasse, ele me pediu. Eu não devia ter... eu devia ter deixado eu morrer, talvez ele estivesse vivo e tivesse escapado...

O anjo se abaixa e segura seu braço para trazê-la a razão.

— Lucy, estão chegando policiais, você não pode ficar aqui!

Ela vira o rosto para ele, volta para Manson tirando sua cabeça de seu colo e o posicionando no chão. A mulher chora por ter que deixá-lo assim, dessa forma para ser encontrado por seus colegas de trabalho. A mão de Azazel a puxa com gentileza ainda que a apressando para passar pelo portal que se fecha segundos antes dos policiais entrarem no local. Ela desaba no chão com as mãos no rosto enquanto escuta eles falarem sobre um incêndio que ela não compreende.

— Do que estão falando, que luta? Que fogo?

— Eu acho que sua casa está pegando fogo, Lucy! — Jekyll consegue fazer com que ela tenha maior atenção.

— O que? O Hidekki estava lá?

— Merda, o garoto. — pragueja Jekyll.

Eles falam de forma tumultuada até Metatron finalmente abrir um portal para um local próximo da casa, mas que fosse ermo o suficiente, apenas para que todos pudessem se esconder. Somente nesse momento que Lucy vê que Mefisto está sendo carregado por Baphomet.

— O que houve com ele?

A vampira fica mortificada ao notar o estado horripilante de seu querido demônio, sua delicada pele cheia de rasgos exibe camadas musculares e até alguns ossos na base das asas. Ele balbucia palavras desconexas em delírio enquanto manchas brancas voltam a verter em torno das cicatrizes mal formadas, indicando que a intoxicação ainda não cessara.

— Foi envenenando, ainda está em perigo. — responde Baphomet enquanto o carrega.

Lucy fica estarrecida, no mesmo momento em que ela fracassara com Manson, Mefisto agonizava e agora ela não sabia da segurança de Hidekki. Frustrada com tantas derrotas em um único dia, ela passa pelo portal rapidamente e corre em direção a própria residência vendo as chamas que estão sendo contidas pelos bombeiros. Na frente da casa, Hidekki está sentado na calçada, coberto por uma manta térmica brilhante. Ela acelera até ele se abaixando, preocupada.

— Luc... Miryan. — Ele se corrige em chamá-la pelo nome oficial, ao mesmo tempo que se assusta com a mulher ensanguentada se aproximando.

— Hidekki, o que aconteceu? Você está bem?

Ela o examina e toca em seu rosto vendo os restos de fuligem e alguns machucados leves.

— O incêndio começou na parte de cima, eu só vi quando a fumaça já estava vindo para baixo. Eu só consegui sair graças ao alçapão para o quintal.

— Aqueles desgraçados, eles sabiam de mim, foi o Nikolai! Eles não chegaram a te ver?

— Acho que não, pelo menos eu não vi ninguém na verdade, só o fogo.

Ela o abraça, aliviada por ele não estar ferido.

— Ainda bem, não deviam saber que você estava lá. Não se preocupe, eu já resolvi isso, eles não vão mais fazer mal nem pra você, nem ninguém.

Ela fala com o rosto torcido em raiva misturada com a culpa e medo. Ele sorri satisfeito para ela.

— Que bom! Obrigado.

— Não me agradeça! Eu não sei o que faria se te machucassem de novo por minha causa.

— Está tudo bem, eu só tossi um pouco. Olha, quando eu vi que estava pegando fogo, eu peguei isso, eu sei que é importante para você.

Ele abre a manta térmica entregando a boneca em sua mão mecânica. A mulher fica com os olhos marejados em ver o que ele pôde fazer, olha para ele com gratidão profunda.

— Muito obrigada, querido.

*******

Lucy levou todos para uma outra casa que ela tem na cidade, essa segunda casa, mais simples e menor era usada apenas como armazenamento ou refúgio. Na verdade, após tantos anos ela já tinha propriedades espalhadas em pelo menos duas dezenas de países. A maioria está sendo cuidada por suas empresas, algumas estão com aliados, as poucas pessoas de confiança dela. Agora, enquanto sua casa atual estava destruída e teria que passar por um longo processo com o seguro, ela pelo menos tinha um local para descansar, claro que com alas expandidas por Metatron.

Em um desses cômodos do construto celestial, Belzebu permanece sentado no chão com as mãos apoiadas nos joelhos. Seus olhos raivosos acompanham o levantar de Jekyll que caminha apoiando na bengala e sai pelo corredor. Belzebu se move para levantar, mas vê que Baphomet entra ocupando o cargo de vigilância. O demônio bufa, vira os olhos ao notar o sorriso dela, e volta a se encostar na parede. Ele está contido por linhas feitas de pó de tijolo com alguns signos brilhantes no chão. Tal círculo de proteção foi feito marcado exatamente para ele não poder sair, qualquer um poderia entrar e dar uma surra no derrotado de Astaroth.

Baphomet se aproxima e joga um saco de papel, dentro, um sanduíche acabou desmontado com o movimento brusco. Ele resmunga remontando o alimento, ela senta-se na poltrona confortável e apoia a lança na parede. Os olhos brancos da cabra percorrem pelos sigilos conferindo cada curva e brilho tênue. Por um instante, Yuri passa na porta e volta um passo ao reparar que é ela no turno da vigilância. Ela nota seu interesse, lançando um sorriso sutil para o russo, alisa os cabelos curvando os lábios sinuoso antes de voltar a andar.

Os dias passaram tensos, até que a vampira acaricia a boneca parcialmente suja de fuligem, pensa no quadro que havia comprado a pouco tempo, seu outro registro de uma família que tivera na idade média e que a tanto custo conseguiu achar. Hidekki que tinha encontrado a peça, graças a ele que ela conseguiu rever o rosto de sua filha e marido. Mas agora, tudo se fora, além de peças de Jasenovac, um lenço de Mirian e uma ou outra lembrança de São Petesburgo. A verdade é que os itens eram apenas suvenires, afinal, suas lembranças eram ainda intensas na mente dela, inclusive através de seus sonhos, sempre tão assustadoramente vívidos.

Ela se levanta e posiciona a boneca na cômoda, pensa que não tem nada de Manson que sobrara para si. Tudo foi perdido com a casa, com aquele maldito Nikolai que destruíra seu momento. Ela pensa que talvez consiga algo do carro, uma visita nos arquivos de evidências da delegacia pode ser necessária. Claro que sabia que não iria durar, ele estava morrendo, descobrira fácil já que o policial não era exatamente organizado em guardar documentos no próprio apartamento. Foram poucas vezes que ela estivera lá, ele preferia ficar na casa dela, era mais limpa e arrumada. Foi em um desses encontros que ela viu os exames oncológicos e guias de medicamentos não usados abandonados na mesa. A falta de energia dele, as tossidas longas com cheiro ferroso, ela ligou os pontos. Era uma questão de tempo, ele não cheirava como as pessoas que estavam fazendo tratamento. Mas por um momento, ela quis viver com ele seus últimos meses, afinal, era o que ele queria. Agora, ela estava preocupada com outro que lutava para sobreviver.

Ela sai do quarto e vai até o que está ao lado, o corpo esverdeado respira lentamente na cama. O lençol se aglomerava no meio do abdômen e deixou o peito cheio de marcas recentes exposto. Ela se aproxima para ver a cicatriz longa que ficara em seu braço, percorre seu ombro e se espalha pelo peito, não pelo corte, mas as marcas das toxinas celestiais que quase destruíram seu cérebro em convulsões. Estava observando a rótula ainda desalinhada no joelho quando ele acorda ao se sentir observado.

— Baphomet me contou que Manson morreu. — A voz sai falha e rouca do demônio que a pouco tempo dormia. — Eu sinto muito.

Ela se abaixa, sentando no chão ao lado da cama.

— Sim.

— Você se vingou apropriadamente?

Ela senta-se no chão e apoia a parte de trás da cabeça no colchão, por um instante a imagem dela caminhando com os intestinos de Nikolai lhe vem a memória. O gosto particularmente cirrótico do fígado do traficante ainda persistia em sua boca. A vampira não sabia explicar pra si mesma o motivo do repentino desejo, mas sabia que foi saciada.

— Sim.

— Que bom. — Ele fala lambendo os lábios secos.

Ela levanta-se, pega o copo de água e oferece a ele. Os olhos amarelos dele seguem o movimento dela. O enfermo inclina-se com dificuldade, ela leva sua mão na nuca do demônio dando apoio para o auxiliar. O movimento é tenso, para ambos, os goles são curtos, ele acena com um movimento sutil e ela recolhe o copo e o ajuda a pousar a cabeça no travesseiro.

— Obrigado. Acho que nunca fiquei tão podre assim.

— Você nunca teve experiência de quase morte?

Ele olha para ela, um pouco pensativo.

— Credo, não. Foi minha primeira vez a chegar a esse ponto. — Ele sorri debochado. — Você é experiente no assunto, alguma dica pra me dar?

— Eu normalmente não me preocupava com isso, só deixava levar.

— Certo, foi uma fala idiota minha, não dev...

— Manson morreu justamente por causa disso.

Ele arqueia as sobrancelhas, surpreso.

— Isso quer dizer?

— Eu hesitei. Tive medo. E por ter parado um instante ele acabou morto.

— Eu... não sei o que dizer.

— Tudo bem. Não precisa. — Ela senta-se no chão novamente apoiando as costas na cama.

Ele pensa em estender a mão e acariciar seus cabelos, mas reprime o desejo. Muito cedo, ele pensa.

— Quando vai ser o enterro do Manson?

— Foi semana passada.

Ele fica pensativo.

— É estranho, passou tanto tempo? Não lembro como acabou a luta, nem como vim parar aqui.

— Eu estranharia se lembrasse. — A mulher diz e percebe o silêncio confuso dele. — Você ainda estava contaminado, Metatron teve que tirar mais toxinas divinas que ficavam voltando. Já faz dois dias da última vez, acho que agora acabou.

— Caramba, eu não pensei que...

— Foi horrível esses dias, Mefisto. Jekyll, eu ou Lúcifer ficamos te segurando, você se debateu, delirou e teve convulsões. Fiquei com medo de perder você também.

O demônio franze o cenho virando o rosto de lado para encontrar a feição entristecida dela.

— Chega a ser estranho.

— O que é estranho?

— Quando eu estava lutando com os traficantes, eu podia jurar que estava te ouvindo gritar, parecia estar bem ao meu lado. Eu senti... sentia você. — A mulher falava pausadamente rememorando o as sensações, o demônio arregalou os olhos lembrando do feitiço de ligação que havia feito séculos atrás. — E isso aconteceu de novo, todas as vezes em que você estava tendo as convulsões eu sabia, simplesmente acontecia sem eu entender.

Ele pensa se deveria contar a ela de seu pequeno encantamento. Isso seria adequado, agora? Talvez ela interpretasse como uma maneira de controla-la, ou pior, talvez ficasse decepcionada. Afinal era apenas mais uma maneira dele garantir que ela não o testemunhasse novamente em um momento de intimidade com alguém que não fosse ela mesma. Por mais que ele tivesse negado para Azazel que não era isso, ele sabia que era. Na época isso não parecia tão importante, porém agora tudo parecia mais nevrálgico, mais tenso. Ele engole os pensamentos e decide vomitar alguma bobagem, era assim que costumava funcionar. Seja ácido e divertido, era assim que ela gostava dele, dava certo.

— Falando assim, parece até que gosta de mim... — Ele debocha, mas se arrepende de suas palavras assim que elas escapam de sua boca.

Ela permanece em silêncio, ao lado da cama.

Vale dos ventos, Luxúria

Asmodeus caminhava em sua túnica branca finamente bordada quando chega em seu palácio percebe que Abadon estava na porta de entrada. Parecia relaxar como se tivesse feito longos exercícios que exauriram seu corpo e agora precisava do descanso de um atleta.

— Abadon. A que devo a sua visita?

— Apenas esperando Astaroth, nós viemos usufruir da hospitalidade. — Abadon fala com seus dentes pontudos.

— Perdão? — O demônio de pele vermelha e olhos negros estranha a fala. — Que hospitalidade se refere? Nem sabia que vinham aqui.

Abadon ri e responde malicioso:

— Qual seria a serventia do círculo da Luxúria se ele não pode ser usufruído em seus serviços?

O comandante da luxúria estreita os olhos negros para o caveira.

— Meu círculo não é um bordel.

— Bom, isso deveria mudar, não acha?

Asmodeus apenas olha com a feição consternada antes de seguir por seu palácio, deixando o irmão na frente do palácio. Ele anda quase como se deslizasse em seus passos silenciosos e os cabelos longos balançam nos quadris, no corredor ele vê Sitri, a demônia oroba com chifres de antílope corre em seus cascos finos aproximando-se.

— Asmodeus!

— Sitri, o que está acontecendo?

— E-eu... é melhor que nós conversemos em outro lugar, eu te passo o que foi solicitado...

Ela o conduzia afastando-o do corredor quando Astaroth fala do quarto interrompendo-a.

— Não precisa de tanta formalidade, Sitri. Eu já estou de saída.

Asmodeus afasta Sitri para chegar até a porta do quarto, ele vê que Astaroth veste suas botas e ainda estava sem camisa e com a calça com o cinto pendente.

— Esses aposentos são meus, Astaroth. É de uso pessoal e de meus familiares.

O monarca olha com seu único olho vermelho em torno, ajeita os cabelos rubros nas costas e sorri.

— Sim, não se preocupe, está tudo em família, irmão.

— Você acha que pode simplesmente entrar aqui e...

— Sim, eu posso.

No que Asmodeus ouve isso, ele sente a presença de Abadon atrás de si. O demônio da luxúria vira para trás e vê a espada abençoada em sua cintura.

— Vai ser assim agora? Vai ameaçar todos os círculos se não fizermos tudo o que você deseja como se fossemos lacaios?

Astaroth se levanta e se alinha na frente dele.

— Talvez seja bom vocês saberem como se deve tratar um rei de forma digna.

— Sim, eu farei isso quando ver um. — Asmodeus encara o chifre quebrado por Baphomet, irritando-o.

Astaroth sorri, ele dá a volta ao redor do senhor da luxúria e caminha junto de Abadon para fora do palácio. Asmodeus os observa partir e requere a Sitri:

— Por favor, peça para confirmar que eles saíram do círculo.

— Sim, senhor.

Asmodeus arregala os olhos quando ouve um murmuro vindo do fundo do quarto.

— Mas quem ele trouxe aqui?

Então ele vê sua filha, Súcubo, correndo com seus cabelos negros e olhos inchados pelo corredor. Ele corre até ela que passava rapidamente com suas vestes rasgadas, quando finalmente chega próximo ele pode ver que a cama não estava vazia, seu irmão Íncubo estava deitado de lado, em posição fetal. As costas estreitas do irmão gêmeo estavam com muitas marcas de mordidas e arranhões simétricos em ambos os lados dos quadris, ele estava em silêncio, olhando o vazio.

— N-não... o que ele... — Asmodeus se aproxima e percebe o tremor percorrer a pele vermelha do filho que se encolheu instintivamente com o toque gentil do pai.

Asmodeus sente o cheiro de sangue no quarto, junto de outro fácil de reconhecer para o demônio da luxúria. Ele cerra o punho e vira-se ao sentir a mão delicada de Súcubo em seu braço e a questiona.

— Foi Astaroth que fez isso?

— Ele estava comigo. Íncubo ficou aqui, com Abadon.

Asmodeus torce o rosto, meneia a cabeça em negação. O comandante volta a olhar as mordidas no corpo do filho, percebe que elas tinham pontos de sangramento pelos dentes pontudos. Estarrecido ele volta a aquela de sua própria carne.

— Eles não poderiam... eles se forçaram em vocês?

— Ele disse que não era forçar considerando que era nosso dever servir e agradar ao rei e seu comandante. — Súcubo responde a Asmodeus com os olhos inchados e seu lábio cortado.

Dias depois, Salão do reino Satana

Belzebu caminha satisfeito carregando um saco de tecido cru sangrento, ele está mancando ferido, um dos chifres fora brutalmente quebrado e parte de seu rosto estava mais rasgado do que inteiro. Porém, ele ainda exibia um sorriso com seus dentes restantes, que já eram poucos antes dessa última batalha, por isso, quando falava era pouco compreendido. Quando arrancara as presas apenas para agradar Astaroth não pensara nessa consequência, ele não era conhecido por sua inteligência, por ser grande guerreiro, ou por ser grande em qualquer coisa. Mas agora, com o presente que trazia consigo, finalmente conseguiria provar seu valor ao seu rei, adorado irmão, e quem sabe, ele seria visto como ele achava que merecia.

Assim que chega no salão, Astaroth não tinha chego, como sempre. Vlad parecia farejar o resto de sangue no saco, interessado. Abigor e Abadon sentam-se calmamente em suas cadeiras, tanto por saberem que Astaroth pode demorar, como por não considerarem particularmente relevante no que quer que Belzebu tenha a apresentar tão ansiosamente. Eles conversam assuntos diversos enquanto aguardam a presença do regente, Belzebu continua com o saco na frente, na mesa, vigiando-o como se temesse que roubassem seu precioso mimo.

Finalmente Astaroth chega, em trajes de seda meio soltos, visivelmente ele estava em algum momento de relaxamento pouco tempo antes de estar ali entre os generais, isso era visível não só por seus trajes, mas pela sua falta de banho.

— Espero que seja realmente importante para ter me chamado essa reunião, Belzebu, eu gostaria de dormir profundamente hoje. — fala o rei enquanto cruza as pernas nos trajes brilhantes vermelhos.

Belzebu sorri antes de se levantar e pegar o saco de tecido com orgulho.

— Eu só vim aqui mostrar que eu não sou um guerreiro descartável, meu rei.

Vlad sorri, inclina-se ansioso em ver o conteúdo, Abigor e Abadon apenas viram o rosto para a mesa aguardando Belzebu exibir seu troféu. Ao invés disso, ele vira o saco e joga o conteúdo com violência na mesa, a cabeça rola duas vezes antes de parar lateralmente de frente ao rei que não se movera, de tamanha a surpresa, tanto pelo gesto, como pelo rosto do decapitado. O olho vermelho do rei se abaixa analisando de perto a face do morto e alargando o sorriso.

— É... isso é surpreendente.

Abadon e Vlad alegram-se saboreando o momento de glória. Abigor sorri tentando passar satisfação, internamente está consternado ao ver a boca aberta do morto e o tratamento dado a sua carcaça.

New Orleans

— horas antes, naquela manhã –

Azazel falava com Metatron e Mefisto no jardim da vampira sobre os últimos preparativos antes de sair. O demônio estava sentado, se apoiando na mesa, agora que já estava um pouco melhor, pelo menos não doía mais só de respirar. O combinado é que Metatron abrirá o portal para o céu e Mefisto o buscará onde quer que Azazel pouse na superfície, o caído ensaia os signos no ar ouvindo as instruções do demônio.

— Quando você descer novamente, basta fazer o chamado pelo sigilo que eu irei buscar você.

— É estranho subir novamente.

— Você nunca voltou? Desde a queda?

Azazel levanta os olhos para Metatron e nega com a cabeça.

— Por que eu voltaria?

— Poderia ter sido perdoado. — Metatron responde com sua gélida falta de doçura. Mefisto vira os olhos enquanto Azazel inspira calmamente antes de responder.

— Perdoado por ter amado Lilith? Eu não pensei que tamanho crime poderia ser perdoado. — debocha o renegado.

— Az, você sabe que Miguel ficou pistola contigo não foi só por causa disso, não é? — Mefistófeles fala em tom de deboche.

— Mefisto, eu não acho que Miguel estivesse interessado em Lilith.

— Eu disse que era nela?

Metatron deixa a boca abrir em surpresa e consternação.

— Anjos não são... assim. Ele não nutria esse tipo de sentimentos.

O demônio ainda ferido solta uma risada frouxa.

— Assim... a palavra que você está evitando é gay, Meta. Acho incrível esse moralismo retrógrado que vocês ainda têm.

— Mefisto, eu não acho que seja necessariamente isso. — Azazel desdenha das certezas do demônio.

— Meu amigo, só você não enxergava o quanto o engomadinho emplumado ficava enaltecendo sobre seus músculos, ele é gay e curte gay padrão. — provoca o demônio. — Eu aposto, que acusou ela de fazer a tentação, que você era puro e se sujou com a imundice dela, contaminado por uma mortal.

Os celestiais se entreolham lembrando das palavras de Miguel, sim, foi dito algo semelhante, mas ambos preferem negar. Mas é o suficiente para o demônio ler suas feições culpadas.

— Vocês que não querem ver, parecem humanos negando a si próprios os desejos.

Assim que Mefisto termina sua declaração, tenta se levantar, a perna falha, ele manca com dificuldade e é contido por Azazel. A serafim nota e conjura em sua mão uma longa bengala perolada e dourada, e oferece ao demônio. Ele olha duas vezes para o objeto antes de aceitar.

— Obrigado.

— Por nada.

Ele caminha com dificuldade se afastando quando ela abre o portal dimensional para o céu. Azazel repara que ela tem a sua feição tensa e parece relutante.

— Algo errado, Meta?

— Estranho, não gosto da ideia de você ir.

— Isso se chama receio, Metatron.

A entidade de olhos brancos franze o cenho.

— É assim que se sentem? Essas emoções nunca acabam? — Ela olha para os membros escurecidos. — Ser um humano ou demônio é uma tormenta, vocês têm muitos sentimentos o tempo todo.

— Eu não sou humano, mas concordo que seja uma tormenta. É por isso que os humanos também criaram o perdão.

— Está blasfemando. Isso foi criação divina, Azazel.

— Foi mesmo? Tanto é que o Pai acha apropriado matar crianças inocentes a seu bel prazer?

— Não fazemos isso!

— Não, claro que não, mandam que os demônios façam o trabalho sujo. E fizeram isso por uma aposta, para ver se Jó iria continuar fiel. Mate as cabras, destrua sua fazenda, sua casa, seus filhos.

— Ele se manteve fiel, recebeu tudo em dobro depois.

— Os filhos eram os mesmos? Foram ressuscitados?

Metatron para pensativa.

— O dobro de filhos, Azazel, não é o suficiente?

— Se você tivesse filhos, acharia que dois novos iriam substituir seu amado filho morto? É assim? Filhos são como peças de roupas a serem trocadas?

— Ele e a esposa ficaram satisfeitos na época.

— Claro, eles teriam como contestar? — Azazel instiga enquanto tremula a asa queimada como se já estivesse respondendo à pergunta do que aconteceria se contestassem a Divindade.

O fato de isso não ter sido dito, a mensagem foi recebida, ou pelo menos Metatron refletiu sobre isso antes de falar.

— Isso não importa no todo, era um teste. Eles representavam uma coisa maior, a própria humanidade, foi um teste do quanto eram fiéis por serem cativados pelo Senhor ou apenas pelos seus caprichos.

— Fiéis cativos?

— Perdão? — Metatron para confusa.

— Sabe que a palavra cativar pode ser de tomado por amor, mas também pode ser de submissão... será que a humanidade foi cativada pelo amor, ou está no cativeiro do Criador, que fica testando seus animais de estimação como uma criança e um formigueiro preso no aquário?

Metatron arregala os olhos brancos leitosos, consternada.

— É por isso que caiu, Azazel.

— Não, eu caí, pois amei alguém que se recusou a ficar na jaula. Ela enxergou as grades mais cedo do que todos nós.

— Não se deve contestar a justiça divina.

O que está chamando de justiça divina, Metatron, não basta de ira. Pura vingança, cruel e insensata.

Metatron para com as palavras de Azazel, sente um arrepio. Ela tinha sentido isso a tempos atrás com a fala de Miguel, achou que seria uma profecia, mas a fala veio diferente. Ela errou na profecia? Ou era a profecia que estava se ajustando, se moldando? Ela leva um tempo até se acalmar e tornar a falar.

— São as regras, Azazel.

Azazel para, alonga sua asa queimada que se arrasta no chão.

— Tu não percebes, Metatron. A humanidade não tem regras e a beleza deles está justamente nisso. É por isso que Mefisto é tão bem quisto por eles, ele é imprevisível, é praticamente um humano.

— Mefistófeles, um demônio bem quisto por humanos. — fala Metatron em desdém.

— Ele os entende. Você sabe que nem ele ou nenhum demônio coloca mal algum na mente dos humanos.

— Eu sei, o mal está dentro deles mesmos, são eles que procuram o pecado.

Azazel para na porta, de costas para o serafim ele suspira antes de falar:

— Todos nós pecamos, Meta. Mas só alguns pagam por suas falhas.

Azazel passa pela fenda e deixa o quintal da vampira, abandonando a entidade pensativa. Ele caminha até os portões dourados, anjos saem e sussurram entre si, impressionados com a ousadia daquele que fora expulso.

— Chamem Miguel, bando de abelhas! — berra ele, gesticulando em sua armadura que ainda exibia alguns vestígios da última batalha que tivera ali mesmo.

O som de voo de longas asas sibila em aproximação.

— Estou aqui. — declara Miguel, pousando frente ao desafiante.

Os portões dourados se fecham nas costas do arcanjo, seus cabelos louros encaracolados e sua reluzente armadura romana impressionam a qualquer um que veja. Miguel porta sua espada ainda na bainha, ela tem uma chama azulada que pulsa da lâmina, tal como um coração.

— Preciso de sua espada, Miguel.

— Para lutar em nome de Lúcifer? — questiona o general com toda sua arrogância.

— Para lutar pela humanidade.

— Está querendo auxiliar um demônio, sabes muito bem que não devemos interferir na ordem infernal.

— Como ousa dizer isso depois do que fez? — Azazel inquere.

— O que está sugerindo?

— Miguel, nós sabemos que você interferiu, e diretamente. Não aceita que lutemos em nome da humanidade, mas deu espadas divinas para Astaroth matar os nossos.

Os anjos que estavam entorno sussurram entre si, Jehudiel permanece em silêncio, em sua capa de palha observando os companheiros. Miguel se irrita com o falatório.

— Isso é um absurdo! Você sequer tem provas dessa sua acusação!

— Eu não tenho que provar nada, você é que terá que arcar com as consequências de aceitar a morte de inocentes para inchar o céu. Como se fossem animais para o abate.

Miguel vê que Gabriel e Rafael falam entre si e o encaram diretamente.

— Está falando isso apenas para que eu te entregue minha espada.

— Algo que eu dissesse te convenceria disso?

O arcanjo fecha os olhos.

— Sabes que não posso lhe entregar.

— Eu sei. Por isso eu trouxe a minha clava. — fala Azazel, segurando com mais força a própria arma. — Mas eu tinha que pedir primeiro.

— O que te faz pensar que dessa vez ganharia, ainda carrega as marcas de nosso último ato.

— Da última vez Lilith era refém, e foi depois de eu ter sido emboscado por vários querubins. Eu não diria que foi uma luta justa.

Miguel olha apreensivo que Gabriel e Rafael foram embora, outros arcanjos ainda permanecem, ele franze a sobrancelha antes de falar:

— Eu sabia que um dia voltaria, irmão.

— Estranho, tu me disseste que não sou mais teu irmão.

— Eu estava furioso. Não imagina o quanto doeu em mim fazer o que foi ordenado.

— Furioso? — Azazel move a asa queimada. — Isso eu percebi, sabe o que é pecar, tanto quanto eu. — Azazel provoca. — A diferença, é que meu pecado foi amar.

Miguel pressiona os lábios em desaprovação.

— E agora, por um amor demoníaco, vem aqui lutar comigo.

— Não fale dela. Ela está morta.

Miguel recua o rosto em surpresa.

— Eu não sabia. Meus pesares.

Azazel olha o arcanjo se curvar e mover sua mão até pousar no cabo da espada, onde um cordão dourado com um pingente de turquesa está amarrado. Azazel nota aflito o detalhe.

— Eu sei que seu lamento não é verdadeiro. Aliás, estou pensando que talvez seu pecado não tenha sido apenas a ira naquele dia em que descobriu que eu estava com Lilith.

— O que é agora?

— Bem que me disseram que você pegou meu cordão e nunca se separa dele, na época eu não acreditei. Será que a ira foi o segundo pecado, causado pela inveja?

O arcanjo aperta o cordão e torce o rosto.

— É um lembrete de tua vergonha, de como pôde cair em tentação.

— Não foi tentação, Miguel. Amor. É bem diferente. Mas não acho que você entenderia.

— Azazel, você era um dos melhores de nós, não podia ter feito isso!

— Isso o que, exatamente? Meu juramento é de amar a humanidade, proteger a Criação. Eu sempre cumpri a minha palavra.

— Não dessa forma, não ela! Isso deveria ser reservado para nós!

Azazel franze o rosto em estranhamento.

— Nós?

O comandante dos arcanjos ruboriza quando percebe que os outros que testemunhavam sussurram entre si. Condenatórios tal como ele mesmo que negava seu próprio desejo, já renegado continuou.

— Miguel, estou começando a ficar em dúvida de quem exatamente você teve inveja.

O arcanjo ri nervosamente.

— Nós lutamos tantas vezes juntos, estávamos juntos na formação das galáxias!

Azazel aspira profundamente.

— É. Será que podemos lutar agora e eu pegar logo sua espada? Eu não tenho tempo para sua choradeira, tenho que voltar e ainda admitir a Mefisto que ele estava certo sobre você o tempo todo, eu que... não... não notei os sinais.

O arcanjo berra furiosamente e corre brandindo sua espada que Azazel desvia usando o impulso de sua única asa para responder levantando sua poderosa maça. Os golpes da clava, apesar de serem com grande força, necessitam de muita precisão para não atingir o ponto de corte da espada, Azazel possui tais habilidades. Ele gira a pesada peça no ar antes e baixar contra o arcanjo que se desequilibra para o lado enquanto bloqueia o golpe. Azazel ergue a clava novamente e Miguel usa a espada para defesa, porém o impulso agora o derruba diretamente no chão. Rapidamente ele precisa rolar o corpo no chão para escapar do novo golpe, a bola de espinhos metálicos quebra o piso divino. Azazel gira o corpo lentamente para golpear, mas precisa desviar da espada que tilinta em seu peito. Golpes da espada são bloqueados pela maça, o arcanjo faz movimentos rápidos e corta a lateral do braço de Azazel que recua planando com única asa inteira fazendo uma meia lua para trás.

Miguel para observando o movimento dele, suspira em consternação.

— Você sangra agora.

Azazel olha para o braço vendo o sangue tingindo o tecido branco e escorrendo em uma linha vermelha.

— Sim.

— Eu lembro quando era dourado seu icor, como o nosso. O tanto que decaiu, é vergonhoso.

— Não se preocupe, Miguel, você também poderá sangrar quando cair.

Miguel balança o rosto descontente.

— Eu não cortei suas asas antes. Mas agora não terei tal clemência por sua ousadia.

O arcanjo avança, talhando o ar, Azazel se inclina escapando de seus golpes.

— Eu não esperaria clemência de você. — responde o Azazel enquanto se vira e atinge as costas do arcanjo. O general angelical recebe o golpe, mas vira sua espada, atravessando a coxa direita de Azazel.

O amaldiçoado urra em dor quando a espada é retirada e o atinge no queixo. Ele se desequilibra com a força do golpe que fez um corte no lábio, anda cambaleante com o sangue escorrendo em sua perna até o chão.

— Sempre foi um grande guerreiro, Azazel. Um dos melhores, eu lamentei muito que teve que partir. — O arcanjo salta abrindo ambas as asas e acertando a espada no chão de mármore branco.

Ainda curvado, Miguel vê a bola espetada se aproximar rapidamente e atingir em cheio o seu rosto, lançando o arcanjo no ar.

— Se engana, eu sou o melhor.

O general angelical ainda estava no ar quando se vira, planando no ar com suas asas, volta colérico com o rosto coberto de icor dourado que atrapalha sua visão. Isso piora quando Azazel o atinge com uma cotovelada, em uma clara provocação que é respondida com a espada quase o atingindo no abdômen. Azazel desvia girando o corpo e sente o ar sendo cortado em suas costas, então ele gira desviando da lâmina que provavelmente iria atingir sua coluna e range na força usada para levar a esfera de espetos no meio da asa de Miguel. O som de galhos e penas se quebrando é seguido pelo urro de dor, o arcanjo se contorce agoniado e depois olha para a parte emplumada destruída. Horrorizado ao ver seu ego ferido, penas torcidas e o sutil sorriso do oponente, ele questiona o renegado.

— Está feliz agora? Sente-se vingado?

— Não, ainda é pouco do que você merece.

Miguel faz golpes repetitivos e erráticos que são defendidos pela clava, então ele muda o golpe para baixo e corta a ponta da asa queimada de Azazel que o atinge na têmpora com a base de sua maça. O general ainda vira a espada para o rosto de Azazel, mas o caído o golpeia nas mãos, desarmando-o, e depois outro golpe em seu ombro desequilibrando Miguel. O arcanjo oscila o corpo, Azazel agarra sua armadura peitoral impedindo-o de desabar no chão. O amaldiçoado confere se o arcanjo não desmaiou e o desce devagar ao piso agora pintado de vermelho e dourado.

O rosto muito ferido de Miguel está coberto do viscoso icor brilhante, Azazel ainda se aproxima daquele que um dia fora seu grande amigo.

— Vai me matar, irmão? — pergunta Miguel, deixando as mãos ao lado em entrega.

Azazel se abaixa até o rosto dele e sussurra.

— Eu não sou teu irmão.

O vitorioso levanta-se, pega a espada que estava abandonada no chão e a prende em sua cintura. Quando ele caminha percebe os sussurros dos anjos que testemunharam a luta, alguns chocados pelo embate, a maioria estava estarrecida pelo que foi dito. Quando Azazel vai até a beirada onde pode finalmente planar e descer. Ele pega novamente a espada e remove o cordão dourado com o pingente turquesa. Relembra daquele dia no Éden, quando ele tirou esse cordão de sua túnica e usou para trançar os cabelos de Lilith. Ele lembra de como a peça foi jogada no chão por Miguel enquanto ela chorava. Azazel testemunhou o tapa humilhante que Miguel deu no rosto da mulher, chamou-a de suja antes de jogá-la do céu covardemente. O guardião estava preso nesse momento, só pode gritar por seu amor apavorado ouvindo a voz dela distanciar em direção ao firmamento. O espancamento veio depois, as brasas queimando as penas vieram depois, ele mesmo fora jogado do céu depois.

Lilith. Seus cabelos castanhos contrastavam com o cordão dourado. Lúcifer encontrou cada um dos caídos, ele já tinha resgatado Lilith, ambos se tornaram refugiados no inferno. Eles viveram juntos plenamente, apesar de Astaroth tê-la exigido recentemente, seu amor não foi abalado. O rei não era conhecido por entender certos sentimentos, nem tinha apreço a algumas relações, ou mesmo anjos rejeitados, mesmo que Lúcifer e Moloch fossem por definição. Ele move o fio entre os dedos como se fosse os cabelos dela, seu sorriso se abrindo. Aquele beijo no jardim, poderia jurar que seu coração tinha parado ali, já se sentia caído, não apenas do céu, mas imerso naquela doçura, no mel de seus lábios. Ele prende o presente em seu próprio pulso, observa a pedra turquesa pendente e depois olha o céu igualmente azul à frente que começa a dar sinais do avermelhado crepúsculo. Tão extenso, cheio das nuvens e tão distante do que realmente importava, de tudo que estava lá embaixo. Ele decide não planar, mas fazer como poderia lembrar ainda mais dela, ele vira-se de costas. As sandálias de couro recuam até a beirada, assim ele pode ver o sol, de costas, ele se deixa cair.

O vento vem como uma aspiração da terra, recebendo novamente seu filho que se entrega. Ele sente as penas tremularem no ar, as nuvens sagradas ficando mais distantes, menos ameaçadoras. O sol, aquele brilho que refletia na pele caramelo dela, ele fecha os olhos sentindo o ar passando ruidoso e seu corpo em queda rasgando o as camadas em direção ao firmamento. Ele sorri sentindo a proximidade do impacto que vai direto entre as árvores. Diversos pássaros se assustaram, dois jacarés fugiram direto para as águas pantanosas e tudo ficou silencioso na parte florestada que agora tinha uma pequena cratera com um anjo tranquilo, ferido e feliz no centro.

*******

Baphomet estava cambaleando de sono apoiada em sua lança. Os olhos de íris horizontais estavam com as pálpebras pela metade quando ela levanta a cabeça e balança lateralmente até os chifres torcidos em uma bufada. Belzebu apoiava os cornos na parede, sonolento.

A mão de Hidekki toca no ombro de Baphomet que se assusta com o gesto, apontando a lança em prontidão.

— Ei, calma, sou eu.

— Não me assuste desse jeito, garoto.

— Desculpe, só vim trocar com você a vigia.

— Ótimo. — Ela se apoia na lança ao se levantar e caminhar em seus cascos largos.

O jovem asiático senta-se e observa interessado o prisioneiro. Belzebu percebe sua atenção.

— Então. Você é um demônio que quer matar esses demônios que estão aqui? — fala Hidekki enquanto tira um dos lanches, ele se suja de molho entorno dos lábios ao morder as várias camadas de presunto e verduras.

— Por que quer saber?

— Eles te odeiam, e ficam falando o quanto você é idiota. Então, imaginei que quisesse matá-los.

A feição de Hidekki muda para um leve desprazer, ele abre o lanche, tira duas fatias de tomates e fecha novamente com os dedos gordurosos. O demônio fica irritado com a fala e indaga:

— Ainda não me disse o motivo de seu interesse. — Belzebu se apoia nos braços ficando mais à frente.

— Talvez eu tenha uma sugestão de como você pode conseguir o que quer.

— É mesmo? Sabe que para negociar com um demônio você tem que oferecer algo em troca... sua alma me seria útil em meu círculo...

— Eu não tô oferecendo minha alma.

— E o que está então.

Hidekki levanta a mão indicando ao demônio para aguardar ele terminar a mastigação que ele o faz de maneira lenta apreciando os sabores. Engole, então sorri e olha os signos no chão, as linhas feitas de pó de tijolo que bloqueiam sua saída. Ele volta para o saco de papel com um segundo lanche embrulhado, olha para o demônio de forma maliciosa.

— Uma chave, para você sair daí. O que acha? Assim você e eu conseguimos o que queremos ao mesmo tempo.

— E o que eu teria que fazer para ter minha chave?

— Bom, um dos demônios ainda está bem fraco, deve ser fácil matá-lo agora. — Fala Hidekki enquanto balança o saco de papel com sanduíche.

*******

O anjo renegado caminha devagar saindo da floresta, percebe que era um parque e estava na cidade, só não sabia exatamente se próximo ou longe da casa de Lucy. Ele atravessa a rua cambaleando e se apoia na parede, percebe que algumas pessoas caminham fantasiadas das festividades de carnaval da cidade. O evento dura todo o mês e provavelmente foi por isso que os ataques tinham sido escolhidos ser nesse local, nessa época. Para que tenham um grande potencial de vítimas. Os jovens bêbados gritam provocando com sensualidade o anjo ferido, elogiam sua fantasia e seu corpo torneado. Ele ri encabulado enquanto leva a mão até o ferimento da perna, pegando um pouco mais de sangue e desenhando um signo na parede.

O desenho brilha, ele olhava quando sua mão escorrega em desequilíbrio, mas seu braço é segurado pelas mãos de Mefisto que o puxa apoiando-o com seu próprio corpo.

— Ei, sem cair, amigo.

O anjo ri, se apoia enquanto o demônio o auxilia a sentar na calçada. O próprio demônio está cambaleante, apoiando-se na bengala recém adquirida.

— Tarde demais para evitar minha queda.

O demônio ri com o movimento atrapalhado e confuso de ambos.

— Estamos os dois sem perna, quer apostar uma corrida?

A resposta é uma rizada soluçante do anjo ainda se apoiando no chão.

— Eu ainda ganharia de você.

— Imagino que sim. — Mefisto nota então a extensão do corte que ainda sangrava na coxa. — Nossa, corte feio esse. Meu tio ainda é bom de briga.

— Ainda bem que armas celestiais não me contaminam.

Mefistófeles se arrepia e treme todo o corpo só de ouvir a menção sobre a contaminação divina. O anjo pega a espada e oferece para Mefisto, que olha ainda receoso.

— Você tem certeza que podemos pegar essas? Quero dizer, Baphomet disse que quase morreu ao tentar tirar a espada abençoada de Belial, eu não quero brincar de morrer mais, não foi divertido.

— Armas abençoadas são toxinas para demônios. Arcanjos, assim como serafins, foram feitos para estarem acima da dualidade de bem e mal. É por isto que a cimitarra de luz do Lúcifer nós podemos usar, ou mesmo a minha maça.

Mefisto ouve ainda apreensivo, sua mão vai até o cabo, hesita e franze o rosto em temor, então fecha os olhos em um movimento rápido para pegá-la. Os olhos amarelos abrem em seguida, ficam verificando o entorno, se não apareceram raios para destruí-lo ou uma luz que o evaporasse instantaneamente. Nada. Ele espira aliviado enquanto Azazel ri com a insegurança do amigo.

— Eu não te daria se achasse que pudesse te machucar.

— Vai que estivesse enganado.

Azazel move-se um pouco devido a lesão na coxa, então, agora mais acomodado, ele solta o cordão dourado do pulso e o prende na presilha de couro que sustenta a armadura, o pingente turquesa balança próximo da altura de seu coração.

— Que bonito, pegou lá encima com os emplumados?

— Isso já era meu. — Ele ajeita a peça com delicadeza. — Você tinha razão, a respeito de Miguel.

— Sobre?

— Ele acabou deixando escapar que... que tinha expectativas sobre eu e... — Azazel fala constrangido usando o dedo para complementar a fala, indicando si mesmo. Mefisto gargalha arfante.

— Ele te confessou sentimentos? Te chamou para um cinema e ofereceu vinho?

— Vai se foder, Mefisto.

O demônio ria ainda enquanto abria o portal.

— Pronto, vamos pra casa, passarinho. Baphomet vai ter que te remendar.

— Se importa de eu ficar aqui, mais um pouco? — diz Azazel enquanto olha para a lua que acabara de surgir no céu.

O demônio olha na mesma direção e depois retorna a fala.

— Se quiser eu te coloco na grama da Lucy, até ligo o regador.

— Eu só quero aproveitar um pouco esse espaço, mais fresco.

— Hum... tá, me chame, ou eu volto em meia hora, Baphomet vai me surrar se eu te levar muito pálido.

— Estou bem.

Mefisto resmunga alguma coisa indecifrável enquanto vira-se para o portal criado.

— Tá, eu volto logo, Romeu.

Azazel vê o demônio partir e depois ele cerra os olhos sentindo a brisa noturna, então os olhos percorrem o céu, nota cada grupo de estrelas que a muito tempo ele não poderia ver, já que no inferno tal beleza não existia. Isso lembrava do Éden e de como conhecera sua querida Lilith. O som de um portal se abrindo e passos se aproximando o perturba levemente e ele avisa.

— Mefisto, eu disse que irei logo, não precisa se preocupar.

A resposta vem com um golpe de espada nas suas costas decepando sua asa que era inteira, fazendo-a cair na calçada e ele urra em dor. Azazel curva-se para frente, pega sua clava e a usa para se apoiar, levanta-se no meio da rua e vira ao agressor. Belzebu sorri com sua boca desgrenhada antes de chutar a asa arrancada para a valeta.

— Agora sim, parece mais com um de nós, pomba desgraçada.

O demônio gira a espada curvada no pulso.

— Belze, o que veio fazer aqui?

— Vim buscar um irmão, mas um anjo serve.

O demônio gira a espada no ar tentando atingir diretamente a cabeça loura do anjo que desvia do golpe se inclinando para trás. Azazel dá um golpe na lateral de Belzebu que se defende com a espada, ainda que sendo lateralmente atingido devido a força da maça. Ele dá um salto dando golpes de cima para baixo contra o anjo que defende usando a maça e um deles acaba atingindo sua perna que já estava ferida. Ele responde direcionando a esfera cheia de espinhos diretamente no rosto de Belzebu quebrando seu chifre que cambaleia até o outro lado da rua no canteiro com as árvores.

O demônio irritado, usa a ponta da espada para rasgar um entalho no chão de terra e levantar uma quantidade de grãos nos olhos do anjo que protege com o braço. Quando o faz, acaba tendo o membro atingido com a lâmina curvada. O demônio o ataca com ferocidade, erguendo a espada em direção a sua cabeça que é contida pela clava do anjo ferido. O demônio gira em um golpe ascendente lateral que Azazel desvia usando o impulso da asa queimada que restara, a dor o aturde enquanto apoia nas pernas para dar um golpe com a clava com o arranque e um berro de dor.

Belzebu desequilibra para trás, Azazel aproveita para girar a clava no ar e bater em suas pernas, o derrubando no chão. Azazel gira a maça mais uma vez se aproximando nas pernas do demônio e se curvando para atingi-lo no chão. A clava atinge o ombro do demônio que responde fincando a espada entre as costelas, na fenda do peitoral metálico de sua armadura. Azazel arregala os olhos quando Belzebu também parece surpreso de conseguir acertar o local. O demônio gira a espada fazendo com que o anjo recue trêmulo e cuspindo sangue.

O anjo cambaleia entre as sandálias, olha para o cabo fincado da espada tentando inutilmente alcança-la com a mão. Belzebu rasteja para trás assustado no chão, ele olha abismado, Azazel percebe o olhar confuso do demônio e fala.

— Você não tinha matado ninguém ainda, não é?

— Cala a boca! — responde colérico Belzebu, já esperando a próxima humilhação.

— Aposto que sempre foram os soldados, você só ficava golpeando e balançando a espada. O mais perto que tinha chego foi quando estava junto de Astaroth. É a primeira vez que faz isso sozinho.

— Eu disse pra calar a boca! — Belzebu se levanta correndo e salta para Azazel agarrando a espada e fincando-a mais profundamente na lateral do anjo que se contorce de dor e cai, levando os dois ao chão.

Belzebu se atrapalha para levantar e sobe encima da armadura do anjo caído olhando o sangue se espalhar, ele vê que o líquido viscoso que sai da parte interna do peitoral cobrira o cordão dourado que estava presa na fivela da armadura. Azazel mal respira, o som sai borbulhante e falhado. Belzebu desenha.

— Você sempre foi o estranho do grupo, não era da família, não deveria estar lá, Astaroth nunca aceitou você!

Azazel ri e balbucia com o sangue escuro emergindo de seus lábios.

— Ele também não aceita você. — Exibe um sorriso tingido do próprio sangue para o rosto do confuso demônio. — E você sabe disso.

Belzebu se levanta com o rosto torcido em exaustão, ele apoia o pé na armadura para desembainhar a espada da carne do anjo, o som de raspagem nos ossos só não é mais alto do que os gritos de sua vítima. Azazel move sua mão alcançando o cordão dourado de pingente azul, ele olha em direção a Belzebu que se posiciona com a espada para um golpe final. O anjo ainda fala:

— Diga para Astaroth que Lili...

A voz é interrompida por um grito seguido do golpe de espada no pescoço do anjo que separa sua cabeça do corpo. Belzebu fica arfante e cambaleia por ter usado tamanha força no impulso. Ele não tinha certeza se conseguiria cortar o pescoço com uma única tentativa, ele sente dor em todo seu corpo e precisa se apoiar na espada para se levantar novamente. Então respira profundamente mais algumas vezes olhando o corpo inerte, ele invoca um saco de tecido cru, se abaixa, coloca a cabeça na bolsa improvisada e vai embora em um portal, satisfeito.