Incontado
8 A Farsa
Notas iniciais
Regina e Emma estavam deitadas juntas naquela cama, aquilo incomodava a morena de uma forma absurda. Não que fosse ruim, mas era semi torturante sentir o corpo dela tão próximo e não poder nem mesmo abraça-la. Fechou os olhos diversas vezes lembrando do rosto da loira que s encontrava virado para o lado oposto ao seu. Quando seu olhos pesaram sentiu seus lábios serem tocados pelos da outra. Abriu os olhos e encarou o rosto da xerife sorrindo para si. Se beijaram novamente e era como se mundo tivesse começado a rodar, ou realmente estava rodando? Ela sentia como se estivesse dentro de um tornado e o corpo da loira foi sendo carregado para longe do seu.
─Não! Eu não posso perder você! Eu te amo Emma! Sempre amei, não me deixe! Pegue minha mão!
Emma estava sendo levada pelo vento e Regina estendia o braço tentando alcança-la mas não conseguia.

─Emma... Emma! EMMA!
─Regina! Eu estou aqui! Acorda! Esta tudo bem!
A morena acordou ofegante com Emma ao seu lado. Seu coração estava disparado por conta do pesadelo.
─Esta tudo bem? (A loira perguntou quando Regina se afastou de forma súbita.)
─Foi só um pesadelo. (Ela disse retomando a pose de rainha.)
─Não sabia que eu poderia causar pesadelos em alguém. (Emma disse tirando sarro.)
Regina gelou ao ouvir aquilo. No sonho ela tinha se declarado, será que estava falando alto?
─O que eu disse? (Ela perguntou receosa.)
─Eu só ouvi você falando meu nome de forma mole. (Ela respondeu indiferente.) Tive uma ideia genial para tentarmos ir para a floresta encantada!
Regina deu graças aos céus por Emma ter mudado logo de assunto, não queria falar daquele sonho de forma alguma.
─Qual é a grande ideia?
─Precisamos achar alguém com magia nesse mundo e perguntar como funciona, sabe antes de Storybrooke eu já tinha ouvido falar de alguns, mas sempre achei que era charlatanismo, mas sei lá, já vi tanta coisa que acho possível que algum desses diga a verdade.
Ela disse entregando para Regina uma lista de pessoas que havia encontrado na internet, desde gurus, ilusionistas, ciganos, até curandeiros.
─Sério? (Regina perguntou rindo da ideia.) Acha que algum desses panacas vai nos ajudar?
─Sei lá, mas não custa nada tentar. (Ela respondeu dando ombros.)
Regina balançou a cabeça já imaginando que aquele ia ser um dia inteiro de desperdícios, mas acabou cedendo:
─Como eu não tenho ideia melhor de como fazer magia nesse mundo... Vamos lá, vamos tentar.
─Ótimo! (Emma disse dando um sorriso abobalhado.) Mas antes vamos à um shopping.
─Que? Por quê? (A morena perguntou sem entender.)
─Porque eu consegui isso. (Emma disse mostrando um cartão de crédito.) Fui na padaria ainda a pouco e tinha uma ruiva com uma Mercedes querendo meu numero de telefone. Bem, eu é que acabei ficando com a carteira dela. (Ela disse se divertindo.)
Regina arqueou a sobrancelha em tom interrogativo mais para implicar do que para repreender. Emma fez um semi bico e disse:
─Qual é! Não vai dizer que só porque você é uma rainha que não entende essa coisa de garotas que gostam de garotas.
Regina ria internamente. Se Emma sequer imaginasse o que ela havia sonhado não teria entendido dessa forma.
─Emma querida, não pensei nada relacionado à outra garota estar dando em cima de você.
─“Outra garota”? (Emma perguntou confusa.)
Regina sentiu as bochechas corarem ao ver seu pequeno deslize, mas logo continuou para não dar brecha aos pensamentos de Emma
─Na verdade estava pensando nesse eu gosto por furtos.
─Eu acho um pouco divertido esses golpes, e daí? A Snow também era ladra na Terra Encantada não era? (Ela retrucou.)
─Nunca achei sua mãe um bom exemplo... (Regina disse deixando escapar uma risada.)
Emma deu um tapinha no ombro da outra terminando a conversa e elas foram logo tomar café da manhã. Depois elas foram ao shopping e compraram tudo o que puderam com o cartão de crédito da tal moça que havia dado em cima da loira.
─Porque você não aproveita o cartão da ruiva e compra uns vestidos pra variar? (A morena implicou com a loira que estava experimentando a quinta calça jeans seguida.)
─Porque foi usando um jeans que eu consegui esse cartão. (Ela respondeu se olhando no espelho com um jeans escuro.)
Ao ouvir a resposta ela arqueou as sobrancelhas em resposta e passou o olhar rapidamente pelos estandes da loja. Foi até um de vestidos e pegou um preto gola em “V” de corte justo.
─Só experimenta. (Regina pediu entregando a peça à outra.)
Emma olhou com ar de “não quero”, mas acabou pegando o vestido e entrando na cabine para se trocar. A morena mordeu o lábio já imaginando a loira com um ar mais ousado e acabou deixando o queixo cair ao ver como a roupa havia caído bem à loira que saiu da cabine.
─Satisfeita? (Ela perguntou levando as mão à cintura.)
A morena molhou os lábios e deixou as palavras saírem macias como o veludo do tecido preto.
─Você está perfeita.
Os olhos esverdeados a encararam enigmáticos:
─Se a ruiva tivesse me olhado desse jeito ela teria meu número dentro da carteira dela nesse momento.
Regina sentiu o peito pulsar mais forte ao ouvir isso e desviou o olhar.
─Só estou brincando. (Ela descontraiu ao ver a outra constrangida.)
─Melhor irmos. (A outra disse se recompondo.) Leva logo os seu jeans e vamos almoçar.
─Os jeans e o vestido. (Ela disse com um sorriso no olhar.) Não costumo gostar de vestidos, mas você acertou em cheio.
Regina virou-se e foi andando frente para não deixar a outra ver o sorriso que estava estampado em sua face e que ela não conseguia desfazer. Estava perdida, realmente viver com Emma e não deixa-la descobrir sobre seus sentimentos seria um grande desafio, mas estava sendo mais prazeroso do que ela imaginava. Pagaram pelas roupas e almoçaram em um restaurante japonês.
─Na Floresta Encantada existe sushi? (A loira perguntou devorando um hot filadélfia.)
─Não que eu me lembre, mas nada que eu não possa preparar achando salmão fresco, alga e arroz.
─Você sabe fazer sushi? Quando formos para lá você podia largar a vida de rainha má e montar um sushi bar, eu seria sua freguesa fiel. (Ela disse brincando.)
─É uma boa ideia. Difícil vai ser encontrar molho shoyo.
─A gente contrabandeia alguns quando formos, depois você replica o estoque com magia. (Ela disse roubando um sushi de camarão do prato da morena.)
─Verdade... (Ela disse revidando pegando um califórnia do prato da loira.) Tanto tempo sem usar magia que eu já tinha até esquecido que lá daria para eu fazer o que eu quisesse.
─Você consegue fazer comida surgir do nada com magia? (Emma perguntou interessada, mas pegando dessa vez um sashimi de salmão que seria da outra.)
─Desde que tenha matéria prima para se fazer, acho que sim. (Regina disse pegando do prato da loira um de atum.)
─Você tem que me ensinar esses truques Regina! Não conseguiria viver por lá comendo carne de quimera, definitivamente. (Ela disse pegando outro de camarão do prato de Regina.)
A morena riu e a encarou:
─Você quer trocar de prato Swan?
─Não. Roubar comida da Rainha é mais divertido, sabe como é essa minha queda por pequenos golpes não é?
As duas riram e se encararam, mas logo um silêncio constrangedor tomou conta do espaço. Elas ficaram algum tempo aproveitando o silêncio até que a xerife o quebrou.
─Henry iria gostar de no ver desse jeito sabe? Não deixe as coisas mudarem quando conseguirmos voltar, por favor.
Os olhos castanhos olharam complacentes e a dona deles falou:
─Não vão mudar, eu prometo.
A loira sorriu em resposta e logo as duas saíram dali para completar a missão do dia: encontrar alguém que soubesse usar magia naquele mundo.
Aquela estava longe de ser uma tarefa fácil. Enquanto na Terra Encantada há magia por todos os lugares, no mundo real há trambiqueiros por todos os lados. Elas rodaram por toda cidade de Nova York aquele dia conhecendo os mais diversos charlatões.
Uma vidente disse que Regina estava prestes a encontrar o cara certo para ela e que Emma ia começar a ter sucesso em seu emprego e ficar muito rica em breve. Uma cigana tentou ler a mão da morena e disse que ela era a alma mais pura e inocente que já havia conhecido. Tinha um curandeiro que tentou vender para as duas a qualquer custo um xarope a base de própolis e alóe vera, um astrólogo que ficava m posição de mantra tentando fazer as previsões mais catastróficas com base nos nomes das duas e um monge que ficava em posição de Buda tentando adivinhar os pensamentos delas e errando grotescamente em todas as vezes.
─Sério que tem gente que acredita nessas coisas? (Regina perguntou indignada.) Nenhum sinal de magia e ainda assim esses caras conseguem dinheiro! Como pode?
─Tem gente desesperada o suficiente para acreditar em qualquer coisa, bom saber que ainda não estamos no estágio de desespero para acreditar em qualquer um deles.
─Sobrou alguém da sua lista de pessoas esquisitas?
─Tem uma espécie de Jesus Cristo do Alabama, um cara que diz curar câncer na Flórida, um bruxo em Iowa e um ilusionista no Kansas.
─Vamos para onde agora? Voltar para o apartamento? (Regina perguntou enquanto Emma ia dirigindo.)
─Sem chances, temos tudo o que precisamos no carro e se tem uma coisa que aprendi nos meus anos de trabalho ilegal é: “Se mover é não ser pego.” Quanto menos tempo ficarmos parados em algum lugar menor é a chance de termos problemas com a policia. Precisamos trocar de carro aliás, já estamos com esse há muito tempo.
A morena deu um suspiro insatisfeita.
─Não se preocupe, não dormiremos no carro essa noite. Tenho uma amigas de tempos que acho que podem nos encobrir essa noite, se bobear até troco o carro com elas, elas tinham um esquema de desmanche de carro desde que saíram da prisão, vamos ver se temos sorte de encontra-las.
Regina arregalou os olhos assustada:
─Ex-presidiárias? Sério?
─Qual é Regina, eu sou uma ex-presidiária e nós a essa altura somos duas fugitivas, não haja como se não tivesse feito compra com um cartão roubado, ou como se não tivesse invadido uma casa de família.
─Só fiz porque você pediu! (A outra tentou se defender.)
─Nossa, eu tenho todo esse poder de persuasão em você Regina? Essa é novidade!
A morena emudeceu, a loira sorriu satisfeita e completou:
─Elas são boas pessoas, só andaram pelo caminho errado, nada muito diferente de você. Vai gostar delas, confie em mim.
─Vai contar a elas sobre a terra encantada?
─Lógico que não, vou falar que estou encrencada e que você está comigo. Nesse ramo ninguém pergunta muito os motivos, só perguntam o nível da encrenca e como até agora ninguém está na nossa cola, está tudo limpo.
Elas ficaram caladas o resto do percurso, Regina acabou adormecendo rápido e quando abriu os olhos estavam em uma espécie de cidade de interior em frente ao que parecia ser metade motel, metade oficina de carro na beira da estrada.
─Eu não sei se está tudo tranquilo por aqui, então fica aqui no carro por enquanto, eu vou lá dentro ver como está tudo e já volto.
Quando a prefeita pensou em contra argumentar a loira já tinha fechado a porta do carro e ido em direção à oficina. Ela entrou lá e uns sete minutos depois voltou acompanhada de uma mulher morena e alta, que usava óculos e era bem bonita. A tal mulher vinha abraçada de lado com Emma, até que as duas pararam em frente ao carro.
─Alex, essa é Regina, Regina essa é a Alex.
─Oi. (A Rainha disse um pouco enciumada com o jeito que a desconhecida abraçava a loira.)

Alex reparou o olhar que ela lançou para sua mão, que se localizava na cintura de Emma. Ela rapidamente tratou de esclarecer a situação estendendo a mão para Regina e dizendo:
─É um prazer Regina. Eu e minha esposa Piper ficaremos felizes em recebê-las.
A prefeita conseguiu respirar de forma mais leve ao ouvir isso e cumprimentou a outra.
Elas entraram pela garagem da oficina que no fundos tinha uma casa até que arrumada.
─Amor, temos visitas. (Alex disse assim que elas entraram.)
─Emma! (Uma mulher loira baixinha disse animada ao ver quem estava ali.) Quanto tempo! Achei que você tinha morrido! Nem para falar pelo facebook?
─Minha vida se tornou uma loucura Piper, você nem acreditaria se eu te contasse os detalhes. (A xerife disse rindo e trocando um olhar cumplice com a prefeita.)
─E essa ai quem é Emma? Sua namorada, marida, amante? (Piper disse empolgada.)
Regina já ia corrigir para “amiga” quando Emma disse.
─Ela está comigo se é isso que quer saber. Nada de tentar apresentar suas amigas loucas para ela nem para mim.
Ela ficou sem ar com essa resposta. Emma dizendo que elas estava juntas era de causar borboletas no estômago. “Droga Regina, você está patética parecendo uma adolescente.” Ela pensou.
As anfitriãs prepararam um jantar improvisado para as recém-chegadas. Um talharim ao molho sugo com frango grelhado. Elas estavam comendo quando a Piper perguntou:
─E então Regina, como conseguiu capturar o coração da Emma? Ela era bem dura na queda, dizia que nunca se apaixonaria de novo e bla bla bla... Como vocês se conheceram?
─Nós só estamos juntas. (Emma tentou desconversar.)
─Sou a mãe do filho dela. (Regina entrou no jogo só para ver a reação da loira que acabou quase se engasgando com o suco.) Henry é o nome do nosso filho. (Ela disse pegando a mão de Emma que começou a corar.) Eu o adotei e quando ele tinha uns dez anos, ele foi atrás da mãe biológica e voltou para casa trazendo essa mulher maravilhosa com ele.
As anfitriãs ouviam interessadas e Emma se movia um pouco desconfortável na cadeira, mas disfarçando ao máximo.
─E depois de muitas brigas por conta da guarda dele, acabamos aprendendo a nos aturar, a apreciar a companhia uma da outra, a se gostar...
─E ela faz uma lasanha incrível. (Emma conseguiu soltar uma piada para interromper a fala de Regina com gargalhadas das presentes.)
─Não é só a lasanha que é incrível. (Regina falou dando um olhar sexy para Emma que deixou o garfo cair no prato de nervoso.)
A prefeita não sabia bem porque a xerife estava tão tímida se ela é quem tinha começado com aquela ideia, mas estava gostando das reações.
─Ela é incrível. Mas e vocês como estão as coisas? (A salvadora disse tentando mudar de assunto.)
─Olha só Piper! Ela se apaixonou mesmo, está até encabulada mudando de assunto!
_Nunca imaginei a maior heart breaker da história apaixonada! (Piper completou.)
Emma deu um sorriso sem jeito e encarou Regina pedindo com o olhar para que ela maneirasse um pouco.
─Acho que destruí sua reputação amor. (Ela disse em resposta se contendo para não cair na gargalhada.)
O jantar seguiu sem mais delongas, a rainha começou a sentir uma pequena angústia, não só por saber que aquilo era só uma brincadeira, mas por conta da reação de Emma. Isso a fazia ficar em dúvida se era realmente tudo só uma história para que fossem recebidas sem muitas perguntas sobre o que estavam fazendo ali, ou se teria algum motivo a mais.
As anfitriãs as deram um quarto no motel para passarem a noite. Quando entraram Emma um tanto cabisbaixa disse:
_Desculpa não ter combinado a história com você antes, eu nem tinha pensado antes, meio que surgiu a ideia na hora e enfim... Obrigada por ter entendido, a história que você inventou foi ótima.
Regina definitivamente não estava esperando por aquelas palavras. De certa forma preferia continuar com a ilusão de que a loira talvez tivesse algum tipo de sentimento a mais.
─Eu não inventei. Não disse nada além da verdade. Temos um filho, nos conhecemos através dele e nos aturamos por conta dele. (Ela respondeu seca.) Na verdade você também não inventou nada, eu realmente faço uma lasanha maravilhosa e nós realmente só estamos juntas, nada além disso.
Emma abriu a boca para falar algo, mas se calou.
─Boa noite Swan.
─Boa noite.
E assim as duas foram deitar. Naquela noite Regina não teve pesadelos, porque mal conseguiu dormir. No meio da noite se sentou na cama e olhou para a loira que dormia serena ao seu lado. Doía muito pensar que tudo aquilo era apenas uma brincadeira quando o que mais queria era que fosse real. Ela suspirou deitando novamente sem conseguir pregar os olhos e deixou algumas lágrimas escorrerem por conta de sua paixão não correspondida.
Se pudesse fugiria daquele lugar imediatamente, era insuportável estar tão perto de Emma nutrindo todos aqueles sentimentos que só a machucavam no final de tudo. Mas aquela era a única chance de reencontrar seu filho. Elas duas juntas teriam melhores chances e foi por isso que ela permaneceu ali naquela noite. Mesmo com toda a dor, no final valeria a pena.
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