Incondicional

3 Parte III - Família


I

Estranho. Era assim que Thomas classificaria o que aconteceu entre ele e Lucille alguns dias atrás, não sabia explicar ao certo o que estava acontecendo com seu corpo, mas desde que ela o tocara daquele jeito tão íntimo e quente as coisas já não eram mais as mesmas.

Era perturbador ficar perto dela, aquele sentimento novo que o invadia de forma tão avida parecia estar sempre presente, o incitando a tocá-la novamente. Lucille explicou que aquilo se chamava desejo.

Desejo, ele voltou a pensar enquanto apertava entre os dedos um dos pequenos seios dela, descobrira naquela manhã que adorava fazer aquilo, os sons que ela emitia enquanto ele a tocava pareciam música para os seus ouvidos. E aquilo atiçava cada vez mais o tal desejo nele.

Cenas parecidas como aquela haviam se repetido inúmeras vezes na maioria dos dias, os dois se beijavam e se tocavam sempre que podiam. Apenas a sensação de beijá-lo já fazia com que Lucille sentisse suas pernas ficarem bambas. Nos últimos dias eles haviam descoberto um pouco mais sobre o corpo um do outro e tudo parecia mágico para Thomas.

Os dois haviam conseguido se amar mais três vezes no sótão desde que fizeram amor pela primeira vez no quarto anexo, mas para ele tudo continuava sendo novo, até mesmo respirar parecia diferente.

A mãe deles tocava piano naquela manhã, no entanto os sons graciosos do instrumento que transpassavam o piso eram abafados pelos gemidos dela enquanto ele a estocava com força como ela sempre pedia. Lucille se esforçava para não gritar conforme ele se movia dentro de si.

A tensão entre eles era gigantesca.

Lucille não precisou dizer a ele que o que faziam era errado, de alguma forma Thomas sentia isso, sabia que ninguém poderia descobrir o que acontecia entre os dois. O medo o invadia sempre que ela o tocava, sentia um arrepio passar pelo seu corpo e rezava silenciosamente para que ninguém aparecesse. Lucille por outro lado parecia não se preocupar muito com isso, a sensação de proibido parecia deixa-la ainda mais avida e excitada. Normalmente esperavam que a mãe que estava sempre ausente saísse de casa para que trocassem caricias e beijos mais profundos, mas ultimamente não conseguiam mais esperar.

Com um gemido baixo ele se derramou dentro dela, e naquele momento suas forças pareceram desaparecer e ele se debruçou em cima da irmã, exausto. Ela não se importou com aquilo, adorava senti-lo assim tão perto, poder acariciar os cabelos negros e sentir a respiração entrecortada dele. Se pudesse ficaria o dia inteiro ali com ele, mas infelizmente aquilo era um sonho distante e a razão a fez se levantar após um tempo, empurrando ele para que ficasse ao seu lado.

— Se arrume Thomas, a mamãe logo vai aparecer aqui. – ela comentou levando o vestido sobre os seios, fechando os laços da roupa com certa dificuldade e pressa.

Ele respondeu com um grunhido se movendo lentamente no chão, tentando arrumar as roupas amassadas.

— Ontem, quando a mamãe chegou ouvi ela resmungando que o papai vem para cá hoje. – Lucille comentou de repente com a respiração ainda agitada.

A sombra do desejo ainda atormentava Thomas e por um momento ele se sentiu aliviado em ouvir aquilo, certamente se o pai viesse teria de passar a tarde com ele e consequentemente longe de Lucille, o que significava uma tarde sem ter de conviver com o medo de serem descobertos. Uma tarde na qual ele poderia esfriar a sua mente, que ultimamente estava sempre em chamas, visivelmente Lucille não pensava da mesma forma.

— Queria poder ir com você. – ela sussurrou como se pudesse ler a mente dele, ou pelo menos parte dela. – Papai nunca me deixa ver como as minas funcionam.

— Papai diz que isso não é coisa para mulheres.

— O papai não passa de um bêbado. – ela retrucou irritada — E a mamãe ainda diz que ele vai tratar do futuro da família.

— Como assim tratar do futuro? – pensar no futuro de alguma forma o incomodou.

— Não sei. — ela deu de ombros, arrumando os cabelos com alguns grampos.

Aquela resposta não aliviou o incomodo na mente dele, algo lhe dizia que aquela visita não terminaria bem. Não se lembrava ao certo quando fora a última vez que havia visto o pai, se lembrava apenas dos gritos e das brigas entre os pais. Iria dizer o que estava o angustiando, mas quando percebeu o som do piano cessar ficou sem reação.

Alguns minutos se passaram e Beatrice abriu a porta com certa irritação.

— Isso está uma bagunça! – ela reclamou observando os filhos – Lucille arrume essas coisas, e Thomas vamos, seu pai quer vê-lo.

— O papai está aqui? – Thomas perguntou curioso.

A expressão de raiva e magoa no rosto de sua mãe deixava claro que ele deveria ter continuado quieto.

— Sim. – ela respondeu depois de um tempo – Ele não vai nos deixar em paz enquanto não afundar essa família de vez.

Ele não entendeu o que ela quis dizer com aquilo, apesar de tudo sentia saudades do pai, pelo menos de quando ele estava sóbrio e o levava para cavalgar ou fazer qualquer outra coisa longe daquele quarto.

II

Pacientemente ele esperou que o pai chegasse.

Sem a mãe por perto para dizer o que ele deveria fazer, ele se deu a liberdade de esperar pelo pai na entrada da casa.

A neve não caia naquela manhã e ele pode fazer uma das coisas que mais gostava: observar os homens que trabalhavam na mineração de argila. Aquela visão sempre o fascinava, os movimentos precisos e a forma como manuseavam os equipamentos o faziam sonhar. No futuro ele se imaginava coordenando aquele tipo de trabalho, talvez algum dia quem sabe ele pudesse inventar uma máquina para substituir o trabalho de algumas pessoas, ainda se lembrava do dia que havia dito isso ao seu pai, as risadas debochadas do homem barraram os seus sonhos e ainda estavam vivas em sua memórias.

“Pare de sonhar garoto, essa coisa de máquinas nunca dará certo, não precisamos disso, sempre teremos homens para fazer esse trabalho”.

“Sempre teremos homens”, ele havia dito, mas tudo que Thomas via mês após mês era o número de operários diminuir, bem como a reserva de argila nos poços. O uso excessivo da extração de alguns lugares havia danificado algumas tubulações e muitos poços e bombas já não funcionavam mais e cada vez mais eles precisavam de mais homens para as minas, pelo menos o velho Antony, antigo chefe dos operários, havia dito isso, mas o número só diminuía, e o moreno não entendia o por quê.

— Sonhando acordado, garoto? – a voz fria e familiar do pai o trouxe novamente a realidade.

Surpreso ele deu alguns passos para trás antes de enxergar a face redonda e avermelhada de William Sharpe.

— Como tem passado, garoto? – o homem perguntou sorridente passando as mãos pelos cabelos negros do filho.

— Bem... – ele respondeu baixinho, sentindo o familiar cheiro de álcool nas roupas do pai.

— Venha, vamos ver como andam os negócios da família, operários são sempre preguiçosos. – o homem o puxou em direção ao grupo de trabalhadores que estavam um pouco mais a frente.

Se o filho estava ansioso para ver o pai, o mesmo não podia se dizer daqueles homens. Mal o senhor Sharpe se aproximou do grupo, e a confusão já estava armada, um homem magro, alto e de parcos cabelos grisalhos foi o primeiro a falar.

— Veja só quem resolveu dar as caras, o baronete.

— É bom revê-lo também, Patrick. – William o observou com superioridade.

— Lamento não puder dizer o mesmo. – o homem magro resmungou – Meses atrás deveria ter dado ouvidos ao velho Antony, agora está cada vez mais difícil o trabalho de mineração.

— Isso parece mais a preguiça de vocês falando. – Sir William retrucou indiferente.

Os outros homens não gostaram daquele comentário e Thomas percebeu isso só de olhá-los.

— Fazemos o possível com o que temos... – Patrick continuou.

— Ou melhor dizendo nada. – outro homem completou.

— Precisamos de ferramentas para trabalhar, Sir William, mesmo que o senhor ignore isso.

— Precisamos de mais homens. – um operário magricelo gritou.

— Vocês reclamam demais. – William resmungou.

Sua última frase incomodou os homens e o velho Patrick soltou a ferramenta de metal que carregava nas mãos, encarando a todos com seriedade. Ele deveria ser o líder dos outros, Thomas pensou.

— Sir William é impossível continuarmos trabalhando nessas condições, sem modernizar nada, tudo aqui é ultrapassado, se não está disposto a pagar por isso não há nada que possamos fazer, e logo as minas terão de ser fechadas.

Thomas olhou apreensivo para o pai, temia a resposta dele, mas pelo que conhecia dele o homem não recuaria, ele sempre achava que estava com a razão, e foi exatamente isso o que aconteceu.

Os homens desistiram de negociar e Thomas os observou ir embora em silêncio.

No rosto de Sir William ainda era visível a mesma indiferença de sempre.

— Eles vão voltar. – ele disse depois de um tempo – Eles sempre voltam, precisam do nosso dinheiro. – olhou para o filho – Nunca de atenção a esse tipo de gente, eles não sabem o que dizem. – terminou arrogante.

Os operários nunca voltaram.

III

Lucille estava impaciente, andava de um lado para o outro do sótão acariciando com as mãos uma pequena boneca que Thomas havia esculpido, não aguentava mais esperar o retorno dele, já sentia saudades de suas risadas, suas falas e principalmente de observar aqueles olhos sonhadores e esperançosos.

Aquele silêncio todo a incomodava, sua vida sem Thomas era vazia, cada segundo distante dele parecia uma tortura. Nas primeiras duas horas de sua ausência ela ainda acreditava que o veria após o almoço, ansiosa esperou pelo seu retorno, sua ansiedade era tamanha que ela nem se quer conseguiu comer, no entanto Thomas e seu pai não apareceram, tudo que ouviu foram os resmungos de sua mãe em relação ao marido.

Nas horas que se sucederam sua angustia só aumentou, a noite havia chegado e a ausência do irmão fazia sua mente imaginar o pior. Seu pai era um homem violento, e quando bebia perdia completamente o controle. Será que ele estava bêbado? Pior, e se ele machucasse o Thomas? Pensar naquilo fez um arrepio passar pelo corpo dela, o medo a dominou e involuntariamente ela pegou o molho de chaves que sempre carregava consigo e o apertou contra o peito.

Ela não podia mais esperar, precisava encontrá-lo. Movendo apressadamente as chaves em direção a porta ela parou quando vozes surgiram em meio ao silêncio da noite.

Ela podia escutar perfeitamente a mãe iniciar uma discussão, o que significava que seu pai havia retornado. Aos tropeços ela abriu a porta do sótão e correu por entre os corredores e escadas, precisava urgentemente saber se o irmão estava bem.

O alivio voltou a sua alma assim que o viu parado ao lado da escada, seus olhos atenciosos analisaram cada detalhe dele em busca de qualquer sinal de que ele estivesse ferido, para seu alento não encontrou nada, apenas o medo.

Thomas observava a discussão dos pais, Beatrice acusava William de gastar o dinheiro deles e estar sempre ausente, William gritava de volta dizendo que era tudo culpa dela.

— Como quer que eu viva nesse fim de mundo? – ele esbravejou – Deveríamos ter vendido tudo isso quando podíamos.

— Para você gastar mais dinheiro com suas amantes, seu porco imundo! – a mulher esbravejou.

A fúria brilhou nos olhos azuis do homem e Thomas teve certeza que seus temores se tornariam realidade. Com violência William empurrou Beatrice no chão, a mulher voltou a gritar e Thomas observou estático o pai chutar a mãe inúmeras vezes.

O desespero voltou a crescer em seu interior, ele teve vontade de gritar para que o pai parasse, queria que tudo aquilo acabasse, queria correr para longe, mas suas pernas pareciam presas no chão antes mesmo do olhar furioso do pai voltar a recair sobre ele.

Notas finais
Bom, nunca reparei se em algum momento é mencionado o nome do pai deles, por isso adotei o nome de William, espero que tenham gostado do capítulo.