Incoerente

1 Capítulo Único - A Lua


As finas cortinas eram inúteis em meio a noite. O retrato embaçado da lua por detrás da cúpula do observatório era, sem dúvidas, uma das coisas mais belas que já vira em vida.

Seu olhar vazio encarava o astro prateado enquanto seu corpo se mantinha estático. O chão frio sobre o qual suas costas se apoiavam era o local onde seu corpo exausto momentaneamente repousava.

Seu coração já batia fraco e se perguntava quanto tempo mais suportaria isso. O sangue úmido em seu rosto era agonizante, tanto quanto as vestes imundas e cabelos desgrenhados. A ardência insuportável espalhada por todo o seu corpo era, sem dúvidas, seu maior motivo de repugna.

Não podia gritar, sequer mesmo se levantar. Respirar havia se tornado um trabalho árduo e mais do que nunca se amaldiçoou por se permitir ser tão fraco.

A taça de vidro despedaçada repousava sobre o chão junto do vinho escarlate que manchava o piso níveo do observatório.

O som tormento de passos vindo de trás de sua cabeça mais pareciam fazer parte de um pesadelo. O vulto que caminhava sem pressa em sua direção parou a sua frente com um pequeno sorriso satisfeito adornando seus finos lábios. A figura demorou até se tornar nítida frente a seus olhos, suas íris negras de imediato se fixaram as suas obrigando-o a ver a face pálida de seu assassino.

Sua imagem desfigurada era refletida pelas pupilas sem vida do ser frio a sua frente, lhe dando total visão do estado deplorável em que se encontrava naquele momento. Havia sido fácil manipula-lo, ridiculamente fácil. Agora estava a pagar por se agarrar de forma tão desesperadaa realidade distorcida que durante anos havia se obrigado a acreditar.

Sua última visão foi o brilho prateado refletido pela grande cúpula, torturando-o com a lembrança do quão tudo sempre esteve tão claro. A ignorância havia o matado.

Sua mente naquele momento havia se esvaziado, pagando assim, seu mais grave pecado.

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