Inclemente cólera
6 Gendry
O vento soprava tão frio, de uma forma que ele jamais sentira em sua vida. Tentou se mexer, mas sentiu seu corpo resistir. Estava congelando. Moveu seus braços para poder retirar aquele peso de si e sentiu sua mão tocar em algo. Aquilo era um corpo. Moveu-se com mais vigor para se livrar de toda aquela neve que o enterrara vivo. Apoiou seu braço esquerdo, que agora se encontrava liberto, à sua frente, fincou seus dedos no chão coberto de gelo, e forçou seu corpo para frente. Conseguiu se mover lentamente, até que seu outro braço se livrou também. Então, com ambos os membros superiores conseguiu se livrar daquele manto gelado que o mantivera preso por um tempo o qual ele não sabia mensurar. Levantou-se com dificuldade, apoiou suas mãos em seus joelhos e assim ficou alguns momentos, retomando o fôlego, até que se lembrou do corpo...
Abaixou-se e começou a remover, o mais rápido que pôde, todos aqueles flocos de gelo que quase retirara sua vida. Notou aquela cor inconfundível de cabelo, era Tormund. O corpo dele jazia ali ao seu lado.
—Não, não, não... — Falou com apreensão. Encostou seu rosto próximo ao rosto de Tormund para verificar se ele estava respirando e sentiu um sopro tórrido se exalar pela sua boca.
Gendry o segurou pelos braços e conseguiu livrar as pernas do selvagem, que ainda estavam enterradas. Tentou pensar em algo, em como acordá-lo, mas nada veio à sua mente. Enquanto isso se sentou ao lado daquele corpo e contemplou o lugar onde estava, com a esperança de ter uma ideia. Estava muito cansado e seu corpo doía. Por toda a sua vida jamais havia visto a neve, e agora desejava nunca a ter visto.
Olhou para a sua frente e pensou, atormentado, o que iria protegê-los agora que parte da Muralha fora destruída. Atalaialeste do mar estava em ruínas. Ele se virou e só assim notou que estava escuro, sentia frio e medo. Enterrado vivo e ainda estou aqui. Passou brevemente um pensamento de que ter ficado em Porto Real seria mais sábio. Não, eu quis isso. Aquele lugar não é melhor, nem mesmo do que aqui. Enquanto seus olhos vagavam viu alguém se movendo em direção ao Sul da Muralha. Fitou-o à distância e notou que aquele corpo não era humano, ao menos não era mais. Ele já tinha visto algo assim, mas aquilo o deixou aflito.
Ouviu uma lamúria, seguida de uma tosse sufocante e se voltou para verificar. Tormund havia despertado.
—Ei, garoto. — E tossiu mais uma vez.
—Fico feliz que esteja vivo. — Aproximou-se.
—Você encontrou mais alguém? — Gendry balançou a cabeça. — Sinto muito por isso. Precisamos salvar nossas vidas agora. — Com grande esforço conseguiu se sentar.
—Eles marcharam para o Sul. Os mortos. — Seu olhar demonstrava pavor.
—Precisamos fazer o mesmo.
Gendry entendeu que não havia alternativa. Poderiam migrar até Winterfell, talvez. — Mas como vamos passar por eles?
—Não temos escolha. — Disse, levantando-se obstinado.
Os dois se entreolharam, e sem dizer uma palavra se voltaram em sentido Sul, passando pelo vazio que foi deixado após a queda da Muralha, para um futuro duvidoso, que na opinião de Gendry não possuía grandes possibilidades de ser positivo.
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