Notas iniciais
Esse foi um capítulo difícil, desculpem pela demora. Espero que gostem!

Ele gostava de conhecer lugares novos, mas era sempre esquisito pegar ônibus pra algum lugar que não conhecia. Consultava as instruções que estavam salvas no seu celular pra ter certeza que havia pegado o ônibus certo, mesmo já estando dentro dele. Chegou a ir confirmar com o cobrador se este era realmente o ônibus e se ele realmente passava onde ele deveria descer, mas não pediu pra que o cobrador o avisasse quando chegassem lá, pois não queria incomodá-lo.

Após os frapuccinos no domingo, haviam combinado de fazer alguma coisa no meio da semana. Depois de muito discutirem ideias, perceberam que o programa favorito dos outros era o mesmo: ficar em casa. Na dúvida, então, decidiram ir à casa um do outro. Após comentar que sua mãe não gostava de visitas em casa, decidiram que poderiam ficar mais à vontade na casa do moreno.

Viu a escola que servia de referência ao lugar que ele deveria descer, correu para dar o sinal. O ônibus ainda andou mais uns 200 metros, o que fez com que ele tivesse a impressão que desceria no ponto errado. Ao olhar ao redor depois de ter desembarcado, localizou quase imediatamente a padaria de esquina com a rua que ele deveria ir.

Consultou uma última vez o celular para ter certeza que ia para o lugar correto, e seguiu andando. O bairro era agradável, a rua tinha alguns carros, mas dava para atravessá-la tranquilamente mesmo fora da faixa. O cheiro de pão que emanava da padaria o fez se questionar mais uma vez se deveria ter comido antes de sair de casa. Não queria que o moreno se preocupasse com essas pequenas coisas, mas e se ele tivesse feito algo para comerem juntos?

Entrou na rua da padaria, levemente encantado com a quantidade de árvores na rua. Elas projetavam sombras agradáveis no asfalto que, de outra forma, estaria quente. O sol estava mais forte do que ele gostava. Logo localizou a casa de acordo com o que havia sido descrito a ele: muro de pedra falsa cor de barro e portão cinza-claro. Era aquela, não havia outra igual na rua, mas olhou o numeral para ter certeza. Assim que viu o "756" em cinza pendurado acima do portão, perdeu a certeza de que era a casa correta. Não era esse o número, era? Mas não havia outra casa igual por ali. E se tivesse entrado na rua errada? Olhou para a esquina novamente para confirmar se a padaria ainda estava ali. Estava. Mas e se houvesse outra padaria próxima à escola? O ônibus continuou andando um pouco depois da escola, afinal...

Quando estava abrindo novamente o celular para confirmar as informações, alguém abriu o portão da casa. O cabelo estava solto sobre o ombro esquerdo. Vestia uma camiseta cinza simples e uma calça de moletom preta. Estava descalço. Tinha a aparência óbvia de alguém confortável em casa.

A felicidade que sentia ao vê-lo, de saber que estava no lugar certo e não iria envergonhá-lo ligando pra perguntar como voltar de onde quer que ele estaria... E ele estava incrivelmente lindo. Era uma roupa simples, que mal servia para ir até a padaria da esquina, mas nele parecia perfeita. "Perfeita" não era a palavra certa, mas não conseguiu achar a palavra apropriada. Ele estava "incrível".

Aproximou-se, sem conseguir conter o sorriso.

—Você chegou, que bom. Já ia mandar mensagem perguntando onde você estava.

—Ah, o ônibus demorou pra passar, e depois eu não tinha muita certeza se havia descido no lugar certo. Não tinha certeza se era aqui mesmo ou...

—É, eu te vi parado aí pela janela, por isso vim te chamar. — Esticou um braço, convidando-o para se aproximar. — Está tudo bem com você?

—Um-hum — respondeu, concisamente. Ainda estava se aproximando quando reparou na gola da camiseta do garoto. Era larga, provavelmente a camiseta era velha e o elástico já não cumpria sua função há algum tempo. Tão profunda como uma gola V, mas era redonda. Deixava um monte de pele exposta.

"Sexy", essa era a palavra que ele estava procurando. O moreno estava sexy. Sentiu vergonha disso, e abaixou o rosto.

—Fiquei com medo que você não viesse — Disse o moreno, aparentemente sem se dar conta do que havia acontecido, felizmente. — Achei que você pudesse ficar com medo ou... Sei lá, não querer vir.

Ergueu o olhar e viu um pouco de receio por trás da aparência feliz dele. Ele estava sendo sincero, como sempre. E autêntico. Queria poder ser sincero com essa facilidade. Mas tudo o que podia agora era se animar com ele.

—Eu vim. — Disse, constatando o óbvio, sorrindo para ele. Era uma brincadeira, esperava que ele percebesse isso e não ficasse com cara de tonto ali. E então percebeu algo esquisito. — Por que eu teria medo de vir?

—Não sei, às vezes você... — E freou a frase, à procura da expressão correta. Estava novamente com aquela expressão de quem calculava tudo o que fazia. — você fica meio apreensivo com algumas coisas que eu não entendo bem.

Era a verdade, e ele se odiava por isso. Não bastava isso atrapalhar ele mesmo, ainda fazia o moreno se preocupar a toa. Percebeu que havia parado de andar, e se forçou a retomar o passo.

—Eu to ficando melhor, eu acho. — Respondeu. Queria que fosse verdade, mas não creditava bem nisso. Só queria acalmar o outro.

—Está tudo bem. — Disse o moreno, e juntos passaram pelo portão, que se trancou ao ser encostado. Ofereceu uma mão e seguiram de mãos dadas pela garagem até a porta da casa. — Você está comigo, está tudo bem. Certo?

Olhou para ele. Era daqueles momentos em que, apesar de ser maior que o moreno, se sentia menor. Era fácil apenas ficar ali e apreciar a companhia. O outro percebeu o olhar e o encarou de volta. Naqueles olhos castanhos havia paz. Poderia mergulhar neles, tudo estava bem.

—Certo. — Respondeu, com alguma firmeza. Estava realmente tudo bem. Não havia com o que se preocupar.

Entraram de mãos dadas na sala.

O piso, que parecia ser de madeira mas não fazia o som que seria esperado, era claro e combinava com a parede em que a televisão estava pendurada, enquanto as demais paredes eram brancas. Um sofá cinza-escuro largo e de aparência confortável ocupava a parede oposta. As almofadas azuis combinavam com o tapete e com alguns enfeites no rack que ficava abaixo da televisão. Ao lado da porta, próximo à ampla janela que iluminava bem o ambiente havia uma poltrona da mesma cor que o sofá, em simetria com outra poltrona na parede oposta. Esta última ficava ao lado de um batente vazio que dava para um corredor bem-iluminado que sem dúvida levava ao resto da casa. O ar ali era gelado, um gratificante refresco depois do ônibus abafado.

—Bem-vindo. — Disse o moreno, sorrindo. — Só toma cuidado pra não sujar o tapete, ou minha mãe te mata.

Ele próprio se mataria se estragasse uma sala que fora, obviamente, tão bem mobiliada.

—Sua mãe é designer?

—Não, ela só gosta dessas coisas. Compra revistas de decoração e essas coisas.

—Ela é boa. — Disse, sem conseguir se segurar.

—As revistas que são, ela só copia. E às vezes exagera. Não gosto dessa cortina. — Disse, apontando para a janela. Presa no canto da janela estava uma cortina azul, que combinava com o tapete. De alguma forma, ela parecia quebrar o equilíbrio da sala.

—É, acho que foi um pouco demais. — Respondeu, imaginando como a cortina ficaria quando cobrisse toda a janela.

Percebeu pelo canto do que o garoto menor o encarou, e olhou de volta para ele, que estava com a aparência séria. Será que havia dito algo demais? Estava, afinal de contas, falando mal da casa dele...

—Quer água?

A pergunta não era o que ele esperava, e por isso demorou um pouco pra dizer que não. O menor ergueu as sobrancelhas, em um silencioso "tem certeza?", e ele se viu obrigado a aceitar a oferta.

—Quer que eu vou com você pegar água? — Ofereceu-se, sentindo-se um peso morto.

—Não precisa. Me espere aqui. Fique à vontade. Se quiser tirar o tênis, o chão foi limpo hoje.

Viu o moreno sumir pelo corredor. Enquanto andava silenciosamente pela sua própria casa, ele parecia ainda mais adorável. Percebeu que o cabelo já não estava mais sobre o ombro — será que ele havia arrumado daquele jeito apenas para ir recepcioná-lo? Se sim, deu muito certo — e reparou também que a calça de moletom era leve e fina, e marcava bem o corpo do garoto enquanto ele andava.

Desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar. Tirou o tênis, tentando pensar em outra coisa, e sentou-se no sofá, que era mais bonito do que confortável.

Enquanto esperava no sofá, percebeu como a casa era silenciosa. Não ouvia barulho vindo da rua, e nem dos outros cômodos da casa. Uma ideia nasceu dentro dele e o assustou mais do que conseguia expressar. Pensou se seria tarde demais para ir embora, ou que desculpa dar se precisasse ir. Pensou em como estava sendo ridículo por se preocupar sem saber. Pensou em como foi inocente de não ter percebido isso antes.

Quando o outro garoto voltou da cozinha com um copo d'água, perguntou com a voz mais normal que conseguiu fazer.

—Não tem mais ninguém aqui?

—Não, eu disse que não. — Ele respondeu, sorrindo, enquanto entregava o copo. Certamente sua expressão traía os seus pensamentos, pois ele logo percebeu que algo estava errado. — Eu disse que estaríamos sozinhos, não disse?

—Eu... — Sua voz quase não saiu. Pigarreou. — ...não me lembro. — A voz continuava fraca. Aproveitou o copo d'água. Bebeu, bem devagar, concentrando-se no copo. Percebia pela visão periférica que o outro olhava para ele, de pé em frente ao sofá. O silêncio arrastou-se por alguns segundos, até que a água do copo acabou, quando foi obrigado a olhar novamente para o garoto. — Obrigado. — Disse, devolvendo o copo.

Ele permaneceu onde estava, segurando o copo.

—Tudo bem estarmos sozinhos?

—Sim, sim, claro. — Respondeu, rápido demais. Dava pra perceber que foi uma resposta estranha, então tentou melhorar. — Eu só não achei que seria assim e... — Percebeu que não tinha como melhorar a resposta. Deveria pensar antes de abrir a boca, agora só tornara tudo mais esquisito.

O moreno, ainda sério, fez que sim com a cabeça e voltou para a cozinha.

Desviou o olhar antes que de fato olhasse novamente para as calças justas do garoto.

Não sabia o que esperar. Não sabia o que era esperado dele. E se o outro quisesse... Eles nunca falaram de verdade sobre isso. O moreno não sabia que isso tudo era muito esquisito para ele. Não tinha como ele saber. O outro afinal já estivera com várias pessoas diferentes, e certamente nenhuma delas era problemática como ele.

Odiou-se em silêncio no sofá. Pensou em quantas outras pessoas já haviam sentado ali naquele sofá, trazidas por ele, e se odiou ainda mais por isso. De que adiantava pensar nisso? Antes que conseguisse impedir, a imagem do moreno e do garoto esquisito de cabelo castanho se beijando se formou novamente na sua mente, mas dessa vez o cenário era aquela sala. E ele estava com a calça de moletom que usava agora. Na sua cabeça, a calça marcava ainda mais a coxa dele, e era uma boa visão de costas...

Odiou-se por imaginar a cena, odiou o fato dela provavelmente ter acontecido, e odiou-se ainda mais por tudo isso. Fechou os olhos, tentando apagar a imagem mental, o que só fez com que ela ficasse mais forte. Enquanto lutava para apagar o pensamento, percebeu que se o moreno realmente tivesse usado aquela calça de moletom perto do outro, enquanto se beijavam, certamente o outro teria se aproveitado disso e... "Apalpado"?

Imaginar isso era muito pior do que podia suportar. Tudo ficava ainda pior pelo falto dele mesmo mal conseguir encarar essa ideia, mal achar a palavra certa, nem se quer olhar para o outro e...

—Está tudo bem?

O moreno havia retornado para a sala sem que ele percebesse. Deu por si de olhos fechados, braços cruzados e meio encolhido, como se tivesse com dor de barriga.

—Está, sim. — Respondeu, fingindo o seu melhor. Seu melhor, obviamente, não enganava ninguém.

—O que foi? — Perguntou o menor, se aproximando. Sentou-se ao seu lado direito e o abraçou com o braço esquerdo. Instintivamente encolheu-se do abraço, mas em seguida encostou sua cabeça no braço dele. — O que você tem? — Sua voz parecia mais uma vez preocupada.

Odiava-se, sobretudo, por fazer ele ficar preocupado.

Mas ao mesmo tempo sentia algo quente no peito. Ele se importa.

—Nada não. — Respondeu, arrumando-se. Sentou-se direito, e se encostou, com o braço do outro ainda por trás dele. Ficou desconfortável, mas não queria que aquele braço saísse dali, gostava desse contato.

O moreno percebia que algo não estava bem. Era óbvio. Odiava ser tão ruim em lidar com essas coisas, e ainda pior em esconder seus problemas. Mas agora isso não adiantaria de nada, então era melhor mudar de assunto e continuar fingindo que nada havia acontecido.

O problema agora era arranjar um outro assunto.

Vasculhou sua mente tentando arranjar algo para falar, mas não achou nada que parecesse decente. Lembrou-se então do braço que estava por trás dele, deixando tudo desconfortável. Se inclinou um pouco para a direita e girou o corpo para a esquerda, tentando achar uma posição melhor. O outro garoto entendeu isso errado, e aconchegou-se mais perto.

Do jeito que ele próprio estava encolhido no sofá, o moreno parecia maior, e agora praticamente o abraçava por cima. Não era isso o que ele estava procurando, mas daquele jeito tudo estava perfeito. Fechou os olhos e sentiu-se feliz. Encolheu-se mais e ajeitou-se para caber melhor naquele abraço. Estava quente ali, e estava confortável. Estava se sentindo bem.

—Está tudo bem mesmo? — Veio a pergunta, em voz baixa.

Dessa vez, foi fácil responder. Inclinou a cabeça na direção dele para que pudessem se ver.

—Está tudo ótimo. — E o sorriso que se espalhava por seu rosto mal podia ser contido. Estava incrivelmente feliz por estar ali, e sentia alguma...gratidão? Não sabia bem o que era que sentia, mas olhar nos olhos daquele garoto, estando os dois ali tão perto era definitivamente bom.

Talvez devesse fazer algo para mostrar que aquilo era bom? Era uma ideia meio ousada, mas parecia não ter nenhum problema...

Esticou-se, saindo do abraço, virando-se para encará-lo de frente. O movimento inteiro foi esquisito e travado, e a ideia de deixar pra lá e voltar para como estava passou por sua cabeça umas duas vezes. Mas quando estavam frente a frente, não havia mais nenhuma dúvida.

—Está tudo realmente bem. — Disse, com um sorriso mal contido, e se aproximou mais. Ergueu o braço esquerdo e o colocou no rosto do outro, se surpreendendo novamente com aquela pele macia, que logo foi acariciada com seu polegar.

Estavam a poucos centímetros de distância, com os rostos bem próximos um do outro. Aqueles olhos castanhos olhavam gentilmente para ele. Ali ele se sentia seguro e confortável. Naquele instante tudo estava bem. Poderia ficar ali o resto do dia. Não precisavam assistir nada, nem fazer qualquer outra coisa, só essa proximidade já o deixava feliz. Esperava que o outro também se sentisse assim.

Era o que o moreno deveria sentir afinal, não é? Mas... e se ele estivesse impaciente de ficar parado na mesma posição por tanto tempo, sem que nada acontecesse? E se ele achasse que ele só estava sendo insuportável e infantil? E se ele estivesse considerando tudo patético?

Recuou de súbito, desviando o olhar e encolhendo o braço. Percebeu que seu movimento foi rápido demais, como se tivesse levado algum tipo de choque. Sentiu vergonha. Se antes não estava sendo infantil, agora definitivamente estava. Sentia... medo de ficar perto?

Queria se esconder, mas isso obviamente era impossível agora, então tinha poucas opções. Juntou dentro de si alguma coragem para erguer novamente a cabeça. Ao levantar o olhar, constatou que o outro ainda estava no mesmo lugar, com o mesmo olhar gentil. A vergonha aumentou e o fez abaixar o rosto novamente. Isso estava errado. Ele não merecia alguém que nem ao menos conseguisse manter o olhar. Ele merece alguém melhor.

Aquilo tudo era um erro. Não era possível. Ele sempre soube, ia dar errado. Era melhor abandonar tudo agora, antes que ele magoasse o garoto menor que, afinal de contas, era alguém tão incrível e tão melhor que ele. Ele merecia alguém melhor, não havia sentido gastar o tempo com alguém que nem consegue sustentar um olhar por mais que alguns segundos.

—O que a gente assiste? — O moreno perguntou, como se nada tivesse acontecido.

Será que ele não tinha percebido nada? Ou será que ele estava só cansado de tudo e queria acabar logo com aquilo? Eles assistiriam qualquer coisa, ele iria embora e tudo terminaria.

—Eu... eu não sei. — Sua voz soava, mais uma vez, fraca. — Tanto faz... — Não queria soar indeciso, e "tanto faz" era uma resposta horrível. — É, tanto faz, eu acho. — E a resposta que já era horrível acabou de ficar ainda pior. Ele não deveria falar. Era melhor só ficar quieto e gesticular.

O outro garoto pegou o controle remoto que estava no braço do sofá e ligou a televisão direto no Netflix.

—Então bora procurar alguma coisa. — Disse, parecendo feliz.

Ele poderia realmente estar feliz? Tudo aquilo estava tão esquisito, e o seu comportamento só ajudava a deixar tudo pior! Tentou pela primeira vez tomar alguma iniciativa pra fazer algo e fracassou grotescamente, certamente o outro havia percebido. Por que fingir que nada havia acontecido? Não seria melhor só acabar logo com isso e seguirem em frente com suas vidas?

Não entendia o que estava acontecendo. Ainda estava sentado meio encolhido, longe demais pra voltar àquele abraço que estavam antes, perto demais pra ignorarem a possibilidade. Mas não tinha dado certo antes, por que tentar novamente?

—Esse é o problema do Netflix, a gente perde mais tempo procurando algo do que assistindo. — Comentou casualmente o garoto, enquanto rolava pelo menu, olhou sorrindo para ele.

Ele realmente parecia feliz. Não fazia sentido. Ele deveria estar cansado, e deveria querer que ele fosse embora. Poderia ficar à vontade pra fazer o que quiser, ou pra chamar quem ele quisesse.

Encolheu-se quando aquela imagem veio novamente à sua mente.

—Está tudo bem? — Sua voz estava mais baixa do que dois segundos atrás, mas não parecia de saco cheio nem nada do tipo. Parecia algo mais acolhedor? Parecia... carinhosa?

Olhou para ele, e pelo ângulo em que estava precisou olhar para cima para conseguir isso, e tentou sorrir. Percebeu que seu sorriso não daria certo, então deu de ombros. O resultado final foi um meio sorriso de ombros encolhidos. Tão patético quanto conseguia ser. Decidiu falar, pra não restarem dúvidas.

—Acho que está, sim.

Apesar da resposta ridícula, conseguiu manter o olhar. Por alguns segundos, desejou que ele pudesse ler seus pensamentos. Que ele pudesse entender seus medos e dizer que tudo ficaria bem. Que ele pudesse ser claro e dizer o que tinha planejado pra hoje. Que ele pudesse ficar ali com ele para sempre.

Mas não fazia sentido. O moreno iria querer coisas que ele não estava preparado... Coisas que pessoas achavam comum e não viam problema, mas que pra ele eram muito mais complexas e cheias de significado... Ele esperava um dia fazer tudo isso, e ficaria feliz se fosse com o garoto que o olhava nesse momento de forma tão carinhosa. Mas ainda não estava pronto...

—Você sabe que a gente não precisa fazer nada, se você não quiser, não sabe? — O tom de voz do rapaz menor não era nem condescendente nem pedagógico. Parecia na verdade reconfortante.

Mas antes que pudesse pensar numa resposta, pensou em como ele poderia saber que era nisso que estava pensando.

Ainda estava meio encolhido, e provavelmente se encolhera ainda mais nos últimos segundos. Isso provavelmente já era sugestivo o suficiente. Com o fato de que ele estava meio inconscientemente se afastando e indo cada vez mais para a ponta do sofá, provavelmente não havia mais o que duvidar. Qualquer um que visse aquela cena poderia perceber que ele tem medo de ter contato demais com alguém.

Odiava como os outro podiam dizer tanto sobre ele, enquanto ele mesmo não conseguia nem saber se os outros estavam realmente felizes, ou se só estavam fingindo pra não chateá-lo.

Mas o moreno não parecia fingir. Ele parecia se importar e querer estar junto, de verdade. Não entendia o motivo, mas ele de fato parecia feliz ali.

E vê-lo feliz o enchia de felicidade. Queria poder garantir que ele estivesse sempre assim, sempre bem, sempre feliz.

E sempre ao seu lado.

—Eu sei. — Disse, quase sem voz. Não sabia há dez segundos, mas agora parecia óbvio demais pra contestar. — Eu só queria que você soubesse... que... — era uma ideia difícil até de se contemplar, imagine colocar em palavras. Vasculhou seu cérebro tentando achar como falar, mas desistiu depois de alguns segundos em silêncio. Suspirou, decepcionado, e respondeu. — É complicado.

—Eu entendo, eu sei que...

—Não, você não entende. — Como ele poderia? Ele mesmo não entendia direito, e não conseguia falar, como o outro entenderia por ele? Sentiu a raiva começar a queimar dentro dele. Era frustrante isso. Queria resolver tudo. Não sabia como resolver nada. Olhou para o garoto moreno. Com mais raiva, percebeu seu olho lacrimejando. Mas pior do que isso era ver a cara dele. Ele parecia chateado.

Percebeu o quão rude foi. Ele só estava tentando conversar. Só queria estar ao seu lado, e recebeu uma resposta grosseira por isso. Devia consertar essa situação.

—Eu entendo que você quer entender. — E seu jeito de consertar as coisas, obviamente, só deixava tudo mais confuso. Suspirou novamente, olhando fixamente para um ponto imaginário para evitar que a lágrima que se formava escorresse.

Pensou no que dizer, mas se achava num beco sem saída. Não conseguiria andar mais naquele assunto. Se quisesse falar, precisava de um novo tópico. Mudou a abordagem, então.

—Eu não quero que você ache que eu não quero nada. — Não sabia bem de onde aquelas palavras vieram, mas soube que eram verdadeiras assim que as disse. — Eu quero, eu só... — E essa era a parte em que o final da frase deixava de existir. Qual era o problema dele?

Abaixou o rosto e fechou os olhos. Sentiu a lágrima não-convidada escorrer por seu rosto. Respirou fundo, se acalmando. Após alguns segundos, tentou novamente, ainda com o rosto abaixado.

—Eu só queria que...

Sua voz quebrou antes que pudesse dizer mais alguma coisa, e não conseguiu pensar mais em nada. "Beco sem saída" não começava a descrever sua mente. Não conseguia pensar. Qualquer raciocínio que tentava fazer não levava a lugar nenhum. Tudo estava escuro, tudo estava fora de seu alcance. "Deu um branco", poderia dizer, mas não tinha nada claro ali, era tudo escuro.

Não tinha certeza se passou ali um ouvinte segundos.

—Está tudo bem. — Disse a voz gentil. Uma mão morna pousou no seu ombro esquerdo. Não queria olhar para ele agora. Estava ali, sendo patético, e alguém assim não era digno de olhar nos olhos daquele garoto de olhos castanhos. — Sério, não se preocupe. Quando você quiser conversar, eu estarei aqui. Não precisa se apressar antes disso.

Sem pensar duas vezes, olhou para cima. O par de olhos castanhos estavam fixados nele, carinhosamente. O cabelo negro caia longamente ao lado do rosto pálido, dando algum destaque pra boca dele, que se torcia em um ligeiro sorriso. Não havia reparado antes em como a boca dele era bonita, em como seu contorno se juntava com sua pele, em como o vermelho vivo de seus lábios eram diferentes do branco pálido de sua pele... Ou será que já tinha visto tudo isso antes?

Percebeu que deveria fazer agora, antes que pudesse pensar duas vezes.

Ergueu seu braço direito e colocou sua mão no rosto dele. Sentia a pele macia sob seus dedos, queria acariciá-la, mas não tinha tempo. Se se desviasse, tudo daria errado. Inclinou seu corpo para frente. Meio sem saber o que fazer com o braço esquerdo, colocou-o na cintura do outro rapaz. Aproximou-se. Seus rostos estavam próximos. Podia ver cada cílio dos olhos dele com perfeição. Aproximou-se ainda mais. Encostou a ponta de seu nariz no nariz dele.

Fechou os olhos.

Inclinou o rosto. Não sabia muito bem como ou por que, mas sua boca encontrou os lábios do moreno, que cederam sem dificuldade.

Naquele momento, tudo o que podia sentir era a alegria de estar com ele, a leveza do ato, a sensação quente em seu peito, a vontade de puxar o garoto pra mais perto com seu braço esquerdo, a autorrealização de conseguir fazer tudo isso, a vergonha por estar fazendo isso...

Mas sobretudo, felicidade.

Quando se separaram, olhou novamente nos olhos dele e imediatamente abaixou o rosto, rindo.

Parecia algum tipo de esteriótipo que não podia ser levado a sério.

Mas não se importava no momento, tudo estava bem.

Estava, não estava? Decidiu que precisava falar alguma coisa.

—Eu não sei se... você... está tudo bem?

Olhou rapidamente para cima, e percebeu que o moreno estava sorrindo. Via no rosto dele a mesma felicidade que sentia dentro de si.

—Tudo ótimo, e você? Está tudo bem?

Fez que sim com a cabeça, sentindo vergonha novamente. Abaixou o rosto.

Não sabia porque sentia tudo aquilo de novo. Meses e meses atrás, naquele banco na praça... E há menos de uma semana, na Starbucks... Nada disso era novidade, porque ele se sentia desse jeito?

—Já assistiu Avatar?

Perdeu-se com a mudança de assunto. Olhou intrigado para o garoto tão lindo que estava na sua frente. Sentiu um lapso de vergonha novamente ao olhar nos seus olhos, mas a curiosidade era maior.

—O filme? — Disse, sem conseguir uma resposta melhor.

—Não o desenho. Dos dobradores de elementos e tal?

—Ah, não. — Vasculhou sua cabeça em busca de algo, não queria parecer ignorante. Percebeu que ainda sorria, tentou fazer uma expressão séria. — É o daquele garoto com a flecha na cabeça?

—É, sim. Quer assistir?

Não queria. Dez episódios depois, ficou feliz de não ter falado a verdade.

—Achei que seria algo meio infantil, mas cara, isso é bom!

—Sim, sabia que você ia gostar. Quer mais coca?

—Pode ser.

O moreno então pegou os dois copos que estavam à sua frente no chão e levantou-se. Sorriu para o garoto e virou-se em direção à cozinha.

O longo cabelo negro caindo pelas costas era realmente lindo, mas vê-lo andar de costas naquela calça...

Desviou o olhar, meio assustado, meio envergonhado. Não era certo ficar olhando para as pessoas assim, mesmo depois daquele beijo, certo? Era feio fazer isso, certo? Nada havia mudado, ou pelo menos, não tanto, certo?

Pensar isso o fez ter a sensação de que esse era um modo muito infantil de encarar as coisas. Será que ele realmente era infantil? E se ele fosse assim em outras coisas também?

Olhou para a televisão, onde já estava o nome do próximo episódio, "The Great Divide". Esse era, afinal, um bom desenho, mas ainda assim era um desenho. "Sabia que você ia gostar", ele disse antes de ir. Será que ele disse isso por achar que ele parecia com uma criança?

Crianças não ficavam juntas. Não eram um casal. Ou pelo menos, não na mesma ideia de um adulto. Talvez segurariam as mãos... Até onde podia dizer, ele próprio não se diferenciava muito disso. Não é como se ele fizesse muita cosia além disso, certo?

Queria ficar junto com o moreno. Queria que fossem um casal. Não sabia se podia se considerar assim. Será que eles estavam apenas ficando? O que o outro diria sobre isso? Como ele se definiriam?

E se na verdade nada disso fosse sério? Se nada disso fosse pra valer?

Ele queria que fosse pra valer. Queria que fosse para sempre. O que, obviamente, é utopia. Quem pensa assim hoje em dia? Isso não existe mais. Ninguém é assim. Nada é pra sempre. Por que isso seria? E o garoto menor certamente tinha ciência disso. Será que ele encarava tudo aquilo como um grande experimento?

Ele era lindo, podia ficar com quem quisesse. Seja garota ou garoto. Até mesmo aquele garoto do nariz esquisito, afinal. Por que alguém que poderia ficar com aquele garoto — que era, droga, incrivelmente bonito, por mais odiável que esse fato fosse — escolheria ficar com ele, que mal fazia outras coisas além de segurar a mão?

Não fazia sentido. O moreno certamente iria querer fazer outras coisas, além de segurar a mão. Ele nunca fora além. Não tinha muita certeza de como agir. Não achava que estava pronto pra isso.

Será que pessoas normais se sentiam "prontas" para isso? Provavelmente elas nem pensavam sobre o assunto. Quer dizer, elas falavam sobre o assunto o tempo todo, era irritante, então provavelmente estavam sempre prontas. Só alguém com muito problema se questionaria sobre isso.

Ele, definitivamente tinha muito problema.

E por que alguém tão incrível escolheria ficar com ele? Não fazia sentido. Devia ser mentira. Devia ser algum tipo de pegadinha. Como naqueles filmes americanos. E se daqui a algum tempo ele dissesse que nada foi de verdade, e o humilhasse na frente dos outros?

Não que precisasse muito pra humilhá-lo... Ele sentia vergonha de si o tempo todo. Queria frequentemente poder sumir, se camuflar na parede, que ninguém notasse que ele estava ali. Imaginar duas ou três pessoas rindo dele era o suficiente pra fazer seu estômago pesar e sua boca secar. Não estava certo. Não podia ser isso. O moreno afinal gostava dele, não? Ele havia sido paciente, e carinhoso, e fazia companhia, e o chamou pra ir até ali, mesmo depois de meses sem se falarem.

Mas a imagem mental que ele tinha não era de duas ou três pessoas rindo dele. Era do garoto de nariz estranho. Ele ria de cima, com aquela expressão de quem realmente não se importava. Era alguém que estava em outro nível, não pisava no mesmo chão que ele, não se importava com as mesmas coisas que ele. A vida dele era muito mais simples. Ele não se questionava a cada segundo sobre tudo o que fazia. Ele apenas sabia que estava certo o tempo todo, e todo o resto era desnecessário. O mundo e as pessoas ao redor dele eram desnecessárias. Ele próprio era desnecessário e não alterava em nada a vida desse garoto de nariz esquisito.

Na verdade, ele provavelmente nem sabia da existência dele. Eles se encontraram e foram apresentados no shopping aquela vez... Mas não havia motivo pro garoto sequer ter prestado atenção em seu nome naquele dia.

Como alguém que nem sabe da sua existência pode incomodar tanto?

Ele, definitivamente, tinha muitos problemas.

E não era certo que alguém como o garoto moreno, que pudesse ter qualquer um, o escolhesse. Não podia ser. Não era. Jamais seria, não importasse o quanto quisesse. Não fazia sentido. Não era pra ser.

Ou talvez estivesse pensando demais. Talvez tudo estivesse bem. Talvez o garoto menor realmente gostasse dele, e fosse paciente, e não quisesse nada por enquanto, mas também acreditasse em "para sempre".

Mais quais as chances de ser assim? Nunca realmente encontrara ninguém que pensasse como ele, nunca estava a vontade sobre essas coisas, nunca pudera participar de conversas sobre relacionamentos... Sempre estava à margem, nunca se sentia parte do grupo.

Por que agora seria diferente?

Ouviu passos vindo pelo corredor, ele estava voltando. Será que ele próprio agora estava parecendo normal? Ou o outro olharia pra ele e saberia que havia algo errado? As pessoas costumavam fazer isso. Talvez todo mundo conseguisse entender e perceber esse tipo de coisa, só ele que não. Nunca conseguia compreender o que estava acontecendo quando achava que algo estava errado. Entre seus amigos, de vez em quando o tom da conversa mudava, e o clima parecia diferente, mas o assunto parecia o mesmo. De onde vinham essas mudanças? Por que as pessoas faziam isso?

Por que ele tinha que ter tantos problemas?

Quando o moreno apareceu no corredor, sentiu seu coração batendo. Era uma sensação esquisita. Queria abraçá-lo e nunca mais soltar, ao mesmo tempo que achava que deveria fugir e nunca mais voltar.

E então ele sorriu.

Vê-lo sorrir enquanto vinha em sua direção teve um efeito morno dentro de si. Como se a expressão "pôr um pano quente" fosse literal. Toda a paranoia que teve há dez segundos não fazia mais sentido. Por que pensar tudo aquilo? Ele estava ali, tudo estava bem.

Uma leveza o enchia agora onde antes sentia um peso absurdo. Uma disposição explodiu dentro de si. Quis fazer algo, mostrar que estava tudo bem. Tinha que fazer algo. Precisava fazer algo.

Viu-o chegar perto e segurou os dois copos de coca para que ele pudesse se sentar. Colocou então os dois copos no chão, e virou-se para o garoto.

Não devia pensar. Não podia pensar. Só deveria fazer.

Inclinou-se em direção a ele, enquanto esticava seus braços. Queria alcançá-lo, queria tocá-lo, queria estar com ele. Sua mão direita passou pela lateral do rosto dele, indo parar em sua nuca, por baixo de todo aquele cabelo. Sua mão esquerda encontrou suas costas, na metade de suas costelas. Ele já havia feito isso hoje, podia fazer novamente.

Aproximou o seu rosto do dele. Achou ter visto um lapso de confusão nos olhos dele, mas agora seu olhar parecia calmo. Um olhar seguro, onde poderia encontrar paz. Onde tinha a certeza de que tudo estava bem. Tudo realmente estava bem.

Estava, não estava?

Travou, a dois centímetros de distância.

O que estava fazendo? Como poderia fazer aquilo? Nem havia perguntado se poderia. E se o outro não quisesse agora? E se só talvez não? Às vezes, nem sempre, acontecia de não ser. Podia ser que não fosse. Às vezes nem era, ou era de outra forma que não sabia como. Se só pudesse não ser e ficar bem assim, ou então se anda fosse como era... Mas nada nunca realmente era, não era, não, não.

Não fazia sentido. O que raios estava pensando? Não estava pensando em nada, nada em sua cabeça faria sentido. Devia ignorar tudo isso, apenas continuar o que fazia, se concentrar. Fizera aquilo antes, queria fazer de novo. Qual era a dificuldade nisso?

O olhar calmo continuava em sua frente, inabalado, impassível. Frio? De saco cheio? Não entendia mais aquele olhar. Sentia-se como se estivesse sendo julgado. E, obviamente, fora condenado.

Desencostou suas mãos dele, sem mover os braços. Não podia fazer movimentos súbitos. Não queria parecer ainda mais ridículo do que já estava.

Mas quão ridículo era permanecer com os braços ali? Estava mais uma vez deixando tudo tão pior. E aqueles olhos frios continuavam a julgá-lo, impassivelmente. Impiedosamente. Desviou o olhar, abaixou o rosto. Não conseguia encará-lo.

Tinha que ir embora. Já estava sendo patético demais. Mas não tinha como sair dali agora. Tudo ficaria ainda pior se ele se fosse. Mas também não queria erguer o rosto. Não queria que o outro o visse.

Fechou os olhos. Queria se esconder, ficar invisível, desaparecer. Seus braços estavam agora em posições esquisitas, tremendo um pouco. Nada estava certo, e tudo estava ainda pior do que há alguns momentos.

E então uma mão morna pousou em seu ombro.

—Ei.

Percebeu que ele havia novamente se encolhido ao toque. Sentia alguns de seus músculos tremendo. Estava cansado. Queria que tudo acabasse logo.

—Está tudo bem?

Ao ouvir aquela pergunta, imediatamente uma lágrima quente desceu pelo seu rosto. Odiava aquilo, toda vez, profundamente.

Tentou enxugá-la, fingindo que estava apenas coçando o nariz.

—Está, sim. — Sua voz, obviamente, falhou. Pigarreou. — Eu só quis...

Não soube como terminar a frase, deixou ela suspensa no ar, soando absurda.

A mão no seu ombro o acariciou. Ergueu o rosto e viu aquele par de olhos castanhos o encarando, tranquilamente.

—Está tudo bem. — Disse o moreno, com um sorriso calmo no rosto. — Você não precisa se apressar, mesmo. Eu te espero.

Sentiu um músculo do braço tremer, e percebeu que estava com os braços no colo, mesmo sem saber quando isso aconteceu.

—Eu sei. — Respondeu, e sua voz saiu muito baixa. Mas achou que não precisava repetir. — Eu só queria que você soubesse que...

Outra frase que não conseguia terminar. Estava cansado, e sentia-se frustrado com tudo.

Olhou novamente para o garoto. Queria alguma ajuda, mas não sabia o que pedir.

—Tem alguma coisa que eu posso fazer? — Perguntou o garoto. Às vezes ele se perguntava se ele realmente era tão ruim em esconder o que pensava. Sua cara deveria ser de vidro, porque aparentemente qualquer um conseguia saber o que ele estava pensando. Mas se fosse tão fácil, por que ele se sentia como se ninguém o entendesse?

—Não, está tudo bem. — Afinal, não queria que ele ficasse preocupado.

Mas talvez... Se o outro não fosse ficar preocupado... Havia uma forma de ajudar sem atrapalhar o garoto...

—Na verdade... — Agora que começou a falar, se arrependeu. Não tinha coragem para pedir. Seria melhor ficar em silêncio e não incomodar ninguém. Quando estava quieto, tudo ficava bem.

A mão morna saiu de seu ombro e por uma fração de segundo ele pensou em pedir pra ele voltar. Mas antes de qualquer outra coisa, o moreno pegou suas duas mãos. Surpreso, olhou para ele. Havia um ligeiro sorriso em seu rosto, e sua expressão parecia acolhedora.

—Você pode pedir o que quiser. Mesmo. Estou aqui com você e não vou embora.

—Mesmo porque essa é sua casa. — Respondeu, sem pensar. Era uma brincadeira, e se arrependeu dela na mesma hora. Não queria que ele pensasse que estava menosprezando sua oferta, e era isso que sua piada fazia parecer. Incrível como toda vez que abria a boca tudo ficava pior.

E então o garoto menor deu uma curta risada.

—É, isso ajuda também.

Por uns três segundos, se encararam em silêncio, suas mãos ainda juntas. Percebeu que estava tremendo. Mas naquele momento, sua apreensão sumiu, e um sorriso veio sem que ele pudesse se contar.

Sentiu-se feliz.

Lembrou do que iria pedir e... Por que alguém teria problema em pedir isso? Tudo estava bem, ele estava seguro ali.

—Eu queria... — E pronto, a coragem o abandonara novamente. Por que era tão difícil terminar a frase? Era um pedido simples. Concentrou-se. Dessa vez iria conseguir. Fechou os olhos. Juntou alguma coragem dentro de si. Quando sentiu que conseguiria dizer, o fez sem pensar de novo. — Queria um abraço.

Sua voz saiu ridiculamente fraca, deixando um ar ainda mais ridículo àquela cena toda. Era algo absurdo. Um pedido infantil. Uma situação constrangedora. Percebeu que havia se encolhido, e sentia seus ombros novamente tremendo. Odiava isso. Não queria parecer tão frágil. Muito menos por algo tão ridículo.

Por que ele tinha que pedir isso? Não podia só continuar vendo televisão em silêncio? Não passaria vergonha. O que o outro pensaria depois de toda essa cena por algo tão insignificante?

E então as mãos mornas que envolviam suas próprias mãos o abandonaram. Sentiu-se sozinho naquele mundo escuro. A velha sensação de que não pertencia a nenhum lugar, sua velha amiga das longas horas que passava sozinho, estava ali novamente com ele. Sentia um frio que não era físico. Sentia-se alheio ao mundo ao seu redor. Fechava os olhos com força, tentando ignorar tudo isso, mas quanto mais escuro tudo ficava, mais sozinho se sentia.

Encolheu-se ao sentir dois braços abraçando-lhe. Os braços, assim como as mãos, estavam mornos. Envolveram-no completamente, puxando-o para perto do tronco do moreno. Notou que não era apenas seus ombros que tremiam agora. Havia algo errado. Tudo estava muito esquisito. Queria aproveitar o abraço, mas não podia...

Uma das mãos que estavam nas suas costas subiu até sua cabeça e, após um ou dois afagos, a conduziu mais para perto do outro. Por fim relaxou o pescoço e deixou que sua cabeça descansasse no ombro do moreno.

Como se alguma trava tivesse sido liberada, tomou total consciência de si. Sentiu que estava no controle novamente. Podia fazer naquele momento o que quisesse.

Relaxou o corpo. Deixou-se apoiar próximo ao rapaz que o abraçava. Deixou-se verdadeiramente ser envolvido naquele abraço.

Algum tempo depois, percebeu que tudo estava em silêncio. Não havia nenhum pensamento. Nenhuma dúvida, nenhuma incerteza. Tudo estava quieto. Tudo estava em paz. Sentia dentro de si algo... Algo que não conseguia perceber muito bem. Não conseguia identificar. Algo que nem havia percebido que estava sentindo. Quando uma lágrima morna desceu por seu rosto, entendeu o que estava sentindo.

Sentia-se em casa.

Notas finais
E é isto aí. Nos planos originais, o capítulo iria um pouquinho além, mas esse último momento é o tipo de memória que esse garoto vai guardar pra sempre, então acho justo que ela sirva como final. Não final da história, contudo, ainda tem mais uns três capítulos previstos, pelo menos. Então até o próximo! o/