Notas iniciais
Bom dia e boa leitura.

Você só vive uma vez, é sua obrigação aproveitar a vida da melhor forma possível.” É geralmente, algo que não costumo ouvir, as pessoas não encorajam mais as outras, digo isso porque é o que exatamente o que estou tentando fazer agora, prazer sou Bruno, 25 anos, advogado e concorrente do meu caro colega ao lado para uma vaga almejada pelos sessenta e tantos candidatos comigo.

Estávamos num auditório há alguns minutos, estudávamos um caso curioso até, porém, antes de começarmos a respondê-lo a supervisora pigarreou avisando algo que até então eu ainda não tinha visto em um processo seletivo.

Encoraja ao colega do seu lado a conseguir essa vaga, não sejam esnobes o cargo vai para qualquer um de vocês.” Aquilo me fez lembrar de algo comum, vivemos numa sociedade em que devemos nos manter sempre com a autoestima elevada sem necessidade de receber elogios, entretanto, estamos acostumados a esperar por eles e se superestimar a cada um recebido, se fazemos algo certo, nossa obrigação, como diria meu pai, todavia, porque justamente numa seleção devemos ajudar na autoestima a pessoa ao lado, nosso concorrente.

— Conrado, prazer em conhecê-lo. Disse o rapaz, cabelos pretos, olhos castanhos escuro, pele branca, claramente descendente de orientais, pelo tamanho e a largura dos olhos, dava um sorriso tímido com a mão posta para a minha.

— Prazer, Bruno. Respondi de forma educada com um aperto de mão firme e depois me virei para frente do papel com o caso, cruzei os braços sobre o peito e respirei fundo pensando no que lhe diria enquanto ele olhou para o seu e depois para mim, talvez, também não soubesse como encorajar também.

— Podemos apenas fingir que fizemos isso e começarmos o caso, não acho que faria a menor diferença, não entendo nada de direito criminal. Conrado comentou com os braços sobre a mesa mexendo a caneta com a mão direita enquanto a esquerda era apoio para seu rosto emburrado.

Suspirei irritado, primeiro eu tenho que elogiar e agora ouvir isso, vitimização, conformismo, superestima, eram defeitos que me tiravam do sério, gostava da neutralidade, de não precisar se expor, olhei ao redor, ninguém falava nada, alguns até sorriam e davam tapinhas nos ombros do colega e vice-versa, mas, ouvir alguém encorajar, não, se fosse alguém que conhecia tudo bem, seria bem mais fácil, mas, os poucos conhecidos que tinha não estavam aqui, talvez, em outra sala.

— Detesto pessoas que se fazem de vítima, seu currículo foi analisado igual ao meu então é apto para a seleção. Respondi irritado e comecei a ler, não prestei atenção se ele gostou ou não.

— Obrigado. Conrado respondeu e continuou a olhar para o papel sublinhando algumas palavras chaves.

Ótimo eu não consegui e ainda menosprezei, muito bem Bruno.” Me recriminei chateado por sua resposta naquele tom seco, num é a toa que sempre fazia trabalhos só, temperamental demais, estressado demais, idiota, sem noção, e agora quem estava se menosprezando.

— Me desculpe, não sou dos mais pacientes. Pedi baixo ouvindo ele murmurar então voltei ao teste.

— Normal, não é uma profissão para fracos, dessa vez não é me rebaixando, é uma constatação. Conrado respondeu e deu um tapinha em meu ombro, podia jurar que ele notou meu embaraço depois por não ter encorajado da forma correta.

Quando você está cercado pela perfeição aprende a apreciar a beleza dos defeitos.” Meu pai sempre reclamou disso, talvez, fosse porque na sua profissão ou era meticulosamente correto ou seu revólver podia atingir em um ponto vital do delinquente e matá-lo, apesar de não ser um militante do garantismo, o estudo relacionado ao direito penal mais econômico, porém com eficácia na ressocialização dos presos, era um homem bem integro quanto suas atitudes.

— Que bom, assim não enfio minha caneta em sua carótida, agora relaxe e analise bem o caso, estudamos cinco anos e passamos naquele exame dos “diabos” por alguma razão. Respondi sério, então ele voltou ao caso depois de rir baixo e eu voltei ao que precisava responder, faltava menos de trinta minutos, não sei se aquilo era uma ameaça ou um incentivo, no mais, consideraria mais um “cai na real colega”.

O tempo ia se acabando e agora analisando novamente antes de entregar notei que faltava algo. Certo, está bem claro as atenuantes, e também não tem agravantes, os casos de diminuição e aumento da pena não existem, mas, não o mais importante ali esta a maldita prescrição. Cocei a barba grossa castanha enquanto batia os dedos nervoso sobre a mesa, não podia ter esquecido isso, mudaria todo a resposta.

— Caralho! A prescrição, não aprendo mesmo, nunca vou me perdoar depois dessa, a única parte do código que não dou importância e que resolveu cair logo nessa questão. Disse irritado, as mesas estavam terminando e a sala começava a ficar mais vazia, lá da frente a supervisora olhava atenta a todos que saiam, podia ouvir risos baixos e conversas paralelas sobre saírem para comer algo, algumas amizades podiam surgir nos momentos mais complicados, olhei para Conrado, percebendo um detalhe, ainda não tinha encorajado da forma certa, nem ele fez, pelo jeito ia fingir que tínhamos feito isso e entregar a sua resposta.

— Falta dez minutos rapazes, se estiver tudo respondido, podemos parar agora. A supervisora avisou ao parar ao lado de Conrado, neguei e voltei a reler o caso.

— A senhora pode trazer água para nós? Conrado pediu de forma educada para ela, a mulher concordou e foi até a frente da sala para pegar.

Idiota sabichão, sabia o tempo todo e se fazendo de coitadinho, sou mesmo um otário.” Praguejei, já estava angustiado com aquilo, tirei o chaveiro do filme irmão urso e apertei, meu filho tinha me dado para dar sorte antes de deixá-lo na creche, respirei fundo, enquanto segurava a raiva por ter sido novamente ingênuo, pensei tanto em como encorajar, nem isso tinha conseguido se não teria recebido o mesmo ou ao menos teria respondido a questão da forma certa.

— Quando eu tinha vinte um, fui para a faculdade irritado, passei a noite no energético estudando para a prova, já que, no fim de semana anterior estava na segunda fase do exame da ordem, aquela era a segunda chamada da avaliação final e se eu não passasse nela perderia o prazo para pegar minha carteira, já que, a cadeira de elaboração fiz junto com a cadeira do projeto e caso reprovasse ela teria que fazer novamente, aquele drama do quase formado… Conrado começou a contar sem se importar se eu estava ouvindo, os braços cruzados atrás da cabeça relaxado com as pernas para frente e as costas apoiadas na parte de trás da cadeira, não entendia o que ele queria dizer, então resmunguei e voltei para o teste.

— Bem, durante o caminho no carro minha vista escureceu algumas vezes, senti meu peito doer e as mãos tremerem, relevei, achava que era a ansiedade e o efeito do energético, estacionei e fui até o nosso departamento saber qual era a sala onde faria a prova e comecei a subir as rampas estranhando arfar e a dor continuar, resumindo, tive um infarto aos vinte e um anos, não fumo nem a metade do que fazia antes ou bebo, porém, consigo viver há seis anos sóbrio. Continuou seu relato agora em voz baixa e sorriu finalizando seu incentivo.

— Cacete prescrição retroativa! Menor de vinte um cai pela metade. Gritei ao lembrar dessa parte e apaguei a resposta anterior de oito anos, joguei a caneta na mesa e sequei meu rosto suado, finalmente tinha entendido a lorota toda.

Conrado apenas colocou a mão em meu ombro e deu uma piscada de olho, se levantou com o seu caso respondido e me esperou para entregarmos.

Infelizmente nenhum de nós conseguiu o cargo, porém, aquilo nos aproximou ao ponto de começarmos uma sociedade, Yuri meu filho e Lucas o dele, ambos com seis anos tornaram-se ótimos amigos, agora as minhas viagens para o doutorado não eram tão angustiantes, já que, Conrado conseguia aguentar aqueles dois, estou aprendendo a ser mais bem-humorado com Paula, minha estagiária “otaku” com seus cabelos coloridos e lentes de contato com cores diferentes e melhor tudo, além de um amigo, sócio, babá, também aprendi que a prescrição sempre cai a metade pela idade do agente em casos que não é reincidente.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!