Incógnita
2 1. Ava Autremont
Notas iniciais
O sol já estava em seu ápice no céu quando eu abri os olhos. Eu me encontrava estranhamente deitada em um descampado, e eu só tinha a companhia de algumas árvores. O lugar era sinistro. Então eu pensei em como eu tinha parado ali e desmaiado.
Não me lembrava.
Eu tentei descobrir qual a última coisa que eu sabia que tinha acontecido, mas a parte do meu cérebro que contem as lembranças estava desligada. Era como se eu nunca tivesse vivido. Apenas um monte de nada.
Eu fiquei em pé e analisei o meu estado: roupas sujas, cabelo emaranhado, alguns hematomas nos braços e dores espalhadas pelo corpo. Aqueles machucados me trouxeram alguns flashes de uma garota gritando e da vontade de fugir. Naquele momento eu senti que corria perigo. E precisaria de coragem para enfrentar isso.
Mas eu sou apenas uma garota, e mesmo tendo coragem, é difícil não sentir medo. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, e eu a deixei ali.
Provavelmente, as pessoas que me machucaram foram as mesmas que apagaram a minha memória, isto significava que para ficar em segurança eu precisaria da minha memória de volta. O problema é que eu não sei onde recuperar as lembranças, nem em quem confiar para me ajudar. Olhei ao redor esperando encontrar uma família, um amigo. Ninguém apareceu. Tentei gritar. Tentei pedir socorro. Mas não havia ninguém para escutar. Só as árvores, os arbustos e os animais que se escondiam de mim.
Agora era apenas eu e eu mesma.
Comecei a caminhar e encontrei uma estrada. Mais além, luzes brilhavam durante o fim do crepúsculo no que deveria ser uma cidade.
Muitas pessoas caminhavam nas calçadas, era já o horário de sair dos trabalhos. Claro que eu precisei me limpar um pouco e arrumar a bagunça dos meus cabelos negros para não assustar ninguém. Alguns rostos pareciam felizes, outro nem tanto, mas mantive a cabeça baixa, evitando os contatos visuais.
Na minha cabeça um turbilhão de perguntas sem respostas: Quem eu era? Onde eu vivo? Quem fez isso comigo? ; E a mais importante: Por quê?
Por que alguém me machucaria?
Eu precisava descobrir, entretanto eu não sabia em quem confiar. Eu queria saber se eu tinha feito algo errado e alguém tentara se vingar, ou se eu tinha sofrido algum tipo de abuso, mas para quem pedir ajuda?!
E no meio de um monte de pessoas eu me senti só e perdida. Sem o apoio de ninguém.
Respirei fundo e caminhei mais rapidamente. Eu tinha que sair dali e arrumar um lugar só para mim. Cogitei em voltar para o descampado, mas as pessoas que me deixaram lá poderiam voltar para me procurar, e eu ainda não era capaz de enfrenta-los.
Só me restava continuar a caminhar.
Um cheiro de cachorro-quente alcançou o meu nariz e imediatamente o meu estômago roncou. Mexi nos bolsos da minha calça e encontrei algumas moedas, e uma carteira de identidade. Era uma garota na foto e ela deveria ter cerca de 16 anos, ela tinha olhos verdes brilhantes e alegres, seus cabelos eram lindos negros que caiam em cacheados, a pele dela era bronzeada e seus lábios tinham forma de coração esticado para os lados muito bem definidos, e eram vermelhos, talvez por conta do gloss que ela usava.
Quando vi aquela foto esqueci a fome. Aquela menina não era mais eu. Eu sentia isso, mesmo sem saber quem eu era de verdade. Ver aquela foto fez lágrimas pesadas escaparem dos meus olhos, passei a mão no rosto para tirar o embaçado e involuntariamente olhei ao redor, para ter a certeza de que ninguém me encarava, ou que ninguém havia visto a minha fraqueza.
Olhei de novo para a identidade em minhas mãos. O nome da menina era Ava. Ava Autremont.
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