In the flesh
31 Café com um velho conhecido
Notas iniciais
Índia, mais um país para o qual não posso voltar. Mais um encontro com Moriarty, Klaus Moriarty, agora ele tem um nome. Nomes, são tão estranhos, muita vezes não gostamos do que temos, inventamos apelidos ou utilizamos o nosso segundo, para quem tem. Nome, isso que vai mudar para mim daqui alguns dias, ou melhor, sobrenome, serei também Carter. Willians, me pergunto se esse é realmente meu sobrenome, Faster não quis tirar quando me registrou, dizia que era bom manter alguma lembrança de meus pais, mas quem garante que o herdei de meus pais? Vallentina era de certeza, Victoria também recebeu esse nome, pra falar a verdade eu gosto bastante dele. Estranho essa reflexão não? Mas era tudo que conseguia pensar com a cabeça encostada na janela do avião de volta para casa.
Os dias que antecediam meu casamento passaram voando, pelo menos para mim, tanta coisa ase fazer, tantos preparativos para planejar. James me ajudava com o que podia, porém passou três semanas fazendo shows com a banda, até Jace ficou desesperado pela extensa ausência dele. As meninas, é claro, me apoiaram muito, afinal fomos demitidas assim que viajamos sem dar satisfações aos chefes. Nunca tivemos esse costume, era só pegar um avião que provavelmente Faster já saberia nossa localização. Faster, quer saber, eu sentia sua falta, ele era o mais próximo de uma figura masculina familiar que eu tinha. Foi o cara que me ensinou tudo que sei, e do jeito dele, foi quem me deu afeto durante esses anos. Acho que por tudo isso é tão doloroso saber que ele mentiu para mim e para as garotas. Quem sabe quais outros segredos ele guardou? Aquele meu jeito impulsivo falou mais alto naquela manhã de segunda feira, liguei para o cara que, bem ou mal, me criou:
—Alô?!
—Nicole? Minha nossa, eu não esperava sua ligação. — Sua voz tinha espanto, mas a cima de tudo parecia cansada, talvez até. Triste.
—Na verdade Faster, eu também não esperava te ligar, não depois do que aconteceu, do tapa que você deu na Lola, mas que acertou em cheio nós três.
—Eu — Ele engasgou. — Eu sinto muito. — Ele respondeu seguido de um longo suspiro como quem perde feio um jogo, mas não quer aceitar.
—Você pedindo desculpas? Achei quem passaria minha vida toda sem ouvir algo assim de você.
—Não abuse Willians! — A voz autoritária voltou. — Eu sei que fui muito rude com vocês. Fiquei muito nervoso, vocês trouxeram um passado muito ruim e doloroso a tona. Vocês devem ter muitas perguntas, eu sei, mas não acho que vão querer as respostas.
—Você mentiu, foi desleal. Esses são dois valores que você sempre nos ensinou ser de suma importância, sinceridade e lealdade. Nós estivemos mais uma vez com Moriaty, sabe… Em todos os encontros que tivemos, ele sempre pareceu encorajar que nós te interrogássemos. Ele gosta de brincar, especialmente conosco, mas por uma vez eu o vi perdendo sua face má. Ele muda ao ouvir o nome de Diana, assim como você.
—Talvez esse nome signifique mágoa para alguns. — Ele parecia ter um nó em sua garganta.
—Você não vai responder nenhuma de minhas perguntas não é? — Tentei.
—Não posso responder. — Ainda mais seco.
—Acho que você sabe, mas eu quero contar. Eu me caso em três dias.
—Isso é um convite? — Sua voz tinha esperança.
—Não posso responder! — Com raiva desliguei.
Fui até a cozinha, precisava de um copo d'água, o líquido descia pela minha garganta, assim como pequenas lágrimas insistentes desciam pelo meu rosto.
—Nick, você está bem. — Lola apareceu do nada.
—Que susto ruiva, eu estou bem sim. Só estava, digamos que engasgada.
—Por que eu tenho a leve impressão de que você aprontou algo? — Ela me olhava com desconfiança.
—Acho que porque você é paranoica. — Eu disse séria, mas depois soltei um riso e ela me acompanhou. — Agora sério, eu estou com muita fome, porém a vontade de cozinhar uma deliciosa refeição passa longe, bora pro Subway?
—Ok. Deixa que eu chamo o casal nerd. Jace está almoçando com o pai. — Ela foi para o corredor.
Durante a tarde Lola, Els e eu fomos até o ateliê para a última prova dos nossos vestidos, claro que as duas eram minhas madrinhas, Jace e Lola eram o casal de James, Lola concordou depois de muita insistência. E capitão CSI e madame Who ficaram para mim. Lola fez questão de que meu vestido fosse, pelo menos, um pouco sexy, já o vestido vermelho dela de “pouco” não tinha nada, nossa amada Eleanor e seu rendado vinho tinham um charme único.
Depois de toda aquela enrolação e da atendente nos elogiar por não passar do peso eu finalmente comprei o vestido. Depois disso voltamos para o apartamento, Lola foi para seu quarto, tinha que confirmar os últimos detalhes da minha despedida de solteira. Els se trancou em seu quarto, mesmo assim pude ouvi em alto e bom som o disco dos Beatles tocando. Quando finalmente fui para meu quarto me surpreendi, James estava sentado na cama, concentrado olhando o convite do nosso casamento:
—Não gostou de azul e prata? — Perguntei para tirá-lo do transe.
—Só estou imaginando o que vai mudar depois do “grande sim”. Já ouvi muitas vezes que casamentos estragam relacionamentos. — Ele sorriu preocupado.
—Você acha mesmo que uma cerimonia, vestidos e um grande bolo cheio de glacê são grandes obstáculos? — Ironizei, me sentei ao seu lado.
—Pra quem está morando junto com a noiva, desde que a melhor amiga dela enfiou uma adaga em sua perna, acho que o glacê vai ser moleza. — Agora tinha um pouco mais de humor, me beijou rapidamente.
—Acho que temos muito mais com que nos preocuparmos do que com a cerimonia. — O pensamento que veio em minha mente fez meu corpo se arrepiar.
—Eu sei o que você teme e eu já pensei nisso várias vezes. Mas pode ficar tranquila, teremos agentes da AMI por toda parte, além dos seus ex colegas de serviço que também foram avisador para irem armados. Fora os seguranças e o armamento escondido. — Ele foi enumerando tentando me animar.
—Quando eu era criança, eu não imaginava um casamento com armas escondidas, muito menos que minha cinta liga abrigaria uma. — Me concheguei em seu peito.
—Eu não imaginava ter que escolher um lugar afastado para despistar paparazzis, muito menos assassinos alemães. — Ele acariciou meu cabelo.
—Moriarty não vai estragar mais uma das minhas boas lembranças! — Levante-me de imediato, uma raiva tomou conta de mim, peguei um casaco e sai do quarto.
—Nick, onde você vai? — James pareceu nervoso.
—Garantir que, pelo menos, uma das minhas lembranças fique intacta.
Peguei o capacete da minha moto e dirigi depressa para longe do meu apartamento, eu não tinha um destino, só precisava estar longe deles. Estacionei pelos arredores do Hyde Park, um lugar movimentado era do que eu precisava. Fui para o café mais próximo que tinha perto do meu objetivo. Paguei 3 libras por um chococcino, seitei-me em uma das mesas externas, peguei meu telefone e digitei, um número do qual eu não estava certa, mas sei que ele atenderia. Porque outros motivos mandariam durante alguns dias fotos e esse número por e-mail. Só podia ser obra dele, o telefone chamou muitas vezes antes de finalmente alguém atender:
—Klaus?
—Você tem mais coragem do que imaginei leoa. — A voz sádica soou.
—Não sei porque me mandou seu contado, sei apenas o que me levou a te ligar, podemos chegar a um acordo por telefone ou você pode me encontrar.
—Sua determinação muito me agrada loira, eu poderia saber onde tão nobre garota se encontra. — Seu tom de voz era pretensioso.
—Estou no Hyde Park...
—Oh minha cara, nós dois sabemos que essa não é uma informação muito útil se você quer que eu te ache.
—Você está sempre interrompendo, sua arrogância não permite esperar não é mesmo? Dessa vez eu é quem mando o enigma. Ela foi amada por todo o país e reconhecida pelo mundo, porém o amor não a livrou de um túmulo. Por coincidência seu nome vai te fazer lembrar da mulher que um dia você dividiu e não deixou de amar, um café próximo a um memorial, você tem vinte minutos. — Desliguei o telefone, tinha certeza de que ele não demoraria.
Quando vi um homem de óculos escuros blaser preto e roupas de luto tinha certeza de que era ele, desacompanhado, pelo menos daquele ponto de vista. Tomei um gole da minha segunda bebida, ele se aproximou e sentou-se ao meu lado como se fossemos velhos conhecidos, a garçonete prontamente veio o atender, ele pediu conhaque. Assim que a moça se afastou ele retirou os óculos e me olhou nos olhos, não desviei como das outras vezes, eu tinha objetivos, ao contrário de Faster, ele tinha coragem de me enfrentar.
—Não me chamou aqui para um simples café não é Vallentina?
—Não, Klaus, mas porque não aproveita a chance de ter uma conversa de peito aberto com uma das filhas de Faster. — Disse irônica e ele gargalhou frio.
—Parece que seu chefe andou tá contando alguma coisa.
—Na verdade nós descobrimos, mas já faz algum tempo que vasculhamos o escritório de Faster encontramos vocês depois disso, mas a questão que me fez finalmente te enfrentar foi uma conversa que tive hoje de manhã e você matar minha charada assim tão rapidamente me confirma o que eu já suponha. Diana foi a mulher de sua vida e ade Faster também.
Ele rapidamente ingeriu a bebida que a moça havia deixado a alguns instantes, seus olhos agora possuíam um brilho, mas eu não identificava de qual sentimento.
—Andaram achando as cartas dos amantes desafortunados? Pois bem a menção a mim em alguma delas deve ser fato. Se é o que quer saber, sim eu amei Diana, amei com todas as minhas forças e eu sei que ela me amava, não importa o quanto tenham tentado me provar o contrário. — Agora o brilho era de puro ódio, ele apertava o copo como se fosse quebrá-lo.
—Você já amou Moriarty! É difícil para mim acreditar. Agora que você me confessou, quero te fazer o meu verdadeiro pedido o motivo de estarmos aqui. Eu amo James, você ameaçou várias vezes meu casamento. Vim aqui, sozinha e desarmada, como mulher a cima de tudo te pedir para ficar longe da minha festa. Por um dia eu te peço Klaus, pela sua Diana. — Minha voz embargou, me concentrei eu não podia chorar, não para ele.
—Sabe Vallentina você sempre me pareceu a mais frágil a mais fácil de contornar, mas foi a única que me enfrentou sozinha, mais de uma vez agora. Eu mentiria se dissesse que seu casamento não está em meus planos, não darei minha palavra de não comparecer. — Meu sangue borbulhava a cada palavra que ele emitia. —Porém as coisas podem ser bem mais pacíficas durante a cerimonia, se eu for convidado.
—Você é louco! — Me exaltei, os olhares se direcionaram a mim e então me contive. — Depois de tudo que você fez quer ser convidado, o próximo passo é pedir para me levar ao altar?
—Por que não? — Ele sorriu de um jeito psicótico.
—Se eu permitir que você entre, promete não estragar os votos? — Meu nervosismo e raiva tomaram controle.
—Você tem a minha palavra que nada acontecerá até o noivo beijar a noiva! — Ele respondeu frio estendendo a mão.
—Então pode esperar que o convite para Klaus Moriarty em seu e-mail, assim meu noivo nem ninguém saberá. — Apertei sua mão.
—Sabe Willians você é mais parecida comigo do que pensei, mas quer saber, isso faz todo sentido. — Ele deixou 50 libras na mesa e saiu andando como se nada tivesse acontecido.
Eu fiquei apenas ali o observando. Moriarty pode ser um psicopata, mas ele tem palavra, garanti ao menos que meu amor por James fosse sacramentado, sei que esse acordo é falho, melhor correr o risco do que a surpresa. Voltei para casa todos estavam reunidos na sala com expressões de grande preocupação:
—NICOLE VALLENTINA WILLIANS onde você estava?! — Lola gritou assim que me viu.
—Sai pra tomar um bom café, precisava esparecer.
—James nos convocou todo preocupado, disse que antes de você sair pareceu você ia cometer uma grande loucura. — Keith disse encarando meu noivo.
—Tomar café no Hyde Park não é tão louco assim.
Pelas caras de desentendidos que eles fizeram eu teria que aprimorar a minha esculpa, mas não vou mentir, foi apenas um café com um velho conhecido.
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