(In) quebrável
13 Capítulo 12
Notas iniciais

No lado de fora daquele consultório, a noite reinava imponente, apenas os postes de luz branca apaziguavam a escuridão naquela calma madrugada sem luar. Buscando o celular no bolso, Aizawa percebe que já era meia noite em ponto, Suzume de fato pegara o único horário que tinha disponível para si, precisava agradecê-la na próxima vez.
Não saberia dizer ao certo o que era, mas algo estava errado. O vento frio que assobiava em suas orelhas, não foi o bastante para abafar o som distante de um grito solitário. Ambos os heróis nem ao menos se entreolham antes de partir no mesmo instante em direção ao grito de pavor.
All Might, em sua forma heroica, é o primeiro a chegar e encontrar uma cena horrenda. Uma mulher com forma de harpia –Com asas cobertas de penas sob os braços, as pernas em forma de patas de ave, dentes excessivamente grandes e afiados e olhos amarelados. –atacando sem piedade a dentadas e unhadas um homem que parecia paralisado, completamente estático no chão enquanto tremia de medo da criatura a sua frente.
—Para, por favor! Socorro! –Ele tentava inutilmente se proteger com os braços sobre a cabeça.
—Não tema, cidadão. –Com o som de sua voz, finalmente a mulher estaca seu ataque, escarando apavorada a figura musculosa que a interrompera. –Eu estou aqui.
—All Might... Não há nenhum vilão aqui, pode se retirar. –A mulher sai de cima do homem e seus dentes voltam ao normal. Quando aquele que era atacado tenta se retirar dali, ela pisa sobre o tronco deste, impedindo-o de fugir.
—Como?
—Acabei de encontrar essezinho com outra mulher quando tinha me dito que estaria trabalhando.
—Ela é louca! Não faço ideia de quem seja, All Might! –Os dentes de mulher se afiam novamente e ela avança para mordê-lo novamente em puro ódio, mas o loiro se posta na frente do homem defendendo-se com o braço erguido, com um movimento ele tenta segurá-la, mas seus reflexos de harpia fazem com que consiga desviar, porém, ele consegue agarrar um de seus dentes afiados que fica em sua mão.
A mulher arregala os olhos e se afasta, cobrindo a boca com as mãos, como se pedisse desculpas ao mesmo tempo em que segura o local onde antes estava um de seus vários dentes afiados, não doera de fato, ainda mais naquele momento onde os nervos estavam a flor da pele. Mas logo sua fisionomia muda, um sorriso desponta no seu rosto.
—Nunca ouviu que em briga de marido e mulher não se coloca a colher, All Might? Não queria ter feito isso com você, mas já que correu pra frente das minhas presas não tenho o que fazer. –O loiro cerra as sobrancelhas, não entendia o que ela queria dizer, mas antes que pudesse perguntar algo sente um aperto no peito, tenta erguer o braço, caminhar até a mulher, mas nada em seu corpo o obedecia, sem que desejasse, sua mão se abre, soltando o dente afiado. –O efeito não demora muito para passar, não precisa se preocupar, enquanto isso eu vou ensinar uma lição pra esse filho da puta, okay? –Aquele homem estava certo, ela estava louca, completamente consumida pela raiva que corria em suas veias naquele momento.
O detentor do One for All tenta se mover, mas não adiantava. A harpia caminha a passos lentos até o homem assustado que tentava se arrastar para longe.
—Me desculpa meu amor... E-eu não tenho nada com ela, te juro! –A harpia gargalha alto.
—Agora você pede perdão? –Ela abre a boca para mordê-lo novamente, mas uma sensação ruim de imponência se alastra por todo seu corpo. O veneno que sente nas presas quando quer paralisar alguém, de repente desaparece. –O quê...?
Antes que pudesse perguntar algo, um soco na sua coluna, bem na base dos pulmões, a faz perder o ar e cair no chão, estava consciente, mas perdera completamente o ar. A harpia se encolhe no chão, olhando para cima, consegue ver um homem de olhos completamente vermelhos e brilhantes encarando-a fixamente.
—Acha engraçado torturar os mais fracos que você? –Aizawa pergunta sério, se abaixa para pegar algo que a mulher não percebe o que era, estava muito ocupada se sentindo apavorada diante aqueles olhos escarlates.
Toshinori percebe no mesmo instante, o moreno estava se vendo no lugar daquele assustado quando fora torturado por aqueles homens. Nunca antes vira Shouta perder a cabeça, mas nesse momento, aquele que deveria ser um herói, encarava a mulher como se fosse fazer algo pior que dar um sermão. Se estivesse em plena consciência, certamente Aizawa faria com que ela se acalmasse, daria vários sermões nos dois e os levaria a delegacia mais próxima, mas esse não era um momento lúcido, e isso assusta ao loiro que não sabia o que o amigo faria.
—N-não eu-...
—Não? Me parece que gosta. –Ele se agacha bem na frente dela, seus olhos rubros, sem nunca desviar dos seus amarelados. Logo ele mostra o que tinha pego: Seu dente afiado que caíra. Ela engole em seco. –Ele é bem afiado, não é? –Finalmente ele desvia o olhar, observando agora o homem caído que também o observava assustado enquanto segurava um ferimento profundo no braço. –Fez bastante estrago nele.
—Eraser! –All Might exclama, pelo menos seus músculos da garganta voltaram a funcionar normalmente. Sabia aonde o outro queria chegar e não podia permitir que isso acontecesse. Ele é ignorado.
—Eu sei aonde você quer chegar, me desculpa! Eu exagerei sei bem, mas já me acalmei... por favor. –A mulher esconde o rosto com os braços. Em seguida ouve o som de algo caindo ao chão e ergue o olhar para ver o que fora, logo percebe um par de braços erguidos para si, o moreno a encarava agora com um sorriso de canto e os olhos de volta ao seu negro rotineiro.
All Might suspira aliviado. Mas o outro homem range os dentes, voltando a se arrastar para longe.
—Você. –Aizawa pega novamente o dente afiado e o lança na direção daquele que fugia, o objeto perigoso finca firmemente no chão bem ao lado de sua cabeça. Ele grita novamente e arregala os olhos. –Chega de gritar, percebe o que você fez com essa mulher. –O moreno puxa o homem pela gola, fazendo-o encara-la. –Ninguém gosta de traição, nem eu. Pelo menos devia ter sido adulto o suficiente para arcar sozinho com seus problemas. Antes de ouvir qual era o problema de fato eu queria ajudar, mas depois, pensei em deixa-la continuar. Só que meus princípios não permitem que eu apenas observe algo assim. –Sua fala era atentamente ouvida por todos ali, o loiro o encarava admirado e questionador, nunca antes imaginou Aizawa falando tanto depois de um trabalho, sempre pensou que fosse do tipo que agia e pronto, e de fato ele é, mas aquela situação toda pediu por aquilo.
—Vocês não vão fazer eu ter que ir na delegacia junto, não é mesmo? Se não forem, eu vou saber. –Seus olhos novamente se tornam escarlates, apenas para assustá-los.
Os dois afirmam com a cabeça e desaparecem juntos pelas ruas desertas, apoiando-se um no outro para conseguir andar, indo em direção à delegacia mais próxima enquanto discutiam algo em sussurros.
—Consegue se levantar? –Aizawa questiona com o braço erguido na direção de All Might, que permanecia estático no chão. O loiro não tinha percebido que a partir do momento que o moreno ativara sua habilidade na mulher, o efeito de paralisia passara por completo em seu corpo, ficara tão absorto em seus próprios pensamentos enquanto observava e ouvia Shouta discursar que nem ao menos tentara se levantar.
Não conseguia deixar de encarar aquela expressão assustadora, seu rosto parcialmente escondido pelas sombras, tendo apenas seus olhos de um vermelho brilhante como destaque, além de sua voz imponente que apavoraria qualquer um que desconhece sua natureza de herói. O loiro sente uma sensação estranha no peito, e sem que pudesse contê-lo, um sorriso desabrocha em seus lábios, aquela era mais uma nova faceta que presenciava no moreno, como não era ele muito conhecedor de toda a vida e passado de Aizawa como muito provavelmente Present Mic era, cada mínima mudança em seu modo de agir é observada atentamente pelos vorazes olhos elétricos.
—Sim. –Ele aceita de bom grado a ajuda e se põe de pé. –Vamos pra casa.
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Mic acorda em um sobressalto, há muito não conseguia dormir apropriadamente, só o que conseguia era pregar os olhos por poucos minutos vez ou outra, para logo acordar de repente sem motivo algum. A sua frente, inúmeros papéis se amontoavam na mesa de centro, logo percebe o motivo para ter acordado, a caneca vazia que antes o entorpecia com grandes doses de café, caíra no chão, porém, por ser feita de um material grosso, não quebrara.
Ele coça os olhos, nunca antes se sentira tão acabado. Desde aquela revelação em uma manhã tranquila no apartamento de Aizawa, não conseguia dormir direito, antes ainda se perguntava o que sentia pelo moreno, mas agora, só o que conseguia era torcer para que estivesse bem, então, quando aquela sensação horrenda de que algo havia acontecido, irrompe por seu corpo uma segunda vez em um curto espaço de tempo, logo manda mensagens à All Might para saber se algo realmente tinha acontecido. E tinha.
Com essa notícia só o que quis fazer era socar a si próprio, ele esmurra repetidas vezes as almofadas de seu sofá enquanto lágrimas escorrem por seus olhos, seu melhor amigo sofrera algo e ele nem ao menos podia ir vê-lo. Porém, quando Toshinori diz o local para onde tinha o levado, percebe que queria se acertar com o outro loiro, se quisessem que aquela situação toda fizesse sentido, precisavam unir o que sabiam, e é isso o que eles fazem. Todavia, esse não foi o único motivo para Present Mic, que estava determinado em encontrar e ensinar uma lição a Ayato Watanabe, tem para ir àquele hospital. Aquele era um dos lugares mais suspeitos em sua lista para onde ele pode ter sido levado. All Might não o contara essa parte, mas se o encontrara estuprando Aizawa como diz que encontrou, certamente perdera as rédeas ao menos por um momento.
Após sua conversa com o dono dos olhos azuis, onde finalmente faz All Might deixar de suspeitar de si, caminha até a recepção, onde pergunta calmamente em qual quarto estava Ayato Watanabe.
—O senhor é da família? Apenas familiares podem visita-lo por enquanto senhor.
—Thanks god no, me diz em qual quarto ele está, preciso tratar de algo importante com ele.
—Lamento, mas como eu disse senhor, só familiares podem...
—Coloque na conta da UA. –Seu olhar sério faz a atendente relutar, ao ouvir o nome da mais famosa escola de heróis, várias pessoas ao redor o encaram e cochicham umas com as outras, finalmente o reconheceram.
—M-Me desculpe, você é Present Mic, não é? Ayato Watanabe está no quarto 111.
—Obrigado.
Ele dá alguns passos, sente os olhares fixos em suas costas, espera ter certeza que ninguém mais o está observando e finalmente consegue abrir o grande sorriso que tentara esconder. Um puro e simples sorriso sádico de quem sabe perfeitamente o que pretende.
Quando finalmente se vê de frente a porta marcada com o número 111, Mic aperta firmemente a maçaneta, mas antes de girá-la, seu sorriso desmancha. O que estava pensando? Quando foi que se esqueceu o que é ser um herói? Pois definitivamente os pensamentos que tinha até o momento para fazer com aquele homem não eram dignos de algo mais que um vilão.
Sem um plano em mente, ele abre a porta.
Deitado em meio a várias máquinas que apitavam e tinham mostradores estranhos aos olhos do loiro, estava o maldito que se lembrava de ter estudado na mesma classe, mas não conseguia ver seu rosto escondido por debaixo de várias camadas de curativos. Seus ambos os braços estavam engessados e ele tinha dois tubos de grossuras diferente na boca e presos com algo parecido com fita. A única característica que o deixava minimamente reconhecível eram os fios loiros que escapavam por entre as bandagens.
Mic não se assusta, muito menos se emociona minimamente com o estado do outro, pois muito provavelmente se fosse ele no lugar de All Might teria feito algo bem pior. Mas de nada adiantava ter ido ali se o maldito continuava em coma, não teria como fazer-lhe perguntas, como gritar com ele, como socar sua cara. O loiro crispa os lábios e estala a língua, pelo menos o encontrara, agora só o que precisava fazer é contatar a polícia e tudo estaria feito, ou pelo menos é o que acreditava.
Quando fora à delegacia, sua palavra foi tachada como “nada”. Precisavam mais que de provas, precisavam que a vítima fosse ali contar o que aconteceu, mas não tinha como isso acontecer, o desgraçado e seu parceiro mexeram de tal modo com a mente de Aizawa que este nem ao menos se lembrava de ter sido Ayato, e não ele seu estuprador. Ele logo percebeu, analisando os documentos do outro loiro, e comparando seu nome e linhagem, pôde perceber algo. Watanabe é uma família de longa data na polícia, tanto sua mãe quanto seu avô trabalhavam nesse meio, tendo grande influência. Não seria fácil prender alguém de tal família.
Voltando a si, Mic joga uma almofada com força na parede e se encolhe no sofá.
What the hell can I do?
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Algo que não contara à doutora, fora o fato de que, na realidade, All Might só invadira seu escritório após receber alta. Pelo modo como ficou estupefata com suas descrições nada sutis quanto ao que fizeram no quarto no hospital, não percebera sua pequena mentira.
Logo no dia seguinte Aizawa recebera alta, o loiro o acompanhara até em casa com a desculpa de que o ajudaria a limpar o apartamento. Assim que entraram, um gatinho preto começa a miar sem parar e até começa a escalar a calça do moreno, mas ele o pega no colo fazendo um carinho na sua barriga.
—Vem cá Neko, você deve estar morrendo de fome. –Toshinori abre um sorriso sincero diante a cena fofa que acabara de presenciar, nunca antes tinha visto um sorriso tão descompromissado e acolhedor como o que Aizawa acabara de abrir com o gatinho no colo.
—Enquanto isso eu vou começar a limpar o banheiro! –Afirma em um tom um tanto alto, para que da cozinha o moreno conseguisse ouvi-lo.
Consegue ouvir um “okay” baixo enquanto caminha até a despensa para buscar os materiais que precisaria.
Quando finalmente abre a porta do banheiro, sente seu estômago se revirar ao novamente ter aquela visão. As paredes e o chão do box agora coberto com um sangue seco, um cheiro metálico invade suas narinas em um instante o deixando tonto por um instante. Naquele mesmo local, se ele tivesse demorado mais poucos minutos para chegar, certamente aquele que finalmente percebeu sentir algo mais que uma simples amizade, teria morrido em seus braços.
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