(In) quebrável
17 Capítulo 16
Notas iniciais
—Eu... acho que também te amo. –Com essa fala, um misto de emoções atinge aqueles ali presentes. Um coração é restaurado ao tempo que outro se parte.
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O clima no apartamento de Aizawa não estava em seu melhor estado. O silêncio perturbador durante toda a manhã aflige os homens que não sabiam se deviam ou não tocar no assunto da situação que teriam de lidar dali a poucas horas.
Logo que acorda, o moreno se levanta. Estava muito cedo para precisar se levantar naquele momento, mas tinha plena consciência que não conseguiria voltar a cair no sono. Na sala, encontra o loiro dormindo em seu sofá, graças a grande estatura deste, suas pernas caíam para fora da mobília. Aquela cena era no mínimo cômica, All Might dormia de barriga para cima, com um braço sobre o peito e o outro dependurado para fora do sofá, seus lábios estavam semiabertos, mas ele não roncava.
O moreno se vê tentado a acariciar aqueles fios loiros, ou ajeitar o lençol que o cobria, no entanto, temia que o outro pudesse acordar graças ao seu sono leve. Decide então por deixa-lo dormir enquanto prepara o café. Enquanto o café coa, seus pés se movem sozinhos rumando o banheiro, quase como se seu corpo implorasse por um banho para relaxar.
As gotículas frias maltratavam suas costas antes quentes, mas ao mesmo tempo, levavam para longe quaisquer pensamentos ruins ou rastros de ansiedade que pudesse ter naquele momento. Ele bufa. Sempre julgou a si próprio alguém que lida bem com os próprios sentimentos, muitos até mesmo duvidavam que tivesse emoções. Mas esses últimos dias de fato conseguiram apagar de si qualquer confiança nesse quesito.
Ele encosta a mão na parede também fria, fechando-a lentamente em um punho. Quando se tornou tão covarde? Por que tudo tinha que ser tão complicado? Se ele simplesmente vivesse afastado de todos nada daquilo teria acontecido. Uma risada anasalada inunda o cômodo apertado, que modo de pensar idiota. Começava a se convencer de que voltara a pensar como um adolescente.
Quando volta à sala, é recebido com um sorriso brilhante e um baixo: “bom dia”, Toshinori já estava desperto e com uma caneca de café em mãos. Sob seus olhos, as olheiras pareciam ter diminuído.
—Dia... –Responde sem muito entusiasmo. Adoraria poder se enroscar nos braços do loiro e dormir novamente, mas algo dentro de si o impedia de fazê-lo. Não era exatamente vergonha, mas medo. Medo do que?
As horas passam em um instante silencioso, mesmo que não tenham combinado algo previamente, os dois mantinham o voto de silencio naquela manhã inteira. O outro loiro ainda nem ao menos tinha chegado e o clima já estava tenso ao extremo. De repente um som tira do transe os heróis que se mantinham aconchegados e livres dentro de seus próprios silêncios. Era a campainha, mas antes que, engolindo em seco, o moreno pudesse chegar até a porta, sente uma mão fina se fechar ao redor de seu pulso.
—Aizawa, eu sei que você tá... angustiado, –All Might se censura de usar o termo “com medo” temendo parecer desrespeitoso. –mas não precisa se preocupar, eu vou estar aqui o tempo todo. –Ao final de sua frase, o loiro aparece em sua forma musculosa lançando um “joinha” em sua direção. Aizawa não se impede de abrir um sorriso frente àquilo, a cada momento parecia mais difícil não se apaixonar pelo herói número um.
—Obrigado, Toshinori. –Responde em um sussurro, já voltando a caminhar até a porta. Sua mão estaca no caminho até a maçaneta, seu dedos se encolhem até a mão se tornar um punho.
Observando aquela cena, All Might não tinha como saber o que se passava na mente do outro, mas de alguma forma, achava corajosa a forma como não pediu que abrisse a porta, ele mesmo foi até lá, dessa forma, ele próprio seria o primeiro a ver aquele que tanto temeu nos últimos dias.
A campainha soa novamente, com esse estímulo, Aizawa respira fundo e o mais rápido que conseguia, abre a porta por completo. Naquele momento, pensou que veria um loiro envergonhado do outro lado, talvez com o dedo no meio do caminho para tocar a campainha de novo (uma das várias manias irritantes de Mic), mas não é isso o que acontece. Assim que a porta é aberta, o moreno é surpreendido por um abraço apertado, do tipo que só se dá a alguém muito querido que há muito não se veem. Esse não era exatamente o caso aos olhos do moreno, mas não questiona, não apenas por questionamentos quase nunca funcionarem com Hizashi, mas por estar muito ocupado preso em seu choque.
Esse é o verdadeiro Yamada. Esse é o verdadeiro Yamada. Esse é o verdadeiro Yamada. Esse é o verdadeiro Yamada... —Aizawa repete aquelas palavras internamente repetidas vezes, ter aquela pessoa o tocando de novo, era no mínimo assustador, mas aquele toque, em nada poderia ser comparado aos daquela noite.
—Shouta! I was so sad without you! –O loiro esfregava sua bochecha no rosto e ombro do moreno, que completamente conquistado por aquele momento, corresponde o abraço um tanto receoso. Começava a se acostumar novamente a ele, sabia que não devia teme-lo.
Como eu poderia te confundir com aquela cópia fajuta?
—Quanto tempo, Yamada. –Ele responde com um afago nos fios loiros.
Aizawa não tinha sido o único surpreendido pelo alegre loiro que chegara, Yagi também arregala os olhos pela ação repentina, mas aquilo que mais o surpreende foram dois fatores distintos: Primeiro que daquela forma perto de Aizawa, Mic estava completamente diferente de quando o encontrou no hospital ou em seu apartamento. A expressão de felicidade genuína em seu rosto era tamanha que o fazia querer sorrir junto, na verdade, agora que pensava nisso, não saberia dizer qual seria a verdadeira faceta de Hizashi; uma pessoa sempre alegre e escandalosa como agora, ou alguém sério e frio como quando lidava consigo?
E segundo: Aizawa também sorria e o abraçava, como se há segundos atrás não estivesse receoso de ao menos encostar na maçaneta, em primeira instância parecia um tanto assustado com a ação repentina, passou pela mente de All Might naquele momento se deveria afastá-los, mas em pouquíssimo tempo, o moreno pareceu se adaptar. De fato Present Mic parecia exalar uma aura mágica que alegra o moreno, mesmo esse afirmando que ele apenas o irrita, afinal, em questão de segundos, sem fazer nada mais que aparecer, foi capaz de apaziguar o clima tenso que se instaurara a manhã inteira naquele apartamento.
—Olá, Hizashi-kun.
—Oi oi Toshinori-san! Hum... Eraser, você emagreceu, se deixar de comer bem eu vou continuar mais forte que você! –Obviamente aquilo não era exatamente verdade, de fato o loiro tinha mais força bruta, mas nunca ganharia uma luta de verdade.
—Como se você fosse...! –Nesse momento, a contragosto do moreno, Mic abraça sua cintura e o levanta sem muita dificuldade. –Eu vou te matar Mic, me põe no chão.
—Olha só! Tá muito mais magro! –Ele gargalha, o som de sua voz ecoa dentro dos ouvidos daqueles que o ouviam. Aizawa dá um soco, não muito forte, nas costelas do loiro, apenas para que o largasse. Ele o faz, abraçando o próprio tronco para aliviar a dor. –I was just playing! –Reclama com um biquinho nos lábios.
Enquanto Aizawa reclamava algo sobre o quanto o outro é irritante e sabe que odeia tais brincadeiras, Hizashi apenas ria da irritação do mais baixo. Frente a isso tudo, All Might não conseguia deixar de se sentir um intruso. Ele fecha a mão em punhos. Pensava que aquilo seria doloroso para Shouta, então por que era ele quem estava se machucando? Sabia perfeitamente, de novo pensava o quanto os dois pareciam se completar, conheciam um ao outro tão bem... Hizashi até mesmo percebeu que o outro perdera massa muscular naqueles dias que comeu mal e não se exercitou, mas foram muito poucos dias, como ele poderia ter notado diferença?
—Bem, vamos falar sério agora? –É Aizawa quem quebra completamente o clima agradável. –Temos muita coisa pra conversar em teoria, mas... eu realmente não sei por onde começar. –Ele se encosta na parede, por algum motivo, não queria que conversassem sentados, de pé tinha uma maior visão do comportamentos de todos, de forma que saberia perfeitamente se estivessem sendo sinceros ou não. O moreno respira fundo antes de continuar a falar. –Me desculpa por tudo. Tudo mesmo, eu fui... fui um péssimo amigo, na verdade não só um péssimo amigo, fui uma péssima pessoa com você. Lidei como um adolescente com assuntos que deveriam ser lidados com maior maturidade. Então, espero que você consiga me perdoar.
De novo um abraço, mas dessa vez, além do loiro esfregar sua bochecha em seu rosto, também soluçava enquanto lágrimas escorriam. Para aquele que imaginou que o encontro seria tenso e assustador, aquilo fora um alívio. Olhando de perto, realmente não havia nada que assemelhasse esse homem que agora chora abraçado consigo, e aquele maldito que o maltratara, ele, mais que todo mundo, devia saber disso. Esse, que agora pedia repetidas desculpas, certamente é aquele que fora ao bar consigo no primeiro dia de férias.
—Ah! Eu também tenho uma coisa muito importante pra falar. Procurei por aquele cara e achei o hospital que está internado. Tentei contatar a polícia, contar o que aconteceu, mas mesmo sendo um herói profissional, se negaram a me ouvir. Descobri também que Watanabe é uma família com três gerações no alto comando da polícia, vai ser difícil ir contra esses caras. –Nesse momento, as mãos do moreno começam a tremer, isso não passa despercebido por nenhum dos loiros, observando sua expressão, diriam que era de raiva, seus olhos exalavam uma chama fuzilante, porém, para eles que o conhecem bem, sabiam que ele reprimia um medo até mesmo de se lembrar daquilo, e ajudar na investigação seria exatamente isso. –Eu realmente não queria ter de falar sobre isso agora mas... quanto mais a gente adia, será mais complicado de fazê-lo no futuro.
—N-não tem problema nenhum. –Aizawa morde a língua, não podia crer que tinha gaguejado. Uma mão é posta sobre seu ombro, sabia que era de All Might, se agradecia pelo loiro se manter ali, mesmo vendo que a situação estava agradável entre ele e o outro loiro. –De qualquer forma, conta pra mim tudo que descobriu.
Hizashi conta em todos os detalhes o que passara os últimos dias investigando, desde sua ida aos antigos arquivos da UA para procurar o nome dos alunos que estudaram consigo, até ser interrompido pelo moreno quando afirma que não se sabe onde está o ajudante de Watanabe.
—Ele era só um garoto, devia ter acabado de se formar, provavelmente só estava sendo influenciado por Ayato a fazer o que queria, já que ele nem ao menos tocou em mim ou na garota. –Nesse momento eles reparam algo. A garota. Aquela jovem que Aizawa salvou poderia ser uma testemunha.
—Como a gente vai saber onde ela mora?! –Se pergunta Hizashi.
—O uniforme que ela usava parecia ser da Sekigahara. –Afirma Aizawa tentando se lembrar de algo mais da garota. –Aparentava ser do primeiro colegial... talvez segundo. –Não era fácil lembrar-se de algo característico de uma estudante comum à noite quando precisava se preocupar com um brutamonte.
—Ah, eu encontrei ela na loja de conveniência ali perto e batemos um papo rápido enquanto esperava a polícia ir busca-la.
—O quê?! Você não me contou isso. –Indaga o moreno.
—Não pareceu ter necessidade de contar até agora... Se nós formos até a unidade de polícia daquela área, podemos encontrar quem levou ela até em casa e descobrir onde mora. –Mic e Aizawa suspiram aliviados.
—Então finalmente as coisas estão se resolvendo. –Não tinha se passado tanto tempo assim, mas na mente desses três que por longos dias tiveram que lidar com todo tipo de problema e angustia, cada hora assemelhava-se a um dia inteiro.
Tudo parecia estar se resolvendo com certa facilidade, nesse mesmo dia poderiam tentar descobrir aonde mora a garota, e com sorte, logo no dia seguinte poderiam dar início à investigação da polícia. Mas obviamente, as coisas nunca dão certo por muito tempo, Aizawa se dá conta disso quando, após alguns segundos com os três em silêncio, presos em seus próprios pensamentos, Mic se pronuncia:
—Eu... acho que também te amo. –Com essa fala, um misto de emoções atinge aqueles ali presentes. Um coração é restaurado ao tempo que outro se parte.
—O quê? –É só o que Aizawa consegue proferir, aquelas palavras não tem qualquer efeito sobre si, pois ele de fato não entende o que diabos aquilo deveria significar.
Enquanto isso, na sua diagonal atrás, All Might arregala os olhos, aquilo não podia realmente estar acontecendo. Queria sair dali, desaparecer, fingir que nada daquilo aconteceu. Ele volta a sua forma magricela, como solta vapor quando isso acontece, acaba atraindo para si por alguns instantes a atenção dos dois ali, mas sua expressão, estava o mais neutra possível, de forma que não percebem o misto de pensamentos em sua mente. Provavelmente se aquela fosse uma situação normal, Aizawa perceberia os sentimentos do loiro naquele momento, mas sua mente também estava tomada por outro pensamento, tentava de todas as formas entender o que Mic lhe disse.
O ama?
Como assim o ama?
Ele não o vê como um irmão?
—Como assim “o quê”? Don’t make me explain this, é constrangedor... –Ele desvia o olhar para o chão. –E-eu percebi que não conseguia viver direito só porque você não confiava em mim. Eu queria poder te abraçar e dizer que estava tudo bem, mas tinha medo de me aproximar e você me rejeitar que nem aquele dia. –Ele se refere à vez que, mesmo contra o que All Might disse, fora no apartamento do outro loiro e Aizawa acabara o vendo. –Então é isso, eu... –Finalmente reergue o olhar. – acho que te amo.
Em branco é como fica a cabeça do moreno diante àquilo, não sabia o que responder, e acaba por fim nem ao menos precisando. Assim que Hizashi termina seu pequeno discurso, um par de braços envolvem Aizawa por completo de forma possessiva. Ele vira o rosto um pouco para trás para ver a feição de Toshinori, consegue distinguir um misto grande de emoções ali, mas os mais visíveis eram medo e uma falsa raiva. O dono dos olhos azuis encara os olhos verdes fixamente enquanto aperta ainda mais o corpo do moreno em seus braços.
Se fosse perguntar a Toshinori o que ele pensava naquele momento, nem mesmo ele saberia responder. Todo seu corpo agiu como geralmente age um bom herói: por instinto. Seu instinto o mandava segurá-lo. Temia que se não tivesse qualquer atitude, o outro poderia leva-lo para longe de si, onde nunca mais poderia abraça-lo daquela maneira. Não podia permitir isso.
—Como pode ver eu já estou namorando com Toshinori.
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