Notas iniciais
Oi oi!!!! Sei que demorei bastante gente... esse final de ano é sempre complicado pra mim, milhares de trabalhos que tinha pra fazer, provas ainda essa semana, acabei não tendo muito tempo para postar. MAAASSSS o próximo está quase pronto já!! :D

A lâmina já estava pingando com o líquido quente. Em um instante, todo o box se tornou vermelho, ele sentia suas mãos ficarem frias com o passar dos segundos, estava perdendo sangue muito rápido e era justamente isso o que queria. O sorriso deixava seus lábios apenas quando fazia mais um novo corte no pulso já cheio deles; em todas as direções, até mesmo soltando um grunhido de dor. Mas logo a dor passava, e só o que o embargava era a sensação feliz de que tudo logo terminaria.

De repente, quando sua consciência já estava perto de se esvair, ele ouve o som irritante de unhadas na porta do banheiro sendo seguido por miados. De alguma forma ele percebe que, pelo menos alguma coisa ficaria mal por nunca mais o ver.

Claro que não. —Ele desvia desse pensamento, aquele pequeno felino de poucos meses nem ao menos teve tempo de criar um laço consigo. De fato não havia nada nem ninguém que se importaria por mais de poucas horas, afinal, todos temos que seguir adiante.

Mais um corte, mais uma expressão de dor, mais um grunhido, mais uma lágrima; ele nem ao menos tinha percebido as lágrimas silenciosas que escorriam de seus olhos entre abertos. Outro miado o chama a atenção, estava ainda mais alto que os outros, e Neko parecia tentar cavar o vão entre a porta e o piso, de modo que conseguisse entrar. O gatinho que ele salvara da chuva estava ali, tentando salvá-lo da mesma forma naquele momento, mas não tinha nada que ele pudesse fazer para mudar o que aconteceria.

Ele sente a cabeça pesar e seus olhos embasarem, o frio invadia sem piedade cada célula de seu corpo, nesse momento, suas mãos e pés pareciam congelar pela falta de sangue. Ao longe ele consegue ouvir alguém chamar seu nome, não sabia quem devia ser, tampouco de importava com isso, não teria tempo de dizer suas últimas palavras a alguém mesmo, tinha apenas ele próprio ali para ouvi-lo.

—O que eu tô fazendo? –Ele não tinha planejado suas últimas palavras, assim como não tinha planejado acabar com tudo há mais de dez minutos. Ele era um herói, levava esperança às pessoas que precisassem de si, devia ajudar a todos que precisassem. Então o que estava fazendo ali no chão ensanguentado daquele box apertado? Novas lágrimas escapam de seus olhos, não podia acreditar no quanto tinha sido idiota. Desde que percebera que aquele era seu sonho, se tornar herói e ajudar a todos, soube que não viveria para si próprio, tinha pleno conhecimento que o mundo não é e nunca fora as mil maravilhas, mas mesmo assim, precisava continuar.

A última coisa que Aizawa vislumbra antes de cair inerte em seu mar de inconsciência, é um brutamontes derrubar sua porta e encará-lo com os olhos arregalados, seus lábios abriam e fechavam, de forma que conseguia distinguir o que dizia: “Aizawa! Aizawa!”. E finalmente, cai no sono.

All Might já tivera algumas decepções e arrependimentos em sua vida como todo indivíduo normal. Mas nunca um tão grave quanto o daquele instante. Quando ouve o celular tocar ao seu lado, e vê na tela a quem pertencia a ligação, sente seu coração acelerar rapidamente, algo tinha acontecido ou estava prestes a acontecer.

Logo que a ligação é desligada, Toshinori nem ao menos se dá o trabalho de mudar as vestes que trajava ou de pegar as chaves, simplesmente assume sua forma heroica e pula pela janela mais próxima. Saltando pelos prédios próximos, indo o mais rápido possível para onde sabia ser o apartamento do moreno.

Nas ruas sob si, ouvia as pessoas aplaudirem, até mesmo gritinhos de fãs era ouvido, todos sabiam que o apressado símbolo da paz estava indo salvar alguém em perigo. Eles apenas não imaginavam que se tratava de outro herói, um herói que muitos deles nem ao menos sabiam da existência.

O apartamento não estava trancado, o loiro estranha isso, ainda mais pelo fato do moreno ser sempre tão cuidadoso. Desse modo, ele adentra o apartamento silencioso. Os móveis estavam postos de forma arrumada, não parecia haver nada de errado.

—Aizawa? –Ele chama enquanto caminha até a cozinha. Logo na porta ele estaca, encara com os olhos arregalados o chão e o puxador de uma das gavetas, sangue os manchava. No chão, várias gotas avermelhadas coloriam o azulejo claro; enquanto na gaveta, parecia que uma mão coberta de sangue a tivesse aberto recentemente. All Might não as investiga, só o que precisava naquele momento, e agora mais ainda, era encontrar o outro.

—Aizawa?! –Ele grita. No quarto, encontra cacos de vidro alaranjados e já rastros de sangue que levavam até o banheiro. Toshinori bate na porta desesperado e tenta abri-la enquanto chamava o moreno, a porta estava trancada, no entanto, uma simples superfície de madeira não era nada para o detentor do One for All.

Com apenas um golpe de ombro, a porta se escancara. Os olhos azuis, geralmente obscurecidos por seu sorriso naquela forma, se tornam visíveis, seu sorriso que exala esperança, que até o momento mantivera, simplesmente some de seus lábios. Aquilo não podia estar acontecendo, ele não podia ter, de novo, uma terceira vez, chegado tarde de mais para salvar o moreno.

Ele corre desesperado até o box, o abrindo rapidamente. Com as mãos, ele captura o rosto pálido de Aizawa, seus olhos estavam opacos, mas ele ainda respirava, ainda estava vivo, porém, não por muito tempo. Aquela imensidão rubra, lembra por um instante as várias pessoas que ele já não conseguira salvar; os vários indivíduos que por mais que tentasse, presenciara a vida se esvair de seus corpos bem na sua frente, sem que pudesse fazer nada mais que rezar por suas almas.

—Aizawa! Aizawa! Fica comigo, está tudo certo... –Ele segura o pulso esquerdo do outro, o sangue continuava escorrendo, deixando-o cada vez mais fraco. All Might sabia que muito provavelmente, Eraser não mais o ouvia, até mesmo seus olhos quase não reagiam mais a estímulos. –Eu estou aqui. –Nesse ponto, nem mesmo ele acreditava nessa frase, porém, após tantos anos repetindo-a aos céus, acabara se tornando um lema particular que por mais que tentasse, não deixava de repetir.

Com uma toalha azulada que Toshinori nem percebe de onde tirou, estaca o sangue, amarrando-a firmemente sob o pulso alheio. Com cuidado, mas ainda com pressa, o loiro, pega o moreno nos braços, não se importando com aquele sangue todo que certamente mancharia seu pijama novo. Sabia que chamar uma ambulância demoraria mais do que leva-lo direto ao pronto-socorro, e é justamente por isso que ele opta.

Já perdera tantos aliados nesse tempo que se tornara herói; tantos amigos; tantos parceiros, ele não queria perder outro. Amigo? Era mesmo dessa forma que via o moreno ensanguentado que agora carregava nos braços? Não sabia mais dizer com certeza. Não podia negar a atração que tinha pelo corpo do outro, mas era simplesmente isso que sentia? Atração? Sua mente não deixava por um momento sequer de pensar no quanto queria protege-lo, aninhá-lo em seu colo a noite toda para que pudesse dormir tranquilo.

Mas tudo isso se passa por sua mente apenas depois que chega ao hospital, deixa os médicos levarem o moreno para uma transfusão de sangue e se vê praticamente solitário na sala de espera. Pois antes disso tudo, deixar Aizawa vivo era, obviamente, a prioridade.

Ele encara suas mãos esqueléticas. Quantas outras pessoas deviam estar naquele mesmo momento do jeito que Shouta estava? Sangrando, sozinho, sem esperança, precisando de alguém, mas que ele não tinha como salvar.

Quantas pessoas sangrando e que acabaram morrendo não terminaram em suas mãos e ele agora nem ao menos lembrava os rostos, muito menos os nomes. Inúmeros. Como poderia se considerar algo como um herói desse jeito?

De repente, ele sente seu bolso tremer. Alguém o enviara uma mensagem.

Hizashi Yamada (13:21): All Might-san, você está com o Aizawa? Sinto que tem alguma coisa errada com ele.

Toshinori respira fundo, não queria ter de conversar com o outro loiro depois da discussão que tiveram, onde o expulso com um empurrão de sua casa.

Eu (13:21): Eu o trouxe ao Sendai Kousei Hospital. A “coisa errada” já aconteceu, ele ainda está desacordado, mas não corre mais riscos.

Ao ler a resposta de Hizashi, All Might quase esmaga o celular, provavelmente apenas não o fizera por estar em sua forma normal.

Hizashi Yamada (13:22): Sabia que algo de ruim tinha acontecido... Eu tô indo praí.

Mas antes que pudesse responder algo muito provavelmente grosseiro, outra mensagem chega.

Hizashi Yamada (13:22): Não se preocupe, não vou ver ele, só quero conversar com você.

All Might não responde mais. Não se importava com o que o outro loiro fosse fazer, contanto que não piorasse ainda mais o estado daquele que, Toshinori ainda se perguntava o que sentia.

O passar dos minutos, não o ajudava a chegar a qualquer conclusão. Talvez de fato estivesse se apaixonando pelo colega de trabalho, talvez realmente fosse apenas atração; mas qualquer que fosse o sentimento que começava a nutrir, All Might não conseguia deixar de se sentir grotesco. Como fora começar a ter de repente esses pensamentos por aquele que tanto precisava de si nesse instante, não como uma figura sexual, mas sim de cuidado. E é exatamente isso que ele seria, uma figura cuidadosa que o ajudaria a superar o que aconteceu.

Não saberia precisar por quanto tempo ficara perdido em pensamentos, não chutaria que não foi muito, pois de repente senta ao seu lado a figura loira de olhos esverdeados da mesma forma despreocupada de sempre, os braços cruzados atrás da cabeça e as pernas cruzadas. Toshinori não pronuncia uma palavra sequer, não iniciaria uma conversa com aquele que ainda não sabe muito bem o que fizera para Aizawa nunca mais querer vê-lo.

—Oi. –Ele não recebe resposta. –O que aconteceu com ele? –Toshinori suspira.

—Por que não me diz primeiro direitinho, palavra por palavra, o que aconteceu antes? –Mesmo sem explicar especificamente, Mic sabia a que o outro se referia.

—Eu não queria ter que dizer isso, sabe? Aizawa com certeza vai ficar puto comigo por eu ter contado. Assim que ele voltar a falar comigo, no caso... Então, no dia que a gente saiu para beber junto, nós tínhamos saído porque eu disse ter algo importante a dizer pra ele. –Toda a atenção do loiro mais alto era voltado ao que o outro dizia, de alguma forma, tinha alguma noção de aonde ele chegaria. –Acabou que esquecemos isso e só bebemos a noite toda e fomos a casa dele dormir. No outro dia eu falei o que tinha de tão importante para contar, falei que sou... sou bissexual. –Yamada não podia acreditar que a segunda pessoa a quem contava seu segredo, era All Might. O outro loiro não tem qualquer reação frente a essa revelação, apenas fazendo-o continuar. –Ele ficou me encarando, esperando o que mais eu tinha a dizer, mas era só isso, nós dois ficamos irritados um com o outro, eu pois queria alguma reação do tipo: “Nossa que legal, parceiro!” ou sei lá, e ele porque... bem, porque ele esperou que fosse algo a mais. Ele esperou que eu dissesse ser apaixonado por ele, e foi justamente isso que ele confessou sentir por mim poucos segundos depois. Eu, bem, eu não sabia como reagir, nunca tinha visto ele dessa forma...

Nesse instante finalmente a fisionomia de Toshinori muda, Mic estava muito entretido contando sua história para reparar perfeitamente, mas dentro do peito do detentor do One for All, surge tristeza. Já esperava por isso, mas não queria que fosse verdade, então Aizawa era realmente apaixonado pelo outro loiro. Por que diabos sentira essa decepção? Isso apenas engrandece ainda mais os pensamentos que estava tendo há poucos instantes.

—Entende? Aí ele saiu e ficou o dia todo fora. Foi isso o que aconteceu.

De novo essa história não fazia sentido, mas o outro estava sério em demasia para estar mentindo, nem ao menos sua mania exagerada de falar palavras em inglês no meio das frases apareceu.

—Desculpa Yamada, mas eu não vejo sentido nisso. Por que ele ficaria assim com você só por causa disso? Ele teve uma crise de ansiedade depois que te expulsei ontem.

—Ontem eu não consegui ir para casa. –Apenas então Toshinori percebe as fundas olheiras que marcam os olhos esverdeados do outro. –Fiquei a noite toda acordado procurando em lugares que frequentei junto com Aizawa no passado, pessoas chamadas Ayato. Logo me lembrei, na nossa turma do primeiro ano da UA, tinha um garoto chamado Ayato Watanabe ou algo assim. Fui à delegacia ver se ele já tinha passagem. E tinha, procurado há alguns meses por casos isolados de estupros a mulheres e homens, junto com um companheiro que tem individualidade de criar ilusões.

Os olhos azuis se arregalam, agora muita coisa fazia sentido, esse era o tal Ayato que Aizawa tinha citado, o outro podia ter prendido o moreno em uma ilusão onde fez parecer que foi Hizashi o desgraçado que o estuprou.

—Entendeu agora o motivo para ele não querer me ver? –All Might assente com a cabeça, precisava se desculpar por ter suspeitado do outro que nunca se mostrara ser uma pessoa ruim. –Ótimo, agora eu preciso ir. Ainda preciso achar esse desgraçado Watanabe. Cuide dele enquanto isso, okay? É uma pena eu não poder vê-lo por enquanto, mas não sei o que faria sem esse chato. –Ele se levanta da cadeira e ruma a saída. –Adeus, All Might-san.

Ele não sabia se deveria agradecer pelo que estava fazendo, ficar triste pelo fato de ele parecer também nutrir sentimentos pelo moreno, ou simplesmente dizer adeus. Mas ele não tem tempo de fazer nada disso antes do outro loiro de aparência exausta sumir de sua vista. All Might não tinha se dado conta do quanto aquilo poderia ter afetado Present Mic, que de uma hora pra outra se tornou o maior medo de seu melhor amigo.

Isso fica em sua mente insistentemente, não apenas isso, mas vários outros pensamentos conflitantes o deixam ocupado por várias horas. Voltava a si apenas nos momentos que algum enfermeiro o oferecia uma refeição, que era prontamente aceita.

Já era fim de tarde quando os médicos concordam que ele poderia entrar para ver o paciente. A ansiedade toma conta de si, queria vê-lo ao mesmo tempo em que não sabia como encará-lo. Não sabia como encarar a pessoa que novamente falhou em proteger. Certamente se fosse Mic em seu lugar saberia o que fazer, saberia como fazer o outro rir naquele momento, saberia exatamente o que dizer para quebrar o gelo. Novamente aquela tristeza aperta seu coração, mas ele tenta ao máximo ignorá-la, precisava ver o moreno naquele momento.

Finalmente abre a porta e vê, sentado na superfície macia, a imagem de um moreno cabisbaixo. Seus olhos estavam focados em seu pulso enfaixado, como se recordasse o que fizera. Aizawa se destacava naquela visão predominantemente clara, seus cabelos negros, assim como seus olhos, se destacando em meio àquela imensidão bicolor de branco e azul-claro.

—Oi. –É só o que tem coragem de dizer para chamar a atenção daquele sentado à sua frente. Sua expressão muda para várias em um espaço muito curto de tempo, a melancolia se torna surpresa, logo arrependimento para enfim, terminar em um belo sorriso de canto, porém, verdadeiro.

—Oi.

Notas finais
Hello hello! O que acharam? Feedbacks sempre muito bem aceitos. De novo perdão pela demora, eu também estava numa crise de falta de criatividade tensa, então né aushaushuas mas agora tá tudo bem de novo.