In Your World
18 Capitulo Dezoito
Notas iniciais
Capitulo Dezoito
O grande dia chegou.
O juízo final, o trágico dia em que eu tinha que fingir que concordasse com tudo pela felicidade da minha família. Tudo bem, eu conseguia aceitar toda essa historia absurda e estranha entre minha mãe e o peixeiro, afinal o Vincent conseguiu vir por mim, então eu podia superar tudo isso.
É, ele veio.
Parecia até mentira que o medroso Vincent Augustini estava ali numa festa no subúrbio mesmo sem conhecer ninguém além de mim. Eu? Eu estava orgulhosa, era esse tipo de prova que eu estava procurando para enfrentar todos os obstáculos desse relacionamento confuso entre a gente.
Ele estava apavorado, eram tantas pessoas num lugar só, porém acho que o fato do noivo usar uma lata de sardinha para chamar a maldita gata no altar o fez esquecer um pouco as pessoas.
— Qual é o problema dele? — Perguntou minha irmã mais nova olhando para o meu acompanhante encolhido num canto um tanto espantado com o bolo cor de rosa em formato de golfinho. Sério, esse casamento está uma loucura e não é no bom sentido.
— Mamãe casou de rosa choque com um vestido da Barbie, então eu tenho todo direito de namorar um doido. — Retruquei empinando o nariz a fazendo rir.
— Você que sabe... Pelos menos esse é homem? — Questionou a maldita debochada, dei um leve tapa nos ombros dela.
— É sim, eu já conferi. — Acenei com a cabeça. — E agora deixa eu ir lá nele antes que vomite nos convidados e convenhamos que de esquisitice esse casamento já deu o tinha que dar, não precisamos de mais isso. — Ela arregalou os olhos e depois gargalhou concordando. Corri até o Vincent dando um beijo na sua bochecha. — Como está? Aguenta mais um pouco? — Ele me fitou pigarreando um pouco, sei o que aquele olhar medroso queria dizer... Significava que queria MUITO ir, mas não iria dizer isso se fosse me contrariar. — Entendi, agorinha nos vamos, deixa eles fazerem o discurso e já damos o fora. — O tranquilizei massageando seus ombros e por fim segurando uma de suas mãos. — ...Admita, sua família não parece tão ruim nesse momento, não é? — Brinquei o fazendo mostrar um sorriso nos lábios ainda com os olhos no bolo rosa em formato de golfinho.
— Não-não sei não, pelo menos os noivos estão vestidos. — Dei uma risadinha escondida em seu ombro. — Embora isso aqui está parecendo mais uma festa de debutante do que um casamento em si, sua mãe teve uma infância difícil, não é? — Pisquei sem resposta.
— É, acho que ela não brincou de Barbie o suficiente. — Me virei para ele. — Mas quer saber? Até que esa coisa de nudismo não é TÃO extravagante assim depois que se acostuma. — Disse pensando alto e ele me encarou assustado. — Não ficaria nem um pouco chocada se estivessem nus, talvez enojada, mas infelizmente dos noivos não teria nenhuma novidade. — Já vi eles pelados uma vez numa posição do Kama sutra, então não ficaria tão horrorizada assim. — No fim são só corpos, o que muda é a associação que fazemos a eles, não acha? — Ele sorriu torto afirmando.
— Faz sentido, minha visão sobre você nem se quer precisa que esteja despida... — Sussurrou no meu ouvido e me fazendo corar.
— Engraçado dizer isso, por que eu penso o mesmo em relação a sua pessoa... — Retruquei envolvendo ele num abraço.
— Tem certeza que temos que esperar esse discurso? — Perguntou com as mãos na minha cintura.
— Se quiser dormir comigo... Sim. — Rosnou fazendo uma careta não gostando.
É, não tinha nada mais que eu pudesse fazer... Minha família formou outra família que eu não estava bem inclusa, pelo menos era assim que eu sentia. Bom, eu sou adulta e está mais do que na hora de seguir meu rumo como elas estão fazendo.
Pelo menos estão felizes e isso é o que realmente importa.
Já estávamos voltando para a casa do Vincent quando passamos por aquela rua que eu conhecia tão bem e não resisti, tive que parar na frente daquela casa que passei meus piores e melhores momentos da minha vida.
Estava na hora de me despedir.
Desci e fiquei um tempo ali observando e com a mente no passado. Eram tantas lembranças que era difícil do nada me desvincular daqui.
— Me conforta saber que está em boas mãos... — Comentei quando Vincent saiu do carro e ficou do meu lado.
— Tenho certeza que sim. — Ele soltou um suspiro olhando para ali. — Mas pensa só: Esta casa tem um banheiro, três quartos minúsculos, nenhuma garagem ou quintal e sem contar que o bairro não é dos mais seguros... — Franzi o cenho confusa com aquele comentário. O encarei. — Por outro lado minha casa é grande, quatro quartos enormes, duas suítes, tenho sótão e porão, área de serviço, uma garagem gigante, um quintal onde podemos fazer um pomar ou uma piscina, tanto faz e claro não vamos esquecer que não tenho nenhum vizinho chato. — Pisquei os olhos, mas confusa ainda.
— O que é isso? Está tentando me vender uma casa ou o quê? — Negou balançando as mãos.
— Não! Quero dizer que minha casa é bem melhor do que essa. — Sorri incrédula.
— Se isso é para me fazer sentir melhor não deu certo, e devemos lembrar que essa casa foi construída pelo meu pai com todo amor para a família dele, enquanto a sua... Foi construída para fugir do mundo e poder tomar café pelado no jardim. — Ele encolheu os ombros fazendo um bico contrariado.
— Eu não tomo café pelado no jardim... — Rebateu num murmúrio. — ...É na varanda. — Gargalhei acenando que sim e o abraçando pela cintura. — Só estou dizendo que é melhor morarmos lá em casa do que aqui. — Virei o rosto no rumo dele.
— Vamos morar juntos é? — Eu perguntei, só que depois parei para pensar no que ele tinha dito e antes de responder reformulei a questão. — Esperai, como assim morar aqui? — Ele soltou um sorrisinho tímido.
— A opção é sua, mas eu realmente espero que você escolha lá em casa do que aqui. — Nisso tirou uma chave do bolso me mostrando e meu queixo caiu.
— O que...? Você... Ah meu Deus! Você comprou a casa? — Afirmou e depois negou.
— É, pedi ao Marco, mas eu paguei, então, eu comprei. — E colocou a chave na minha mão. — E reafirmo que minha casa é melhor e, por favor, não me obrigue a morar aqui. — Olhei para as chaves da minha mão sem acreditar completamente.
— Por quê fez isso? — Mexeu os ombros.
— A primeiro instante achei que fosse uma boa carta para te convencer a voltar, depois encarei os fatos e conclui que isso não ia dar certo, mas pelo menos eu ia ter algo de você para me confortar, mas agora nesse instante dá para ver que é uma bela forma de comprar seu perdão. — Sorri largo incrédula.
— É, foi o que imaginei, altruísmo não combina com você. — Ainda sim... — Golpe baixo... — Falei comovida a aquele maldito que... É conseguiu muitos pontos comigo.
Fui até a casa destranquei a porta com o coração na mão. Eu tentei tanto proteger essa casa que era difícil crer que agora ela estava nas mãos de alguém que entendia o quanto esse lugar significava para mim.
— Ah Vincent... — O fitei com os olhos úmidos quando entrou vendo o lugar onde cresci vazio. — Não tem ideia do quanto isso é importante para mim... — Limpei as lágrimas na roupa.
— Claro que sei, por isso mesmo eu comprei... — Me virei no rumo dele emocionado.
Diante a minha falta de vocabulário o que deu para fazer foi agarrar aquele infeliz pelo pescoço e tirar todo o seu ar dos pulmões em um beijo demorado.
[...]
Havia muitas coisas a se resolver, minha vida ainda era um quebra-cabeça desmontado com peças espalhados por toda parte, porém eu sentia que a parte central tinha se encaixado. Apesar da insistência do Vincent e do pai dele para eu voltar ao meu antigo cargo eu recusei firmemente, não voltou ao meu posto de secretária ordinária sendo babá do meu namorado nem a pau.
Ao invés disso, consegui um emprego um emprego de auxiliar administrativo num escritório de contabilidade, não era grande coisa, mas enfim, é um começo.
— Eu vou triplicar o seu salário, aumentar suas férias e... E te dar um bônus sempre que fizer hora extra. — Continuei escrevendo ignorando mais uma falha tentativa dele me convencer a voltar a ser sua secretária.
— Não, você tem que se acostumar a outras pessoas, não pode ficar preso a mim para o resto da vida, o James é um bom rapaz, eu já expliquei suas peculiaridades a ele e logo vocês se entendem. — Mordi o canto da boca o ouvindo bufar.
— Não me importa, eu quero você! — Levantei os olhos para ele sorrindo.
— Querer não é poder, além do mais eu estou aqui, você já me tem. — Cruzou os braços fazendo careta.
— Eu não entendo, você gostava de trabalhar comigo, por que não pode voltar? — Suspirei.
— Bom, sim, só que... Ah Vincent eu quero crescer, se eu voltar ao cargo de antes vou mofar sendo sua secretária. — Apontou o dedo para minha cara.
— Representante. — Semicerrei os olhos sorrindo torto.
— Você está bem grandinho para representar a si mesmo. — Puxei minha cadeira para o lado dele animada, ele tinha que entender meus pontos. — Olha só, com o meu salário vou conseguir fazer minha graduação, com a minha graduação vou conseguir um cargo melhor e com isso subir! — Ele franziu o cenho.
— Filosofia? — Neguei animada.
— Não, decidi que quero trabalhar com as pessoas e filosofia não propõem bem isso. — Ele tornou a fazer careta, até por que é o reverso do que ele deseja.
— De qualquer modo, o melhor é trabalhar comigo por que seu novo chefe pode não ser flexível com você como eu. — Sorri negando.
— Pode me dar sua palavra de que será completamente profissional comigo se eu voltar? — Se encolheu entendendo perfeitamente o que eu quis dizer.
— Vou ser... — Falou levantando o rosto. — ...Fora da bolha. — Gargalhei.
— Quem você pagou para... — Parei de falar no mesmo instante que ouvimos um barulho estrondoso de algo chocando contra Deus sabe o que.
Olhei para o Vincent tão assustada quanto ele me encarou. Levantamos apressados e correndo no rumo que o barulho aconteceu e a cena fora da casa era simplesmente pavorosa. Um carro esportivo vermelho tinha entrado no jardim quebrado a maioria dos enfeites e batido contra a laranjeira que não aguentou o impacto e tombou para o outro lado.
Meu coração chega acelerou e até comecei a tremer, segurei no braço do Vincent apavorada sem saber o que fazer no momento e ele me abraçou de lado.
— É o carro da Alexandra. — Murmurou incrédulo e eu levei outro susto.
— Meu Deus! — Soltei ele e fui correndo até o carro que ainda tinha os faróis ligados. — Sasha? — Olhei lá dentro e um grande alivio me tomou ao ver o corpo daquela louca inteiro com a cara enfiada nos air bags. — Hey! Você está bem? — Acho que o susto foi maior que a tragédia em si por que pelo que pude ver lá dentro do carro, não estava tão feio assim. — Vamos ver se conseguimos tirar ela daí... — Falei quando ele se aproximou de mim.
— Mais essa... — Resmungou e junto fomos para o outro lado tentar abrir a porta que estava meio travada.
Demoramos um bom tempo, mas tiramos ela do carro e levamos para um dos quartos de hospedes. Tinha alguns arranhões e um corte na testa por que estava sem cinto na hora da batida, entretanto tirando isso parecia bem. Fora o cheiro de álcool.
— Aqui. — Chegou no quarto me entregando uma caixinha com algodão, álcool e alguns remédios.
— O que será que deu nela? — Peguei um algodão, molhei no álcool e passei levemente na ferida. — Se embriagar e vir aqui? Assim? Do nada? — Ele mexeu os ombros com olhar zangado. — Você não fez nada, não foi? — Negou.
— Claro que não, o que eu poderia fazer? O noivado foi cancelado e fim de papo nunca mais a vi. — Pisquei varias vezes pensando.
— Talvez ela não tenha concordado. — Comentei continuando a limpar a ferida.
— Isso já não é problema meu e muito menos motivo para tentar se matar no meu jardim, tem ideia do quanto vai me custar consertar aquilo? Ela matou a minha laranjeira! — Resmungou por sorte em baixo som. Fechei a cara furiosa.
— Vincent! É isso que te preocupa? Sua laranjeira? — Questionei indignada.
— Claro que não! Mas os anões que ela quebrou dá para comprar outros, só que essa laranjeira ia dar frutos esse ano, DOIS anos esperando e vem essa doida bêbada e mata minha laranjeira. — Rangi os dentes querendo muito dar uns tabefes nele. Como pode existir um ser humano tão egoísta assim?
— Chega. — Falei nervosa. Respirei fundo e o encarei. — Ligou para os pais dela ou sei lá, seu irmão ou seu pai? — Negou com a cabeça.
— Não tenho o número dos pais dela e não vou ligar para o meu irmão. — Coloquei um curativo na ferida na testa dela depois o encarei.
— Por quê? — Ele cruzou os braços como a resposta fosse obvia.
— Ora, vai se sentir responsável por isso, coisa que ele não é. — Deu um longo suspiro. — E meu pai eu já sei o que vai dizer: Não conte ao seu irmão ou a sua mãe. — Me levantei até a altura dele.
— E o que vamos fazer? Temos que avisar alguém. — Ele se encolheu pigarreando.
— Desnecessário, se eu ligar para a policia ela se encrenca, se eu ligar para a ambulância eles ligam para a policia, acho melhor esperar ela acordar e mandar ela procurar um rumo. — O fitei seca.
— Contanto que ninguém apareça aqui você não se importa, não é? — Não respondeu, mas era obvio. Eu só concordei com essa ideia maluca por que ele tinha razão, se ligássemos para a policia e eles descobrissem que ela estava dirigindo embriagada a coisa ia ficar feia para o lado da Sasha. — Certo, vamos por parte. — A cobri com a coberta e apontei para fora do quarto. — O que fazemos com o carro? — Pareceu até que matamos alguém e precisamos limpas as evidencias, eu hein?!
— Acho que conseguimos empurrar ele pelo menos até fora do meu jardim... E da minha laranjeira morta... — Falou a última parte contrariado. Soltei um sorriso incrédulo.
— Eu te compro um saco de laranjas depois, mas, por favor, esquece essa árvore. — Não ele não ia esquecer, mas enfim. — Amanhã vou ligar para um mecânico ou um guincho e digo que você perdeu o controle do carro e bateu. — Ele ficou horrorizado.
— EU? Por que EU? — Sorri largo.
— Primeiro ela é SUA ex-noiva, segundo duvido muito que ela tenha vindo aqui por mim, terceiro caso isso dê problemas maiores não posso perder minha carteira e quarto e não menos importante pode dizer que a culpa é minha, se tiver coragem de falar com o mecânico. — Ele abriu a boca diversas vezes, mas não conseguiu soltar nenhuma palavra para protestar. — É, foi o que pensei.
— Você é tão cruel... — Murmurou.
— Não sou eu que fiquei mais preocupada com uma árvore do que um ser humano. — Fez careta caminhando junto comigo para fora de casa.
É, foi uma noite longa até tirar o carro dali, jogar as garrafas das bebidas fora e tudo mais. Quando fomos dormir já passava das duas da manhã e estávamos mortos de cansado.
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